A medida que a cozinha limpa se afirma progressivamente como uma prioridade energética em África, o adiamento da principal cimeira continental dedicada a esta questão reacende as interrogações sobre a capacidade do continente para manter o impulso em torno deste desafio crucial.
Na quarta-feira, 10 de junho, os organizadores da Cimeira sobre Cozinha Limpa em África anunciaram o adiamento do evento, inicialmente previsto para os dias 9 e 10 de julho de 2026, em Nairobi. Entre os organizadores encontram-se a Agência Internacional da Energia (AIE), o Governo do Quénia, a Noruega e outros parceiros internacionais. Estes justificaram a decisão com as «incertezas persistentes» e as «circunstâncias em evolução» que poderão limitar a participação das principais partes interessadas.
Os organizadores garantiram, contudo, que os compromissos financeiros anunciados antes da cimeira serão apresentados durante uma reunião virtual de alto nível agendada para 9 de julho.
«Esta reunião permitirá fazer um ponto da situação sobre os progressos alcançados e destacar os principais resultados obtidos, nomeadamente os compromissos financeiros significativos anunciados antes da cimeira», refere o comunicado.
O documento sublinha igualmente que os avanços registados desde a primeira Cimeira sobre Cozinha Limpa em África, realizada em Paris em 2024, continuam a verificar-se.
Uma dinâmica em curso, mas desafios persistentes
Segundo uma nota publicada pela AIE em julho de 2025, já tinham sido desembolsados 470 milhões de dólares dos 2,2 mil milhões de dólares de compromissos públicos e privados anunciados durante a primeira edição. Mais de 70% dos africanos sem acesso a soluções de cozinha limpa vivem atualmente em países que reforçaram as suas políticas neste domínio desde 2024, com a adoção de quase 40 novas medidas.
Apesar destes progressos, o desafio continua a ser enorme. A AIE estima que cerca de mil milhões de pessoas na África Subsaariana ainda não tenham acesso a soluções de cozinha limpa. Esta situação é responsável, todos os anos, por cerca de 815 mil mortes prematuras associadas à poluição do ar doméstico.
O adiamento da cimeira ocorre num momento em que os defensores da cozinha limpa procuram, há vários anos, fazer reconhecer esta questão como uma prioridade energética de pleno direito. Durante muito tempo ofuscada pelos desafios relacionados com o acesso à eletricidade, a temática tem beneficiado recentemente de uma atenção crescente por parte dos governos, dos financiadores e do setor privado.
A edição de Nairobi deveria precisamente servir para consolidar esta dinâmica. Resta saber se o adiamento não afetará a visibilidade política de uma questão que ainda luta para se afirmar de forma duradoura na agenda energética africana.
Abdoullah Diop













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