Os Emirados Árabes Unidos estão a tornar-se um recurso cada vez mais visível para Estados africanos que procuram capital para o setor mineiro. Entre liquidez, ambições geopolíticas e zonas de sombra, as parcerias estabelecidas com Abu Dhabi estão longe de se limitar a uma simples generosidade financeira.
O Botswana está em negociações com os Emirados Árabes Unidos para adquirir uma participação estratégica na De Beers. O anúncio feito pelo presidente Duma Boko confirma uma tendência crescente no continente: a disponibilidade de Abu Dhabi para apoiar Estados africanos na mobilização de capital para o setor mineiro.
Segundo a Bloomberg, o Botswana procura parceiros fiáveis para financiar a compra de uma participação na De Beers, cuja fatia de 85% está a ser vendida pela Anglo American. O país já detém 15% da empresa e pretende reforçar o seu controlo sobre a produção e comercialização de diamantes, que representam cerca de 80% das exportações nacionais e quase um quarto do PIB.
A queda dos preços dos diamantes, o abrandamento da procura chinesa e a concorrência das pedras sintéticas fragilizaram as finanças públicas, levando mesmo a uma revisão em baixa da notação soberana do Botswana pela S&P Global. Para esta operação, o país também explorou contactos com Omã, Angola e Namíbia, mas são sobretudo os Emirados Árabes Unidos e Omã que se afirmam como parceiros preferenciais.
Uma presença cada vez mais estratégica
Nos últimos anos, os Emirados Árabes Unidos têm participado em várias operações estratégicas em África. Na República Democrática do Congo, o grupo emiratense Primera criou a empresa Primera Gold para formalizar e exportar ouro artesanal, aumentando drasticamente as exportações oficiais.
Na Zâmbia, a empresa ligada à International Holding Company adquiriu uma participação maioritária na Mopani Copper Mines, um dos maiores ativos de cobre do continente, num contexto de forte endividamento e necessidade de investimento.
Interesses que vão além do financeiro
Esta presença recorrente dos Emirados em projetos mineiros africanos não é apenas financeira. O país posiciona-se como um investidor-chave na aquisição de minerais críticos como cobre, cobalto e lítio, essenciais para a transição energética global.
Segundo centros de investigação como o Arab Gulf States Institute, esta estratégia faz parte de uma política de diversificação económica pós-petróleo. Paralelamente, instituições como o ECFR destacam o papel crescente dos Emirados na gestão de portos e corredores logísticos africanos, reforçando a sua posição como hub comercial global.
Riscos e zonas de sombra
Apesar das oportunidades, persistem preocupações. Relatórios de ONG como a SWISSAID indicam que grandes volumes de ouro africano podem ter passado por circuitos ilegais ligados aos Emirados, levantando questões sobre transparência e perda de receitas fiscais para os Estados africanos.
Além disso, muitos acordos permanecem pouco transparentes, dificultando a avaliação real dos benefícios para os países envolvidos.
Um equilíbrio ainda a construir
Para os Estados africanos, os capitais do Golfo representam uma oportunidade importante num contexto de escassez de investimento tradicional. No entanto, o desafio central continua a ser a definição de condições que garantam transparência, valor justo dos ativos e maior benefício local, incluindo a transformação dos recursos no próprio continente.
Emiliano Tossou













Johannesburg