A África enfrenta vários desafios energéticos. Por um lado, mais de 600 milhões de pessoas vivem sem acesso fiável à eletricidade. Por outro, os Estados têm dificuldades em financiar a expansão e a modernização de redes elétricas já sob pressão. Entre estes dois extremos estão hospitais, escolas e administrações que ainda dependem amplamente de geradores a gasóleo para manter as suas atividades durante os cortes de energia.
Em África, os desafios energéticos são frequentemente abordados de forma separada, seja o acesso à eletricidade, a fiabilidade das redes ou o custo do abastecimento. No entanto, um mesmo instrumento poderia ajudar a responder simultaneamente a estas diferentes questões. É o que destaca um relatório do Banco Mundial publicado em março de 2026 e intitulado «Potencial da energia solar em telhados nos países de rendimento baixo e médio».
O documento sublinha o papel crescente da energia solar em telhados como solução para múltiplos desafios do setor elétrico. Durante muito tempo marginal, este modelo afirma-se progressivamente como uma solução capaz de melhorar simultaneamente o acesso à eletricidade, a resiliência das infraestruturas essenciais e a sustentabilidade financeira dos sistemas elétricos.
A África subsaariana dispõe de um dos maiores potenciais solares do mundo. No entanto, a energia solar em telhados continua pouco desenvolvida, apesar da sua capacidade de responder a vários desafios em simultâneo, nomeadamente a fragilidade das redes, a dependência do gasóleo e o aumento da procura energética.
Responder à primeira urgência: eletricidade mais fiável para famílias e cidades
Em muitos países africanos, a questão já não é apenas o acesso à eletricidade, mas a sua continuidade. As falhas frequentes de energia perturbam as atividades económicas, aumentam os custos para as famílias e reforçam a dependência de soluções alternativas, como os geradores. A energia solar em telhados permite produzir eletricidade diretamente no local de consumo, reduzindo a pressão sobre redes frequentemente saturadas ou insuficientes.
Quando associada a baterias, permite também assegurar a continuidade do serviço em caso de falha da rede. Para famílias e empresas, o benefício é duplo: um fornecimento mais estável e uma redução progressiva dos custos energéticos. Para os Estados, cada quilowatt-hora produzido localmente reduz as necessidades de transporte e de investimento em infraestruturas de rede.
Nas zonas urbanas em forte crescimento, onde a procura aumenta mais rapidamente do que a capacidade de produção e distribuição, esta lógica torna-se particularmente relevante.
Um trunfo essencial para as infraestruturas de saúde
O potencial da energia solar em telhados é ainda mais crítico no setor da saúde. Em muitos países africanos, hospitais e clínicas dependem fortemente do gasóleo para compensar as falhas de eletricidade. Esta dependência tem custos elevados e expõe os estabelecimentos a riscos operacionais em caso de interrupção do fornecimento de combustível.
A experiência do Top Care Nursing Home, em Nairobi, no Quénia, ilustra uma alternativa concreta. Durante uma grande falha de energia nacional em 2023, a instituição conseguiu manter as suas atividades graças a um sistema solar com baterias. Este exemplo mostra que um investimento energético pode também ser um investimento em saúde pública.
Num hospital, uma interrupção de energia pode afetar os cuidados, a conservação de medicamentos ou o funcionamento de equipamentos essenciais. A energia solar em telhados surge, assim, como um fator de resiliência para estas infraestruturas críticas.
Porque é que o contexto é hoje favorável
O desenvolvimento da energia solar em telhados tornou-se possível sobretudo devido à evolução do seu modelo económico. O custo dos painéis fotovoltaicos caiu mais de 80% nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, surgiram modelos de financiamento inovadores que permitem ultrapassar a barreira do investimento inicial.
As empresas podem agora financiar, instalar e explorar os sistemas, sendo remuneradas progressivamente através das poupanças geradas ou da venda de eletricidade. Este modelo facilita o acesso à energia solar para famílias, empresas e instituições públicas, sem grandes investimentos iniciais.
Face ao gasóleo, a vantagem é estrutural: uma vez instalado, o solar oferece um custo de produção estável, enquanto o combustível continua exposto à volatilidade dos preços internacionais e a constrangimentos logísticos.
Lições das experiências internacionais
Os países que conseguiram desenvolver rapidamente a energia solar em telhados partilham geralmente três abordagens complementares. A primeira consiste em priorizar edifícios públicos estratégicos, como hospitais, escolas e administrações. A segunda baseia-se em mecanismos de financiamento adaptados para reduzir o esforço inicial dos utilizadores. A terceira envolve a integração progressiva do solar nos sistemas elétricos nacionais através de quadros regulatórios claros.
Esta abordagem gradual permite gerar resultados visíveis sem esperar por uma transformação profunda das infraestruturas energéticas. A energia solar em telhados não substitui as centrais elétricas nem as redes nacionais; complementa-as. Num contexto marcado por défice de acesso à eletricidade, infraestruturas frágeis e fortes restrições orçamentais, trata-se de uma das poucas soluções capazes de produzir múltiplos efeitos a partir de um único investimento.
Para os países africanos, o desafio já não é demonstrar a viabilidade técnica. Trata-se antes de transformar o potencial ainda largamente inexplorado dos telhados dos edifícios públicos e privados numa verdadeira infraestrutura energética distribuída. Só assim a energia solar em telhados poderá passar de solução complementar a pilar estruturante do desenvolvimento energético do continente africano.
Olivier de Souza













Dakar, Senegal