No Egito, as terras cultiváveis ocupam menos de 5% do território. Esta situação obriga o governo a incentivar, nos últimos anos, os investimentos em zonas desérticas com o objetivo de aumentar as áreas de cultivo e a oferta de produtos agrícolas no mercado interno.
No Egito, o presidente Abdel Fattah al-Sissi lançou na segunda-feira, 18 de maio, um novo projeto agrícola chamado “New Delta”, no governorado de Gizé, conhecido pelo seu clima desértico e precipitações quase inexistentes. Esta iniciativa, apresentada como o maior programa de recuperação de terras do país, visa a longo prazo valorizar cerca de 924.000 hectares localizados na zona oeste do delta do Nilo, transformando-os em terras cultiváveis.
Segundo um comunicado publicado no site do governo, os investimentos já empenhados nesta iniciativa atingem 800 mil milhões de libras egípcias (15,1 mil milhões de dólares), com o apoio do setor privado. Está previsto que a valorização das terras inclua uma rotação de culturas, abrangendo principalmente cereais como milho e trigo, mas também culturas industriais adaptadas às zonas desérticas, como a beterraba açucareira.
“A exploração agrícola é assegurada por empresas privadas com as quais são celebrados acordos sobre as culturas-alvo, em conformidade com a rotação de culturas estabelecida […] Cento e cinquenta empresas estão envolvidas na produção agrícola, sem contar as centenas de empresas de outros setores”, pode ler-se no comunicado.
De acordo com os meios de comunicação locais, a viabilidade deste projeto assenta num importante sistema hidráulico destinado a transportar água tratada para as novas terras agrícolas. As águas residuais do delta ocidental são assim recolhidas, tratadas no complexo de El Hammam e bombeadas ao longo de 170 quilómetros através de uma rede de estações para as zonas desérticas alvo.
Um imperativo face aos desafios da soberania alimentar?
O projeto New Delta não constitui a primeira experiência de valorização agrícola de zonas desérticas no Egito. Insere-se numa estratégia implementada há vários anos. Já em 2024, o governo egípcio afirmava a sua vontade de tornar cultiváveis mais de 1,6 milhões de hectares de terras nas zonas desérticas, através do desenvolvimento de numerosos projetos semelhantes ao New Delta, incluindo os projetos do Sinai, Assuão, Toshka e o New Egyptian Countryside Development Project.
Face à escassez de água doce, a política do governo é investir na reciclagem das águas residuais, na exploração de aquíferos subterrâneos e na irrigação moderna, com o apoio do setor privado, de modo a tornar estas iniciativas viáveis. Esta abordagem integrada ilustra a vontade de transformar o deserto de forma sustentável num motor agrícola, oferecendo simultaneamente empregos e novas oportunidades de investimento.
Com estas diferentes iniciativas, o Cairo procura aumentar a sua área agrícola total, melhorando a base de produção do país. Dados compilados pela FAO indicam, por exemplo, que cerca de 4 milhões de hectares de terras agrícolas estavam cultivados no Egito em 2023, tornando-o o segundo país do Norte de África com menor área dedicada à agricultura, atrás da Líbia (2 milhões de hectares).
O objetivo, através do aumento das superfícies cultivadas, é reduzir progressivamente a dependência das importações de produtos agrícolas que o país é capaz de produzir localmente.
Em África, o Egito destaca-se como o país que mais gasta em importações alimentares. Segundo um relatório da UNCTAD publicado em 2025, o país dos Faraós importou em média cerca de 16,4 mil milhões de dólares em produtos agrícolas e alimentares por ano entre 2021 e 2023. Entre os principais itens da fatura alimentar destacam-se o trigo, os óleos comestíveis e os oleaginosos.
Stéphanas Assocle













Nairobi. Kenya