Enquanto mais de 4 jovens em cada 10 se encontram sem emprego em Angola e a economia continua a não gerar postos de trabalho qualificados suficientes, operadores privados do setor digital afirmam-se como um complemento essencial a um sistema público de formação ainda insuficiente.
Em Angola, o setor privado está a multiplicar iniciativas para dotar a juventude das competências exigidas pelo mercado de trabalho. Na semana passada, a academia TIS, uma empresa de consultoria em transformação digital, anunciou a intenção de formar 10 000 angolanos em competências digitais até ao final de 2026. Concebida para empresas, quadros, técnicos e estudantes, a iniciativa dirige-se a um público amplo. Destina-se tanto a jovens desempregados como a profissionais já em atividade.
Um programa ancorado nas necessidades do mercado
Para responder a esta diversidade de perfis, a academia estruturou a sua oferta em quatro pilares. O pilar Tech abrange tecnologias da informação, cibersegurança e ciência de dados. Um segundo eixo é dedicado à gestão empresarial. Um terceiro prepara quadros para liderança técnica e digital. Um quarto pilar, transversal, dedica-se ao diagnóstico do capital humano dentro das organizações. Competências comportamentais — comunicação, postura profissional e preparação para o emprego — complementam cada percurso. “A missão é promover o desenvolvimento humano e organizacional através de programas que integram tecnologia, inovação e liderança”, explicou Messias Lourenço, diretor da academia.
Para massificar a formação, a TIS aposta na autoformação online e em parcerias com universidades angolanas. Estes mecanismos permitem, segundo os responsáveis, atingir um volume de diplomados que o ensino presencial não conseguiria garantir. Também reduzem o custo de acesso para os formandos. Os profissionais em atividade beneficiam ainda de percursos de formação contínua.
Quando o privado complementa o que o público ainda não cobre
Esta dinâmica privada insere-se num contexto de esforço público ainda insuficiente face à procura. O Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP) formou 152 465 cidadãos, na sua maioria jovens, entre 2023 e o primeiro semestre de 2024. A rede pública de centros de formação passou de 1 313 para 1 646 unidades no mesmo período. Em 2025, o Banco Mundial e o INEFOP lançaram o Projeto de Oportunidades de Emprego para Jovens em Angola (AYEOP), destinado a jovens dos 16 aos 35 anos. Este programa, em curso até 2029, abrange empreendedorismo, inserção feminina e reforço do sistema nacional de formação.
Apesar destes avanços, a procura continua a ultrapassar a capacidade existente. Os atores privados como a TIS não competem com o Estado; ocupam os espaços que o sistema público ainda não cobre. Este posicionamento complementar confere-lhes uma relevância duradoura no mercado angolano.
O desafio permanece significativo. O desemprego jovem em Angola atingia 43,6% no quarto trimestre de 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). O país registou um crescimento de 4,4% do PIB em 2024, impulsionado pelo setor não petrolífero, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento. Contudo, este crescimento ainda não se traduz em empregos qualificados para a juventude. Para reduzir a dependência dos hidrocarbonetos, Angola precisará de técnicos, quadros e empreendedores formados em competências digitais. A Sociedade Financeira Internacional (SFI) estima que 230 milhões de empregos na África subsaariana exigirão competências digitais até 2030, num mercado avaliado em 130 mil milhões de dólares.
Félicien Houindo Lokossou













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