Gana, Tanzânia, Uganda e Zimbabué: cada vez mais produtores africanos de ouro compram agora o metal extraído do seu próprio subsolo. Mas, depois de adquirido, o ouro não tem a mesma função em todos os países e a sua gestão envolve riscos.
53% dos bancos centrais inquiridos num estudo mundial publicado na terça-feira, 16 de junho, já implementaram um programa de compra de uma parte da produção nacional de ouro, enquanto 12% consideram criar um. Com estes mecanismos a multiplicarem-se em África, a questão já não é apenas saber como o ouro é acumulado, mas também qual será a sua utilização.
Os bancos centrais compraram em média 1 000 toneladas de ouro por ano nos últimos quatro anos, o dobro do registado na década anterior, segundo o World Gold Council. No seu inquérito anual, a organização indica que 89% das instituições esperam ainda um aumento das reservas oficiais mundiais nos próximos doze meses e 45% preveem reforçar os seus próprios ativos. Metade destas últimas pretende financiar as suas aquisições através de programas domésticos em moeda local.
Esta tendência tem um eco particular em África, já que, do Gana à Tanzânia, passando pelo Zimbabué, vários países produtores têm constituído reservas de ouro nos últimos anos por diferentes razões.
O mesmo ouro, diferentes utilizações
No Gana, o ouro comprado não é totalmente destinado a permanecer nos cofres do banco central e já foi utilizado para pagar despesas do Estado, como importações de produtos petrolíferos.
A nova política nacional de acumulação de reservas (GANRAP), adotada em fevereiro de 2026 pelo Parlamento, distingue o ouro adquirido junto das grandes minas — que deve integrar as reservas físicas e só poderá ser vendido com autorização do governo e do Parlamento — do ouro artesanal recolhido por uma entidade específica, o GoldBod.
Este ouro artesanal é sobretudo comercializado para gerar divisas posteriormente entregues ao Bank of Ghana. Assim, o metal precioso serve simultaneamente como reserva de longo prazo e como instrumento para obter dólares.
O Zimbabué atribui ao ouro uma função mais diretamente monetária. Lançado em abril de 2024, o Zimbabwe Gold (ZiG) é a moeda nacional apoiada por um conjunto de reservas em ouro e divisas. As reservas de ouro do banco central passaram de 1,5 toneladas no lançamento da moeda para 4,03 toneladas no final de 2025, contribuindo para reforçar a cobertura do ZiG e a confiança na moeda.
Lançado oficialmente em setembro de 2023, o programa do banco central da Tanzânia permitiu acumular 27,5 toneladas até 10 de junho de 2026. O Bank of Tanzania, que tinha deixado de reforçar as suas reservas de ouro desde 2002, destaca a importância desta nova política para aumentar e diversificar as reservas cambiais.
O Uganda encontra-se numa fase mais inicial: o programa-piloto lançado em abril de 2026 prevê armazenar o ouro no banco central antes da sua integração nas reservas oficiais.
Neste cenário, a posição do Banco Central dos Estados da África Ocidental é particular. A instituição gere uma reserva comum de ouro dos oito países membros da UEMOA, que não provém diretamente do subsolo de países produtores como a Costa do Marfim, Mali ou Burkina Faso. Esta reserva situava-se em cerca de 1,52 milhões de onças em 2025, ou aproximadamente 47 toneladas.
Desde 2023, a instituição coloca uma parte deste ouro para gerar receitas e pode vendê-lo em troca de divisas. Os volumes aplicados atingiram 541 751 onças no final de 2025, contra 200 000 um ano antes.
Os riscos da gestão
As escolhas dos Estados africanos mostram que gerir ouro não significa apenas guardá-lo em cofres. Cada opção expõe, contudo, a instituição responsável a decisões complexas entre rentabilidade, disponibilidade das reservas e custos operacionais.
A experiência do Gana ilustra as dificuldades que podem surgir quando o ouro é mobilizado em grande escala para vários objetivos ao mesmo tempo.
Segundo o Bank of Ghana, os programas Gold-for-Oil e Gold-for-Reserves lançados pelo país desde 2021 registaram perdas líquidas acumuladas de 7,11 mil milhões de cedis (629 milhões de dólares) entre 2022 e 2024. Estas perdas não dizem respeito apenas ao ouro mantido em reserva, mas também incluem as trocas de ouro por petróleo e a comercialização do ouro artesanal.
Embora o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheça que o desenvolvimento do programa de compra doméstica de ouro contribuiu para o Gana ultrapassar as metas de reservas, considera, no entanto, que estas aquisições expõem o Bank of Ghana às variações do preço do ouro e a riscos de liquidez.
A instituição recomenda que as perdas sejam registadas no orçamento do Estado em vez de serem suportadas pelo banco central, além de defender uma redução progressiva das compras.
Acra escolheu uma abordagem diferente. A política GANRAP prevê cerca de 3,02 toneladas de compras de ouro por semana e uma cobertura de quinze meses de importações até ao final de 2028, enquanto parte das operações do GoldBod será financiada pelo orçamento público.
A próxima etapa não será apenas acumular mais ouro, mas demonstrar que o metal precioso pode reforçar as reservas sem enfraquecer o balanço da instituição responsável pela sua gestão.
Emiliano Tossou













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