Num contexto em que a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) caiu 23,1% e os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) destinados a África continuam fortemente concentrados no Egito, o apelo de Faure Gnassingbé para substituir a ajuda pública ao desenvolvimento por «investimentos estratégicos conjuntos» redefine as bases da parceria económica entre a Europa e África.
O Presidente do Conselho do Togo, Faure Gnassingbé, apelou, na quarta-feira, 17 de junho, em Roma, a uma mudança de paradigma na relação económica entre a Europa e África. Perante os 1.600 dirigentes reunidos na cimeira FII Priority Europe 2026, defendeu a substituição da ajuda pública ao desenvolvimento por um quadro de «investimentos estratégicos conjuntos» assente na convergência de interesses entre os dois continentes.
O contexto confere um significado particular a esta intervenção. A Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) dos países da OCDE diminuiu 23,1% em 2025, para 174,3 mil milhões de dólares, registando a maior queda anual de sempre, sendo África particularmente afetada (-23,9%). Paralelamente, os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) para o continente aumentaram 75% em 2024, atingindo um nível recorde de 97 mil milhões de dólares, segundo a ONU Comércio e Desenvolvimento.
Contudo, este desempenho é largamente explicado por um único megaprojeto egípcio financiado pelos Emirados Árabes Unidos: Ras El-Hekma, avaliado em 35 mil milhões de dólares. Excluindo este projeto, os IDE cresceram apenas 12%, atingindo 62 mil milhões de dólares. Por seu lado, a Europa reforça a sua oferta de financiamento produtivo: o programa Global Gateway destinado a África ascende a 150 mil milhões de euros, inserido num objetivo global de 400 mil milhões de euros até 2027. Os fundos soberanos do Golfo também reforçam a sua presença. O Public Investment Fund (PIF) da Arábia Saudita, organizador da cimeira de Roma e gestor de ativos avaliados em 925 mil milhões de dólares, fez de África um dos eixos da sua estratégia para 2026-2030, centrada na indústria, minerais críticos, inteligência artificial (IA) e turismo.
Rumo a um novo quadro de parceria entre a Europa e África
Faure Gnassingbé estruturou a sua intervenção em torno de três convicções. Em primeiro lugar, a autonomia estratégica não deve ser confundida com isolamento, mas entendida como «a capacidade de gerir melhor as interdependências». Em segundo lugar, o capital «deve alargar os seus horizontes» e deixar de financiar ativos isolados, privilegiando sistemas produtivos integrados: portos ligados a corredores logísticos, zonas industriais apoiadas por infraestruturas energéticas eficientes e cadeias agrícolas ligadas às atividades de transformação. Por fim, a relação entre a Europa e África deve ultrapassar o modelo baseado na ajuda, cooperação e acesso às matérias-primas, evoluindo para um sistema de «investimentos estratégicos conjuntos».
Esta abordagem assenta numa visão equilibrada das necessidades de cada parte. A Europa procura parceiros fiáveis para garantir o abastecimento de energia, matérias-primas críticas e insumos industriais. África, cujas necessidades de financiamento para a transformação estrutural são estimadas em mais de 402 mil milhões de dólares por ano pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), necessita de capitais de longo prazo, tecnologias e capacidades industriais, energéticas, digitais e financeiras. O Presidente do Conselho considera que existe uma «convergência de interesses estratégicos» que justifica uma reformulação do quadro de parceria.
O Togo como plataforma regional de investimento
Com o Porto Autónomo de Lomé, os corredores para o Sahel, a Plataforma Industrial de Adétikopé (PIA) e as reformas destinadas a facilitar o comércio, Faure Gnassingbé pretende posicionar o seu país como uma porta de entrada atrativa para os investimentos europeus e provenientes dos países do Golfo.
Lomé acolheu, em maio passado, a terceira edição do fórum Biashara Afrika, dedicado à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZLECAf), e recebe até 19 de junho a primeira Convenção Africana do Transporte Aéreo. Faure Gnassingbé é igualmente o campeão designado pela União Africana para o Mercado Único Africano do Transporte Aéreo (MUTAA).
Fiacre E. Kakpo













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