Confrontada com a erosão das suas capacidades de transformação mineira, a África do Sul procura reforçar a competitividade das suas indústrias eletrointensivas, num contexto marcado pelo aumento dos custos energéticos e pela concorrência chinesa.
O regulador sul-africano da energia, National Energy Regulator of South Africa, aprovou na sexta-feira, 29 de maio, uma tarifa preferencial de eletricidade de 0,03 dólares por quilowatt-hora para dois grandes produtores de ferrocromo: Samancor Chrome e a empresa conjunta formada pela Glencore e pela Merafe Resources. Solicitada pela Eskom em abril, esta medida visa apoiar atividades que se tornaram cada vez menos competitivas devido ao aumento dos custos da eletricidade.
O ferrocromo é uma liga produzida a partir de crómio e ferro. Constitui uma matéria-prima essencial para a produção de aço inoxidável. A sua importância ultrapassa, por isso, o setor mineiro, alimentando uma cadeia industrial de elevado valor acrescentado.
Uma indústria fragilizada pela explosão dos custos da eletricidade
A questão é particularmente importante para a África do Sul. Maior produtor mundial de minério de crómio, o país perdeu gradualmente a sua posição dominante na transformação local deste recurso em benefício da China. A principal razão prende-se com o custo da eletricidade, que aumentou mais de 900% desde 2008. Este aumento degradou fortemente a rentabilidade das fundições sul-africanas.
As consequências foram visíveis no tecido industrial. Dezenas de fundições encerraram nos últimos anos, provocando a perda de milhares de empregos diretos e indiretos. Os produtores afetados tinham já iniciado processos de encerramento e despedimento, considerando que as suas atividades deixaram de ser viáveis nas condições tarifárias existentes.
A decisão do regulador procura, assim, evitar novos encerramentos. Os acordos aprovados preveem uma duração de cinco anos para a Samancor Chrome e de três anos para a empresa conjunta Glencore-Merafe.
Para além da manutenção das fábricas, o objetivo passa também por preservar competências industriais difíceis de reconstruir. A produção de ferrocromo exige conhecimentos especializados em processos metalúrgicos de alta temperatura, gestão de sistemas elétricos complexos e controlo de qualidade.
Esta decisão apresenta igualmente vantagens para a Eskom. As fundições estão entre os maiores consumidores de eletricidade do país. A sua manutenção garante uma procura industrial estável e contínua, melhorando a utilização da rede elétrica e contribuindo para a estabilidade financeira da empresa pública.
Um instrumento de competitividade para as indústrias eletrointensivas
As autoridades procuraram também evitar que esta medida resultasse numa transferência de custos para as famílias ou para as empresas. A Eskom afirma que a perda de receita associada à tarifa reduzida não poderá ser recuperada posteriormente através dos mecanismos tarifários tradicionais. O sistema não requer igualmente apoio orçamental adicional do Estado e inclui um mecanismo de partilha de ganhos quando as condições de mercado melhoram.
Esta abordagem contrasta com as dificuldades observadas noutras partes da região. Em Mozambique, a ausência de um acordo sobre uma tarifa elétrica competitiva levou a South32 a anunciar a suspensão iminente da fundição de alumínio Mozal. Este precedente ilustra a importância do acesso a energia a preços acessíveis para a sobrevivência das indústrias eletrointensivas.
Olivier de Souza













Dakar, Senegal