- O segundo Salão das Indústrias Musicais da África Francófona (SIMA) ocorrerá de 10 a 15 de novembro de 2025 em Cotonou (Benin), buscando promover a música africana francófona e resolver as disparidades econômicas do setor.
- Apesar do imenso talento, a música francófona africana carece de estruturas econômicas fortes, financiamentos suficientes e circuitos de distribuição eficientes.
, por Mamby Diomandé, fundador e comissário geral do SIMA, e Lionel Talon, empresário cultural, promotor do festival WeLovEya e do Centro Comunitário EYA (Benin)
A música africana fascina, seduz, inspira. Agora ela ganha um lugar nas playlists globais, impulsionada pela vitalidade de seus ritmos e a criatividade de seus artistas. No entanto, uma parte do continente ainda permanece à margem dessa dinâmica global: os países da África francófona, onde o talento é abundante, mas as estruturas econômicas, o financiamento e os canais de distribuição são frágeis.
O Salão das Indústrias Musicais da África Francófona (SIMA) visa abordar esta lacuna. A segunda edição do evento acontecerá de 10 a 15 de novembro de 2025 em Cotonou (Benin). Concebido como um espaço de reflexão e cooperação entre atores culturais, investidores e autoridades públicas, o SIMA tem como objetivo ajudar a música africana francófona a avançar "do potencial às evidências" - de um indiscutível florescimento artístico a uma verdadeira indústria criadora de valor.
Uma indústria ainda em busca de um modelo
Os números confirmam o desequilíbrio: segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as receitas da música gravada na África Subsaariana ultrapassaram 110 milhões de dólares em 2024, um aumento de 22,6%. Porém, quase três quartos dessas receitas vêm da Nigéria e da África do Sul. Os países francófonos continuam sendo prejudicados pela fragilidade de suas infraestruturas, a dificuldade em monetizar o streaming e a falta de mecanismos financeiros adequados. A falta de dados em nossos territórios também é sentida.
A era digital, que deveria trazer novas oportunidades, também revela profundas desigualdades. Na maioria dos mercados francófonos, as plataformas ainda operam no modelo freemium e as receitas do YouTube são marginais. Quando os operadores de telefonia móvel podem ser uma alternativa, a ambiguidade na gestão da propriedade intelectual prejudica os detentores dos direitos e os produtores. O streaming criou uma economia bifurcada: enriquece uma minoria de artistas estruturados, mas deixa a maioria sem meios de se beneficiar.
Nesse contexto, a cadeia de valor é dominada pelos distribuidores digitais, que se tornaram os verdadeiros protagonistas da indústria. Eles são os que permitem que uma obra exista, circule e seja vista. Dominar sua lógica, entender os algoritmos e profissionalizar a relação entre artistas e plataformas são agora condições essenciais para transformar a criação em valor.
O financiamento deve se tornar estruturante
Um dos principais obstáculos é o fraco investimento. As instituições financeiras ainda hesitam em financiar as indústrias culturais, que são vistas como arriscadas e intangíveis. No entanto, iniciativas recentes mostram que um modelo diferente é possível.
O Banco Africano de Importação e Exportação (Afreximbank) abriu o caminho ao lançar o programa Creative Africa Nexus (CANEX), dotado de um bilhão de dólares para financiar a produção, distribuição e exportação de conteúdos culturais africanos. Ao apoiar festivais, plataformas digitais e selos independentes, o CANEX ilustra o surgimento de um modelo africano de financiamento cultural, misturando capital público, instituições regionais e parceiros privados.
Mas é preciso ir além: adaptar esses mecanismos ao contexto francófono, que é muitas vezes menos estruturado que seus equivalentes anglofônicos. Isso envolve a criação de fundos nacionais de garantia, incentivos fiscais e instrumentos de microfinanciamento voltados para empresários culturais. Os estados, os bancos regionais e os atores privados devem convergir para um objetivo comum: impulsionar o surgimento de uma rede de empresas musicais viáveis, capazes de se projetar nos mercados africanos e internacionais.
O desafio também é formalizar a renda de artistas, produtores e até instrumentistas, muitas vezes limitados a pagamentos pontuais. Ao documentar suas atividades e contratar seus rendimentos, eles poderiam obter crédito e investir em seu equipamento, comunicação ou turnês. Assim, a música deixará de ser vista como um setor informal para se tornar um ativo econômico reconhecido.
O Benin, um novo paradigma
O Benin, anfitrião do SIMA 2025, ilustra essa mudança de perspectiva. Há vários anos, o país tornou a cultura um eixo central de sua estratégia de desenvolvimento. Projetos de museus, valorização do patrimônio devolvido e o fortalecimento de iniciativas como o Fundo de Desenvolvimento das Artes e da Cultura e festivais como o Vodun Days e WeLovEya testemunham essa vontade de conectar memória, criação e economia. O governo beninense também apoia o surgimento de uma nova geração de atores culturais, por meio de chamadas para projetos, residências artísticas e a promoção do turismo criativo. Esta política ainda em construção mostra que a cultura pode ser pensada como um investimento estruturante, e não apenas como um gasto simbólico.
Agora, o objetivo é construir um mercado integrado, conectando Abidjan, Dakar, Cotonou, Lomé, Douala e Libreville, onde artistas, produtores e distribuidores possam colaborar, compartilhar padrões e juntar seus instrumentos de distribuição. Tal coordenação requer políticas públicas mais proativas: criação de conteúdo local em toda a cadeia de distribuição, apoio à bilheteria digital, desenvolvimento de infraestruturas cênicas, conscientização sobre propriedade intelectual e reconhecimento do setor musical como contribuinte para o crescimento e emprego.
Da cultura ao soft power
Além da economia, a música é um instrumento de soft power. Ela molda os imaginários, constrói identidades coletivas e traz uma diplomacia cultural que os estados poderiam valorizar melhor. Num mundo onde a influência também se exerce em palcos e plataformas, a África francófona não pode estar contente com um papel secundário.
Investir em música é investir no reconhecimento simbólico e econômico de um continente jovem, criativo e diverso. É também transformar uma ambição compartilhada em realidade: a de uma África francófona que produz, distribui e brilha por si mesma.
Para transformar esse potencial em evidências, é necessária uma abordagem concertada. Mecanismos como o CANEX, o Fundo de Desenvolvimento da Indústria Cultural na Costa do Marfim ou as iniciativas culturais beninenses mostram o caminho. Mas o desafio é transformar isso em um movimento regional estruturado, articulado em torno de dados, financiamentos e governança.
A música africana francófona não falta em voz, talento ou histórias para contar. O que ainda falta são instrumentos de medida e mecanismos financeiros sustentáveis. Para passar do potencial à prova, a cultura precisa se tornar uma política econômica e a música um investimento estratégico.













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