Enquanto os sistemas educativos africanos funcionaram durante muito tempo sob influência externa, Dakar prepara-se para acolher o maior encontro mundial dedicado à educação, uma estreia que inverte a lógica habitual.
O Senegal alcança um marco inédito no setor da educação. Durante uma conferência de imprensa de lançamento realizada na semana passada, o ministro da Educação Nacional, Moustapha Guirassy, anunciou que a capital senegalesa acolherá a Conferência Internacional do Prémio Yidan, de 29 de junho a 1 de julho de 2026.
Criado em 2016 pelo filantropo de Hong Kong Charles Chen Yidan, o Prémio Yidan distingue anualmente personalidades que contribuem para o avanço da educação através da investigação e do desenvolvimento. É a primeira vez que a sua conferência anual será realizada em África.
A escolha do Senegal recompensa a distinção atribuída a Mamadou Amadou Ly, diretor executivo da ONG ARED (Associates in Research and Education for Development) e vencedor do Prémio Yidan 2025 pelo desenvolvimento da educação. Dorothy Gordon, presidente do júri, destacou uma visão que abriu caminho à alfabetização de centenas de milhares de estudantes africanos.
A Fundação Yidan Prize organiza o evento em parceria com a ARED e a Associação para o Desenvolvimento da Educação em África (ADEA), sob a coordenação do Ministério senegalês da Educação Nacional. Mais de 200 decisores, investigadores e especialistas de todo o mundo irão debater o tema: «Libertar o potencial de África: o papel da educação numa nova era de desenvolvimento».
A língua materna contra o modelo importado
O método defendido pela ARED há três décadas é precisamente aquele que muitos sistemas educativos africanos abandonaram durante muito tempo. Segundo a organização, ensinar uma criança numa língua que ela não compreende prejudica a aprendizagem.
Esta constatação está na base da abordagem da ONG, que implementa programas iniciados na língua materna da criança antes de introduzir progressivamente o francês. Um estudo KIX de 2024 apoia esta abordagem, revelando que 71% dos alunos senegaleses do 3.º e 5.º anos não dominam o francês como língua de aprendizagem.
É este modelo que a conferência pretende transformar numa referência continental. Os trabalhos serão organizados em torno de quatro eixos, desde a qualidade da aprendizagem e formação de professores até ao financiamento sustentável da educação e à reforma curricular. Os organizadores indicam que os debates terão por base dados provenientes da realidade africana.
Quando África cria as suas próprias ferramentas
Esta mudança também se observa nos instrumentos utilizados. O Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) apresentará em Dakar a sua Ficha de Dados sobre o Capital Humano Africano 2026, um documento que combina projeções demográficas e trajetórias educativas de longo prazo.
A ferramenta foi concebida para apoiar o planeamento a partir das realidades africanas, afastando-se de modelos definidos externamente.
A conferência insere-se nesta lógica de autonomia, alinhando-se com a Década de Ação Acelerada da União Africana (2025-2034) e com a Estratégia Continental de Educação para África (CESA).
Para o ministro Guirassy, a escolha de Dakar representa o reconhecimento das reformas realizadas pelo Senegal, que descreve como uma referência continental na educação multilingue.
Esta iniciativa surge num contexto em que os números mostram a dimensão do desafio. O relatório RESEN de junho de 2025, publicado com o apoio da UNESCO, estima em 38% a proporção de crianças senegalesas entre 6 e 16 anos fora da escola.
Em 2022, a taxa de conclusão do ensino primário era de apenas 60% para as raparigas e 55% para os rapazes, segundo o Instituto de Estatística da UNESCO. À escala continental, mais de 60% das crianças de 10 anos nos países de baixo rendimento não conseguem ler um texto simples, segundo o Banco Mundial.
Dakar não resolverá estas dificuldades em três dias. Mas, pela primeira vez, será África a definir a agenda.
Félicien Houindo Lokossou.













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