O papel fundamental e a participação ativa dos chamados “tirailleurs senegaleses” na libertação da Europa do domínio nazi em 1944 permanecem pouco representados em alguns relatos oficiais. Agora, uma exposição dedicada devolve a estes combatentes o seu verdadeiro valor no contexto histórico.
Uma exposição internacional intitulada “Tirailleurs: Da carne para canhão à vanguarda – Os soldados esquecidos que libertaram a Europa” está a decorrer no Haus der Kulturen der Welt (HKW), em Berlim, desde março de 2026, e prolonga-se até domingo, 14 de junho. A mostra destaca o papel dos tirailleurs africanos nas guerras mundiais e a sua memória durante muito tempo marginalizada.
O sangue derramado e os sacrifícios feitos pelos jovens soldados provenientes das colónias africanas nos campos de batalha do “Velho Continente” continuam a marcar as memórias, apesar das tentativas de apagamento desta realidade histórica, que merece uma atenção particular.
A exposição reúne mais de trinta artistas de renome internacional, entre os quais Kader Attia, Barthélémy Toguo, Pascale Marthine Tayou, El Hadji Sy, Binta Diaw e Josèfa Ntjam. Apresenta catorze obras produzidas especificamente para a ocasião, bem como um conjunto de arquivos e documentos históricos dedicados aos tirailleurs africanos. O percurso é ainda enriquecido pela projeção de filmes realizados por figuras maiores do cinema africano, como Ousmane Sembène, Rachid Bouchareb e Idrissou Mora-Kpa.
Soldados negros invisíveis na arte de vanguarda
Embora tenham participado na linha da frente dos grandes conflitos da época moderna, os tirailleurs africanos permaneceram durante muito tempo ausentes das representações da vanguarda artística, quando não eram reduzidos a estereótipos racistas difundidos pela propaganda colonial. A sua ausência revela os limites deste modelo artístico, apesar de algumas exceções como Félix Vallotton e Othon Friesz, “dois pintores modernistas europeus que representaram os Tirailleurs como seres humanos”, segundo o HKW no seu site.
No mesmo momento em que estes soldados combatiam na Europa, os artistas modernistas inspiravam-se em máscaras e esculturas africanas, desligadas dos seus autores e contextos. Aquilo que foi celebrado como inovação formal correspondia, na realidade, a uma apropriação e extração culturais.
O branqueamento das tropas coloniais
“Enquanto a Resistência interna se junta às fileiras do exército regular, o Estado-Maior aproveita para ‘branquear as tropas’ a partir de setembro de 1944: entre 15 000 e 20 000 soldados vindos da África subsaariana são retirados da frente e substituídos por jovens resistentes, muito menos experientes militarmente”, afirma a France 24 num artigo de novembro de 2024 sobre a comemoração dos 80 anos do desembarque na Provença. O artigo explica ainda que os tirailleurs assim desmobilizados foram privados da vitória final. Vários historiadores consideram que esta decisão contribuiu para invisibilizar o papel dos soldados africanos na libertação da França.
Relegados para segundo plano nas artes e frequentemente apagados da história, quem são afinal os “tirailleurs senegaleses”?
“Tirailleurs” ou “tirailleurs senegaleses” no contexto histórico
A designação “tirailleurs” surge em Saint-Louis do Senegal em 1857 e alarga-se rapidamente para designar soldados oriundos das colónias francesas de África, Ásia, Caraíbas e Pacífico. A exposição não a trata como uma categoria fixa, mas como um instrumento crítico para analisar realidades comuns: recrutamento forçado, trabalho obrigatório, deslocações transnacionais e o surgimento de uma consciência política que alimenta lutas anticoloniais, antifascistas e pan-africanas.
O evento destaca também o papel pouco conhecido das mulheres, as “Mesdames Tirailleurs”, que asseguravam a sobrevivência das famílias e diversas funções. O recrutamento imposto foi uma prática central dos impérios, como mostram os Askari (soldados em árabe) da África Oriental Alemã, os nigerianos enviados para a Birmânia, os goumiers marroquinos ou os soldados afro-americanos sujeitos à segregação.
Este processo persiste sob outras formas, marcado por pensões desiguais, apagamento da memória e pedidos de reparações, sendo o massacre de Thiaroye em 1944 o exemplo mais brutal.
Ubrick F. Quenum













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