Na África Ocidental, o Gana figura entre os principais polos de pesca, ao lado da Nigéria, da Mauritânia, do Senegal e da Guiné. No país, onde o setor é dominado pela pesca artesanal, o governo continua os seus esforços de modernização com um novo projeto de infraestrutura.
No Gana, o distrito de Shama, na região Ocidental, foi escolhido para acolher um porto de pesca moderno. Foi o que revelou Emelia Arthur, ministra das Pescas e da Aquacultura, na quarta-feira, 10 de junho, acrescentando que os preparativos do projeto se encontram numa fase avançada.
Segundo a responsável, este projeto deverá melhorar as operações de desembarque e de manuseamento do peixe, criar empregos e estimular o crescimento económico local. «Estamos determinados a desenvolver oportunidades de emprego no setor das pescas e a melhorar as condições de vida nas comunidades costeiras», afirmou a ministra Arthur.
Para já, os detalhes relativos ao custo do projeto e ao calendário de execução ainda não são conhecidos. Ainda assim, o futuro porto de pesca de Shama permitirá reforçar o peso da região Ocidental como um dos principais polos de pesca do país. Segundo a Comissão das Pescas do Gana, esta região concentra já 33% dos locais de desembarque de peixe e 25% das infraestruturas portuárias ligadas às pescas no país.
Um desafio crucial na promoção da gestão sustentável das pescas
O projeto do porto de pesca de Shama surge num momento em que o Gana enfrenta um declínio das capturas de peixe há vários anos. A antiga Costa do Ouro tem tido dificuldades em regressar ao seu pico de captura de 496 770 toneladas registado em 1999. Segundo dados compilados pela FAO, as capturas de peixe no país diminuíram globalmente 22,6%, descendo para 384 370 toneladas em 2023.
Entre as principais razões apontadas pelos intervenientes do setor para explicar este declínio está, em primeiro lugar, a sobrepesca, associada a um forte aumento do número de embarcações artesanais, semi-industriais e industriais nos últimos anos. A isto junta-se a persistência da pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (INN), bem como as alterações climáticas, que perturbam os ecossistemas marinhos, alterando as migrações dos peixes e reduzindo a produtividade das águas costeiras.
Por outro lado, a predominância da pesca artesanal, que depende frequentemente de vários locais de desembarque, contribui, segundo alguns especialistas, para a persistência de práticas ilegais e para uma gestão ineficaz dos recursos haliêuticos.
Neste contexto, um projeto como o futuro porto de pesca moderno de Shama sugere uma vontade das autoridades de enquadrar melhor a exploração dos recursos marinhos, num cenário marcado pela pressão crescente sobre os stocks e pela necessidade de garantir a sustentabilidade da pesca.
No Gana, a frota de pesca é composta por cerca de 14 323 embarcações, segundo as últimas estimativas da Comissão das Pescas, das quais 97% são utilizadas na pesca artesanal. O país conta ainda com cerca de 263 locais de desembarque de peixe em quatro regiões costeiras.
Stéphanas Assocle
A Tanzânia é o segundo maior importador de óleos alimentares da África Oriental, depois do Quénia. O governo, que procura reduzir a dependência das importações, está a reforçar o seu apoio à indústria local através de uma revisão da fiscalidade aplicável aos produtos importados e aos produzidos localmente.
Na Tanzânia, o governo continua os seus esforços para criar um quadro favorável ao desenvolvimento de uma indústria de óleos alimentares competitiva. No âmbito do exercício orçamental de 2026/2027, Dodoma decidiu implementar uma série de reformas destinadas, por um lado, a incentivar a produção local e, por outro, a proteger o mercado da concorrência externa.
Medidas de incentivo fiscal
A principal medida anunciada consiste na isenção do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) para os óleos alimentares produzidos a partir de sementes oleaginosas cultivadas localmente. Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais, esta disposição, anunciada na quinta-feira, 11 de junho, por Khamis Mussa Omar, Ministro das Finanças, perante o parlamento, visa reduzir os custos de produção para a indústria, ao mesmo tempo que reforça a procura e o consumo local destas matérias-primas, cuja produção continua a crescer.
Os dados compilados pelo Ministério da Agricultura mostram, por exemplo, que a colheita de oleaginosas na Tanzânia aumentou cerca de 34% em cinco anos, passando de 1,63 milhões de toneladas na campanha de 2019/2020 para 2,18 milhões de toneladas em 2023/2024.
As principais culturas oleaginosas produzidas no país são o girassol e o amendoim, que representaram aproximadamente 56% e 28% das colheitas, respetivamente, em 2023/2024. Entre as outras culturas oleaginosas destacam-se ainda o sésamo, o coco e o dendém.
Medidas de proteção comercial
No plano comercial, as autoridades introduziram um direito aduaneiro de 10% sobre todos os óleos alimentares brutos importados, incluindo o óleo de palma bruto, que até agora beneficiava de uma isenção. «Esta medida visa eliminar o problema das falsas declarações ou da classificação incorreta praticadas por alguns comerciantes sem escrúpulos, que aproveitam as reduções existentes sobre o óleo de palma bruto para importar óleo de palma semirrefinado», explicou o Sr. Omar, em declarações citadas pelo jornal local The Daily News.
Está igualmente previsto que os óleos alimentares refinados importados continuem sujeitos a uma tributação elevada, com um direito aduaneiro fixado em 35% ou 300 dólares por tonelada. Esta medida reflete a vontade de Dodoma de proteger as unidades locais de refinação e de incentivar a transformação no território nacional, em vez da importação de produtos acabados.
Através desta série de reformas, as autoridades tanzanianas procuram estruturar uma indústria de óleos alimentares mais autónoma e competitiva, facilitando o acesso às matérias-primas e reduzindo algumas cargas fiscais para os industriais. Estas medidas deverão também favorecer novos investimentos nas capacidades de transformação e refinação nos próximos anos.
O desafio para Dodoma, ao estimular a produção local de óleos alimentares, será igualmente reduzir a fatura das importações, que continua a aumentar. Os dados compilados na plataforma Trade Map mostram que a Tanzânia importou cerca de 659 milhões de dólares em óleo vegetal no mercado internacional em 2025, quase três vezes mais do que o montante registado um ano antes (228,4 milhões de dólares).
Stéphanas Assocle
O Ruanda é o quarto maior importador de açúcar da África Oriental, depois da Somália, do Quénia e da Tanzânia. O Governo, que procura reduzir as suas compras nos mercados externos, está à procura de novos investimentos para reforçar a sua capacidade de produção.
No Ruanda, o Governo está em negociações com o conglomerado industrial queniano Rai Group para implementar um projeto açucareiro de grande dimensão no país. A informação foi divulgada por Prudence Sebahizi, ministro do Comércio e da Indústria, na terça-feira, 9 de junho, durante uma apresentação perante a Câmara dos Deputados.
Segundo informações divulgadas pelo jornal local The New Times, o projeto prevê a atribuição ao grupo Rai de uma concessão de 11 000 hectares de terras agrícolas no distrito de Nyagatare, destinada à produção de cana-de-açúcar e à construção de uma unidade industrial açucareira.
Uma necessidade para reduzir a crescente fatura das importações
De acordo com o ministro Sebahizi, esta iniciativa insere-se num programa mais amplo destinado a atrair novos investidores para desenvolver a indústria açucareira, atualmente dominada por um único operador e incapaz de acompanhar o crescimento da procura no mercado interno.
No Ruanda, a Kabuye Sugar é atualmente o único produtor de açúcar em atividade no país. A empresa, que anteriormente satisfazia cerca de 45% do consumo nacional através da sua produção, viu a sua quota de mercado cair para aproximadamente 10% nos últimos anos, segundo estatísticas oficiais.
Contudo, este declínio não se deve a uma redução da capacidade produtiva, mas sim ao aumento da procura. «Como não foram criadas novas fábricas ao longo do tempo, as importações aumentaram para responder ao crescimento da procura interna», explicou o ministro.
Neste contexto, o recurso ao açúcar importado aumentou significativamente, passando de cerca de 15 000 toneladas em 2015 para 196 000 toneladas em 2025, segundo dados compilados na plataforma Trademap. Paralelamente, a despesa associada a estas importações passou de 8,8 milhões de dólares para quase 146 milhões de dólares no mesmo período.
Kigali aposta no projeto atualmente em discussão com o grupo Rai para assegurar, nos próximos anos, cerca de 50% das necessidades do mercado ruandês de açúcar.
Reforço da presença do grupo Rai na África Oriental
Por seu lado, o grupo Rai vê nesta oportunidade uma forma de expandir ainda mais a sua presença na indústria açucareira da África Oriental, fazendo potencialmente do Ruanda um novo polo de crescimento regional.
Com efeito, a empresa já ocupa uma posição dominante no Quénia, onde afirma deter cerca de 50% do mercado. O seu portefólio na maior economia da África Oriental inclui várias empresas de referência, entre as quais West Kenya Sugar, Sukari Industries, Olepito Sugar e Naitiri Sugar Company, cobrindo toda a cadeia de valor, desde o cultivo da cana-de-açúcar até à moagem, refinação e comercialização do açúcar.
Stéphanas Assocle
A transformação da castanha de caju ganha terreno na África Ocidental, impulsionada pela abundância da produção e por políticas públicas mais favoráveis ao longo da última década. No entanto, por detrás deste crescimento global, as trajetórias continuam a ser muito contrastantes de país para país.
No Benim, o fim oficial das exportações de castanha de caju em bruto não se traduziu no surgimento de uma indústria local de transformação. Foi o que afirmou à Agência Ecofin Jim Fitzpatrick, especialista no mercado mundial dos frutos de casca rija.
A medida, em vigor desde abril de 2024, enquadrava-se numa política destinada a incentivar os operadores a transformar a produção local, nomeadamente na Zona Industrial de Glo-Djigbé (GDIZ).
Embora, em teoria, esta decisão seja favorável à criação de valor acrescentado, o analista considera que, na prática, o país nem sempre consegue absorver a totalidade da colheita, que varia entre 170 000 e 180 000 toneladas por ano, apesar das importantes capacidades industriais instaladas.
Esta situação continua a alimentar uma forte expansão das atividades de contrabando, com o produto a ser encaminhado para a Índia ou para o Vietname através do porto de Lomé, no Togo, ou por portos nigerianos.
«A proibição das exportações de castanha de caju em bruto ainda não favoreceu a transformação local. Nos últimos dois ou três anos, o que se observou foi que os industriais locais ou não querem pagar o preço exigido pelos produtores, ou não dispõem de capital circulante suficiente nem de mercados para comprar e escoar toda a colheita. E isso constitui um problema. Se analisarmos os números do ano passado, um pouco menos de 30% da colheita foi transformada no país. Isso significa que cerca de 70% da produção foi redirecionada para o Togo ou para a Nigéria. O que acontece é que o produto, rotulado como originário desses países, é posteriormente apresentado na Índia como castanha de caju de origem beninense, cuja qualidade é particularmente apreciada», explica.
«Esta situação criou igualmente riscos mais amplos. Criminalizou as trocas comerciais no setor e existe o receio de que, se os preços à saída da exploração agrícola baixarem, os produtores abandonem o cultivo do cajueiro em favor de outras culturas. O destacamento de forças militares ao longo da fronteira também não conseguiu travar o contrabando», acrescenta o Sr. Fitzpatrick.
De forma geral, a opinião do especialista vem lançar mais luz sobre um problema já referido várias vezes pelas autoridades, não apenas em relação ao setor do caju, mas também ao da soja. Ainda assim, alguns observadores consideram que é demasiado cedo para fazer um balanço definitivo de uma política que se destaca no panorama regional.
Com efeito, o Benim é o único país da África Ocidental a proibir oficialmente e de forma total as exportações de castanha de caju. Os restantes fornecedores da região aplicam impostos à exportação de castanha em bruto e/ou estabelecem períodos especiais destinados ao abastecimento de matéria-prima para as fábricas instaladas localmente.
Espoir Olodo
O consumo de carne em África deverá registar um forte crescimento nas próximas décadas. Ao contrário dos mercados maduros como a Europa, o continente surge, a par da Ásia, como um dos principais motores do crescimento mundial da procura de produtos cárneos.
Trata-se de uma verdadeira ofensiva. No passado dia 1 de junho, a Federação dos Exportadores de Carne dos Estados Unidos (USMEF) apelou ao Gabinete do Representante Comercial dos EUA (USTR) para utilizar a AGOA como instrumento de pressão com vista a obter melhor acesso a vários destinos africanos estratégicos. Este acordo comercial, que expirou em setembro passado, foi prorrogado em fevereiro de 2026 até ao final de dezembro próximo.
«Vemos um enorme potencial para as exportações de carne vermelha no continente africano. Até agora, os benefícios da AGOA têm sido sobretudo utilizados para promover causas como os direitos humanos, os direitos laborais ou reformas políticas. […]. No entanto, a AGOA raramente foi usada para melhorar o acesso ao mercado para produtos agrícolas americanos, apesar de ter sido concebida como uma ferramenta para facilitar este comércio bilateral», lamentou Jim Remcheck, diretor de serviços de exportação da USMEF.
África do Sul, Nigéria, Angola, Quénia e Namíbia na mira
O ponto de partida desta campanha é, segundo a USMEF, a persistência de numerosas restrições à importação de carne vermelha norte-americana em vários países africanos. De acordo com a associação, as autoridades sul-africanas continuam a impor barreiras consideradas não científicas, com base no síndrome reprodutivo e respiratório suíno (PRRS), uma doença viral altamente contagiosa, apesar da suspensão da proibição da carne de porco norte-americana há 10 anos.
«Incentivamos, por isso, a África do Sul a adotar uma abordagem baseada na ciência e na análise de riscos, em conformidade com os seus compromissos na OMC», sublinha o responsável.
Além da África do Sul, a USMEF afirma que, em Angola, as restrições relacionadas com licenças de importação bloqueiam certos miúdos de bovino e dificultam a entrada de produtos como fígados de bovino e miúdos de porco. Já na Namíbia, o cenário é ainda mais crítico, com a proibição total das importações de carne vermelha norte-americana e o fim da emissão de licenças de trânsito para países vizinhos.
No leste do continente, embora o Quénia seja um mercado promissor, o grupo denuncia obstáculos regulamentares, pouca clareza nas regras de importação e direitos aduaneiros elevados. Por fim, na Nigéria, o mercado permanece fechado a toda a carne vermelha norte-americana fresca ou congelada, com exceção de uma gama muito limitada de produtos transformados.
«No caso do mercado nigeriano, toda a carne vermelha norte-americana fresca e não processada está atualmente proibida, uma medida sem base científica. Ainda assim, acreditamos tratar-se de um mercado com grande potencial e, mais uma vez, consideramos que a AGOA pode servir como instrumento de pressão. Pedimos ao USTR que considere sanções ou a suspensão dos benefícios da AGOA para a Nigéria enquanto esta proibição não for levantada», afirmou M. Remcheck.
Um precedente difícil
Esta nova ofensiva recorda o episódio anterior em que a AGOA já tinha sido utilizada como instrumento de negociação comercial com a África do Sul.
No início dos anos 2000, o país tinha imposto direitos antidumping sobre a carne de frango norte-americana, com o objetivo de proteger a sua indústria local, considerada ameaçada por preços demasiado baixos (dumping).
Washington contestou esta posição, argumentando que Pretória procurava sobretudo proteger um setor incapaz de responder à procura interna, num país que se tornou um grande importador de carne.
Durante vários anos, os Estados Unidos tentaram obter uma flexibilização das regras sem sucesso. A África do Sul defendia a sua política como uma medida de sobrevivência para uma fileira estratégica, com peso significativo no PIB agrícola.
Até ao início de 2014, o governo sul-africano manteve os seus direitos aduaneiros sobre os produtos norte-americanos, mas o equilíbrio de forças mudou radicalmente quando o acesso preferencial ao mercado norte-americano, concedido no âmbito da AGOA, passou a ser um ponto central de pressão.
A ideia era simples: se Pretória recusasse abrir mais o seu mercado à carne de frango norte-americana, os seus próprios benefícios comerciais nos Estados Unidos poderiam ser postos em causa, sobretudo porque o acordo deveria expirar em setembro de 2015.
Esta estratégia revelou-se decisiva. A AGOA, muito importante para as exportações sul-africanas de produtos como citrinos, vinho ou automóveis, tornou-se uma moeda de troca num confronto comercial.
Sob pressão crescente dos produtores norte-americanos e de vários responsáveis políticos, incluindo o Presidente Barack Obama, que emitiu uma ameaça formal, a África do Sul acabou por abrir o seu mercado, no primeiro trimestre de 2016, à carne de frango norte-americana, em troca da manutenção dos seus privilégios no âmbito da AGOA.
Quais implicações e margens de manobra para os países africanos?
Esta posição da USMEF confirma a realidade de um mercado africano de proteínas animais em forte crescimento, impulsionado pela urbanização, pelo aumento dos rendimentos em algumas zonas e pela evolução dos hábitos alimentares.
No Quénia, a carne de bovino representa cerca de dois terços de todo o consumo de carne no país, segundo dados do USDA, enquanto na África do Sul é a segunda carne mais consumida per capita, com 16,5 kg em 2023/2024, atrás do frango (34,79 kg).
Para os exportadores norte-americanos, África não é apenas um espaço de negociação comercial, mas também uma zona de expansão de longo prazo. Segundo a FAO, o consumo de carne bovina na Nigéria poderá atingir 1,393 milhões de toneladas até 2050, contra 470 000 toneladas em 2015, o que representaria cerca de 30% do consumo total de produtos cárneos nesse horizonte.
No entanto, vários observadores consideram que as hipóteses de repetição do cenário sul-africano são limitadas. O equilíbrio de forças anterior baseava-se num contexto específico: um mercado já fortemente dependente de importações e uma indústria avícola sob pressão.
Ora, em vários países africanos visados, a situação é diferente. Na África do Sul, a fileira da carne bovina é dinâmica e o país é exportador líquido para o Médio Oriente, tal como a Namíbia, que em 2020 se tornou o primeiro país africano a exportar carne bovina para os EUA. Assim, a entrada de carne importada pode pressionar os produtores locais e reduzir o incentivo ao investimento nas fileiras nacionais.
No caso da Nigéria, o acordo assinado em novembro de 2024 entre o governo federal e o gigante brasileiro JBS (número um mundial da carne) para a construção de seis unidades de transformação e embalagem, no valor total de 2,5 mil milhões de dólares em cinco anos, ilustra a vontade de reforçar a produção local, criar valor acrescentado e reduzir a dependência das importações.
Neste contexto, a batalha promete ser intensa, com países africanos potencialmente mais firmes na proteção das suas fileiras, sobretudo num cenário de incerteza quanto à renovação da AGOA até ao final do ano.
Espoir Olodo
O Egito afirma-se como o terceiro país mais populoso de África, depois da Nigéria e da Etiópia, e como a terceira maior economia do continente, atrás da Nigéria e da África do Sul. Estas vantagens fazem dele um mercado estratégico para as multinacionais que operam no setor agroalimentar, como a Coca-Cola.
A Coca-Cola Hellenic Bottling Company (HBC), um dos principais engarrafadores da multinacional norte-americana The Coca-Cola Company a nível mundial, prevê investir 1,28 mil milhões de dólares no Egito entre 2026 e 2030. A informação foi revelada por Zoran Bogdanovic, diretor executivo da empresa, durante a inauguração de uma nova linha de produção de bebidas na sua fábrica em Alexandria, no passado dia 7 de junho.
Segundo o responsável, este novo projeto de investimento quinquenal insere-se numa estratégia de reforço da capacidade de produção e de consolidação da posição da empresa num dos seus principais mercados em África.
Presente no Egito desde 1994, a Coca-Cola HBC explora atualmente cinco unidades de produção de bebidas, localizadas nas cidades de Alexandria, Tanta, Sadat City, Qalioub e Assiut. A empresa posiciona-se como uma das principais fabricantes e distribuidoras de bebidas no país, com marcas emblemáticas como “Coca-Cola”, “Sprite”, “Fanta” e “Schweppes”.
«Só em 2024, as atividades da Coca-Cola no Egito geraram cerca de mil milhões de dólares em valor acrescentado para a economia nacional, empregaram diretamente 4 900 pessoas e apoiaram cerca de 64 000 empregos ao longo da sua cadeia de valor», afirmou Adnan Topcic, diretor-geral da Coca-Cola Hellenic Egito, filial local da Coca-Cola HBC, destacando o peso económico da empresa.
Estratégia de expansão do sistema Coca-Cola nos grandes mercados africanos
Para além do Egito, o sistema Coca-Cola está a acelerar os seus investimentos nas principais economias do continente, nomeadamente a Nigéria e a África do Sul.
Na África do Sul, a The Coca-Cola Company anunciou em março passado um plano de investimento de 17,6 mil milhões de rands (cerca de 1,06 mil milhões de dólares) para o período 2026-2030, com o objetivo de reforçar as capacidades de produção, otimizar a distribuição e apoiar a inovação em toda a cadeia de valor do sistema Coca-Cola no país. Este anúncio surge na continuidade de um programa de investimento semelhante na Nigéria, revelado em 2024, também estimado em 1 mil milhão de dólares ao longo de cinco anos.
Estes investimentos inserem-se igualmente num contexto mais amplo de reestruturação do sistema de engarrafamento da Coca-Cola no continente. Desde 2025, a Coca-Cola HBC iniciou uma operação estratégica destinada à aquisição da Coca-Cola Beverages Africa (CCBA), o principal engarrafador do grupo em África, presente em cerca de quinze mercados, incluindo a África do Sul.
No âmbito desta transação, a Coca-Cola HBC espera assumir o controlo da CCBA no segundo semestre de 2026, reforçando assim a sua posição no ecossistema da Coca-Cola em África.
Stéphanas Assocle
Em África, apenas uma dezena de países produz fertilizantes, entre os quais o Marrocos, o Egito, a Argélia e a Nigéria. Na África Central, a República do Congo ambiciona integrar este grupo restrito, apoiando-se em importantes recursos naturais ainda amplamente subaproveitados.
O Congo pretende desenvolver uma indústria de fertilizantes assente nos seus recursos naturais, de forma a acelerar a diversificação de uma economia ainda fortemente dependente das receitas petrolíferas. Esta ambição foi referida pelo presidente Denis Sassou Nguesso à margem das 61.ªs Assembleias Anuais do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), realizadas em Brazzaville de 25 a 29 de maio de 2026.
Mais do que uma simples orientação política, este objetivo é apoiado por especialistas das Nações Unidas, que destacam o potencial do país nesta nova dinâmica. «Através da valorização e da transformação integral do petróleo e do gás, o Congo pode produzir fertilizantes. Depois, no que diz respeito a outros recursos como o fosfato, o país já dispõe de uma base industrial. É preciso apoiar-se na disponibilidade deste recurso para iniciar um processo de transformação local do fosfato, de modo a colocar à disposição da agricultura, não só no Congo, mas também na sub-região», afirmou Adama Ekberg Coulibaly, responsável pelas iniciativas sub-regionais no escritório da África Central da Comissão Económica das Nações Unidas para África (CEA), em declarações citadas pela Agência de Informação de África Central.
Importa notar que o gás natural é atualmente o principal recurso de exploração industrial do Congo depois do petróleo, enquanto os projetos de valorização da potassa e do fosfato ainda se encontram em fase de desenvolvimento. Neste contexto, as ambições do país no setor dos fertilizantes assentam, no curto prazo, sobretudo na valorização do gás natural. A mais longo prazo, a exploração dos depósitos de potassa e dos recursos fosfatados poderá, no entanto, diversificar a gama de fertilizantes produzidos localmente e reforçar a integração da cadeia.
Um enquadramento favorável ao desenvolvimento de uma indústria de fertilizantes
Com reservas comprovadas estimadas em cerca de 10 biliões de pés cúbicos (Tcf), segundo dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), o Congo dispõe de um importante potencial gasífero ainda parcialmente explorado. A produção anual média de gás foi estimada em cerca de 28 mil milhões de pés cúbicos (Bcf) até 2022, sendo uma grande parte historicamente reinjetada, queimada ou consumida localmente devido à falta de infraestruturas de exportação.
Até 2024, o país não exportava de forma significativa gás natural liquefeito (GNL), uma forma de transporte e comercialização do gás nos mercados internacionais. Esta situação mudou com o lançamento do projeto Congo LNG, operado pela italiana Eni, com uma capacidade de cerca de 4,5 mil milhões de m³ por ano, o que corresponde a cerca de 160 mil milhões de pés cúbicos de gás exportável. Este projeto marcou o início das primeiras exportações de GNL do país.
O projeto de industrialização dos fertilizantes insere-se assim num contexto em que o Congo reforça progressivamente as suas capacidades de transformação e valorização do gás natural. Este constitui a principal matéria-prima para a produção de amoníaco, etapa fundamental na fabricação de fertilizantes azotados como a ureia. O aumento da oferta de gás, combinado com o reforço das capacidades de transformação local, abre caminho ao desenvolvimento de uma indústria petroquímica capaz de sustentar uma fileira nacional de fertilizantes.
Para um reposicionamento industrial regional
Se estas ambições se concretizarem, o Congo poderá afirmar-se como um ator industrial de referência na cadeia de valor dos fatores de produção agrícolas na África Central. O país passaria então a desempenhar um papel de fornecedor regional no seio da Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC), com impacto esperado na redução dos custos de acesso aos fertilizantes.
Tal como na maioria dos países da África Subsaariana, os Estados da África Central, incluindo o Congo, continuam fortemente dependentes das importações para satisfazer as suas necessidades de fertilizantes, a custos elevados. Segundo dados do Trade Map, os países da CEEAC importaram cerca de 334 milhões de dólares em fertilizantes em 2025, dos quais aproximadamente 47% eram fertilizantes compostos (NPK), 45% fertilizantes azotados, 6% fertilizantes potássicos e apenas 2% fertilizantes fosfatados.
Com as suas futuras capacidades de produção, Brazzaville poderá também posicionar-se no mercado africano, de dimensão muito maior. Em 2025, as importações africanas de fertilizantes atingiram cerca de 7,14 mil milhões de dólares, dos quais aproximadamente 39% corresponderam a fertilizantes azotados, segundo o Trade Map.
No entanto, a concretização das ambições congolesas dependerá de vários fatores, nomeadamente da capacidade de mobilizar investimentos significativos, da competitividade das futuras unidades industriais face aos produtores internacionais e regionais, bem como da criação de um ecossistema industrial capaz de sustentar de forma duradoura a fileira.
Stéphanas Assocle
No Burkina Faso, o caju figura entre os principais produtos agrícolas de exportação, juntamente com o algodão, a manteiga de karité e o sésamo. O governo, que pretende aumentar a criação de valor acrescentado nestas fileiras, incentiva os investimentos na transformação local.
No Burkina Faso, o grupo suíço Gebana Faso colocou em funcionamento, no passado dia 6 de junho, uma unidade de transformação de caju sediada em Péni, na região de Guiriko, no sudoeste do país. Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais, esta nova instalação faz parte de um complexo agroindustrial que ocupa uma área de 7,2 hectares.
Embora o custo total do investimento não tenha sido revelado, sabe-se que a unidade dispõe de uma capacidade de processamento de 10 000 toneladas de noz por ano. Para garantir o seu abastecimento em matéria-prima, a empresa conta com uma rede de 7 200 produtores locais.
Esta unidade vem ainda reforçar as capacidades de transformação no setor do caju burquinabê. Em dezembro de 2025, o presidente Ibrahim Traoré já tinha inaugurado em Bobo-Dioulasso, na mesma região, uma unidade de transformação de caju denominada Burkina Cajou. Com um custo total de 9,74 mil milhões de francos CFA (17,4 milhões de dólares), esta unidade tem uma capacidade de processamento de 150 000 toneladas por ano, o que a torna, segundo as autoridades, a maior unidade de transformação do país.
Neste contexto, a entrada em funcionamento da fábrica da Gebana poderá acelerar a concretização das ambições de crescimento no segmento da transformação. No país, o Comité Interprofissional do Caju do Burkina Faso (CIAB) fixou como objetivo transformar, até 2033, 50% da produção nacional de caju localmente, contra cerca de 10% atualmente.
Importa notar que a produção de caju no Burkina Faso foi estimada, em média, em cerca de 140 000 toneladas por ano entre 2018 e 2022, segundo estatísticas oficiais. Em comparação, o serviço independente de consultoria comercial N’kalô estima que o país apenas transformou em média 15 400 toneladas de caju por ano entre 2021 e 2025, no seu boletim informativo publicado a 3 de fevereiro de 2026.
Desafios a enfrentar
Enquanto os investimentos no segmento de transformação do caju se multiplicam no Burkina Faso, a questão da disponibilidade de matéria-prima em quantidade suficiente para a indústria continua no centro das preocupações.
Tal como na maioria dos países produtores da África Ocidental, a exportação de caju em bruto é privilegiada, nomeadamente devido aos preços do mercado internacional, frequentemente considerados mais atrativos para os atores da fileira do que os oferecidos pelos industriais no mercado local.
É neste contexto que o governo burquinabê suspendeu, em março de 2025, as exportações de caju em bruto, de forma a garantir às unidades locais de transformação um acesso suficiente à matéria-prima. Em 20 de maio de 2025, essa proibição foi levantada após as fábricas terem sido devidamente abastecidas, tendo as autoridades esclarecido, no entanto, que se reservam o direito de voltar a impor a suspensão caso as necessidades nacionais deixem de estar asseguradas, a fim de proteger a fileira local.
Esta alternância entre suspensão e levantamento ilustra os equilíbrios que Ouagadougou tem de gerir para não só preservar os rendimentos dos agricultores, mas também apoiar a transformação local que gera mais valor acrescentado na fileira. Apesar do seu baixo nível de transformação, a fileira do caju no Burkina Faso gerou 67,5 mil milhões de francos CFA em receitas de exportação em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Demografia (INSD).
Stéphanas Assocle
No Gana, as perdas pós-colheita constituem um desafio permanente para a segurança alimentar e provocam perdas de rendimento consideráveis para os agricultores. Perante esta situação, Acra aposta na colaboração com parceiros bielorrussos para melhorar a gestão deste fenómeno.
O Gana procura reduzir as suas perdas pós-colheita inspirando-se no modelo agroindustrial bielorrusso. É neste contexto que o Presidente John Dramani Mahama realiza uma visita de Estado de cinco dias ao país, de 5 a 9 de junho, marcada por uma passagem pela cidade industrial de Brest, importante polo de agrotransformação do país.
«Estamos aqui para tirar partido da vasta experiência da Bielorrússia, enquanto trabalhamos para tornar o Gana autossuficiente em matéria de produção alimentar», declarou o Presidente, acrescentando que «um dos principais objetivos desta visita era identificar soluções técnicas para reduzir as perdas pós-colheita», segundo um comunicado do governo publicado a 7 de junho.
Um desafio estrutural que custa cerca de 2 mil milhões de dólares por ano
No Gana, as perdas pós-colheita afetam até 50% da produção agrícola anual, consoante as fileiras, sendo os produtos perecíveis como frutas, legumes e tubérculos como o inhame os mais afetados.
Segundo estimativas da Sociedade Nacional de Armazenamento de Segurança Alimentar (NAFCO), estas perdas representam um prejuízo avaliado em 1,9 mil milhões de dólares por ano. As causas deste fenómeno estão amplamente documentadas e resultam da combinação de vários fatores, entre os quais a insuficiência de infraestruturas modernas de armazenamento, a falta de cadeias de frio adequadas, a fragilidade das redes rodoviárias e a fragmentação dos sistemas de comercialização.
«Se não investirmos em infraestruturas de armazenamento, armazéns e numa boa rede rodoviária, qualquer tentativa do governo de aumentar a produção apenas irá agravar o volume das perdas pós-colheita», sublinhava Basiru Musah, responsável de programas da Aliança para uma Revolução Verde em África (AGRA), em janeiro, durante um diálogo organizado pelo governo na região de Tamale.
Neste contexto, a aproximação à Bielorrússia revela-se particularmente estratégica, tendo em conta que o país da Europa de Leste dispõe de uma agroindústria desenvolvida e de reconhecida experiência na transformação e conservação de produtos agrícolas, áreas nas quais o Gana procura reforçar as suas capacidades.
Reforço da parceria entre Acra e Minsk no setor agrícola
Este novo interesse pela experiência bielorrussa no setor agroalimentar surge num contexto de crescente cooperação agrícola entre os dois países nos últimos meses. Em março de 2026, Minsk anunciou a intenção de exportar 3 000 tratores e outros equipamentos agrícolas para o Gana em 2026. A parceria inclui também a criação de centros de manutenção e programas de formação para técnicos locais.
Segundo as autoridades, esta cooperação deverá apoiar a ambição do governo ganês de distribuir mais de 4 000 máquinas agrícolas em 50 distritos, no âmbito da iniciativa Feed Ghana, que visa acelerar a mecanização de um setor onde cerca de 78% das operações agrícolas ainda são realizadas manualmente.
Além disso, o Gana constitui também um mercado estratégico para os exportadores bielorrussos de produtos lácteos, como a empresa Savushkin Product, líder do setor, que pretende aumentar as suas exportações para este mercado. A Bielorrússia, potência agroindustrial europeia, tem vindo desde 2025 a procurar ganhar quota no mercado leiteiro da África Ocidental, onde realizou uma primeira exportação de produtos lácteos para o Senegal.
Recorde-se que, nesta sub-região, o Gana é o terceiro maior importador de produtos lácteos, depois da Mauritânia e da Nigéria. Segundo a FAO, o país importou 57 108 toneladas de produtos lácteos, no valor de cerca de 125 milhões de dólares, no ano passado.
Stéphanas Assocle
A África Ocidental é o principal centro da oferta de amêndoas de karité, matéria-prima privilegiada na cosmética e na agroindústria. As políticas nacionais de industrialização adotadas por vários países da região parecem já refletir-se na dinâmica do mercado mundial.
As compras de manteiga de karité no mercado internacional atingiram 27 951 toneladas no primeiro trimestre de 2026, registando um aumento de cerca de 27% em relação ao mesmo período do ano anterior (22 046 toneladas). Estes dados são indicados pelo serviço independente de consultoria comercial N’kalô no seu boletim informativo publicado a 5 de junho, com base em dados aduaneiros.
Com esta progressão, as compras de manteiga de karité atingiram também o seu nível mais elevado em cinco anos no primeiro trimestre de 2026. Em paralelo, as exportações de amêndoas de karité (matéria-prima em bruto) apresentam uma evolução inversa. Segundo o relatório, 84 705 toneladas de amêndoas foram compradas no mercado internacional no primeiro trimestre de 2026, representando uma queda de 25% em termos homólogos e o nível mais baixo de compras registado para o mesmo período desde 2024.
As políticas de industrialização na África Ocidental em destaque
Para explicar este contraste, a consultora N’kalô atribui esta evolução à transformação das políticas públicas nos principais países produtores da África Ocidental. Desde 2024, vários Estados adotaram medidas restritivas às exportações de amêndoas de karité, com o objetivo de captar mais valor acrescentado a nível interno através do desenvolvimento de unidades industriais locais.
Após o Mali, em outubro de 2024, a Costa do Marfim e o Togo também decidiram suspender as exportações de amêndoas de karité, respetivamente em janeiro e abril de 2025. A Nigéria, principal produtora mundial, seguiu a mesma tendência desde agosto de 2025.
Depois de ter suspendido as exportações em 2024, o Burkina Faso levantou essa proibição em maio de 2026, embora sob um regime rigoroso. Os exportadores devem agora obter uma autorização especial e ceder pelo menos 25% dos seus volumes aos transformadores locais. Foi também introduzida uma taxa de 200 FCFA por quilograma exportado.
O Gana, por seu lado, está a implementar uma restrição progressiva e considera uma proibição total até 2026.
Esta combinação de restrições, ajustes regulamentares e estratégias industriais está a provocar uma reconfiguração dos fluxos mundiais. «Observa-se uma evolução das estratégias dos industriais europeus, que compram mais manteiga e investem na transformação local para compensar a escassez de exportações de amêndoas em bruto», explica a N’kalô.
Uma dinâmica com tendência de continuidade
Para o resto do ano, a N’kalô espera que as tendências observadas no segmento das exportações se mantenham. «O Mali, a Costa do Marfim, o Togo e a Nigéria mantêm as suas proibições de exportação, enquanto o Burkina Faso levantou a suspensão sob condições rigorosas. O Gana parece avançar para uma proibição total até ao final de 2026, embora ainda não exista um texto oficial que o confirme. A reabertura parcial do Burkina Faso, que confirma a existência de stocks, será acompanhada de perto pelos compradores internacionais, tal como a evolução da situação na Nigéria e no Gana, cujas restrições continuam a afetar os fluxos regionais. A próxima campanha será provavelmente ainda marcada por uma oferta limitada de amêndoas exportáveis, o que poderá manter alguma tensão nos preços.»
Neste contexto, o aumento das exportações de manteiga de karité no primeiro trimestre de 2026 surge menos como um efeito conjuntural e mais como sinal de uma recomposição estrutural da fileira. Sob o efeito das restrições às exportações de amêndoas, a cadeia de valor na África Ocidental está a reorientar-se para a transformação local, enquanto os compradores internacionais ajustam as suas estratégias de abastecimento. A médio prazo, esta dinâmica poderá redefinir o papel da África Ocidental na cadeia global do karité, reforçando-a não apenas como fornecedora de matéria-prima, mas também como um ator industrial integrado.
Stéphanas Assocle
Em 2014, a Iniciativa Regional do Arroz tinha sido lançada para alcançar a autossuficiência em arroz na África Ocidental. Mais de uma década depois, esta aposta é relançada.
Após dois dias de debates, a Mesa-redonda sobre o investimento no setor do arroz na África Ocidental terminou a 3 de junho de 2026, em Acra, no Gana. Organizado pela Comissão da CEDEAO, pelo governo ganês e pelo Banco Mundial, o encontro reuniu responsáveis políticos, instituições regionais, parceiros de desenvolvimento e investidores. Eis as principais decisões a reter desta reunião.
A Declaração de Acra
Estruturado em 7 capítulos, este compromisso assumido pelos ministros da Agricultura e da Segurança Alimentar, da Economia e Finanças, bem como por representantes ministeriais de 14 países, vem consolidar os diferentes compromissos políticos. Define um objetivo claro: construir até 2035 um setor rizícola autossuficiente, competitivo e resiliente às alterações climáticas, capaz de alimentar a região e criar milhões de empregos.
Concretamente, os países assumem compromissos quantificados: duplicar a produção anual de arroz em casca, aumentar os rendimentos médios de 2,1 para 4,1 toneladas por hectare, reduzir as perdas pós-colheita de 30% para menos de 10% e diminuir a dependência das importações para menos de 15%.
Para além da produção, a Declaração visa igualmente a criação de 15 milhões de empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia de valor, garantindo que mulheres e jovens representem pelo menos metade dos beneficiários diretos dos investimentos.
Para atingir estes objetivos, os Estados apostam numa mudança de escala financeira. Catorze países já elaboraram planos nacionais de investimento no arroz, no valor de 25,6 mil milhões de dólares entre 2026 e 2035, integrados numa envelope regional de 28 mil milhões de dólares.
Esta estratégia de mobilização assenta numa arquitetura financeira em três níveis. Primeiro, 40 a 50% do total deverão provir de financiamento público, de empréstimos concessionais de instituições de financiamento do desenvolvimento e de mecanismos climáticos, bem como de subvenções da ajuda pública ao desenvolvimento.
A isto juntam-se 20 a 25% de fundos provenientes de instrumentos de financiamento misto e catalítico, como garantias e mecanismos de primeira perda para reduzir o risco, e 30 a 35% de capitais privados para acelerar os esforços.
Um Compacto regional de investimento no arroz previsto até ao final de setembro
Na sequência da Declaração de Acra, o futuro compacto regional de investimento no arroz permitirá entrar numa fase centrada na coordenação, monitorização e implementação dos compromissos assumidos. Este quadro, que deverá ser elaborado, submetido a consulta e finalizado até ao terceiro trimestre de 2026, servirá como instrumento comum para transformar as ambições políticas em ações estruturadas.
Constituirá o referencial operacional que dará uma dimensão jurídica e institucional aos compromissos de Acra, ao mesmo tempo que facilitará o alinhamento dos financiamentos, das reformas e dos projetos prioritários. Este mecanismo deverá ainda permitir passar de uma visão partilhada para uma execução efetiva, com responsabilidades mais bem definidas entre Estados, parceiros técnicos e financeiros e setor privado.
1,54 mil milhões de dólares em compromissos financeiros
O anúncio de 1,54 mil milhões de dólares em compromissos financeiros, no final de quatro sessões temáticas de negociações bilaterais entre delegações nacionais e investidores, é provavelmente o resultado mais tangível da mesa-redonda. Apresentado por Boladale Adebowale, coordenadora da Agenda do Arroz da CEDEAO, este montante reflete um interesse real dos parceiros em acompanhar a transformação da fileira do arroz na África Ocidental.
A distribuição destes compromissos revela claramente as prioridades atuais. O tema «Ambiente favorável e medidas transversais» concentra sozinho 964 milhões de dólares, a maior parte do envelope, mostrando que reformas, coordenação e infraestruturas de apoio continuam no centro das expectativas dos investidores.
Seguem-se os fatores de produção e fertilizantes, com 104 milhões de dólares, depois a irrigação, com 45,8 milhões de dólares. A produção e agregação de produtores totaliza 40 milhões de dólares, enquanto a transformação e moagem do arroz representa 14 milhões de dólares.
Ao nível dos países, o Togo e a Nigéria destacam-se claramente, com 707,5 milhões de dólares em compromissos indicativos acumulados. Os próximos passos serão decisivos. Nos cinco dias úteis seguintes à mesa-redonda, o Observatório do Arroz da CEDEAO (ERO) deverá validar e classificar todos os compromissos.
Serão depois designados pontos focais nacionais, com planos de ação a comunicar até ao final de junho de 2026. Serão organizadas reuniões de acompanhamento no prazo de duas semanas para os compromissos mais avançados, antes de uma primeira avaliação de progresso prevista para setembro de 2026. Estas etapas deverão agora transformar o impulso financeiro em investimentos efetivamente realizados.
Espoir Olodo
Na África Ocidental, a maioria dos países continua a ser importadora líquida de produtos alimentares. O reforço das capacidades locais de transformação abre, contudo, perspetivas aos operadores económicos, que podem substituir parte das importações e conquistar novas quotas de mercado.
O grupo singapurense Wilmar International Limited celebrou um acordo com o conglomerado nigeriano Tropical General Investments Group (TGI) para criar uma joint-venture destinada a agregar as suas atividades agroalimentares na Nigéria e na República do Benim.
A operação visa construir uma plataforma integrada que abranja toda a cadeia de valor agroalimentar, desde a produção agrícola até à distribuição de produtos alimentares, passando pela transformação. Segundo um comunicado conjunto publicado na terça-feira, 2 de junho, as duas empresas estimam que este projeto lhes permitirá capturar um mercado potencial superior a 12 mil milhões de dólares na Nigéria e no Benim.
Rumo ao nascimento de um novo gigante do agroalimentar?
Está previsto que as atividades agrupadas pela joint-venture sejam detidas por uma holding sediada em Singapura, controlada em partes iguais pela Wilmar e pelo Grupo TGI. Na Nigéria, os ativos do grupo singapurense concentram-se sobretudo na sua filial local PZ Wilmar, cujas atividades incluem a exploração de mais de 26 500 hectares de plantações de palmeiras e uma refinaria integrada de óleo de palma com capacidade de produção de 1 000 toneladas por dia, para a produção de óleo de palma e margarina comercializados sob as marcas «Mamador» e «Devon King’s».
Por seu lado, o TGI dispõe de um portefólio industrial e comercial mais diversificado, estruturado em várias filiais, incluindo a CHI Limited (bebidas e produtos lácteos), WACOT Rice (arroz) e Golden Terra Oil (óleos alimentares), bem como outras atividades de transformação agroalimentar e distribuição. No Benim, o grupo nigeriano está presente na produção e comercialização de óleo alimentar através da sua filial Fludor Benin SA.
«Esta parceria visa reunir empresas sólidas para construir uma plataforma de crescimento a longo prazo, capaz de evoluir ao ritmo das necessidades dos consumidores e dos mercados africanos. Ao combinar a experiência global da Wilmar no setor agroalimentar com as capacidades de execução local do Grupo TGI, as suas marcas fortes e a sua vasta rede comercial, lançamos as bases de uma empresa capaz de crescer de forma sustentável, reforçar as cadeias de valor regionais e criar valor no continente nas próximas décadas», declarou Rahul Savara, cofundador e diretor executivo do TGI.
A Nigéria e o Benim no centro da estratégia
Com mais de 240 milhões de habitantes, a Nigéria representa o maior mercado de consumo do continente africano. Embora, em comparação, o mercado beninense seja bastante mais pequeno (cerca de 15 milhões de habitantes), continua a ser relevante. Além disso, o Benim desempenha um papel estratégico como plataforma logística e comercial na África Ocidental, funcionando como corredor de trânsito para a Nigéria e para os países sem litoral do Sahel (Níger, Burkina Faso, Mali).
Além disso, os défices de produção e transformação alimentar continuam elevados nestes países, o que mantém uma forte dependência das importações. Segundo a UNCTAD, a Nigéria importou em média cerca de 5,59 mil milhões de dólares em produtos alimentares por ano entre 2021 e 2023. No mesmo período, as importações alimentares do Benim atingiram cerca de 1,5 mil milhões de dólares por ano.
Ao combinar as suas capacidades industriais, a Wilmar e o TGI podem reforçar a produção local através de uma plataforma integrada e contribuir para a substituição de parte das importações.
No entanto, a criação da joint-venture está ainda sujeita à aprovação das autoridades da concorrência e às condições regulamentares habituais. A sua finalização está prevista até 31 de dezembro de 2026. Se concretizada, esta aliança poderá reforçar a industrialização agroalimentar na África Ocidental e dar origem a um novo gigante do agronegócio.
Stéphanas Assocle
Há mais de uma década que a procura de arroz regista um forte aumento nos países do espaço CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental). O aumento sustentável da produção continua a ser um verdadeiro quebra-cabeças.
Para que a África Ocidental deixe de ser uma região importadora líquida de arroz e se torne autossuficiente neste cereal, não haverá solução mágica: será necessário passar à escala. É, em essência, o que afirmou à Agência Ecofin Chakib Jenane, Diretor do departamento Planeta do Banco Mundial para a África Ocidental e Central, à margem da mesa-redonda de investimento no setor do arroz realizada de 2 a 3 de junho de 2026.
Numa região onde a produção ainda assenta maioritariamente em pequenos agricultores dependentes das condições climáticas, o responsável apela a uma mudança de paradigma. «A África Ocidental dispõe de enormes recursos agrícolas. O desafio não é a sua inexistência, mas sim a sua subexploração. Para avançar, já não basta dar pequenos passos. É necessário estruturar as explorações, agrupar os produtores em áreas mais vastas e mecanizáveis, e facilitar o acesso ao crédito», explica.
Segundo ele, tal mudança inscreve-se numa abordagem sistémica promovida pela iniciativa “Agriconnect” da instituição financeira, que visa, entre outros objetivos, reforçar toda a cadeia de valor do arroz na África Ocidental.
«O objetivo é construir um ecossistema eficiente em torno do arroz. Em países como o Senegal, o Mali ou a Nigéria, os rendimentos por hectare já são comparáveis aos observados na Ásia. Mas produzir mais não chega: é também necessário melhorar o armazenamento, a transformação e a comercialização. No final, para ter sucesso, toda a cadeia de valor do arroz na África Ocidental deve ser competitiva face às importações», precisa.
«Não podemos deixar as populações expostas de forma duradoura às flutuações dos mercados mundiais»
Para além das questões económicas, esta mobilização responde igualmente a imperativos sociais e alimentares. O arroz representa cerca de 40% do consumo de cereais na África Ocidental, o que faz dele uma fileira estratégica, embora particularmente vulnerável a choques externos.
«Não podemos deixar as populações expostas de forma duradoura às flutuações dos mercados mundiais. As crises sucessivas — pandemia de Covid-19, guerra na Ucrânia, perturbações das rotas marítimas — desorganizaram as cadeias de abastecimento e aumentaram o custo dos fatores de produção, nomeadamente os fertilizantes», afirma Chakib Jenane, sublinhando depois o reforço do compromisso financeiro do Banco Mundial na sub-região.
«Para a Nigéria, aprovámos recentemente um programa de 500 milhões de dólares dedicado às cadeias de valor agrícolas e aos pequenos produtores, em particular no arroz. No Togo, foi concedido um financiamento de 300 milhões de dólares para apoiar a modernização do setor agrícola. E estamos atualmente a trabalhar em novos projetos na Guiné, no Senegal, na Côte d’Ivoire e noutros países».
Para recordar, à escala mundial, a instituição investe cerca de 4,5 mil milhões de dólares por ano na agricultura. A ambição é elevar este montante para 9 mil milhões de dólares no âmbito do programa AgriConnect, de forma a acelerar a transformação dos sistemas agrícolas, aumentar a criação de empregos para os jovens e reforçar a segurança alimentar.
Espoir Olodo, de Acra
Considerado um ingrediente indispensável na indústria chocolateira, o cacau vê agora emergir uma nova geração de alternativas capazes de reproduzir o seu sabor sem utilizar uma única fava. Impulsionada por start-ups tecnológicas, esta nova vaga de inovação está a ganhar terreno.
No passado dia 14 de maio, o grupo agroalimentar suíço Barry Callebaut, principal fabricante mundial de chocolate, anunciou a integração de um novo produto denominado ChoViva no seu portefólio de soluções comercializadas em grande escala. Trata-se de uma inovação apresentada como uma «alternativa ao chocolate sem cacau», capaz de imitar o sabor e a textura do chocolate tradicional.
Este anúncio surge como um sinal para a fileira do cacau, ao confirmar que a fava deixou de ser a única base do sabor a chocolate no mercado mundial.
Uma ascensão fulgurante desde 2020
Desenvolvido pela start-up alemã Planet A Foods, o ChoViva nasceu de um projeto de investigação destinado a reproduzir a experiência sensorial do chocolate sem utilizar cacau. A empresa desenvolveu um processo baseado na fermentação e torrefação de sementes de girassol e de grainhas de uva para reproduzir aromas próximos do cacau, aos quais são adicionados açúcar, leite e matérias gordas.
Inicialmente testado em pequena escala em aplicações industriais na Europa, no início dos anos 2020, o produto foi gradualmente ganhando maturidade tecnológica e comercial. Já comercializado em supermercados europeus desde 2024, a sua expansão industrial é agora reforçada com a entrada da Barry Callebaut no projeto, passando esta inovação do estatuto de nicho para o de solução industrial destinada ao mercado global.
O grupo suíço celebrou um acordo comercial com a Planet A Foods para distribuir o ChoViva em exclusivo. «Estamos muito entusiasmados por alargar as nossas capacidades e o nosso portefólio, de forma a oferecer soluções relevantes que respondam às necessidades em mudança dos nossos clientes e do setor», afirma Laura Bergan, diretora de marketing de marca e cliente da empresa.
Ondas de inovação a nível mundial
O ChoViva é atualmente uma das poucas alternativas já comercializadas em grande escala. No entanto, insere-se num movimento mais amplo de inovação que vê emergir, em todo o mundo, várias tecnologias destinadas a reduzir a dependência do cacau tradicional.
Em abril passado, a Celleste Bio, uma start-up israelita fundada em 2022, anunciou ter criado as primeiras tabletes de chocolate de leite feitas com manteiga de cacau cultivada em laboratório. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, esta tecnologia está a ser desenvolvida com o apoio da norte-americana Mondelēz International, outro gigante da indústria chocolateira mundial. Os responsáveis do projeto afirmam que esta inovação permite reproduzir uma manteiga «bio idêntica», testada e validada industrialmente.
Na Suíça, a start-up Food Brewer também iniciou, desde 2022, experiências para cultivar cacau em laboratório a partir de células vegetais. Segundo os responsáveis do projeto, a comercialização de chocolate baseado em produção celular está prevista para o final de 2026. A start-up prevê ainda «produzir até 2035 dezenas de milhares de toneladas de cacau por ano», segundo a Swissinfo.
No Reino Unido, a start-up Nukoko desenvolveu igualmente uma tecnologia de fermentação patenteada que transforma favas de fava numa alternativa ao chocolate, reproduzindo os sabores típicos do cacau. Fundada em 2022, levantou 1,5 milhões de euros em 2024 e associou-se à empresa alemã de ingredientes naturais Döhler para preparar a industrialização e comercialização em larga escala da sua inovação.
Vários destes projetos ainda se encontram em fase piloto ou pré-comercial. Ainda assim, refletem um interesse crescente da indústria em alternativas capazes de diversificar as fontes de abastecimento e garantir maior estabilidade no acesso à matéria-prima.
Um contexto mundial do cacau sob forte pressão estrutural
A expansão destas alternativas ocorre num contexto particularmente tenso para a fileira global do cacau. A produção, concentrada em África — que fornece mais de 70% da oferta anual — enfrenta várias restrições simultâneas: envelhecimento das plantações, baixa produtividade, choques climáticos crescentes e doenças que afetam os cacaueiros.
Estas dificuldades contribuíram para uma subida acentuada dos preços, que atingiram 12.906 dólares por tonelada em Nova Iorque em dezembro de 2024. Embora os preços tenham recuado entretanto para cerca de 3.000 dólares por tonelada no início de 2026, esta correção não significa um regresso à normalidade.
Segundo analistas de mercado, podem ser necessários até 10 meses para que as variações do preço do cacau se reflitam no preço do chocolate no retalho, uma vez que os industriais cobrem as suas compras com antecedência e dispõem de stocks elevados. Esta volatilidade evidencia a dificuldade do mercado em regressar a um equilíbrio sustentável.
O analista Edward George, entrevistado pela Agência Ecofin em março passado, sublinha que o mercado do cacau entrou num novo ciclo caracterizado também por uma redução da procura nas principais regiões consumidoras. «Observa-se uma queda clara da moagem e do uso do cacau na Europa, na América do Norte e na Ásia. […] Os industriais utilizam menos cacau e procuram formulações alternativas, enquanto a crise do custo de vida leva os consumidores a reduzir as compras de doces e a ir menos vezes a restaurantes», explica.
Neste contexto, o surgimento do chocolate sem cacau levanta uma questão estratégica: estas inovações irão afetar de forma duradoura a procura mundial de cacau ou apenas transformar a sua estrutura?
Entre ameaça de substituição e oportunidade de transformação
A médio prazo, o principal risco reside na substituição progressiva do cacau em alguns usos industriais, nomeadamente em bolachas, gelados, cereais, confeitaria e outros produtos onde o sabor a chocolate pode ser reproduzido sem recurso à fava de cacau.
Se estas alternativas se tornarem mais acessíveis e garantirem maior estabilidade de abastecimento, poderão conquistar parte dos consumidores e industriais. Segundo uma investigação do média RMC, a chocolateria francesa Abtey comercializava em 2024 produtos à base de ChoViva a cerca de 28 euros por quilograma, contra cerca de 48 euros para o chocolate de leite tradicional, ilustrando o potencial económico destas novas soluções.
Para os países produtores, sobretudo na África Ocidental, esta evolução poderá traduzir-se numa pressão acrescida sobre os volumes exportados e sobre os mercados de certos tipos de cacau. Mas estas inovações podem também produzir o efeito oposto.
Ao tornar o cacau opcional em alguns usos, podem incentivar a indústria a valorizar melhor o cacau de qualidade superior, certificado, rastreável e produzido de forma sustentável.
Segundo as normas do Codex Alimentarius (conjunto internacional de normas alimentares criado em 1963 pela FAO e pela OMS para proteger a saúde dos consumidores e garantir o comércio justo de alimentos), um produto só pode ser comercializado como «chocolate» se contiver uma proporção mínima de cacau e manteiga de cacau. As alternativas como o ChoViva têm, por isso, de ser vendidas sob outras denominações, o que limita, para já, a sua capacidade de substituir totalmente o chocolate tradicional.
A concorrência gerada por estas alternativas poderá também acelerar, nos países produtores, os esforços de rastreabilidade, sustentabilidade e segmentação do mercado entre cacau premium e cacau de massa.
A curto prazo, o cacau continua dificilmente substituível na sua totalidade, sobretudo nos produtos de gama alta, onde o seu perfil aromático permanece uma referência. No entanto, a entrada de grandes grupos como Barry Callebaut ou Mondelēz no desenvolvimento destas alternativas marca uma mudança significativa.
Para países africanos que dominam atualmente a oferta mundial, como a Côte d’Ivoire e o Gana, o desafio poderá deixar de ser apenas aumentar a produção de favas. Poderá passar também a ser o de preservar e valorizar a singularidade do cacau face ao aparecimento de soluções industriais capazes de reproduzir algumas das suas características a menor custo.
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