Kinshasa e Brazzaville são as capitais nacionais mais próximas do mundo, mas apesar da intensidade dos intercâmbios humanos e económicos, as ligações entre ambas continuam a ser asseguradas essencialmente por via fluvial. Num contexto em que os países africanos procuram acelerar a integração regional, fluidificar os corredores de transporte e reforçar o comércio intra-africano, o projeto de ponte rodoviária e ferroviária entre as duas cidades volta progressivamente ao centro das atenções.
Há muito tempo limitado a estudos e anúncios, o projeto registou nos últimos meses avanços significativos. Em maio, os dois Congos assinaram um acordo bilateral que define o regime fiscal, aduaneiro e de receitas não fiscais aplicável à infraestrutura, concretizando um dos principais pré-requisitos para a sua realização.
Poucas semanas depois, foi lançado o aviso de concurso para selecionar o concessionário, marcando uma nova etapa do processo. Eis cinco pontos essenciais sobre este projeto de integração sub-regional aguardado há mais de três décadas.
1. Um projeto com mais de 30 anos
A ideia de uma ligação fixa entre as duas capitais remonta a 1991. Os primeiros estudos foram lançados no mesmo ano, mas o projeto foi rapidamente travado por dificuldades de financiamento e por crises políticas e económicas nos dois países. Relançado em 2003, enfrentou reservas da Democratic Republic of the Congo quanto a um possível desvio de fluxos comerciais para o porto de Pointe-Noire.
Apesar da assinatura de um protocolo de entendimento em 2009, da criação de estruturas técnicas conjuntas e do envolvimento de parceiros financeiros internacionais, o início das obras foi sucessivamente adiado, passando por datas como 2018, 2020 e 2021. As dificuldades de financiamento, a mudança de prioridades de investimento e os efeitos da pandemia de Covid-19 explicam os sucessivos atrasos.
O recente lançamento do processo de seleção do concessionário representa, no entanto, uma nova etapa rumo à concretização do projeto.
2. Potenciais financiadores
Os estudos preparatórios foram financiados pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), com apoio dos governos dos dois países. A estruturação do projeto foi depois confiada à Africa50, uma plataforma de investimento criada pelo BAD para acelerar o financiamento de infraestruturas em África.
O projeto segue um modelo de parceria público-privada (PPP), com o objetivo de atrair investidores privados para financiar, construir e explorar a infraestrutura. O BAD surge também entre os principais parceiros para as ligações rodoviárias complementares previstas em ambas as margens do rio.
O custo do projeto evoluiu significativamente: de 40–80 milhões de dólares no início dos anos 2000 para cerca de 700 milhões de dólares na fase atual, refletindo a ampliação do âmbito técnico, a inclusão de componentes ferroviários e logísticos e o aumento dos custos de construção.
3. Características técnicas
Segundo o BAD, a ponte terá 1.757 metros de extensão e será construída entre Maloukou Tréchot (lado de Brazzaville) e Maluku, onde o rio Congo tem cerca de 1,3 km de largura.
A infraestrutura incluirá uma linha ferroviária, uma estrada de 2x2 faixas, passagens pedonais e postos fronteiriços de controlo único em cada margem. Será ainda ligada às redes rodoviárias através de cerca de 10 km de acessos.
O projeto insere-se na estratégia de corredores regionais do NEPAD e deverá reforçar a ligação da África Central aos principais eixos continentais. O prazo de execução passou de 3 para cerca de 5 anos, segundo as últimas estimativas oficiais.
4. Impactos esperados
De acordo com o BAD, a infraestrutura poderá movimentar mais de 5 milhões de passageiros e cerca de 3 milhões de toneladas de mercadorias por ano. A ligação direta entre as duas capitais deverá reduzir custos logísticos e melhorar a mobilidade regional.
O projeto também deverá reforçar a integração económica no âmbito da African Continental Free Trade Area, facilitando o acesso de países vizinhos sem litoral às infraestruturas portuárias da África Central.
Além disso, espera-se a criação de novas zonas económicas, maior atração de investimento privado e o reforço dos papéis de Kinshasa e Brazzaville como polos logísticos regionais.
5. Desafios
Apesar dos progressos, persistem desafios importantes. Um deles diz respeito às preocupações da RDC sobre a soberania logística e o possível reforço da dependência do porto de Pointe-Noire, em detrimento das suas próprias infraestruturas como Matadi.
Outro desafio é a mobilização efetiva de financiamento num modelo PPP, bem como a viabilidade económica do projeto, dependente dos volumes de tráfego futuros.
A necessidade de infraestruturas complementares (estradas e ferrovias) e a coordenação entre os dois Estados — em matérias aduaneiras, regulatórias e de gestão fronteiriça — serão igualmente determinantes para o sucesso do corredor.
Henoc Dossa













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