Pouco conhecido do grande público, mas incontornável nos círculos estratégicos do setor energético africano, o bilionário nigeriano Benedict Peters assinou um acordo de grande envergadura com o Estado moçambicano para construir uma refinaria de petróleo bruto com capacidade final de 240 mil barris por dia. Um projeto estruturante numa região carente desse tipo de infraestrutura, conduzido por um homem cujas atividades vão muito além do petróleo.
No dia 13 de julho, Benedict Peters (foto), por meio da sua empresa Aiteo, firmou um contrato de engenharia, fornecimento e construção (EPC) para erguer uma refinaria em Moçambique. Com uma capacidade final anunciada de 240 mil barris por dia, a unidade será construída em duas fases, prevendo-se uma capacidade operacional inicial de 80 mil barris por dia dentro de 24 meses. A execução foi confiada à norte-americana Deerfield Energy Services LLC. O projeto poderá transformar Moçambique num hub regional estratégico para a distribuição de produtos petrolíferos.
A tecnologia escolhida baseia-se em módulos de refinação de baixa complexidade, garantindo implantação rápida e maior estabilidade operacional. Gasolina, diesel, querosene e nafta estão entre os produtos visados, respondendo tanto à procura interna quanto ao objetivo de dinamizar o comércio regional. O presidente moçambicano, Daniel Chapo, presidiu pessoalmente à cerimónia de assinatura, sublinhando o alinhamento do projeto com a estratégia nacional de industrialização e de acesso à energia.
Benedict Peters construiu a sua fortuna no setor petrolífero nigeriano. Depois de iniciar a carreira na Oando e na MRS Oil, nos anos 1990, fundou a Aiteo em 1999. A empresa deu um salto em 2014 com a aquisição do bloco OML 29 e do oleoduto Nembe Creek a um consórcio liderado pela Shell, por 2,56 mil milhões de dólares. A operação fez da Aiteo o principal produtor independente de petróleo da Nigéria.
Quando a ambição encontra as batalhas geopolíticas: o braço-de-ferro com a Shell
Mas, se a ambição de Benedict Peters hoje se projeta à escala continental, ela também se forjou nas arenas jurídicas e políticas mais disputadas do setor energético. Prova disso é o longo litígio que o opõe à Shell em torno do bloco OML 29. Peters reclama 9 mil milhões de dólares ao gigante anglo-holandês, acusando-o de ter sabotado repetidamente o oleoduto Nembe Creek, peça central das infraestruturas adquiridas. Este diferendo ilustra as crescentes tensões entre as majors internacionais e os operadores africanos independentes, num contexto de reconfiguração do panorama petrolífero regional.
Desde então, Peters ampliou o seu campo de atuação, integrando comércio, armazenagem, distribuição, transporte marítimo e produção de eletricidade. Investe em ativos elétricos na Nigéria e desenvolve uma estratégia multinacional, com presença na Costa do Marfim, Guiné, Namíbia, Suíça, Serra Leoa, Líbia e agora em Moçambique.
A diversificação estende-se também aos minerais estratégicos. Por meio da Bravura Holdings, explora recursos críticos para as cadeias de produção ocidentais: ouro no Gana, cobre na Zâmbia, cobalto na RDC, lítio no Zimbabué, urânio e platina na África Austral. Aliás, segundo Gbenga Ojo, CEO da Bravura Holdings, a empresa deverá iniciar a produção de lítio no Zimbabué antes do final deste ano, nomeadamente no projeto Kamativi. A expectativa é produzir 30 mil toneladas de concentrado de espodumena, utilizado para fabricar carbonato ou hidróxido de lítio, compostos essenciais na produção de baterias de iões de lítio.
Ciente do peso geopolítico do setor, Peters estrutura este ecossistema através de um programa trianual lançado em parceria com o Africa Center do think tank norte-americano Atlantic Council. Um grupo de trabalho internacional coordena assim governos, agências de desenvolvimento e atores privados em três continentes.
De Lagos a Harare, passando por Maputo, a estratégia de Benedict Peters parece clara: controlar infraestruturas críticas, enraizar-se nas cadeias de valor e influenciar as negociações internacionais sobre matérias-primas estratégicas. Se a sua visibilidade pública permanece limitada, a sua pegada industrial expande-se rapidamente.
Resta saber até onde o bilionário nigeriano, à frente de um conglomerado tão discreto quanto influente, conseguirá levar a sua vantagem num ambiente cada vez mais geopolítico.
Olivier de Souza













Egypt International Exhibition Center, Cairo