Longe de ser apenas uma ferramenta de conectividade, a Internet das Coisas poderá tornar-se uma alavanca essencial para a modernização das economias africanas. Da agricultura à saúde, passando pela energia e pela logística, esta tecnologia abre novas perspetivas — desde que o continente consiga ultrapassar as suas limitações estruturais.
O mercado africano da Internet das Coisas (IoT), estimado em 7 mil milhões de dólares em 2024, deverá quase triplicar, atingindo 20 mil milhões de dólares até 2031. Esta é uma das principais conclusões do Relatório Económico sobre África 2026, publicado pela Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), sob o título «Growth Through Innovation: Harnessing Data and Frontier Technologies for Africa's Economic Transformation».
Por trás desta forte progressão, vários motores atuam em simultâneo. As ligações IoT celulares licenciadas na África Subsaariana deverão quase duplicar entre 2023 e 2030, passando de 27 para 51 milhões. No mesmo período, o número de utilizadores da Internet no continente deverá saltar de 320 para 527 milhões, enquanto o impacto económico da telefonia móvel triplicará, passando de 20 para 62 mil milhões de dólares, segundo o relatório.
As receitas dos operadores de telecomunicações, impulsionadas por esta vaga de conectividade, deverão também passar de 38 para 61 mil milhões de dólares. Todos estes sinais indicam uma dinâmica real, sustentada por uma penetração móvel já significativa. O continente registava já 97,5 assinaturas móveis por 100 habitantes em 2024, um valor relativamente próximo da média mundial, fixada em 112.
Aplicações concretas que transformam setores-chave
Considerada pela UNECA como uma «tecnologia de fronteira», ou seja, uma inovação capaz de transformar profundamente as economias e sociedades, a IoT não se limita a projeções estatísticas. No terreno, as suas aplicações começam a remodelar vários setores estratégicos da economia africana.
A agricultura é o primeiro exemplo, setor vital para a maioria das economias do continente. No Botsuana, a quinta Lobu Small Stock ilustra este potencial. Este projeto de criação de pequenos ruminantes, apoiado pela UNECA e pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), integrou sistemas IoT de monitorização da saúde animal e de acompanhamento do consumo de água. Resultado: mais de 40% de água poupada na região árida de Kgalagadi, melhoria mensurável do bem-estar animal e aumento das taxas de fertilidade do rebanho. A quinta tornou-se um verdadeiro centro de excelência, combinando cercas virtuais, alimentação de precisão e plataformas digitais de leilão.
A saúde é outro domínio de aplicação essencial, num contexto em que as necessidades continuam elevadas: África tem em média apenas 2,6 médicos por 10 000 habitantes e cerca de 600 milhões de pessoas ainda não têm acesso a cuidados de saúde. Na África do Sul, sensores IoT, dispositivos vestíveis e equipamentos médicos conectados permitem recolher e transmitir automaticamente dados dos pacientes aos profissionais de saúde. Esta abordagem reduz o tempo de diagnóstico e alivia a carga de trabalho do pessoal médico.
No comércio e na logística, por fim, plataformas como a Jumia combinam IoT com inteligência artificial e big data para personalizar a experiência do cliente e otimizar as entregas de última milha, um desafio central num continente onde as infraestruturas continuam frequentemente fragmentadas.
Obstáculos: uma fratura digital persistente
No entanto, por trás destes avanços promissores, a realidade continua contrastante. África ainda apresenta um atraso estrutural face a outras regiões do mundo, e os indicadores de conectividade mostram a dimensão do caminho a percorrer.
O continente regista apenas 0,9 assinaturas de banda larga fixa por 100 habitantes, contra 19,6 em média mundial e 37,2 na Europa. A cobertura 5G, essencial para o desenvolvimento massivo de aplicações IoT, abrange apenas 11% da população africana, contra 72% na Europa e 62% na região Ásia-Pacífico.
Estas lacunas infraestruturais têm consequências diretas em usos de elevado valor acrescentado. A agricultura de precisão, a logística de cadeia fria, a monitorização remota de pacientes ou a gestão inteligente de energia estão entre as aplicações mais promissoras, mas ainda raramente ultrapassam a fase piloto.
A fiabilidade do fornecimento de eletricidade constitui igualmente um grande obstáculo. Implementar sensores, garantir manutenção e assegurar a transmissão de dados em tempo real exige uma infraestrutura energética estável — ainda rara em muitas zonas urbanas e rurais do continente.
Os poderes públicos mobilizam-se
Perante estes desafios, a resposta institucional está em curso. A Estratégia de Transformação Digital da União Africana identifica a IoT, juntamente com a inteligência artificial e a blockchain, como um dos principais aceleradores da transformação económica do continente.
O relatório da UNECA apresenta várias recomendações aos governos e reguladores. Entre as prioridades está a expansão do acesso acessível à banda larga, através de investimentos em redes de fibra ótica, da expansão das redes 4G e 5G quando viável, e do apoio a redes comunitárias e soluções satélite nas zonas mais remotas.
Para estimular o investimento privado, o relatório recomenda também incentivos direcionados, como subsídios, benefícios fiscais e programas de compras públicas, de modo a permitir que as start-ups de IoT passem da fase experimental à escala.
Por fim, a UNECA sublinha a necessidade de uma cooperação regional reforçada, especialmente na gestão do espectro radioelétrico, um recurso raro e estratégico cuja harmonização será decisiva para a competitividade futura dos mercados IoT africanos.
Uma janela de oportunidade a não perder
África alberga a população mais jovem do mundo, um ecossistema digital em crescimento e um capital humano em expansão. Este fator constitui uma vantagem decisiva para a adoção de tecnologias disruptivas.
Ao ligar os mundos físico e digital em setores estratégicos como agricultura, saúde, energia e logística, a IoT representa precisamente o tipo de inovação capaz de gerar ganhos significativos de produtividade num continente com grande margem de progresso.
Mas esta oportunidade precisa de ser preparada desde já. Sem investimentos massivos em infraestruturas, sem quadros regulatórios adequados e sem vontade política para passar de projetos-piloto a implementações em larga escala, África arrisca perder milhares de milhões de dólares em valor económico potencial e ficar para trás numa tecnologia capaz de transformar o seu desenvolvimento de forma duradoura.
Muriel Edjo













Johannesburg