No âmbito dos esforços globais de descarbonização, a energia nuclear tem-se imposto nos últimos anos como uma opção estratégica para as grandes potências. A China é um exemplo desta dinâmica, com a aceleração da construção de novos reatores nucleares no seu território.
Na quinta-feira, 12 de fevereiro, a australiana Bannerman Energy anunciou a assinatura de um acordo com uma filial do grupo público China National Nuclear Corporation (CNNC) para criar uma joint venture destinada a desenvolver o projeto de urânio Etango, na Namíbia. Esta operação, que permitirá à entidade chinesa adquirir 42,75 % do capital deste ativo com um investimento de até 321,5 milhões USD, ilustra a expansão crescente dos interesses chineses na indústria do urânio em África.
Antes desta operação, a CNNC já estava ativa em vários projetos de urânio na Namíbia e no Níger, os dois principais produtores africanos deste combustível nuclear. Na Namíbia, o grupo detém a maioria da mina Rössing e 25 % das ações de Langer Heinrich, explorada pela Paladin Energy. No Níger, a presença concentra-se no depósito Azelik, onde possui 37,2 % da joint venture, ao lado da ZXJoy Invest, outro investidor chinês detendo 24,8 %.
Paralelamente, a China General Nuclear Power Group (CGN), outro ator importante do setor nuclear chinês, é proprietária desde 2012 da mina Husab, também na Namíbia. O projeto em Etango vem assim complementar esta série de investimentos. Segundo as informações divulgadas, o acordo permitirá à CNNC participar proporcionalmente nos custos de investimento da futura mina, enquanto a Bannerman manterá 52,25 % do capital, o restante pertencendo à organização namibiana One Economy Foundation.
Mais ainda, o acordo inclui uma cláusula que permite à CNNC comprar 60 % da produção de Etango durante toda a sua vida útil — uma disposição estratégica face às ambições chinesas de abastecimento de urânio para os seus reatores nucleares.
Urânio africano para reatores chineses
No contexto da sua transição energética, a China conduz há vários anos um programa ambicioso de desenvolvimento da energia nuclear, considerada uma fonte de energia mais limpa e de menor emissão de carbono. Pequim pretende aumentar a sua capacidade nuclear de 60 GWe atualmente para 150 GWe até 2035. Segundo a World Nuclear Association (WNA), mais de 30 reatores, totalizando 35 GWe, já estão em construção para contribuir para este objetivo.
Para garantir o abastecimento futuro de urânio para os seus reatores, a China segue uma estratégia em três frentes:
1. Produzir um terço do urânio em território nacional;
2. Obter um terço através de participações e joint ventures no estrangeiro;
3. Comprar o terceiro restante no mercado livre.
Comentando o caráter estratégico da parceria com a Bannerman, Feng Li, representante da CNNC, sublinhou o contexto chinês:
“Num contexto de renovado interesse global pela energia nuclear e de rápido desenvolvimento do setor nuclear chinês, o grupo CNNC, principal fornecedor de urânio natural, trará a esta joint venture o seu prestigiado legado e expertise técnica.”
Próximos passos
Para já, nada está ainda garantido para a China em Etango. A finalização da transação depende de várias autorizações regulatórias, incluindo a da Comissão de Concorrência da Namíbia. As partes esperam concluir a operação até meados de 2026, antes de avançar para a decisão final de investimento (FID). Com Etango, a Bannerman pretende desenvolver uma mina capaz de produzir 52,6 milhões de libras de urânio ao longo de mais de 15 anos.
Entretanto, a produção continua nas minas Rössing e Husab, enquanto Azelik permanece parada desde 2015 por razões de rentabilidade. Embora um memorando de entendimento tenha sido assinado em 2023 entre o Estado nigerino e a China Nuclear International Uranium Corporation (SinoU), filial da CNNC, para uma retoma, nenhum progresso concreto foi ainda anunciado.
Apesar da forte presença chinesa, outras potências seguem de perto as dinâmicas do setor em África.
A Rússia, com a empresa pública Rosatom, assinou com o Níger um memorando de entendimento sobre energia nuclear civil e exploração de urânio em julho de 2025.
Os Estados Unidos adotam trajetória semelhante, procurando relançar o setor nuclear civil. A empresa NANO Nuclear Energy assinou em junho de 2025 um memorando com a Namíbia, apresentado como marco para “alimentar o futuro da energia nuclear nos EUA”.
Face a estas várias interesses internacionais, a capacidade dos Estados africanos em proteger os seus interesses nacionais permanece em observação.
Além da Namíbia e do Níger, Malawi retomou a produção de combustível nuclear através da reabertura da mina Kayelekera pela australiana Lotus Resources, enquanto a Mauritânia pretende entrar neste círculo com o projeto Tiris, atualmente em desenvolvimento pela Aura Energy.
Aurel Sèdjro Houenou
Impulsionado especialmente por reformas no segmento de mineração artesanal e de pequena escala (ASM), o setor aurífero do Gana registou mais um ano positivo em 2025. As receitas de exportação da indústria até duplicaram, atingindo 20,9 mil milhões de USD.
Segundo dados provisórios da Chamber of Mines, citados pela Reuters na quinta-feira, 12 de fevereiro, a produção total de ouro do Gana atingiu um nível recorde de 6 milhões de onças em 2025, o que representa um aumento de 25 % em relação às 4,8 milhões de onças em 2024. Para 2026, o país pretende melhorar ainda mais este desempenho, com uma meta nacional de 6,5 milhões de onças anunciada.
Produção recorde impulsionada pelo ASM
No detalhe, a produção recorde foi principalmente sustentada pelo crescimento do rendimento do segmento artesanal e de pequena escala (ASM), que passou por profundas reformas durante o exercício. A contribuição deste segmento atingiu 3,1 milhões de onças (contra 1,9 milhão em 2024), enquanto a produção das minas industriais manteve-se relativamente estável, em 2,9 milhões de onças.
Poucos elementos foram ainda apresentados para fundamentar as previsões para 2026. No entanto, vários novos projetos estão em curso no setor aurífero ganês, incluindo Ahafo North, desenvolvido pela americana Newmont. Entrando em produção em setembro de 2025, esta mina, com uma capacidade anual de 275.000 onças, deverá registar em 2026 o seu primeiro ano completo de operação.
Melhorias e desafios no setor
Paralelamente, empresas como Perseus Mining (Edikan) e Asante Gold (Bibiani e Chirano) estão a trabalhar na melhoria do desempenho das suas operações. O segmento de mineração artesanal (ASM) continua também dinâmico, com o GoldBod, regulador do setor, a procurar consolidar os avanços alcançados em 2025. Contudo, segundo Kenneth Ashigbey, CEO da Chamber of Mines do Gana, as reformas fiscais previstas pelo Estado em 2026 poderão já impactar a produção industrial.
Com o objetivo de aproveitar ainda mais a subida prolongada dos preços do ouro, Accra planeia introduzir uma nova tabela de royalties que pode atingir 12 %, comparativamente à faixa atual de 3 a 5 %. Esta medida, que poderá entrar em vigor ainda este mês, poderá, segundo o dirigente, afetar a rentabilidade e o desenvolvimento de novos projetos.
“A nossa produção manteve-se praticamente estável em 2025, mas o ano de 2026 é preocupante. O aumento dos royalties impactará imediatamente os novos projetos, aqueles que deveriam impulsionar a produção do próximo ano”, declarou, conforme relatado pela Reuters.
Aurel Sèdjro Houenou
Desde 2024, o grupo mineiro chinês Zijin Mining tem multiplicado os investimentos em ouro em África, nomeadamente com a aquisição da mina Akyem, no Gana. Esta dinâmica foi reforçada no início deste ano com o anúncio da compra da Allied Gold, operadora de várias minas na África Ocidental.
Numa nota publicada na segunda-feira, 9 de fevereiro, o grupo Zijin Mining elevou o seu objetivo de produção de ouro para um máximo de 140 toneladas até 2028, face à meta de 110 toneladas anunciada em 2024. Embora a empresa afirme querer acelerar a otimização das suas minas existentes, esta nova projeção reflete sobretudo a intensificação da sua expansão no setor aurífero africano nos últimos anos.
Historicamente ativo no cobre, através da mina congolesa Kamoa-Kakula, Zijin Mining iniciou em 2024 a sua entrada no ouro africano com a aquisição da mina Akyem, no Gana, por cerca de 1 mil milhões de dólares. Esta expansão consolidou-se em janeiro de 2026, com o anúncio de um acordo para adquirir a empresa canadiana Allied Gold, por 5,5 mil milhões de dólares. Esta última explora três minas na África Ocidental — Sadiola, no Mali, e Agbaou e Bonikro, na Costa do Marfim — e planeia abrir ainda este ano uma quarta mina, Kurmuk, na Etiópia.
Com um portfólio aurífero de mais de uma dezena de minas distribuídas principalmente na China, Papua-Nova Guiné e Colômbia, a Zijin produziu 90 toneladas de ouro em 2025. A produção deverá atingir 105 toneladas em 2026, aumentando significativamente até 2028, conforme o novo objetivo. A concretização desta meta dependerá do progresso dos investimentos e das operações de fusão e aquisição, incluindo a finalização da aquisição da Allied Gold, em curso através da nova subsidiária Zijin Gold, sujeita à aprovação dos acionistas da Allied, com previsão de conclusão para final de abril.
Esta operação poderá ter um impacto significativo na estratégia de Zijin, sublinhando o papel crescente de África na trajetória de produção de ouro do grupo.
Aurel Sèdjro Houenou
Em termos de volume, o Botsuana é o maior produtor africano de diamantes e o segundo a nível mundial. Embora este estatuto não esteja ameaçado a curto prazo pelo Angola, este último posiciona-se cada vez mais como um ator importante da indústria.
Esta semana, durante a conferência Mining Indaba na África do Sul, a ministra das Minas do Botsuana prometeu aumentar os investimentos públicos na exploração de outros minerais além dos diamantes. A mensagem transmitida por Bogolo Joy Kenewendo contrasta com o anúncio feito por Angola no mesmo evento, de um aumento significativo da sua produção de diamantes até 2027. A crise que atravessa o mercado diamantífero oferece, de facto, a Luanda a oportunidade de desafiar a liderança histórica de Gaborone neste setor em África.
Produção e crise do mercado
Em 2024, Angola já reduziu a diferença para o Botsuana, com 14,02 milhões de quilates extraídos, contra 18,12 milhões de quilates do Botsuana. Em comparação, a produção botswanesa do ano anterior (25,09 milhões de quilates) representava mais do que o dobro da produção angolana (9,75 milhões de quilates). Gaborone decidiu reduzir os volumes extraídos para fazer face à queda da procura e dos preços nos últimos três anos. Como reflexo desta crise, os estoques botswaneses atingiram 12 milhões de quilates no final de 2025, quase o dobro do máximo permitido (6,5 milhões).
Por seu lado, Luanda aposta em aumentar os volumes extraídos. Segundo uma brochura oficial distribuída na Mining Indaba, a companhia pública Endiama prevê que o país produza 17 milhões de quilates até 2027, um aumento de 12% em relação à produção de 15,2 milhões de quilates registada em 2025. Este aumento insere-se no plano nacional de desenvolvimento 2023-2027, que prevê a entrada em produção de vários projetos diamantíferos, incluindo a primeira mina do lote, Luele, aberta no final de 2023. Apresentada como a maior do país, esta mina possui recursos estimados em 628 milhões de quilates e uma vida útil projetada de 60 anos.
Angola aposta também na qualidade das suas pedras, comparáveis às do Botsuana. Apesar de menor em volume, a produção diamantífera angolana atingiu 1,41 mil milhões de dólares em 2024, contra 1,35 mil milhões de dólares do Botsuana.
Perspetivas sobre De Beers
O crescimento do setor diamantífero angolano deverá passar também pela transformação local. O plano de desenvolvimento prevê a construção de dezenas de fábricas e a criação de uma bolsa de diamantes, com o objetivo de ganhar participação nos segmentos a jusante da cadeia de valor. Luanda pretende ainda adquirir uma participação no gigante da indústria, De Beers.
Enquanto o grupo está à venda pelo proprietário Anglo American, Angola quer adquirir parte do capital, ao lado do Botsuana. Gaborone, já acionista com 15% da De Beers, deseja controlar totalmente um grupo que ainda retira 70% da sua produção do país da África Austral. Embora a ambição de Luanda possa entrar em conflito com a do Botsuana, existe outra via: a cooperação.
Segundo informações de outubro de 2025, Angola submeteu uma primeira oferta para adquirir uma participação majoritária, planeando fazê-lo através de um consórcio envolvendo outros produtores africanos, com uma participação prevista entre 20% e 30%. Negociações confidenciais estariam em curso com o Botsuana, África do Sul e Namíbia. «Adquirir uma participação majoritária em produtos de luxo é muito arriscado, pois depende do mercado […] Devemos, portanto, ser solidários e atuar como uma equipa», declarou Paulo Tanganha, diretor nacional de recursos minerais de Angola, à Reuters, na margem da conferência.
Impacto na economia angolana
Se uma melhoria das condições de mercado ampliar a diferença entre os volumes de produção do Botsuana e de Angola, os esforços de Luanda podem reforçar a contribuição dos diamantes para a economia nacional. Com uma iniciativa lançada em junho de 2025 para melhorar a imagem do diamante natural face aos diamantes sintéticos, Angola colabora com outros países africanos e atores da indústria para relançar a procura das pedras extraídas.
Mesmo não assumindo o papel central que os diamantes desempenham no Botsuana (um terço das receitas públicas e cerca de 75% das receitas em divisas), os diamantes podem reduzir a dependência de Angola do petróleo. Até 2050, Luanda pretende elevar a participação do setor mineiro para 2,3% do PIB angolano, contra 1,3% em 2022.
Emiliano Tossou
Na corrida pelos minerais críticos africanos, as grandes potências avançam simultaneamente em conjunto e de forma dispersa, direcionando cada vez mais projetos para o continente. Enquanto Washington intensifica sua ofensiva sobre o cobre congoles, Bruxelas mira o grafite da Tanzânia.
Numa nota publicada nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, a mineradora australiana EcoGraf anunciou a assinatura de um acordo de cooperação com o Banco Europeu de Investimento (BEI), visando assistência técnica para apoiar seu projeto de implementação de uma cadeia de valor verticalmente integrada em torno do grafite de Epanko, na Tanzânia.
Esta iniciativa ocorre paralelamente às negociações da empresa com outro parceiro europeu, com o objetivo de mobilizar o financiamento necessário para o desenvolvimento da futura mina.
Segundo os planos da EcoGraf, o desenvolvimento de Epanko será realizado em várias fases, sendo a primeira voltada à produção de 73.000 toneladas de concentrado de grafite por ano. Uma segunda fase, focada na expansão da mina, elevará a capacidade de produção para mais de 300.000 toneladas.
A empresa negocia há alguns meses uma cobertura de crédito de 105 milhões de USD junto ao banco alemão KfW IPEC-Bank, para iniciar os trabalhos da primeira fase de exploração.
Com o BEI, a EcoGraf espera obter suporte para o desenvolvimento de estudos relacionados à expansão de Epanko, bem como para a instalação de uma fábrica de processamento de grafite na Tanzânia, anunciada em março de 2025, com um investimento estimado em 58,6 milhões de USD.
Por enquanto, os detalhes da cooperação com o BEI ainda precisam ser precisados, mas a EcoGraf esclarece que a iniciativa está alinhada com a estratégia da União Europeia para o desenvolvimento de cadeias de abastecimento de minerais para baterias da indústria europeia.
«O BEI tem o prazer de apoiar os trabalhos preparatórios que contribuem para o desenvolvimento de cadeias de valor responsáveis para matérias-primas críticas. Isso estimulará investimentos elegíveis potenciais dos setores público e privado, permitindo a implementação posterior de projetos sólidos, sustentáveis e de longo prazo», afirmou Andrea Clerici, diretor de atividades empresariais e globais do BEI.
A presença europeia no grafite de Epanko ocorre num contexto marcado pela aceleração das iniciativas ocidentais sobre minerais críticos africanos. Esta dinâmica é impulsionada principalmente pelos Estados Unidos, que, desejando reduzir a dependência chinesa dessas matérias-primas essenciais, especialmente para as indústrias de baterias e defesa, multiplicam os acordos na África — como demonstram os recentes desenvolvimentos sobre o fornecimento de cobre na RDC.
Além da Europa, a EcoGraf também conta com Washington. A empresa submeteu um white paper ao Departamento de Defesa dos EUA, buscando uma subvenção de 76,3 milhões de USD para apoiar o desenvolvimento de Epanko. Enquanto aguarda os resultados dessas iniciativas, a empresa continua avançando no projeto, com a publicação prevista ainda este mês de um estudo de viabilidade bancável atualizado.
Aurel Sèdjro Houenou
No Malawi, na África do Sul e em Angola, os Estados Unidos continuam a posicionar-se estrategicamente nas futuras fontes africanas de terras raras. Esta estratégia insere-se numa corrida global destinada a estruturar circuitos alternativos à oferta dominante da China.
Numa nota publicada na segunda-feira, 9 de fevereiro, a empresa mineira britânica Altona Rare Earths anunciou ter obtido a confirmação do apoio dos Estados Unidos ao desenvolvimento do seu projeto de terras raras Monte Muambe, em Moçambique. Este apoio, promovido pela United States Trade and Development Agency (USTDA), ilustra a aceleração da ofensiva de Washington no setor emergente das terras raras em África.
Um novo passo para Washington
Perante a quase-dominação da China, que concentra cerca de 70% da produção mundial de terras raras, os Estados Unidos multiplicam, desde há vários meses, iniciativas destinadas a desenvolver cadeias de abastecimento alternativas. Neste contexto, África impõe-se progressivamente como um pilar desta estratégia, com o anúncio de diversos financiamentos americanos a favor de projetos regionais.
Em Angola, a Pensana, empresa britânica responsável pelo projeto Longonjo, que ambiciona desenvolver uma cadeia de abastecimento de terras raras orientada para os Estados Unidos, aguarda atualmente um financiamento de até 160 milhões de dólares da Export-Import Bank dos EUA (EXIM). Paralelamente, Washington apoia o projeto sul-africano Phalaborwa através de uma subvenção da Development Finance Corporation (DFC), via a sociedade de investimento TechMet.
Mais recentemente, a Lindian Resources, operadora do projeto Kangankunde no Malawi, indicou estar em negociações com o governo americano para posicionar o seu ativo como um dos instrumentos capazes de reduzir o “défice emergente de abastecimento” dos Estados Unidos. É neste mesmo contexto estratégico que se insere o apoio concedido ao projeto moçambicano Monte Muambe, com o objetivo da assinatura de uma “convenção de subvenção formal”, atualmente em preparação.
“Este compromisso de apoio da USTDA constitui uma validação externa significativa da qualidade estratégica e do potencial económico do projeto Monte Muambe. Sublinha o interesse elevado e de alto nível de uma instituição governamental americana de primeira linha no desenvolvimento de uma fonte alternativa e segura de terras raras”, declarou Cédric Simonet, CEO da Altona Rare Earths.
Moçambique entra na dinâmica
Até ao momento, poucos detalhes filtraram sobre as modalidades concretas de uma eventual parceria entre a Altona e a USTDA em torno do projeto Monte Muambe. A natureza do apoio americano permanece, portanto, a esclarecer para este ativo, cujo custo de desenvolvimento é estimado em 276,3 milhões de dólares, segundo um estudo preliminar publicado em 2023. A Altona pretende, por sua vez, uma produção média de cerca de 15 000 toneladas por ano de carbonato misto de terras raras, ao longo de 18 anos de vida útil.
Estes parâmetros estão atualmente a ser atualizados no âmbito de um estudo de pré-viabilidade, mais aprofundado do que um estudo económico preliminar. Entretanto, o interesse manifestado pelos Estados Unidos em Monte Muambe já confere alguma visibilidade a Moçambique nas dinâmicas emergentes do setor de terras raras em África. O país acolhe, além disso, outros projetos em fases menos avançadas, incluindo o de Adriano, onde a júnior australiana MRG Metals Limited anunciou em outubro de 2025 a descoberta de um “potencial depósito aluvial de terras raras”.
Resta agora observar a evolução destas dinâmicas nos próximos meses, tanto no que diz respeito às ambições americanas em Monte Muambe, como à forma como Maputo procurará influenciar os debates. Recorde-se que, enquanto o continente ainda não produz nenhum destes minerais essenciais para turbinas eólicas e veículos elétricos, poderá representar cerca de 9% da oferta mundial de terras raras até 2029, segundo a Benchmark Mineral Intelligence.
Aurel Sèdjro Houenou
Após uma queda de 10 % em 2024, a Barrick Mining e os seus parceiros esperavam um rebote na produção de ouro na mina de Kibali em 2025. Um exercício durante o qual os preços do metal amarelo se mantiveram em alta, registando a melhor performance desde o final da década de 1970.
A tendência de queda da produção continuou em 2025 na mina de ouro de Kibali, a maior da República Democrática do Congo. No seu relatório financeiro publicado na sexta-feira, 6 de fevereiro, a canadiana Barrick Mining, operadora do local, indicou uma produção atribuível em recuo de 2 % em termos homólogos, após uma diminuição de 10 % registada em 2024. Um desempenho contrastante que, no entanto, se traduziu num forte aumento das receitas, num contexto de mercado de ouro em alta ao longo do exercício.
Aumento de 40 % do volume de negócios
Kibali é explorada no âmbito de uma joint venture detida em partes iguais (45 % cada) pela Barrick Mining e pela AngloGold Ashanti, enquanto a empresa mineira pública SOKIMO detém o restante. Embora se esperasse uma produção anual de pelo menos 688.000 onças no ano passado, o local não atingiu este objetivo. A Barrick declarou uma produção atribuível de 303.000 onças de ouro, o que corresponde a cerca de 673.300 onças numa base consolidada a 100 %, incluindo as partes dos seus parceiros.
Se este recuo se traduziu numa diminuição de 4 % dos volumes comercializados ao longo do ano, as receitas geradas aumentaram significativamente. O grupo canadiano reportou assim um volume de negócios atribuível de 1,04 mil milhões de USD, um aumento de 40 % face aos 743 milhões de USD registados em 2024. Esta progressão coincide com a subida sustentada dos preços do ouro observada durante todo o exercício.
No final de dezembro, o preço do ouro tinha aumentado 64 % em relação ao ano anterior, registando a sua melhor performance desde o final da década de 1970. Numa base consolidada a 100 %, as receitas da mina de Kibali ascendem a 2,31 mil milhões de USD, dos quais 231,1 milhões de USD cabem ao Estado congolês através da participação detida pela SOKIMO.
Uma ligeira recuperação da produção em 2026?
Para o exercício de 2026, a Barrick Mining antecipa uma produção atribuível entre 270.000 e 310.000 onças, ou cerca de 600.000 a 688.900 onças numa base consolidada a 100 %. Se a produção se materializar acima do limite superior, representaria um aumento em relação aos níveis de 2025. Contudo, é importante lembrar que Kibali não atingiu os seus objetivos de produção nos dois últimos anos.
A Barrick atribui a má performance do exercício passado à diminuição geral dos teores dos minérios tratados, bem como à redução dos volumes extraídos na parte subterrânea do local. As operações foram ainda perturbadas no quarto trimestre por um incidente mortal ocorrido na mina. Resta acompanhar a evolução das dinâmicas nos próximos meses, num contexto de preços do ouro ainda elevados.
Enquanto o metal amarelo continua a brilhar, atingindo um novo recorde em torno de 5.590 USD por onça no final de janeiro, os analistas permanecem confiantes quanto ao futuro. Deutsche Bank, UBS e JP Morgan projetam que os preços poderão ultrapassar o limiar dos 6.000 USD por onça até ao final do ano. Se esta trajetória se confirmar, poderá novamente apoiar as operações comerciais de Kibali, onde a Barrick planeia continuar a exploração pelo menos até 2037.
Trabalhos de exploração estão em curso, principalmente no corredor ARK-KCD, que abriga o principal depósito da mina, para apoiar esta perspetiva. Para lembrar, Kibali representava 99,6 % das exportações de ouro da RDC em 2024, segundo o Ministério das Minas. Uma dependência que o país procura reduzir apostando em novos investimentos no setor aurífero nos próximos anos.
Aurel Sèdjro Houenou
Principalmente conhecido pelo seu potencial aurífero, o subsolo da Costa do Marfim alberga também uma diversidade de minerais, incluindo a bauxita. Esta matéria-prima é explorada, entre outros, pela empresa Lagune Exploitation Bongouanou (LEB), que indica já ter realizado exportações para a China.
Durante o Conselho de Ministros de quarta-feira, 4 de fevereiro, o governo marfinense anunciou a criação da empresa Ivoiro-Chinesa de Exploração (ICEX), uma sociedade conjunta detida 56,65 % pela companhia pública SODEMI e 43,35 % pelo seu parceiro chinês, China National Geological & Mining Corporation (CGM).
Este anúncio ocorre poucos dias após o lançamento, por esta entidade, do seu primeiro projeto de exploração de bauxita no país da África Ocidental, uma região onde a China já está presente, nomeadamente através de projetos de bauxita na Guiné.
Segundo a nota governamental, a ICEX é uma empresa de direito marfinense com um capital social inicial de 20 milhões de francos CFA (cerca de 36 000 USD). Será exclusivamente dedicada a atividades de exploração mineira no país, sem que os minerais alvo sejam especificados. Contudo, uma nota publicada pela CGM em 20 de janeiro, relativa à campanha de exploração, deixa já transparecer um interesse particular pela bauxita.
De acordo com as informações disponíveis, o projeto apresenta um potencial significativo, com «recursos estimados em várias dezenas de milhões de toneladas». O lançamento desta campanha de exploração sucede a vários ciclos de prospeção e concertação aprofundada no local. Para a CGM, esta iniciativa constitui um passo chave na sua expansão no mercado mineiro da África Ocidental e inspirar-se-á, nomeadamente, no «modelo comprovado utilizado na Guiné para o desenvolvimento da bauxita».
Primeiro produtor mundial de bauxita, a Guiné acolhe várias empresas mineiras chinesas. O Império do Meio constitui também o principal mercado de exportação da bauxita guineense, absorvendo 74 % dos volumes em 2025 para as suas refinarias.
Se a aventura marfinense parece querer reproduzir este sucesso, continua, no entanto, condicionada a várias etapas-chave, começando pela descoberta de um depósito economicamente viável. Seja como for, a CGM já inscreve este primeiro projeto numa perspetiva de desenvolvimento a longo prazo.
«É de notar que a cooperação entre as partes não se limita à exploração geológica inicial. A China Geological & Mining West Africa [filial da CGM] assinou também um acordo-quadro de cooperação especial, garantindo direitos prioritários para as etapas seguintes: exploração, estudos de viabilidade, construção da mina, exploração e comercialização da bauxita, lançando assim as bases de um modelo integrado de exploração – desenvolvimento – comércio», pode ler-se na nota.
Com 54 963 toneladas produzidas em 2023, a indústria de bauxita da Costa do Marfim é atualmente liderada pela Lagune Exploitation Bongouanou (LEB), que indica vender os seus stocks para o mercado chinês.
Aurel Sèdjro Houenou
Após meses de divergências, Mali e Barrick Mining anunciaram, em novembro de 2025, a conclusão de um novo acordo. O objetivo era resolver os litígios em andamento e permitir a retomada das atividades na mina de ouro Loulo-Gounkoto.
No Mali, o grupo canadense Barrick Mining prevê uma produção atribuível entre 260.000 e 290.000 onças de ouro em 2026 na mina Loulo-Gounkoto, segundo seu relatório financeiro publicado na quinta-feira, 5 de fevereiro. Mais do que a previsão em si, essa indicação marca sobretudo o retorno deste ativo aos planos de produção do grupo, após ter sido excluído no ano passado devido às tensões persistentes com o Estado maliense.
Um terreno de entendimento finalmente encontrado
Maior mina de ouro do Mali, Loulo-Gounkoto esteve no centro de um longo impasse entre Barrick e as autoridades de Bamako. O conflito surgiu da intenção do Estado de aplicar à mina as disposições do novo Código de Mineração de 2023, alcançando um ponto crítico em janeiro de 2025, quando a companhia fechou o local após a apreensão pelo governo de um estoque de ouro. Na sequência, a Barrick retirou o projeto de suas previsões de produção para o exercício.
O site permaneceu inativo até junho, quando foi colocado sob administração provisória a pedido do governo, visando a retomada das operações. Uma evolução ocorreu em novembro, com a assinatura de um acordo para encerrar o litígio. O pacto previa, entre outros pontos, a renúncia de Bamako a todas as acusações contra as subsidiárias malienses da Barrick, bem como a devolução do estoque de ouro apreendido e o controle operacional da mina à companhia.
Em contrapartida, a Barrick comprometeu-se a retirar procedimentos de arbitragem internacional contra o Mali e a pagar 253 milhões de dólares ao Estado. Segundo a nota divulgada pela empresa, este quadro de resolução foi efetivamente implementado, permitindo-lhe retomar o controle operacional do local em 18 de dezembro de 2025, com a produção reiniciando nos últimos dias do ano.
Somando a produção antes do fechamento e a dos últimos dias de 2025, a Barrick declara uma produção atribuível de 29.000 onças, com base em sua participação de 80%. Incluindo os 20% detidos pelo Estado maliense, o total corresponde a aproximadamente 36.200 onças de ouro entregues no ano. Embora relatórios tenham mencionado a retomada sob administração provisória, nenhuma produção relativa a esse período foi registrada até o momento.
Rumo a uma retomada gradual da produção
Para o ano em curso, a Barrick Mining aposta numa retomada gradual em Loulo-Gounkoto. Considerando a participação do Mali de 20% na produção máxima atribuível de 290.000 onças, a mina poderia gerar até 362.500 onças. Em comparação, esse nível ainda é significativamente inferior às 723.000 onças produzidas em 2024. Apesar desse retorno ainda tímido, Loulo-Gounkoto permanece um ativo estratégico para a Barrick.
Após produzir um total de 3,2 milhões de onças de ouro em 2025, o grupo projeta desempenho quase similar em 2026, contando com a contribuição de Loulo-Gounkoto, especialmente após a venda das minas Hemlo e Tongon no ano passado. O portfólio da companhia inclui cerca de dez minas espalhadas por vários continentes, incluindo várias na África, como Kibali (RDC), North Mara e Bulyanhulu na Tanzânia.
Para o Mali, cuja produção industrial caiu 22,9% no ano passado, a retomada de Loulo-Gounkoto é um episódio-chave, sobretudo com a expectativa de aumento prolongado do preço do ouro em 2026, após uma valorização anual de 67% em 2025.
Paralelamente, continuam as discussões sobre a renovação da licença de exploração da mina Loulo, parte integrante do complexo Loulo-Gounkoto. Esta licença, que deveria expirar neste mês, está em processo de prorrogação por mais dez anos, segundo a Barrick, sem detalhar se as negociações consideram o novo código de mineração. Vale lembrar que este regime permite ao Mali deter até 35% de uma mina (sendo 5% reservados a investidores locais), contra 20% anteriormente.
Aurel Sèdjro Houenou
A medida que o urânio se beneficia de um renovado interesse global por projetos de energia nuclear civil, novos investimentos começam a surgir na produção. Na África, essa dinâmica é impulsionada por atores como a Lotus Resources, presente tanto no Malawi quanto no Botswana.
Na sexta-feira, 6 de fevereiro, a mineradora australiana Lotus Resources anunciou a conclusão de uma colocação de ações lançada no início da semana, arrecadando 76 milhões de dólares australianos (53 milhões de dólares americanos). Segundo a empresa, esse financiamento servirá para reforçar seu caixa, enquanto continua o desenvolvimento de seus projetos de urânio Kayelekera, no Malawi, e Letlhakane, no Botswana.
“Estamos entusiasmados com o apoio recebido de nossos acionistas institucionais, que nos garante maior liquidez durante a fase de ramp-up da produção até atingir a produção plena e a primeira entrega prevista para o segundo trimestre de 2026. Esse financiamento nos permite ter um balanço mais simplificado e flexível, além de maior visibilidade sobre nosso financiamento à medida que Kayelekera gera fluxos de caixa positivos”, declarou Greg Bittar, diretor-geral da companhia.
Em agosto de 2025, a Lotus Resources anunciou o lançamento de Kayelekera, uma mina que deverá produzir em média 2,4 milhões de libras de urânio por ano durante 10 anos. Paralelamente, as ambições da Lotus no urânio africano se estendem também ao Botswana, onde continua avaliando o potencial de Letlhakane. Segundo um estudo preliminar, este projeto poderá, no futuro, entregar em média 3 milhões de libras de urânio por ano durante 10 anos.
Esses parâmetros estão atualmente sendo atualizados no âmbito de um estudo de pré-viabilidade, com conclusão prevista para o segundo semestre deste ano. No contexto, a Lotus busca aproveitar plenamente o crescimento esperado do mercado de urânio, cuja demanda deve aumentar devido à retomada de projetos de energia nuclear civil globalmente. Essa dinâmica já elevou os preços à vista do combustível acima de 100 USD por libra no final de janeiro.
“Os preços do yellowcake permanecem elevados, pois espera-se que a capacidade de produção de energia nuclear continue a crescer para atender à demanda de centros de dados e eletrificação”, explica a Trading Economics.
Resta observar como a Lotus aproveitará esse cenário nos próximos meses, primeiro com Kayelekera e, potencialmente, a longo prazo, com Letlhakane. Para os países anfitriões, a continuidade dos investimentos até a concretização desses projetos oferecerá uma nova fonte de receita mineral.
Aurel Sèdjro Houenou