Enquanto a inteligência artificial está a redesenhar profundamente os contornos do mercado de trabalho mundial, os países africanos procuram não sofrer os seus efeitos de forma isolada. O Mali apresenta em Genebra uma estratégia estruturada para fazer da IA um motor de emprego digno.
O Mali pretende transformar a inteligência artificial num instrumento de criação de emprego para a sua juventude, e não numa nova fonte de exclusão. A delegação maliana levou esta mensagem a Genebra na sexta-feira, 5 de junho, durante o debate geral da 114.ª Conferência Internacional do Trabalho (CIT-114).
Fassoun Coulibaly (foto), ministro do Trabalho e do Diálogo Social, liderou a intervenção maliana. Foi acompanhado por Oumou Coulibaly Seck, ministra do Emprego e da Formação Profissional. A sua intervenção baseou-se no relatório do diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo. Este documento defende uma abordagem da IA centrada no ser humano, uma leitura que Bamako partilha plenamente. Bem gerida, a tecnologia constitui, segundo Fassoun Coulibaly, «uma oportunidade importante para a criação de empregos dignos e sustentáveis». Ele defende instituições públicas reforçadas e um diálogo social ativo, vistos como únicos meios de evitar a fratura digital.
Reformas para transformar o discurso em ações
Para concretizar esta visão, Bamako lançou vários projetos estruturais. Foi adotada uma estratégia nacional de empreendedorismo, com um plano de ação 2026-2030. As políticas nacionais de emprego e de formação profissional estão em fase de finalização. No terreno, nove centros de formação profissional foram construídos, reabilitados ou equipados. Está também em preparação um quadro nacional de certificação. Foram igualmente implementados projetos de formação intensiva em mão de obra para acelerar a inserção profissional.
O país está também a enfrentar o peso da economia informal. Está em curso um estudo nacional sobre a sua formalização, no âmbito da Estratégia Nacional para a Emergência e o Desenvolvimento Sustentável (SNEDD) 2024-2033.
Um mercado de trabalho sob pressão demográfica
Esta orientação surge num contexto em que o mercado de trabalho maliano continua marcado por fragilidades profundas. Segundo estimativas da OIT, o desemprego jovem entre os 15 e os 24 anos situa-se em 3,9 % em 2025. Este valor esconde uma realidade mais grave. A taxa de NEET atingia 30,1 % em 2024, segundo a OIT. Cerca de 95,5 % dos trabalhadores malienses atuam na economia informal, percentagem que chega a quase 99 % entre os jovens dos 15 aos 29 anos. A agricultura concentra 64,2 % do emprego total e mais de 70 % dos jovens ativos. A população maliana foi estimada em 25,2 milhões de habitantes em 2025, com uma idade mediana de 16,8 anos. Um crescimento demográfico de 3 % ao ano aumenta a pressão sobre o mercado de trabalho.
No seu relatório «Tendências Sociais e de Emprego 2026», a OIT alerta que as transições digitais podem agravar estas vulnerabilidades. A CIT-114 oferece ao Mali uma plataforma para enquadrar as suas reformas na agenda global do trabalho centrada no ser humano. Resta saber se as reformas em curso irão além das declarações e resultarão em empregos concretos e sustentáveis.
Félicien Houindo Lokossou













Johannesburg