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África Ocidental: o que é preciso saber sobre o ressurgimento da gripe aviária no primeiro semestre

África Ocidental: o que é preciso saber sobre o ressurgimento da gripe aviária no primeiro semestre
Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

Uma das doenças virais mais mortíferas que afetam as aves de criação, a gripe aviária está a atingir cada vez mais a África Ocidental. Numa região onde a produção avícola ainda depende fortemente de explorações familiares ou semi-intensivas, esta doença pode rapidamente fragilizar os rendimentos dos criadores.

Desde o início de 2026, vários países da África Ocidental registaram novos surtos de gripe aviária altamente patogénica (H5N1). Este ressurgimento volta a colocar em evidência um risco sanitário antigo, mas ainda pouco controlado pelas cadeias avícolas da sub-região. Explicações.

Já três países afetados em 2026

Provavelmente o país mais afetado em 2026, a Nigéria confirmou, no dia 4 de junho, através do seu Ministério do Desenvolvimento da Pecuária, o aparecimento de vários surtos da doença desde janeiro de 2026 nos estados de Kebbi, Kano, Katsina, Plateau e Bauchi.

Antes disso, foi o Senegal que notificou, a 3 de junho, à Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA), o aparecimento de um foco de gripe aviária altamente patogénica H5N1, marcando o regresso da doença após três anos de relativa tranquilidade. Segundo a declaração oficial, a infeção terá sido introduzida através de patos reprodutores comprados num mercado local da região de Fatick, antes de ser confirmada numa exploração avícola situada em Dakar.

Algumas semanas antes, a 16 de abril de 2026, a Costa do Marfim também tinha comunicado à OMSA um foco de H5N1 numa exploração em Koun-Fao. O episódio provocou a morte de cerca de 95 mil aves e marcou o regresso do vírus após mais de cinco anos sem declarações oficiais.

Uma doença altamente contagiosa e recorrente

A gripe aviária altamente patogénica é uma doença viral que afeta principalmente aves domésticas e aves selvagens. O vírus H5N1 transmite-se rapidamente entre animais através do contacto direto, pelas fezes, secreções respiratórias ou equipamentos contaminados. Segundo a OMSA, a doença provoca geralmente taxas de mortalidade muito elevadas nas aves.

A situação atual na África Ocidental insere-se numa dinâmica regional observada há vários anos. De acordo com os dados da OMSA, a região registou uma primeira vaga importante em 2021, quando nove países da sub-região comunicaram novos focos da doença: Senegal, Costa do Marfim, Togo, Níger, Mali, Gana, Nigéria, Benim e Mauritânia.

Entre 2022 e 2023, a circulação do vírus continuou de forma intermitente, com novos focos registados no Burkina Faso, Togo, Níger, Senegal, Guiné e Gâmbia, confirmando a persistência do vírus no ecossistema avícola regional.

Entre 2024 e 2025, observou-se uma nova intensificação, com notificações em vários países, incluindo Nigéria, Níger, Gana, Togo e Libéria, afetando tanto aves domésticas como, em alguns casos, aves selvagens.

Assim, a gripe aviária surge menos como uma sucessão de episódios isolados e mais como uma epizootia regional cíclica, caracterizada por vagas sucessivas e períodos de relativa acalmia desde 2021.

O que os Estados estão a fazer para conter a nova epizootia

Perante o ressurgimento do vírus, vários países da sub-região, incluindo aqueles que ainda não foram afetados, estão a reforçar os seus mecanismos de prevenção.

O governo da Nigéria, em colaboração com a FAO, lançou em maio um novo projeto intitulado «Apoio de emergência para a prevenção e controlo da gripe aviária altamente patogénica (IAAP)». Com um custo total de 350 mil dólares, esta iniciativa pretende conter os novos casos através do reforço dos sistemas de vigilância, diagnóstico e comunicação dos riscos associados aos surtos na indústria avícola.

Está previsto que o projeto forme 240 agentes de saúde animal ao longo de nove meses. Também apoiará o desenvolvimento de ferramentas de previsão para melhorar a preparação e reduzir riscos futuros relacionados com a gripe aviária no país.

Entre 26 de abril e 2 de maio, o Burkina Faso, que faz fronteira com a Costa do Marfim, realizou uma campanha de sensibilização nos postos fronteiriços para reduzir os riscos de introdução do vírus no seu território.

A Guiné anunciou igualmente, a 4 de junho, o reforço da vigilância epidemiológica nas fronteiras e nas zonas de criação próximas do Senegal e da Costa do Marfim, dois países atualmente afetados com os quais partilha fronteiras.

De forma mais ampla, a estratégia regional baseia-se na deteção precoce dos focos, no controlo da circulação de aves, no reforço das medidas de biossegurança nas explorações e no abate sanitário quando necessário. Estas ações contam com o apoio técnico da FAO, da OMSA e dos serviços veterinários nacionais.

Impactos económicos e margem de manobra

Para além da questão sanitária, a gripe aviária representa um risco económico importante para a avicultura da África Ocidental. A epizootia que atingiu a Costa do Marfim em 2021 levou, por exemplo, ao abate sanitário de mais de 600 mil aves, com perdas financeiras estimadas em mais de 3 mil milhões de francos CFA (cerca de 5,3 milhões de dólares), segundo a FAO.

Além disso, os surtos recorrentes perturbam as cadeias de abastecimento, aumentam a volatilidade dos preços da carne de aves e dificultam as decisões de investimento no setor.

Para reduzir o risco de forma sustentável, os Estados terão de reforçar a coordenação transfronteiriça, melhorar os sistemas de vigilância epidemiológica e acelerar a divulgação de boas práticas de biossegurança junto dos criadores.

Caso contrário, a gripe aviária poderá continuar a afirmar-se como um risco estrutural para uma das cadeias pecuárias mais dinâmicas da África Ocidental.

Stéphanas Assocle

 

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