Confrontado com a redução da produção de hidrocarbonetos e com o aumento das importações de gás natural, o Egito tem multiplicado, nos últimos dois anos, as medidas destinadas a restaurar a atratividade do seu setor energético e a estimular novos investimentos.
O país anunciou, a 10 de junho, que liquidou integralmente os pagamentos em atraso devidos aos seus parceiros estrangeiros nos setores do petróleo e do gás, reduzindo pela primeira vez em vários anos esta dívida para zero. Segundo as autoridades, esta operação constitui uma etapa decisiva para restaurar a confiança dos investidores, relançar a exploração e apoiar a produção nacional de hidrocarbonetos.
De acordo com o ministro do Petróleo e dos Recursos Minerais, Karim Badawi, o pagamento integral das quantias em dívida abre «um novo capítulo» para o setor. O responsável considera que a eliminação destes atrasos remove um dos principais entraves ao investimento e permitirá acelerar projetos de desenvolvimento e produção.
Dois anos para regularizar a dívida
O anúncio põe fim a um processo de regularização iniciado há quase dois anos. Em 30 de junho de 2024, os montantes em atraso junto das companhias petrolíferas internacionais ascendiam a cerca de 6,1 mil milhões de dólares. Esta situação resultava principalmente da escassez de divisas que afetou a economia egípcia nos últimos anos, limitando a capacidade do Estado para cumprir determinadas obrigações contratuais denominadas em dólares.
À medida que os pagamentos foram sendo efetuados, o Governo conseguiu reduzir progressivamente o montante em dívida. Depois de reembolsar cerca de 5 mil milhões de dólares, o Cairo previa reduzir o saldo remanescente para 1,2 mil milhões de dólares até junho de 2026. Contudo, a melhoria da disponibilidade de moeda estrangeira permitiu acelerar o processo. O valor em dívida caiu para 770 milhões de dólares em abril de 2026, para 440 milhões em maio e foi totalmente liquidado em junho.
Uma dívida que travava o investimento e a produção
Para além do impacto financeiro, os atrasos nos pagamentos começaram a afetar diretamente o funcionamento do setor petrolífero e gasífero. Perante os incumprimentos, várias empresas internacionais reduziram os seus programas de exploração, perfuração e desenvolvimento de novos campos.
Nos últimos anos, a produção petrolífera egípcia, após um longo período de declínio, mostrou sinais de estabilização e de ligeira recuperação no início de 2026, com uma média de cerca de 523.600 barris por dia no primeiro trimestre, impulsionada sobretudo pela recuperação da produção no Golfo de Suez.
Em contrapartida, a produção de gás natural continua a diminuir, atingindo aproximadamente 3,98 mil milhões de pés cúbicos por dia, o nível mais baixo da última década, devido ao declínio dos campos offshore do Mediterrâneo.
Crescente dependência das importações de gás
Esta evolução ocorre num momento em que as necessidades energéticas do país continuam a aumentar. Segundo dados da Enerdata, o gás natural representa cerca de 81% da produção de eletricidade no Egito. Contudo, o consumo interno ultrapassa agora a produção nacional, obrigando o país a aumentar as importações.
Dados da Kpler, citados pela Middle East Economic Survey, indicam que o Egito importou cerca de 8,92 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) em 2025, um volume recorde que evidencia a pressão crescente sobre o equilíbrio energético nacional.
Recuperar a confiança dos investidores
Para o Governo egípcio, a liquidação total da dívida constitui sobretudo um sinal dirigido aos investidores internacionais. O Ministério do Petróleo considera que a eliminação desta fonte de incerteza favorecerá o regresso dos capitais ao setor da exploração e produção.
Recentemente, as autoridades anunciaram ter assegurado mais de 19 mil milhões de dólares em compromissos de investimento por parte de empresas internacionais para os próximos três anos. Entre os montantes anunciados destacam-se:
- 8 mil milhões de dólares pela Eni;
- 5 mil milhões de dólares pela BP;
- 2 mil milhões de dólares pela Arcius Energy;
- 4 mil milhões de dólares pela Apache.
Esta estratégia não assenta apenas na regularização das dívidas. Em maio, o Ministério do Petróleo anunciou igualmente a introdução de novos modelos contratuais destinados a reforçar a competitividade e a atratividade do setor.
O desafio dos recursos do Mediterrâneo
Um dos principais desafios desta nova fase reside nos projetos localizados no Mediterrâneo. Estes recursos são considerados dos mais promissores para aumentar a produção nacional, mas também dos mais complexos de desenvolver.
Segundo o Ministério do Petróleo, os campos em águas profundas exigem tecnologias avançadas, campanhas de perfuração dispendiosas e a construção de infraestruturas de recolha e transporte de gás antes da entrada em produção. Os investimentos necessários são elevados e os prazos de desenvolvimento podem prolongar-se por vários anos.
Para o Egito, a liquidação integral dos pagamentos em atraso representa, assim, não um ponto de chegada, mas uma condição essencial para a revitalização do setor energético. O objetivo passa agora por transformar a renovada confiança dos investidores em novos projetos, descobertas comercializáveis e maiores volumes de produção de petróleo e gás.
Olivier de Souza













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