A inteligência artificial afirma-se cada vez mais como a tecnologia central da transformação digital em curso no continente. No domínio da saúde, desempenha hoje um papel determinante.
A corrida pela inteligência artificial na saúde já não se centra apenas nos algoritmos ou nas ferramentas de apoio ao diagnóstico. Está a deslocar-se para um desafio mais estratégico: o controlo das infraestruturas capazes de alojar, proteger e explorar dados médicos em grande escala.
É neste contexto que se insere a parceria concluída na semana passada em Casablanca, no Marrocos, entre a Mediot AI, filial do grupo ABA Life, e a Siemens Healthineers. As duas empresas pretendem desenvolver uma nova geração de infraestruturas médicas baseadas em inteligência artificial, com uma primeira fase de implementação em Marrocos antes de uma expansão progressiva para outros mercados africanos.
O acordo cobre várias áreas estratégicas, incluindo hospitais inteligentes, interoperabilidade dos sistemas de informação hospitalar, imagiologia médica assistida por IA, manutenção preditiva de equipamentos biomédicos e plataformas de telemedicina. No centro do sistema está o “Medifus Health Operating System”, uma plataforma desenvolvida pela Mediot AI destinada a ligar equipamentos médicos, dados clínicos e modelos de inteligência artificial num ambiente seguro.
Para além da dimensão tecnológica, a iniciativa responde a vários desafios estruturais enfrentados por muitos sistemas de saúde africanos: a escassez de profissionais qualificados, as desigualdades territoriais no acesso aos cuidados e a fraca utilização de dados médicos para melhorar os percursos de saúde.
Estes desafios são destacados pelo Africa CDC. No seu relatório “African Health Workforce Compact – Investment Case Analysis Report”, publicado em janeiro de 2026, a instituição estima que África necessitará de 6,1 milhões de profissionais de saúde adicionais para alcançar a cobertura sanitária universal até 2030.
Neste contexto, os promotores do projeto consideram a inteligência artificial como uma alavanca capaz de reforçar as capacidades de diagnóstico, melhorar a tomada de decisão clínica e apoiar o desenvolvimento da telemedicina, sobretudo em zonas com infraestruturas de saúde insuficientes.
A escolha de Marrocos como ponto de partida não é por acaso. O reino tem vindo a aumentar os investimentos na transformação digital do sistema de saúde, em paralelo com a generalização progressiva da cobertura médica. Segundo a Siemens Healthineers, mais de 32 milhões de marroquinos beneficiam atualmente de cobertura de saúde obrigatória, criando um ambiente favorável à adoção de novas tecnologias médicas.
A iniciativa surge também num contexto de crescente importância das questões de soberania digital e sanitária. Os dados de saúde estão entre as informações mais sensíveis tratadas pelas administrações e hospitais. O parceria entre a Mediot AI e a Siemens Healthineers prevê assim o desenvolvimento de ambientes soberanos destinados ao armazenamento seguro de dados médicos e à implementação de soluções de inteligência artificial.
Samira Njoya (We Are Tech Africa)













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