No mundo, a segurança fundiária constitui um desafio central para a produção agrícola, e o continente africano está entre as regiões mais afetadas por esta questão.
Na África subsaariana, 73% das terras são detidas sob regimes consuetudinários, revela um relatório sobre “A situação dos direitos e da governação fundiária”, publicado em conjunto no final de fevereiro pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, pela International Land Coalition e pelo Centro de Cooperação Internacional em Investigação Agronómica para o Desenvolvimento.
Na prática, isto significa que, na região, quase três quartos das terras são geridas segundo regras locais (chefiados, linhagens, famílias, comunidades de aldeia) socialmente aceites.
Embora esta proporção seja superior à média mundial (42%, cerca de 5,5 mil milhões de hectares), o relatório destaca que a região ocupa o último lugar em termos de reconhecimento oficial pelo Estado. Apenas 1% das terras consuetudinárias ao sul do Saara estão formalmente reconhecidas nos quadros legais nacionais, comparado com 8% a nível global.
Um paradoxo africano
Segundo os autores do relatório, esta falta de reconhecimento oficial ocorre num contexto em que 28% das terras consuetudinárias cartografadas no mundo estão em África, comparado com 30% na América do Norte e Europa, 18% na Ásia e 12% na América Latina e Caraíbas.
Ou seja, embora o conhecimento sobre a distribuição geográfica dos territórios geridos por comunidades africanas esteja a melhorar, esses dados raramente se traduzem em direitos formais inscritos nas leis, cadastros ou registos fundiários.
Este paradoxo deixa grande parte das terras da África subsaariana em zona cinzenta jurídica, perpetuando a insegurança fundiária no setor agrícola. Terras mesmo cartografadas podem ser consideradas legalmente “terras do Estado” ou espaços sem proprietário claramente definido, tornando os agricultores vulneráveis e abrindo espaço a riscos de apropriação de terras ou projetos impostos sem o consentimento das comunidades.
Impacto sobre as mulheres
As mulheres são particularmente afetadas, pois em muitos países já possuem menos direitos fundiários seguros que os homens. Esta situação limita a sua capacidade de investir e aceder a fatores de produção, como água ou insumos, apesar da sua importância no setor agroalimentar (representando 49% da mão de obra, segundo a FAO).
O relatório indica ainda que, globalmente, mulheres proprietárias de terras relatam significativamente mais frequentemente que os homens sentirem insegurança fundiária em casos de divórcio ou morte do cônjuge, sendo esta desigualdade particularmente pronunciada em África subsaariana, Sul da Ásia, Sudeste Asiático e Oeste Asiático.
Uma questão ambiental e climática
O documento salienta que, em África como no resto do mundo, as terras consuetudinárias abrigam grande parte das florestas intactas e do carbono “irreversível”, de modo que a ausência de reconhecimento formal também coloca em risco questões globais relacionadas com o clima e a biodiversidade.
Chamado à ação
Face a estes desafios, os autores do relatório apelam a novos compromissos dos Estados, incluindo o acesso das mulheres aos direitos fundiários e a segurança dos direitos consuetudinários. Embora novos quadros políticos e regimes fundiários tenham sido implementados na região, os especialistas reconhecem que muito ainda precisa ser feito.
Entre as iniciativas existentes estão a gestão comunitária de recursos e os acordos de co-gestão, que tratam as comunidades consuetudinárias como parceiros iguais na conceção e implementação de soluções climáticas. É essencial aplicar os princípios do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI), respeitar a autodeterminação e integrar os conhecimentos dos povos indígenas nas políticas fundiárias, climáticas e de governação.
Espoir Olodo
Perante necessidades enormes e finanças públicas pressionadas, Pretória lançou um mecanismo inédito de garantias de crédito para mobilizar capitais internacionais nos seus grandes projetos de infraestrutura — um verdadeiro aposta no efeito de alavanca.
Após anos de garantias soberanas concedidas a empresas estatais deficitárias — ainda responsáveis por 661 mil milhões de rands de compromissos fora do balanço (cerca de 40 mil milhões de dólares) —, a África do Sul experimenta agora um novo modelo de financiamento de infraestruturas. O governo de Cyril Ramaphosa lançou um veículo de garantia de crédito, supervisionado pelo Banco de Desenvolvimento da África Austral (DBSA), destinado a captar capitais privados sem aumentar a dívida pública.
Um efeito de alavanca de 1 para 4 esperado
Com um capital inicial de 500 milhões de dólares, o fundo pretende mobilizar uma capacidade de intervenção quatro vezes superior, através de um mecanismo de reforço de crédito que deve melhorar à medida que o veículo obtenha classificações nos mercados. O Banco Mundial já comprometeu 350 milhões de dólares através da sua filial BIRD. A Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a Sociedade Financeira Internacional (SFI), o alemão KfW e a Corporation Sul-Africana de Desenvolvimento Industrial também manifestaram interesse. O Tesouro Nacional participará com 20% do capital, elevando-se para 30% quando se incluem outras entidades públicas.
Projetos à escala de uma economia continental
Os projetos alvo mostram as ambições do plano. A expansão da rede de transporte de eletricidade em 14 000 km, prioridade máxima para valorizar os recursos renováveis da região oeste do país, exige 440 mil milhões de rands. A modernização de portos e infraestruturas ferroviárias necessita de mais 330 mil milhões de rands. Ao longo de três exercícios fiscais, o governo inscreveu 1 070 mil milhões de rands para despesas em infraestruturas no orçamento, um esforço considerável que não será suficiente sem investimento privado massivo.
Um sinal para o mercado
Mais do que números, o objetivo é credibilidade. «Quando um investidor entra no mecanismo, os outros seguem», observa Mpho Mokwele, diretor-geral do programa no DBSA. O primeiro programa a beneficiar será o desenvolvimento da rede de transporte independente de eletricidade. Outros setores como hospitais, residências universitárias e distribuição de água também estão incluídos.
Fiacre E. Kakpo
Joëlle TRAORÉ é doutora em Direito Fiscal pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, especializada em fiscalidade internacional e africana, com experiência em fluxos financeiros ilícitos, reformas fiscais globais e mobilização de recursos nacionais, e explica os jogos e desafios da área.
Durante muito tempo considerada neutra, a fiscalidade está, no entanto, longe de ser indiferente às realidades sociais. Por detrás de cada imposto, isenção ou dedução escondem-se escolhas de política pública que podem, consciente ou inconscientemente, reforçar certas desigualdades. A questão da igualdade de género ilustra particularmente bem esta dinâmica. Os sistemas fiscais africanos tratam realmente mulheres e homens de forma equitativa?
Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, publicado em 2022, recorda que, mesmo na ausência de discriminação explícita, podem existir vieses fiscais devido às diferenças de rendimentos, consumo, património e normas sociais entre mulheres e homens. Em outras palavras, um imposto pode ser juridicamente neutro, mas produzir efeitos desiguais na prática.
Quando a fiscalidade reflete desigualdades existentes
Em vários países africanos, certos dispositivos fiscais ainda se baseiam em modelos familiares tradicionais. Regimes de tributação que consideram o agregado familiar como unidade fiscal ou que concedem vantagens específicas ao «chefe de família» podem penalizar indiretamente a atividade económica das mulheres casadas. Quando os rendimentos são somados e sujeitos a uma taxa mais elevada, o trabalho feminino torna-se menos atrativo do ponto de vista fiscal.
Outros vieses surgem na própria estrutura das economias africanas. Grande parte da atividade feminina concentra-se no setor informal, nomeadamente no comércio retalhista, serviços de proximidade ou artesanato.
Estas atividades permanecem frequentemente fora do âmbito fiscal, não por recusa de pagar impostos, mas porque os regimes existentes não se adaptam à sua dimensão, irregularidade ou às suas restrições operacionais. Resultado: uma invisibilidade fiscal que limita o acesso das mulheres aos serviços públicos, à proteção social e ao financiamento.
Um ângulo ainda marginal nas políticas fiscais
Apesar de avanços na equidade fiscal, a dimensão de género continua pouco integrada na conceção das políticas fiscais africanas. Certos dispositivos, como créditos fiscais ligados a filhos, saúde ou reforma, beneficiam mais os homens, simplesmente porque estão sobrerrepresentados no emprego formal. Este desequilíbrio levanta uma questão central: a fiscalidade pode tornar-se um instrumento de empoderamento económico das mulheres?
Existem, no entanto, instrumentos possíveis. Reduções fiscais direcionadas para empresas lideradas por mulheres, medidas que facilitem o acesso à creche, ou a eliminação de impostos discriminatórios sobre certos produtos essenciais podem produzir efeitos concretos, sem comprometer o equilíbrio orçamental.
Experiências africanas instrutivas
Vários países africanos adotaram abordagens interessantes. O Ruanda integrou a análise de género no seu processo orçamental, pedindo a cada ministério que avaliasse o impacto das suas políticas fiscais e orçamentais em mulheres e homens.
Na África do Sul, algumas medidas fiscais visam facilitar o acesso de pequenas e médias empresas lideradas por mulheres aos mercados públicos, através de instrumentos de apoio e reduções direcionadas.
No Marrocos, pioneiro em orçamentos sensíveis ao género desde os anos 2000, estudos destacaram os efeitos potencialmente desincentivadores de certos créditos fiscais familiares sobre o emprego feminino. Estas análises alimentam hoje reflexões mais amplas sobre a reforma da fiscalidade familiar.
Estas experiências mostram que uma fiscalidade mais inclusiva não é teórica nem incompatível com restrições económicas. Ela assenta, acima de tudo, numa melhor compreensão dos efeitos reais do imposto.
Desafios ainda importantes
A implementação de uma fiscalidade sensível ao género enfrenta vários obstáculos. O primeiro é a falta de dados desagregados por sexo. Sem informação fiável sobre o impacto diferenciado das políticas fiscais, torna-se difícil orientar reformas. O segundo desafio é a representação. As mulheres continuam sub-representadas nas instâncias de decisão fiscal, limitando a consideração das suas realidades económicas.
Finalmente, persiste uma questão estrutural: repensar o papel da fiscalidade. O imposto não é apenas um instrumento de mobilização de receitas públicas. É também uma ferramenta de redistribuição e justiça social, capaz de acompanhar transformações económicas e sociais.
Quais caminhos para os países africanos?
Vários eixos de ação podem ser considerados. Integrar sistematicamente a análise de género nas reformas fiscais e nas leis de finanças é um primeiro passo. Formar as administrações fiscais sobre estas questões permitiria depois adaptar ferramentas, procedimentos e comunicação. A simplificação dos regimes fiscais para pequenas atividades, especialmente femininas, poderia favorecer a formalização sem aumentar a carga administrativa.
Por fim, uma comunicação mais pedagógica sobre o papel do imposto, em ligação com o financiamento de políticas sociais, contribuiria para reforçar a adesão dos contribuintes e reduzir desigualdades no acesso ao sistema fiscal.
Uma fiscalidade nunca neutra
Ao contrário da ideia recebida, a fiscalidade nunca é neutra. Por detrás de cada escolha fiscal realizam-se arbitragens que podem perpetuar ou corrigir desigualdades existentes. A igualdade de género não se decreta apenas pela lei. Constrói-se também, gradualmente, através dos orçamentos e sistemas fiscais.
Os países costeiros da África Ocidental, incluindo o Gana, são agora considerados parceiros-chave para conter a expansão da insegurança no golfo da Guiné. Esta parceria visa diversificar as alianças de segurança face ao aumento dos riscos geopolíticos.
A União Europeia (UE) prevê assinar nos próximos dias uma parceria de defesa com o Gana. O anúncio foi feito na segunda-feira, 9 de março, em Bruxelas, pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.
«Muitos outros países interessados estão a bater à nossa porta», declarou, sublinhando que cada vez mais Estados procuram diversificar as suas parcerias para gerir um ambiente internacional mais arriscado.
Esta iniciativa surge num momento em que o Gana desempenha um papel crescente nos mecanismos regionais de luta contra o terrorismo na África Ocidental. O país é membro da Iniciativa de Acra, juntamente com o Benim, a Costa do Marfim, o Togo, o Burquina Faso, o Mali e o Níger. Trata-se de um mecanismo de cooperação em matéria de segurança lançado em 2017 para impedir a propagação do terrorismo e do extremismo violento do Sahel para os países costeiros do golfo da Guiné. O mecanismo baseia-se em operações militares conjuntas, partilha de informações e formação das forças de segurança.
Um contexto de segurança sub-regional tenso
Ao mesmo tempo, as autoridades ganesas procuram manter o diálogo com o Mali, o Níger e o Burquina Faso, reunidos na Aliança dos Estados do Sahel (AES). Criada em 2023 sob a forma de um pacto de defesa mútua, esta aliança visa reforçar a cooperação militar entre estes Estados confrontados com a expansão de grupos armados na região.
«A situação de segurança do Gana distingue-se na região, pois nenhum ataque jihadista foi registado no país. No entanto, ocorreram ataques muito perto da fronteira ganesa e as pessoas entrevistadas concordam que a situação no Burquina Faso constitui também uma ameaça significativa para o Gana», indica o relatório FOI Studies in African Security.
Parcerias diversificadas com a Europa
Para além deste novo projeto de acordo de segurança, o Gana mantém já relações económicas e políticas estreitas com vários países europeus. Com a União Europeia, Acra aplica um Acordo de Parceria Económica (APE) destinado a reforçar as trocas comerciais e a facilitar o acesso dos produtos ganeses ao mercado europeu através da redução de direitos aduaneiros e de outras barreiras comerciais.
A nível bilateral, alguns países europeus mantêm relações importantes com o Gana. É nomeadamente o caso da Alemanha, que considera o país como um dos seus parceiros prioritários em matéria de cooperação para o desenvolvimento. As trocas comerciais entre os dois países atingiram cerca de 641 milhões de euros (745,5 milhões de dólares) em 2021, com a presença de várias empresas alemãs na economia ganesa.
A antiga Costa do Ouro (Gold Coast) mantém igualmente uma parceria de segurança com a França, que figura entre os seus parceiros históricos nos domínios da formação militar, da cooperação em matéria de segurança e do reforço das capacidades de manutenção da paz.
Além disso, Acra acolhe o Centro Internacional de Formação para a Manutenção da Paz, uma instituição apoiada por vários parceiros internacionais — incluindo vários Estados europeus — que forma militares e civis para operações de paz e gestão de crises.
Carelle Yourann (estagiária)
A reforma do mecanismo de contribuição dos países membros da Comunidade da África Oriental entrará em vigor em julho de 2026. O objetivo é responder às crescentes dificuldades financeiras da organização e estabilizar o financiamento das suas instituições.
Durante o 25.º Cimeira de Chefes de Estado da Comunidade da África Oriental, os dirigentes da organização adotaram uma nova fórmula de financiamento destinada a reequilibrar as contribuições dos Estados-membros.
A partir de agora, essas contribuições serão repartidas segundo um mecanismo que combina 50% de contribuições iguais entre os países e 50% baseadas na sua capacidade económica. Esta reforma entrará em vigor a 1 de julho de 2026.
A decisão surge num contexto de tensões financeiras persistentes no seio do bloco sub-regional. No âmbito do orçamento para o exercício 2025-2026, a organização indicou necessitar de mais de 89 milhões de dólares para assegurar o funcionamento das suas instituições e a continuação do seu programa de integração regional, considerado essencial para reforçar cadeias de valor capazes de resistir aos choques económicos mundiais.
Entre os oito Estados-membros, apenas o Quénia e a Tanzânia pagaram integralmente a sua contribuição anual fixada em 7 milhões de dólares. Estes atrasos nos pagamentos refletem as restrições económicas e prioridades nacionais divergentes, nomeadamente os desafios de segurança na República Democrática do Congo ou as importantes necessidades de infraestruturas em alguns países.
Os atrasos nas contribuições continuam elevados. A República Democrática do Congo deverá cerca de 27 milhões de dólares à organização, enquanto o Uganda apresenta o nível mais baixo de atrasos, estimado em 1,1 milhão de dólares. Esta situação já afetou o funcionamento de várias instituições da Comunidade da África Oriental. Foram registados atrasos no pagamento de salários, adiamentos de reuniões e bloqueios de alguns projetos, levando nomeadamente a East African Legislative Assembly (EALA) a suspender as suas atividades no primeiro semestre de 2025.
«Devemos estar conscientes de que a integração regional já não é uma escolha, mas uma necessidade para construir cadeias de valor regionais resistentes aos choques globais. A Comunidade da África Oriental oferece oportunidades sem precedentes e o seu sucesso depende da qualidade da nossa integração dentro da nossa própria região», declarou Beatrice Askul Moe, presidente do Conselho de Ministros da organização.
Paralelamente a esta reforma, a Cimeira decidiu igualmente conceder um perdão excecional de 50% sobre os atrasos nas contribuições dos Estados parceiros, a fim de ter em conta as dificuldades económicas enfrentadas por alguns membros. No entanto, os países abrangidos deverão pagar os 50% restantes no prazo de dois anos.
Charlène N’dimon
O atelier de Lomé deverá padronizar as bases de dados de sete países que concluíram a sua primeira vaga de recolha e preparar a segunda, cujos resultados são esperados até ao final de 2026.
Cerca de sessenta especialistas em estatística dos oito Estados-membros da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), bem como da Guiné, e representantes da AFRISTAT, do BCEAO, do BOAD e do Banco Mundial estão reunidos esta semana em Lomé para avaliar a primeira vaga de recolha da 3.ª edição do Inquérito Harmonizado sobre as Condições de Vida dos Agregados Familiares (EHCVM 2025/26).
A recolha abrange três componentes (agregado familiar, comunitário e preços), para as quais as equipas nacionais trabalharam com ferramentas digitais de inquérito harmonizadas, finalizadas em anteriores ateliers regionais.
«Desde o lançamento oficial desta edição em Dacar, em setembro de 2024, os Estados-membros conduziram com determinação a primeira vaga de recolha, que hoje chegou ao fim em sete dos oito países», indicou Ibrahim Tankari, conselheiro no Gabinete de Representação da Comissão da UEMOA no Togo, representando o comissário Mahamadou Gado, na abertura do encontro.
Três resultados esperados
Os trabalhos da semana têm três objetivos operacionais, como recorda Félicien T. Accrombessy, representante do Banco Mundial: padronizar os nomes dos ficheiros e das variáveis entre os países para tornar as bases de dados diretamente comparáveis; definir regras de estabilização que permitam eliminar observações aberrantes; e retirar lições da vaga 1 para melhorar a recolha durante a segunda vaga.
«Estes resultados podem parecer técnicos, mas o seu alcance é profundamente político: são eles que garantirão que os números da pobreza que os nossos governos utilizarão para orientar os seus orçamentos e as suas políticas sociais serão fiáveis, comparáveis e incontestáveis», assegura o especialista em estatística.
Recolha concluída em 7 dos 8 países
O Togo, país anfitrião do atelier, figura entre os Estados que ainda não concluíram a sua recolha. Restrições internas impediram o país de seguir o calendário comunitário.
«Foram tomadas disposições para que, até ao final de 2026, o nosso país realize as duas vagas do EHCVM3», assegura, no entanto, Béguédouwé Paneto, secretário-geral do Ministério do Planeamento e da Cooperação, reafirmando o compromisso togolês.
Um instrumento no centro das políticas de desenvolvimento
Desde 2018-2019, o EHCVM serve como ferramenta de medição da pobreza no espaço da UEMOA, com duas edições já realizadas nos oito Estados-membros. Segundo o representante da União, este inquérito «constitui agora um dos principais instrumentos da União para produzir dados essenciais para o acompanhamento da pobreza, a formulação de políticas económicas e sociais e o planeamento do desenvolvimento».
O encontro de Lomé insere-se no âmbito do Projeto de Harmonização e Melhoria das Estatísticas na África Ocidental e Central (PHASAOC), financiado pelo Banco Mundial para o período 2023-2028. Os resultados finais do EHCVM 2025/26 são esperados para o final de 2026, seis meses após o encerramento da segunda vaga prevista entre abril e junho de 2026 na maioria dos países.
Além disso, o alcance da operação ultrapassa agora o espaço da UEMOA. No âmbito do projeto HISWACA, a Comissão da CEMAC (Comunidade Económica e Monetária da África Central) conduz em paralelo o seu próprio programa de harmonização estatística para o período 2024-2029.
Ayi Renaud Dossavi
A International Finance Corporation prepara-se para financiar a expansão agrícola da Nile Sugar Company, filial da família Sawiris family, na região de Minya. Trata-se de uma aposta industrial e soberana no centro da estratégia alimentar do Cairo.
O Egypt continua a procurar reduzir a sua dependência das importações de açúcar, e a International Finance Corporation (IFC), braço privado do World Bank, pretende apoiar essa ambição. Segundo documentos obtidos pela Agence Ecofin, a instituição considera conceder um empréstimo sénior de 40 milhões de dólares à Nile Sugar Company, produtora privada de açúcar de beterraba fundada em 2006 pela família Sawiris family. O processo, que circula internamente há vários meses, encontra-se atualmente à espera de aprovação.
Uma estrutura paritária e um prazo de sete anos
O financiamento proposto divide-se em duas parcelas iguais: 20 milhões de dólares provenientes diretamente da IFC e 20 milhões mobilizados junto de investidores terceiros, com maturidade de sete anos, incluindo três anos de carência. A Nile Sugar Company foi adquirida em 2019 pela Orascom Investment Holding, o veículo de investimento de Naguib Sawiris, numa transação avaliada em 3,7 mil milhões de libras egípcias (71,8 milhões de dólares), o que permitiu ao grupo consolidar a sua posição no setor agroalimentar estratégico.
Os fundos servirão para financiar o desenvolvimento de 13 711 feddans — cerca de 5 760 hectares de terras agrícolas — na região de Minya, no Alto Egito, destinados ao cultivo de beterraba sacarina. Estão igualmente previstos investimentos em infraestruturas, equipamentos e fundo de maneio, nomeadamente para o pré-financiamento de sementes e insumos destinados aos pequenos agricultores fornecedores da empresa.
Inserção na grande reconversão das terras desérticas
O projeto insere-se no vasto programa nacional de valorização agrícola conduzido pela Egyptian Countryside Development Company, uma estrutura tripartida que reúne os ministérios das Finanças, da Agricultura e da Habitação, com o objetivo de reconverter quatro milhões de feddans (1,68 milhão de hectares) de terras desérticas até 2030. Este programa de grande escala visa reforçar as capacidades agrícolas do Egypt, atrair investimentos locais e estrangeiros e promover o desenvolvimento sustentável.
A refinaria da Nile Sugar Company, situada em Nubariyah, ao longo da estrada do deserto Alexandria–Cairo, processa atualmente até 11 000 toneladas de beterraba por dia e produz cerca de 232 000 toneladas de açúcar branco por campanha. A fábrica, localizada a cerca de 350 quilómetros das novas terras agrícolas de Minya, é considerada pela IFC como uma instalação associada ao projeto, uma vez que se abastece quase exclusivamente das explorações financiadas.
Um défice estrutural que a produção doméstica ainda não cobre
O desafio é significativo. A produção de açúcar do Egypt atingiu 2,8 milhões de toneladas em 2025, com uma meta de 2,9 milhões de toneladas em 2026, o que corresponde a uma taxa de autossuficiência de 81%, em ligeira recuperação após ter caído para 75,8% em 2024. O país consome cerca de 3,2 milhões de toneladas por ano, mantendo um défice estrutural que as autoridades procuram reduzir através da expansão das áreas cultivadas e do reforço da capacidade industrial do setor privado.
As importações de açúcar bruto deverão cair para 1,5 milhão de toneladas em 2024-2025, contra 1,8 milhão de toneladas na campanha anterior, sinal de uma dinâmica de substituição de importações que o investimento da IFC pretende acelerar.
Fiacre E. Kakpo
Num mercado africano de resseguros avaliado em 6,3 mil milhões de dólares, mas ainda captado em 70% a 80% pelos grandes grupos europeus, este anúncio representa um sinal forte na ofensiva do continente para reter as suas próprias receitas de prémios.
A International Finance Corporation (IFC) prepara-se para disponibilizar uma facilidade de garantia que pode atingir 50 milhões de dólares em benefício da ZEP-RE (PTA Reinsurance Company), resseguradora panafricana sediada em Nairobi. A operação foi aprovada pelo conselho de administração da IFC a 22 de dezembro de 2025 e formalizada nove dias depois, estando ainda à espera de desembolso.
O mecanismo visa cobrir o risco de crédito de resseguro da ZEP-RE. O objetivo é permitir à empresa selecionar um portefólio de negócios mais rentável e de melhor qualidade, ao mesmo tempo que expande a sua presença no continente.
Criada em 1990 por iniciativa dos chefes de Estado da antiga Preferential Trade Area for Eastern and Southern Africa (PTA), que posteriormente se tornou o Common Market for Eastern and Southern Africa (COMESA), a ZEP-RE está entre as raras resseguradoras africanas com vocação regional. O seu capital reúne cerca de uma dezena de Estados membros, incluindo Kenya, Ethiopia, Zambia, Zimbabwe, Rwanda, Uganda e Malawi, bem como instituições financeiras continentais como o African Development Bank e o African Export-Import Bank, além de operadores de seguros africanos e internacionais.
Um mercado em crescimento, mas dominado por atores estrangeiros
O mercado africano de resseguro representou 6,3 mil milhões de dólares em prémios em 2024, ou apenas 1,6% das subscrições mundiais, segundo dados da Atlas Magazine. Trata-se de um valor modesto face ao potencial do continente, mas que cresceu 8,8% num ano e 89% na última década.
Contudo, persiste um problema estrutural. As resseguradoras estrangeiras — sobretudo as filiais africanas da Munich Re, Hannover Re e SCOR — captam entre 70% e 80% dos prémios africanos, deixando aos operadores locais os segmentos menos rentáveis.
Para enfrentar esta fuga de capitais, vários reguladores africanos endureceram as regras. O princípio é simples: antes de recorrer ao mercado internacional, as seguradoras devem ceder uma parte fixa dos seus tratados a um ressegurador local ou regional.
O Kenya, por exemplo, estuda aumentar a cessão obrigatória para 25% em favor da Kenya Reinsurance Corporation, contra 20% atualmente. Já Uganda impõe limites acumulados de 15% para a Uganda Reinsurance Company, 10% para a ZEP-RE e 5% para a Africa Re. Na zona Conférence Interafricaine des Marchés d’Assurances (CIMA), aplica-se um mecanismo semelhante em benefício da CICA-Re.
É neste contexto de retenção das receitas no continente que ZEP-RE e Africa Re — esta última representando cerca de um quinto dos prémios africanos — procuram reforçar o seu posicionamento face à concorrência dos grandes grupos globais.
Para além da resseguradora tradicional, o grupo desenvolveu também ofertas de microseguros diretos direcionadas a populações pouco bancarizadas. A IFC prevê ainda, no âmbito deste financiamento, apoio técnico para o desenvolvimento de soluções digitais de gestão de risco.
Essas iniciativas deverão beneficiar sobretudo pequenos agricultores e PME africanas, com especial atenção às empresas lideradas por mulheres.
Fiacre E. Kakpo
Após a sua filial nos Camarões, o BGFIBank Côte d’Ivoire iniciou também um aumento de capital. A operação insere-se na estratégia do grupo destinada a apoiar o crescimento das suas atividades nos mercados da África Central e África Ocidental.
O grupo bancário gabonês BGFIBank continua a reforçar os fundos próprios das suas filiais nestas regiões. O conselho de administração do BGFIBank Côte d’Ivoire, reunido na sexta-feira, 6 de março, «decidiu aumentar o capital social em 40 mil milhões de FCFA (70,4 milhões de dólares), elevando-o para 60 mil milhões de FCFA (105,7 milhões de dólares)».
A operação foi anunciada no LinkedIn, no domingo, 8 de março de 2026, por Henri-Claude Oyima, presidente e diretor-geral do grupo. Segundo ele, «este reforço significativo dos fundos próprios permitirá à filial aproveitar as oportunidades oferecidas pelo mercado dinâmico da Costa do Marfim, que constitui um dos quatro polos de crescimento do grupo BGFIBank».
Reforço das filiais em vários países
Uma operação semelhante foi realizada nos Camarões. No sábado, 28 de fevereiro, o conselho de administração do BGFIBank Cameroun aprovou um aumento do capital social do banco, que passou de 20 mil milhões para 50 mil milhões de FCFA.
As duas operações, nos Camarões e na Costa do Marfim, ocorreram poucos dias após a captação de mais de 45 mil milhões de francos CFA pela BGFI Holding Corporation, durante a sua entrada em bolsa. A holding financeira indicou que estes recursos serão utilizados para financiar parcialmente os seus investimentos prioritários, incluindo a consolidação das suas posições nos países onde está presente e o reforço das suas capacidades operacionais.
Resultados financeiros em crescimento
A filial marfinense já possuía um capital superior ao mínimo exigido pelas autoridades reguladoras. A 21 de dezembro de 2023, o conselho de ministros da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA) decidiu aumentar o capital social mínimo dos bancos da zona de 10 para 20 mil milhões de francos CFA. Segundo o Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), esta reforma visa reforçar a solidez do sistema bancário da União e melhorar a capacidade das instituições financeiras para enfrentar choques económicos e financeiros.
A análise das contas do BGFIBank Côte d’Ivoire relativas ao exercício encerrado a 31 de dezembro de 2025 mostra uma evolução positiva da atividade. O total do balanço atingiu 1.236 mil milhões de francos CFA, representando um aumento de 18% em relação ao exercício anterior. O lucro líquido situou-se em 21,5 mil milhões de francos CFA, um crescimento de 32% face a 2024.
Tendo em conta estes resultados, o conselho de administração prevê propor, na próxima assembleia geral, a distribuição de um dividendo total de 13 mil milhões de francos CFA aos acionistas.
Chamberline Moko
Estimada em mais de 1,2 milhão de pessoas, a diáspora marfinense constitui um importante alavanca para o desenvolvimento socioeconómico do país.
Na Costa do Marfim, o ministro delegado responsável pela Integração Africana e pelos Marfinenses no Estrangeiro, Adama Dosso (foto, à direita), supervisionou na sexta-feira, 6 de março, a assinatura de um protocolo-quadro entre o seu ministério e o Banco Nacional de Investimento (BNI). Este acordo visa reforçar o apoio financeiro aos projetos levados a cabo pela diáspora marfinense e incentivar a sua participação no desenvolvimento económico do país.
Segundo informações divulgadas pela Agência Marfinense de Imprensa (AIP), o protocolo prevê, nomeadamente, a criação de produtos e serviços bancários adaptados aos marfinenses no estrangeiro, o financiamento dos seus projetos de investimento, bem como ações de educação financeira e de reforço de capacidades. O BNI participará também em iniciativas e fóruns de mobilização da diáspora.
«A diáspora marfinense constitui uma alavanca importante para o crescimento e a transformação económica do país, sobretudo através das transferências financeiras que realiza todos os anos para a Costa do Marfim», afirmou a ministra Dosso.
Os marfinenses residentes no estrangeiro representam uma comunidade estimada em cerca de 1,24 milhão de pessoas, ou seja, cerca de 5,4% da população nacional, de acordo com dados governamentais. Frequentemente qualificada como a «32.ª região» do país, esta diáspora é considerada um ator potencial do desenvolvimento socioeconómico.
Para melhor mobilizar este potencial, as autoridades implementaram nos últimos anos várias reformas, incluindo a criação da Direção-Geral dos Marfinenses no Estrangeiro (DGIE) no âmbito do ministério responsável pela Integração Africana. Missões, fóruns e seminários também foram organizados para recolher as preocupações da diáspora e identificar as suas intenções de investimento.
Segundo dados do Banco Mundial, as remessas da diáspora marfinense foram estimadas em 1,042 mil milhões de dólares em 2024, contra 440 milhões de dólares em 2021, confirmando o seu papel crescente no financiamento da economia nacional.
Charlène N’dimon