“Blackground: murmúrios dos morros” apresenta-se como uma exposição que explora o continuum colonial e as marcas deixadas pela escravatura nos territórios ultramarinos, com obras que procuram ampliar as formas de memória e dar visibilidade aos gestos de resistência.
O CAPC Musée d’art contemporain de Bordeaux prepara-se para acolher “Blackground: murmúrios dos morros”, uma exposição coletiva de grande escala que reúne cerca de cinquenta artistas. O evento decorrerá de 12 de junho de 2026 a 28 de março de 2027, em Bordeaux, com uma inauguração prevista para 11 de junho, oferecendo ao público um amplo panorama da criação contemporânea através de obras e práticas artísticas diversas.
Este encontro artístico mergulha na história dos povos colonizados, procurando reconstituir marcas, vestígios e memórias de um período determinante da história colonial.
“É também reconhecer que o sistema escravocrata implantado a partir do século XVII nestes territórios, associado ao desenvolvimento do chamado tráfico negreiro, deixou marcas profundas nas terras, nos corpos e nas mentes, para além da sua abolição oficial em 1848”, refere a plataforma digital Bordeaux Culture.
As obras apresentadas contribuem para alargar as formas de memória, evidenciar os silêncios da história e dar visibilidade às diferentes formas de resistência. Levam o público aos mornes, refúgios do marronage, onde ecoam gritos e murmúrios, recusando ao mesmo tempo a espetacularização da violência.
“Murmúrios dos morros”: um percurso artístico contra o esquecimento
Será também organizado um percurso inaugural a partir de sábado, 13 de junho, em vários pontos da cidade de Bordeaux, incluindo o Musée d’Aquitaine, que retrata as ligações da cidade com a escravatura. O percurso continuará na Bibliothèque municipale de Mériadeck, no Fonds régional d’art contemporain da região Nouvelle-Aquitaine (Frac MÉCA) e na Fabrique Pola, um importante espaço de criação artística e cultural.
Blackground desenvolve-se através de exposições distribuídas por estes diferentes locais. Cada núcleo é concebido em função do espaço que o acolhe: plantações e monumento no CAPC, reflexão sobre a água no Frac, textos de Condé, Davis e Césaire em Mériadeck, e obras inseridas no percurso do Musée d’Aquitaine. Mais tarde, o artista visual Simon Gabourg desenvolverá, nos Arquivos Metropolitanos de Bordeaux, um projeto sobre a história da borracha entre Guadalupe, França e Vietname.
O papel de Bordeaux no tráfico negreiro
Bordeaux é um dos portos franceses mais marcados pela história do tráfico de escravos e da escravatura, e a cidade assume hoje esse passado através de monumentos, museus e percursos memoriais.
“Hoje assumido, o passado negreiro da cidade de Bordeaux é exposto no espaço público. […] Esta ferramenta disponibilizada a todos testemunha o desenvolvimento da política memorial da cidade, com o objetivo de dar a conhecer melhor a sua história e o seu compromisso na homenagem às vítimas da escravatura e do tráfico negreiro e das suas abolições”, lê-se na plataforma Memória da Escravatura e do Tráfico Negreiro – Bordeaux.
Segundo o mesmo documento, o tráfico negreiro de Bordeaux representa 480 expedições entre 1672 e 1837, conduzidas por cerca de 180 armadores e responsáveis pela deportação de 120 000 a 150 000 pessoas.
Ubrick F. Quenum













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