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Gás: a Itália reforça o seu eixo energético com a Líbia perante as tensões no abastecimento.

Gás: a Itália reforça o seu eixo energético com a Líbia perante as tensões no abastecimento.
Sexta-feira, 8 de Maio de 2026

As tensões no mercado mundial do gás estão a levar a Itália a reforçar as suas parcerias energéticas mediterrânicas, com o objetivo de garantir maior segurança no abastecimento energético.

A Itália e a Líbia pretendem acelerar os seus projetos conjuntos no setor do gás, a fim de reforçar a segurança dos abastecimentos energéticos no Mediterrâneo, num contexto marcado por tensões geopolíticas internacionais e perturbações no mercado global do gás. Reunidos em Roma, na quinta-feira, 7 de maio, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chefe do governo líbio, Abdulhamid Dbeibah, manifestaram a vontade de reforçar a cooperação e os investimentos no setor energético.

Este encontro ocorre numa altura em que Roma procura reduzir a sua exposição aos choques que afetam os fluxos globais de energia. As recentes perturbações nas exportações catarianas de GNL, após ataques iranianos que afetaram parte das capacidades do país, reacenderam as preocupações em torno da dependência europeia dos abastecimentos transportados por via marítima. Muito dependente das importações, a Itália procura garantir maiores volumes junto de fornecedores próximos e ligados por gasodutos.

Nesta estratégia, a Líbia ocupa uma posição-chave. O país norte-africano continua a ser o principal fornecedor de petróleo bruto da Itália, representando cerca de um quinto das importações italianas. Os dois países estão igualmente ligados pelo gasoduto GreenStream, que conecta o complexo gasífero de Mellitah, na costa líbia, à Sicília.

Exportações líbias limitadas por constrangimentos estruturais

Contudo, as exportações líbias de gás para a Itália diminuíram nos últimos anos. Passaram de cerca de 1,4 mil milhões de metros cúbicos em 2024 para aproximadamente 1 mil milhão de metros cúbicos em 2025. Esta queda reflete vários constrangimentos estruturais, incluindo o aumento do consumo interno na Líbia, infraestruturas envelhecidas, interrupções frequentes nos processos de produção e a persistente instabilidade política. Estas dificuldades mantêm o gasoduto GreenStream amplamente subutilizado.

Perante esta situação, Roma e Tripoli procuram acelerar os investimentos destinados a relançar a produção e modernizar as infraestruturas. Membros da Comissão Parlamentar italiana responsável pela segurança já tinham sublinhado, no final de abril, a necessidade de aumentar os investimentos para reforçar as exportações líbias para a Itália.

O grupo italiano Eni está no centro desta estratégia. Presente na Líbia desde 1959, continua a ser o principal operador internacional no país, com uma produção de cerca de 162 mil barris equivalentes de petróleo por dia em 2025. Três projetos de desenvolvimento estão atualmente em curso, dois dos quais deverão entrar em produção já em 2026.

O programa de investimento, estimado em cerca de 10 mil milhões de dólares, inclui nomeadamente o projeto offshore de compressão de Sabratha, o “Bouri Gas Utilization Project”, destinado à recuperação de gás associado, bem como o desenvolvimento offshore A&E, apresentado como o maior investimento energético realizado na Líbia em mais de vinte anos.

O Mediterrâneo no centro da estratégia energética italiana

Para além dos projetos líbios, esta ofensiva traduz uma evolução mais ampla da política energética italiana. Desde a reconfiguração dos mercados europeus da energia nos últimos anos, Roma procura fazer do Mediterrâneo um eixo prioritário para garantir os seus abastecimentos.

A Itália reforça simultaneamente as suas negociações com a Argélia, o seu principal fornecedor de gás por gasoduto através do Transmed, explorando também alternativas com os Estados Unidos e o Azerbaijão. Contudo, num ambiente marcado por tensões nas rotas marítimas e pela volatilidade do GNL, os abastecimentos regionais por gasoduto ganham importância estratégica.

Para Tripoli, esta cooperação representa uma oportunidade de estabilizar a sua produção, modernizar um setor fragilizado e atrair mais capitais estrangeiros. No entanto, a capacidade da Líbia de transformar estes compromissos num aumento sustentável da produção continuará dependente da evolução dos seus constrangimentos internos e do contexto regional.

Olivier de Souza

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