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Pesca e aquicultura: 5 conclusões do relatório 2026 da FAO

Pesca e aquicultura: 5 conclusões do relatório 2026 da FAO
Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

O papel dos produtos da pesca e da aquicultura na alimentação mundial continua a reforçar-se. Impulsionado por uma procura crescente e por níveis recorde de comércio, o setor das pescas e da aquicultura enfrenta, contudo, desafios relacionados com a sustentabilidade dos recursos, as alterações climáticas e o acesso à alimentação.

A 16 de junho de 2026, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou o seu novo relatório sobre a situação mundial das pescas e da aquicultura (SOFIA 2026). Eis cinco principais conclusões deste relatório bienal, que apresenta os dados mais recentes sobre o setor.

Um novo recorde alcançado pela produção mundial

A produção mundial da pesca e da aquicultura atingiu um nível recorde de 235 milhões de toneladas em 2024, confirmando o papel crescente dos produtos aquáticos na segurança alimentar mundial. Em detalhe, os produtos provenientes de animais aquáticos (peixes, crustáceos, moluscos, entre outros) representaram quase 83% da oferta, ou seja, 195 milhões de toneladas, enquanto o restante provém quase exclusivamente da produção de algas.

Segundo a FAO, cerca de 89% da produção destina-se ao consumo humano, demonstrando a crescente importância nutricional do setor. Atualmente, os produtos aquáticos fornecem pelo menos 20% das proteínas animais a mais de 40% da população mundial, sobretudo nos países onde as alternativas proteicas continuam limitadas.

A aquicultura continua a ser o motor da oferta

Desde 2022, ano em que a contribuição da aquicultura para o abastecimento mundial de animais aquáticos ultrapassou a da pesca, a sua produção continua a aumentar.

De acordo com a FAO, a produção aquícola mundial cresceu quase 7% em apenas dois anos, atingindo 142 milhões de toneladas em 2024. Deste total, a oferta de produtos animais aquáticos chegou aos 103 milhões de toneladas, um recorde histórico equivalente a 53% da produção mundial de animais aquáticos e a mais de 59% dos produtos aquáticos destinados ao consumo humano.

No entanto, esta produção continua fortemente concentrada na Ásia, que representa quase 90% da oferta mundial, enquanto o restante se distribui pela América do Sul (4%), Europa (3%), África (2%), América do Norte e Oceânia.

A sustentabilidade dos recursos pesqueiros continua a ser um grande desafio

Apesar dos progressos registados em algumas regiões graças a uma gestão baseada na ciência, a pressão sobre os recursos pesqueiros continua preocupante. Segundo o relatório, a percentagem de stocks marinhos explorados de forma sustentável caiu para 62,4% em 2023, confirmando uma tendência de degradação em várias zonas de pesca do mundo.

Para explicar esta evolução, a FAO destaca desafios persistentes como a sobrepesca, a fragilidade dos sistemas de gestão, bem como os efeitos das alterações climáticas e da degradação dos ecossistemas marinhos e continentais.

Como consequência, a pesca de captura permanece estagnada há várias décadas em torno dos 90 milhões de toneladas.

Um comércio mundial em forte expansão e altamente integrado

O comércio de produtos aquáticos constitui atualmente um dos pilares da globalização alimentar. Em 2024, atingiu um valor recorde de 186 mil milhões de dólares, envolvendo 230 países e territórios, tornando-se um dos mercados agrícolas mais integrados do mundo.

Cerca de 36% da produção mundial de animais aquáticos é comercializada internacionalmente, confirmando o papel central do comércio no equilíbrio entre regiões excedentárias e deficitárias. O setor representa quase 9% do comércio agrícola mundial (excluindo a silvicultura), um peso comparável ao de algumas grandes cadeias de proteínas animais terrestres.

Contudo, este comércio continua profundamente desigual. África ilustra bem estes desequilíbrios. O continente apresenta um défice em volume de cerca de 1 milhão de toneladas, mas um excedente em valor de 2 mil milhões de dólares, graças à exportação de produtos de maior valor acrescentado.

Paradoxalmente, regista também um ganho líquido em proteínas estimado em 126 mil toneladas, associado à importação de produtos mais baratos, mas ricos em nutrientes.

Para a FAO, o desafio passa agora por melhorar a rastreabilidade, a segurança sanitária e a eficiência das cadeias comerciais, para que as trocas contribuam mais para a segurança alimentar e nutricional.

África continua atrasada no acesso aos produtos aquáticos

África continua a ser a região onde a diferença entre as necessidades alimentares e a disponibilidade de produtos aquáticos é mais significativa.

Embora o peixe represente quase 20% das proteínas animais consumidas no continente, a disponibilidade média atingiu apenas 9,1 kg por habitante em 2024, o nível mais baixo do mundo. Em comparação, a média mundial chegou aos 21,3 kg por habitante.

Ainda assim, a FAO destaca que o continente possui um importante potencial aquícola, ainda amplamente inexplorado. O desenvolvimento deste setor poderá desempenhar um papel decisivo no combate à insegurança alimentar e à malnutrição. Contudo, esse potencial depende de grandes investimentos em infraestruturas, tecnologias, cadeia de frio e sistemas de produção.

De forma geral, o SOFIA 2026 evidencia o paradoxo de um setor em forte expansão mundial, que se tornou essencial para a alimentação global, mas que continua marcado por desequilíbrios entre produção, sustentabilidade e acesso. Entre o crescimento da aquicultura, a pressão sobre os recursos naturais e a expansão do comércio internacional, o futuro do setor dependerá da sua capacidade de conciliar crescimento, equidade e sustentabilidade.

Stéphanas Assocle

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