O abastecimento de minerais críticos, essenciais para a transição energética e as tecnologias de ponta, afirma-se como uma questão geopolítica de grande importância. Esta dinâmica traduz-se na multiplicação recente de acordos bilaterais de cooperação nesta matéria entre grandes potências.
Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) estão atualmente a trabalhar num acordo de cooperação em matéria de abastecimento de minerais críticos, segundo informações reveladas no final da semana passada pela Bloomberg. Esta iniciativa estratégica visa coordenar os esforços das duas potências para reduzir a sua dependência da China, ator dominante no mercado mundial.
Desde a extração até ao refino de matérias-primas como o cobre, as terras raras ou o grafite, a China ocupa uma posição central nas cadeias de abastecimento globais. Um estatuto que Pequim não hesita em instrumentalizar nas suas rivalidades geopolíticas, como demonstra o endurecimento dos seus controlos à exportação de terras raras e seus derivados em 2025.
Neste contexto, Bruxelas e Washington ponderam um acordo que visa diversificar os seus abastecimentos. As discussões incluem nomeadamente a implementação de medidas de incentivo, como preços mínimos destinados a apoiar fornecedores não chineses. Incluem também mecanismos de coordenação de investimentos e projetos conjuntos, bem como dispositivos de resposta em caso de perturbações dos fluxos de abastecimento. O quadro em análise abrangeria toda a cadeia de valor dos minerais críticos e poderia integrar concursos públicos conjuntos.
Finalmente, o elo em falta face a Pequim?
Embora a iniciativa ainda não tenha sido oficialmente confirmada, importa notar que um acordo de cooperação entre as duas partes já tinha sido equacionado em 2023. Estas novas revelações surgem num contexto marcado pela multiplicação de acordos semelhantes celebrados por estas potências com outros atores envolvidos na diversificação das cadeias de abastecimento globais.
Os Estados Unidos assinaram assim várias parcerias relevantes com a Austrália, o Canadá, o Japão e o México. Por seu lado, a União Europeia integrou os minerais críticos no seu acordo de comércio livre com a Austrália, concluído em março passado. As duas potências são também membros do Forum on Resource Geostrategic Engagement (FORGE), uma iniciativa transnacional que reúne países empenhados na segurança do abastecimento de matérias-primas estratégicas.
Para além da simples vontade de reduzir a influência chinesa, a concretização de um tal acordo constituiria um avanço adicional na implementação da sua transição energética. O interesse crescente pelos minerais críticos prende-se com o seu papel central nas dinâmicas de descarbonização global. O cobre é, por exemplo, indispensável à eletrificação, o grafite e o lítio à produção de baterias para veículos elétricos (VE), enquanto as terras raras são essenciais aos ímanes utilizados nas turbinas eólicas e nos motores de VE.
Que leitura para África?
Para África, cujo subsolo alberga cerca de 30% das reservas mundiais de minerais críticos, segundo estimativas, um acordo entre a UE e os Estados Unidos pode ser estratégico, sobretudo na forma como irá influenciar as suas ações no continente. Nos últimos meses, Washington tem aliás feito de África um pilar da sua estratégia, multiplicando iniciativas, nomeadamente através de um acordo de cooperação com a República Democrática do Congo (maior produtor mundial de cobalto e segundo maior de cobre), bem como investimentos em vários outros países da região.
Por seu lado, a União Europeia também reforça a sua presença, com o recente lançamento de um novo instrumento destinado a apoiar os seus investimentos em minerais críticos. Designado PanAfGeo+, este dispositivo deverá visar nomeadamente a República Democrática do Congo, a Namíbia e a África do Sul.
Aurel Sèdjro Houenou













Palais des Expositions, Alger (Safex)