De 2 a 3 de junho, Accra acolheu a Mesa-redonda sobre o investimento no arroz na África Ocidental. Este encontro, que reuniu atores privados, públicos e parceiros técnicos e financeiros, resultou em vários compromissos com vista a alcançar a autossuficiência neste cereal até 2035. À margem desta reunião, Guangzhe Chen (foto), vice-presidente do departamento “Planeta” do Grupo do Banco Mundial, regressou às ações da instituição financeira para apoiar a agricultura na sub-região e, mais particularmente, a fileira do arroz, que representa cerca de 40% do consumo total de cereais.
O seu departamento concentra-se no ambiente, clima, água, agricultura e gestão sustentável dos recursos naturais. Que lugar ocupa a África na agenda desta divisão?
Guangzhe Chen: Devo recordar que a agricultura é um setor fundamental para a região, que dispõe de um potencial imenso e de ativos consideráveis. O continente concentra uma parte importante das terras aráveis do mundo, mas representa apenas uma fração reduzida da produção agrícola global.
Paralelamente, a insegurança alimentar continua muito elevada, com milhões de pessoas afetadas pela fome na região. Os rendimentos estão muito abaixo do que as terras e os recursos hídricos permitiriam alcançar. No Grupo do Banco Mundial, consideramos que a agricultura está entre os setores com maior potencial de transformação em África.
Mas essa transformação deve ser sustentável. O setor é dominado por pequenos agricultores que dispõem de um ou dois acres de terra. A nossa ambição é ajudá-los a avançar na cadeia de valor para que beneficiem não apenas da produção, mas também do armazenamento, transformação, comercialização e venda.
Para muitas famílias, a agricultura continua a ser sobretudo uma fonte de subsistência, mas deve também tornar-se uma fonte de oportunidades. Queremos que atraia os jovens e se torne um setor no qual eles queiram investir e do qual possam obter rendimento. Daí a importância de uma abordagem integrada, no centro da iniciativa AgriConnect do Grupo do Banco Mundial.
Nesse sentido, quais são as vossas ações para apoiar a agenda do arroz na África Ocidental?
GC: AgriConnect é uma iniciativa institucional do Grupo do Banco Mundial lançada no ano passado. Visa apoiar 300 milhões de pequenos agricultores no mundo, para os ajudar a passar de uma agricultura de subsistência para uma agricultura excedentária até 2030.
Concretamente, colaboramos com as autoridades públicas para identificar necessidades em termos de produtividade e diversificação, partindo das prioridades de cada país.
No caso do arroz na África Ocidental, o objetivo é cobrir toda a cadeia de valor com base em três pilares: infraestruturas de base (incluindo infraestruturas físicas, capital natural e capital humano), enquadramentos de políticas e regulação, e mobilização de capital privado.
O nosso papel é reunir os principais parceiros em torno dos governos: organizações internacionais como o FIDA, fundações como a Fundação Gates, bancos africanos e outras instituições financeiras. Cada país elabora o seu “compacto” nacional, define prioridades, e o Grupo do Banco Mundial presta apoio técnico, financeiro e de coordenação.
Mobilizamos também conhecimento acumulado, inspirando-nos em experiências bem-sucedidas noutros lugares. A produtividade agrícola é, por exemplo, muito mais elevada na Ásia Oriental e em certas zonas da Ásia do Sul do que na África subsaariana.
Essas referências permitem conceber soluções escaláveis: escolha de variedades, reorientação de subsídios para incentivar investimento privado, facilitação do financiamento agrícola e apoio à parte final das cadeias (transformação, armazenamento, redução de perdas, eletrificação rural e ligação às infraestruturas de transporte).
Nem todas as soluções se aplicam da mesma forma em todos os países; tudo depende do ponto de partida de cada um. Mas cada país pode selecionar os instrumentos adequados ao seu contexto.
Na África Ocidental, o arroz é produzido sobretudo por pequenos agricultores. Como garantir que os investimentos beneficiem realmente esses produtores e não apenas grandes empresas?
GC: É uma questão importante no âmbito do AgriConnect. Sabemos que a pequena dimensão das explorações pode dificultar a mecanização. Por isso incentivamos o agrupamento de produtores, através de cooperativas ou outras formas de organização, para partilhar recursos e criar condições para mecanização e irrigação.
Não se trata de alterar a propriedade das terras, mas de permitir que pequenos agricultores acedam a tecnologias modernas ainda pouco difundidas na região. O objetivo é também permitir-lhes beneficiar mais das atividades a jusante, como comercialização, transformação, armazenamento e logística.
Quais são os próximos passos para o AgriConnect após a mesa-redonda sobre o investimento no arroz na África Ocidental, nomeadamente em articulação com a agenda da CEDEAO?
GC: Muitos países estão a elaborar um compacto nacional, que funciona como plano de implementação do AgriConnect. Esses compactos identificam prioridades críticas onde setor público e privado devem avançar em conjunto. Em geral, incluem três blocos principais: infraestruturas, políticas públicas e financiamento. A agenda é comum, mas a implementação adapta-se a cada país.
Para alcançar a autossuficiência em arroz na África Ocidental, quais são os desafios mais urgentes?
GC: Já conhecemos as soluções: técnicas, políticas e financeiras. O verdadeiro desafio não é a falta de soluções, mas sim a coordenação. É necessário reforçar a articulação entre ministérios e entre setores público e privado.
Instituições como a CEDEAO, o Grupo do Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento e outros parceiros têm um papel essencial: criar plataformas de coordenação, apoiar o investimento privado e acompanhar reformas. A próxima etapa exige menos discussões e mais ação concreta no terreno.
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