Durante muito tempo dominado por operadores públicos, o setor ferroviário africano tem vindo a atrair cada vez mais investidores privados. Na África do Sul, a Traxtion está a reforçar a sua frota para se posicionar num mercado que deverá crescer impulsionado pelas reformas setoriais e pela ZLECAf.
O operador privado sul-africano de transporte ferroviário Traxtion anunciou recentemente uma captação de 86 milhões de dólares destinada a apoiar o seu programa de investimento em material circulante. Esta operação insere-se num plano mais amplo de 3,4 mil milhões de rands (cerca de 208,3 milhões de dólares), apresentado em dezembro de 2025, que prevê nomeadamente a aquisição de 46 locomotivas diesel-elétricas e cerca de 920 vagões.
Para além do montante, esta captação de fundos reflete a antecipação de um aumento da procura por transporte ferroviário de mercadorias, num contexto de liberalização progressiva do setor na África do Sul. O transporte de carga por ferrovia foi durante muito tempo dominado pela empresa pública Transnet, mas face às dificuldades operacionais desta última, Pretória iniciou um processo de reformas que visa abrir gradualmente o acesso à rede nacional a operadores privados.
Uma primeira fase já resultou na seleção de 11 empresas privadas para explorar algumas secções da rede. A Traxtion não solicitou faixas de operação nesta etapa inicial, mas os seus dirigentes indicaram, segundo a imprensa local, que poderão fazê-lo nas próximas fases, caso o quadro regulatório ofereça maior visibilidade sobre a rentabilidade dos investimentos privados.
A estratégia da Traxtion está também ligada às perspetivas de recuperação do transporte ferroviário de mercadorias. As dificuldades enfrentadas pela Transnet nos últimos anos levaram a uma redução dos volumes transportados por ferrovia, sobretudo nos setores mineiro e industrial. Parte significativa do tráfego passou para a estrada, com o consequente aumento dos custos logísticos e pressão acrescida sobre as infraestruturas rodoviárias.
O regresso progressivo da capacidade ferroviária exigirá investimentos significativos em material circulante. Os operadores que disponham de locomotivas e vagões poderão beneficiar de uma procura crescente por serviços de transporte, tanto nos corredores mineiros como nos eixos logísticos que ligam portos e centros de produção.
Esta dinâmica não se limita ao mercado sul-africano. Em vários países africanos, os governos têm vindo a reforçar iniciativas para relançar o setor ferroviário no âmbito das suas estratégias de competitividade logística. A implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) reforça esta tendência. Segundo estimativas da Comissão Económica das Nações Unidas para África, o desenvolvimento do comércio intra-africano exigirá, até 2030, cerca de 97 614 vagões para transporte de granéis e 20 668 vagões para contentores.
Se os projetos de infraestrutura atualmente previstos no continente forem concretizados, estas necessidades poderão atingir 132 857 vagões para granéis e 36 482 vagões para contentores. Neste contexto, os investimentos da Traxtion surgem menos como uma simples expansão de frota e mais como uma aposta na transformação do mercado ferroviário africano. A questão central passa agora pela execução: a evolução do quadro regulatório sul-africano e a capacidade dos países africanos de concretizar os seus projetos ferroviários irão determinar até que ponto este potencial se traduz em mercados efetivamente acessíveis aos operadores privados.
Henoc Dossa













Johannesburg