Sondiale obtém um primeiro apoio dos Estados Unidos para desenvolver em Marrocos uma unidade de polissilício suscetível de abastecer as cadeias industriais americana e europeia. Um avanço estratégico para Rabat, que surge num mercado mundial em contração este ano, mas com perspetivas favoráveis a longo prazo.
A empresa marroquina Sondiale obteve um apoio financeiro de 4,75 milhões de dólares da agência norte-americana International Development Finance Corporation (DFC) para o seu projeto de fábrica de polissilício, um material altamente purificado derivado do silício e utilizado tanto em semicondutores como em painéis solares. Este apoio deverá acompanhar a instalação em Marrocos de uma unidade industrial destinada a fornecer, a prazo, os mercados europeu e americano. A vontade destas duas regiões de reduzir a sua dependência da China, que concentra 90% da produção mundial de polissilício, constitui um trunfo estratégico para a Sondiale, mas a empresa terá de lidar com um mercado internacional relativamente complexo.
O apoio financeiro de Washington permitirá à Sondiale lançar os trabalhos de planeamento e preparação do projeto, indicou a Bloomberg esta semana, citando um responsável da DFC, sem precisar se se trata de um empréstimo ou de uma subvenção. A mesma fonte acrescenta que um empreiteiro americano será responsável pela construção da futura fábrica, que deverá ser capaz de entregar anualmente, a partir do final de 2029, 30 000 toneladas de polissilício, correspondendo a cerca de 1% da produção mundial atual.
Mas, para avançar, a Sondiale — uma filial da GreenPower Morocco — terá de mobilizar cerca de 800 milhões de dólares em fundos próprios e contratos de empréstimo junto de bancos e investidores locais e estrangeiros, segundo o seu diretor-executivo, Tayeb Amegroud. Uma tarefa longe de ser fácil, a julgar pelas análises recentes da OPIS, agência internacional especializada na avaliação dos preços e tendências do mercado solar.
Uma conjuntura complicada para os novos projetos
As análises mais recentes descrevem um mercado pouco dinâmico para os produtores de polissilício instalados fora da China. O Global Polysilicon Marker, referência da OPIS para este segmento, mantém-se em torno dos 18 dólares por quilo desde julho de 2025, depois de ter começado o ano acima dos 20 dólares por quilo. Em julho de 2025, a agência norte-americana mencionou uma procura fraca e volumes de transações limitados, citando dois grandes compradores mundiais que relataram taxas de produção de wafers nas suas instalações do Sudeste Asiático entre apenas 20% e 30%. Na cadeia de valor, os wafers representam a etapa intermédia entre o polissilício e a produção de células fotovoltaicas ou de chips eletrónicos.
Há alguns dias, a OPIS confirmou, num novo relatório, que a atividade comercial no mercado mundial do polissilício «permanece limitada, sem alterações significativas nos fundamentais». Esta situação complica a assinatura de acordos de fornecimento a longo prazo entre vendedores e compradores, uma das condições centrais para financiar fábricas de polissilício. Isto pesou, por exemplo, no calendário do projeto de polissilício de Sohar, em Omã, com uma capacidade de 100 000 toneladas. Previsto para entrar em produção no início de 2025, o projeto foi atrasado porque o financiamento ainda não foi concluído.
Vantagens de Marrocos e perspetivas a longo prazo
Segundo o gabinete de estudos de mercado Future Market Insights, o mercado mundial do polissilício apresenta, no entanto, perspetivas favoráveis a médio e longo prazos. Deverá registar uma taxa de crescimento anual composta de 9,9% ao longo da década, passando de 17,4 mil milhões de dólares em 2025 para 44,7 mil milhões de dólares até 2035. Representando cerca de 14% do mercado em 2025, a procura europeia continua a ser moldada por normas de sustentabilidade e exigências de produção com baixa pegada carbónica.
Neste aspeto, o projeto marroquino destaca-se pela utilização de energia limpa, garantiu Amegroud. A fábrica deverá assegurar 90% das suas necessidades elétricas através de fontes renováveis, graças a um contrato com um operador privado marroquino. Ao posicionar-se para satisfazer a procura da União Europeia, mas também dos Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Malásia, a Sondiale inscreve-se plenamente numa tendência de regionalização da produção, reconhecida pela OPIS.
«O polissilício produzido em novas regiões poderá oferecer opções de abastecimento alternativas aos fabricantes de wafers […] por exemplo, para os produtores europeus que procuram diversificar as suas fontes de aprovisionamento e reduzir a sua dependência de uma única região [a China, neste caso]», explica a agência, citando um interveniente do setor.
Contudo, a OPIS alerta que isto dependerá também de uma forte competência técnica e de um apoio governamental contínuo. Neste sentido, o projeto da Sondiale já beneficia de 100 milhões de dólares do governo marroquino. A empresa indica ainda estar a solicitar até 550 milhões de dólares à DFC, sem, no entanto, avançar qualquer prazo para a mobilização dos fundos.
Emiliano Tossou, Agence Ecofin













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