Com casos confirmados no Uganda, este 17.º surto de Ébola na RDC reacende as preocupações sobre a segurança sanitária regional numa área marcada pela insegurança, deslocações massivas de população e ausência de tratamento aprovado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou quase 12 toneladas de materiais de emergência para apoiar a resposta ao surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC), com apoio aéreo da MONUSCO. Foi o que anunciou a organização na segunda-feira, 18 de maio.
Este destacamento foi acompanhado pela chegada a Bunia de 35 especialistas e primeiros intervenientes da OMS e do Ministério da Saúde congolês, ilustrando a aceleração da mobilização internacional para reforçar rapidamente a assistência vital no terreno.
Esta operação sucede à declaração de “emergência de saúde pública de interesse internacional” (ESPII) feita pela OMS em 17 de maio, devido à propagação do surto da doença pelo vírus Ébola, causada pela estirpe “Bundibugyo”, na RDC e no Uganda.
O epicentro da crise encontra-se na província congolesa de Ituri, onde as autoridades confirmaram oito casos positivos, registaram 246 casos suspeitos e reportaram 80 óbitos suspeitos nas zonas de saúde de Bunia, Rwampara e Mongbwalu até 16 de maio. Dois casos confirmados, incluindo um óbito, também foram detectados em Kampala, Uganda, após deslocações provenientes da RDC, confirmando a propagação transfronteiriça temida pelas autoridades de saúde.
A OMS estima que a dimensão real do surto possa estar largamente subestimada, devido aos numerosos óbitos comunitários suspeitos, casos registados entre profissionais de saúde e à dificuldade em estabelecer as cadeias de transmissão numa região afetada por insegurança crónica e elevada mobilidade humana. A situação é ainda mais preocupante dado que atualmente não existe qualquer vacina ou tratamento aprovado contra a estirpe “Bundibugyo”.
Mobilização continental e resposta reforçada
Perante esta ameaça, os governos congolês e ugandês ativaram os seus dispositivos de emergência sanitária, reforçaram a vigilância epidemiológica, destacaram equipas de resposta rápida e intensificaram campanhas de sensibilização comunitária. Na RDC, as autoridades prometeram atendimento gratuito e isolamento rigoroso dos casos, enquanto no Uganda o governo garantiu que a situação permanecia sob controlo, apesar da maior vigilância nas fronteiras.
O Africa CDC, por sua vez, lançou um alerta continental e reuniu mais de 130 parceiros internacionais para coordenar a resposta, mencionando mesmo uma possível declaração de emergência sanitária continental. O Presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, apelou a uma mobilização reforçada dos Estados-membros para evitar uma propagação regional.
Vários países vizinhos já tomaram medidas preventivas. O Ruanda, por exemplo, reforçou o rastreio e a vigilância nas fronteiras, mobilizou as suas equipas de saúde e consolidou os seus sistemas de monitorização.
Uma zona fragilizada por crises de segurança e migração
Este novo surto ocorre num contexto particularmente complexo. O leste da RDC continua marcado por insegurança armada, acesso limitado às zonas afetadas e fluxos migratórios massivos para Uganda, que acolhe já cerca de 600 000 refugiados congoleses. Esta porosidade fronteiriça complica consideravelmente o rastreio de contactos e aumenta os riscos de disseminação regional.
Desde 1976, a RDC registou dezassete surtos de Ébola, alguns dos mais mortíferos do mundo. O mais grave, entre 2018 e 2020, em Kivu Norte e Ituri, causou mais de 2 287 óbitos e exigiu uma mobilização internacional de grande escala. Segundo um relatório do BMJ Global Health publicado em outubro de 2023, o orçamento total previsto ascendia a 1,28 mil milhões de dólares e os fundos empenhados a 1,18 mil milhões de dólares, correspondendo a 92,5 % do montante orçamentado.
Apesar da gravidade da situação, a OMS não recomenda, nesta fase, o encerramento generalizado das fronteiras nem restrições ao comércio internacional, considerando que tais medidas poderiam favorecer passagens clandestinas mais difíceis de controlar. A agência privilegia antes uma resposta coordenada baseada em vigilância, rastreio, isolamento rápido e cooperação regional.
No que respeita à mobilização internacional, os Estados Unidos anunciaram a ativação de um plano de intervenção e mobilizaram uma ajuda inicial de 13 milhões de dólares para apoiar os esforços imediatos na RDC e no Uganda. Esta ação apoia-se nos fundos comuns da OCHA já mobilizados nos dois países, para assegurar um rápido envio de ajuda humanitária e uma coordenação estreita com o sistema das Nações Unidas.
O Reino Unido, por sua vez, alocou, em 16 de maio, um milhão de libras (1,3 milhões de dólares) à OMS para ajudar a conter o surto. «É essencial para a nossa segurança comum que seja implementada uma resposta rápida e eficaz, com acesso humanitário sem restrições», declarou Jenny Chapman, Ministra britânica do Desenvolvimento Internacional e da África.
Charlène N’dimon













Nairobi. Kenya