Reunidos a 9 de abril em Abidjan, dirigentes africanos e atores financeiros iniciaram um diálogo inédito com o objetivo de repensar profundamente os mecanismos de financiamento do desenvolvimento, face a um défice estimado em mais de 400 mil milhões de dólares por ano.
O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) lançou oficialmente, nesta quinta-feira, 9 de abril, em Abidjan, o diálogo consultivo sobre a Nova Arquitetura Financeira Africana (NAFA), uma iniciativa que pretende transformar profundamente a forma como o continente mobiliza e utiliza os seus recursos financeiros. Sob o alto patrocínio do Presidente ivoiriense Alassane Ouattara, o encontro marca um ponto de viragem, com o objetivo declarado de passar do diagnóstico à implementação.
Logo na abertura, o presidente do Grupo BAD, Sidi Ould Tah, fez um diagnóstico direto: «o paradigma atual do financiamento do desenvolvimento em África mostrou limites objetivos». O continente enfrenta um défice de financiamento superior a 400 mil milhões de dólares por ano, apesar de dispor de cerca de 4 biliões de dólares em poupança a médio e longo prazo. Este desfasamento, sublinhou, resulta menos da falta de capital e mais de constrangimentos estruturais: fragmentação institucional, má alocação do risco e fraca coordenação entre os setores público e privado.
Neste contexto, a NAFA apresenta-se como uma resposta sistémica. Assenta em quatro princípios operacionais — subsidiariedade, complementaridade, coordenação e transformação do risco — com o objetivo de reorganizar o ecossistema financeiro africano, tornando-o mais eficiente e integrado. O dispositivo apoia-se em nove “Labs” temáticos estruturados em torno de três pilares: arquitetura do sistema, mobilização de capital e implementação do capital, cada um destinado a produzir instrumentos concretos.
Um sistema a reorganizar mais do que a financiar
No centro das discussões, destaca-se uma ideia-chave: o problema do financiamento em África é, прежде de mais, organizacional. No seu discurso de abertura, o economista Carlos Lopes destacou o paradoxo de um continente com forte crescimento, mas confrontado com um elevado custo do capital, muitas vezes mais ligado a perceções do que a fundamentos económicos.
Sublinhou ainda que África, longe de carecer de recursos, é na realidade «um exportador líquido de capital», nomeadamente através de fluxos financeiros ilícitos ou da alocação de ativos para mercados externos. Neste contexto, o desafio não é tanto mobilizar novos financiamentos, mas organizar melhor os já existentes, reforçando a coordenação e atingindo uma massa crítica.
Esta reflexão ocorre num ambiente internacional cada vez mais restritivo. Como salientou o Primeiro-Ministro ivoiriense, Robert Beugré Mambé, as crises sucessivas — pandemia, tensões geopolíticas, inflação e alterações climáticas — evidenciaram as limitações da atual arquitetura financeira internacional, ao mesmo tempo que aumentaram a pressão sobre as finanças públicas africanas.
Rumo a instrumentos concretos e maior coordenação
Para além do diagnóstico, o encontro de Abidjan pretende alcançar avanços operacionais. Os participantes deverão acordar uma primeira geração de instrumentos, incluindo mecanismos de garantia, dispositivos de cofinanciamento e ferramentas para reforçar os capitais próprios das instituições financeiras africanas.
A ambição passa também pela adoção de um «Consenso de Abidjan», considerado o ato fundador da implementação da NAFA em larga escala. A médio prazo, deverá ser criada uma estrutura permanente de coordenação para assegurar a coerência e continuidade das ações.
Para as autoridades ivoirienses, este diálogo insere-se numa dinâmica mais ampla de transformação económica. O Primeiro-Ministro recordou a ambição do país de mobilizar cerca de 115 biliões de francos CFA (aproximadamente 204,9 milhões de dólares) no âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento 2026-2030, com uma contribuição esperada de 70% do setor privado.
Para além dos aspetos técnicos, as discussões abertas em Abidjan colocam uma questão mais ampla: a soberania financeira do continente. «O que estamos a discutir não é apenas finanças, é a capacidade de ação», resumiu Carlos Lopes, apelando a uma mudança de postura de África no sistema financeiro global.
Moutiou Adjibi Nourou












