Face à la ascensão das super apps em África, a EcoCash está a evoluir o seu modelo. Esta mudança de posicionamento ilustra uma viragem no setor, marcada pela convergência dos serviços digitais e pela procura de novas fontes de valor.
O principal serviço de dinheiro móvel no Zimbabué, a EcoCash, que afirma ter mais de 8 milhões de contas no país, anunciou na quinta-feira, 23 de abril, a transformação da sua plataforma numa “super app”. Este pivô estratégico marca a passagem de uma simples carteira eletrónica para um ecossistema digital integrado, onde chat, pagamentos sociais e serviços do quotidiano convergem numa única interface.
A principal inovação desta super app reside no “pagamento social”. A partir de agora, os utilizadores podem conversar, enviar dinheiro ou pagar despesas sem sair da interface de mensagens. A aplicação integra também funcionalidades como a divisão automática de contas, permitindo repartir instantaneamente despesas entre vários utilizadores — uma resposta adaptada aos usos coletivos muito comuns na economia local.
Diversificação dos usos e das receitas
Para além dos pagamentos entre particulares, a EcoCash expande o seu posicionamento ao integrar serviços comerciais, pagamento de faturas, bem como a compra de crédito telefónico e dados móveis. A plataforma introduz ainda ferramentas de monetização de conteúdos, abrindo caminho a novos usos económicos. Criadores, influenciadores e pequenas empresas podem agora gerar receitas diretamente através da aplicação, transformando interações sociais em oportunidades comerciais.
Esta evolução responde a uma dupla lógica: aumentar o envolvimento dos utilizadores e diversificar as fontes de receita, num contexto em que os serviços financeiros tradicionais atingem a maturidade.
Uma batalha das super apps em África
Este movimento insere-se numa tendência mais ampla observada no continente, marcada pela transformação dos operadores de telecomunicações e das fintechs em plataformas multisserviços. À semelhança da Max it, desenvolvida pela Orange, ou da Telebirr, lançada pela Ethio Telecom, estas iniciativas visam construir ecossistemas integrados capazes de captar uma parte crescente dos usos digitais.
O objetivo é ultrapassar o âmbito de um único serviço e afirmar-se no quotidiano dos utilizadores. Os intervenientes do setor procuram agregar comunicação, pagamentos e serviços comerciais numa mesma interface, de forma a oferecer uma experiência fluida e contínua.
Desenvolvida pela Sasai Fintech do grupo Cassava Technologies, a aplicação ambiciona integrar serviços de transferências baseados em stablecoins, graças a uma parceria com a empresa norte-americana Circle. Prevê ainda evoluir para uma plataforma enriquecida por inteligência artificial, de modo a oferecer serviços mais personalizados.
Samira Njoya
O mercado de telecomunicações nacional do Zimbabué é dominado pela Econet, que detém mais de 73 % de participação de mercado, seguida pela NetOne. A Telecel, por sua vez, ocupa uma posição marginal, quase invisível.
A operadora de telecomunicações zimbabuense Telecel lançou uma busca por investidores para se relançar, enquanto enfrenta dificuldades há vários anos. A empresa publicou, na terça-feira, 21 de abril, um apelo à manifestação de interesse divulgado pela imprensa local. Os investidores potenciais têm até 28 de abril para submeter suas propostas.
« O presente documento não constitui um prospecto e não faz parte de qualquer solicitação, convite ou oferta ao público para adquirir a Telecel Zimbabwe ou subscrever ações ordinárias ou qualquer outra forma de ações da Telecel Zimbabwe », esclarece, no entanto, o aviso de apelo à manifestação de interesse assinado por Kundai F. Tibugare e Bulisa Mbano, administradores em processo de recuperação da Telecel Zimbabwe.
Este apelo ocorre após a entrada da Telecel em processo de recuperação judicial em novembro de 2025. Este mecanismo visa conceder um alívio temporário aos credores, permitindo à direção e aos administradores reestruturar as dívidas, racionalizar as atividades e atrair novos capitais.
Uma situação financeira e operacional gravemente degradada
As dificuldades da operadora não são recentes. Entre os principais fatores, destaca-se a persistência de conflitos entre acionistas. De acordo com a mídia local TechZim, essa situação tem sua origem na estrutura da empresa, constituída como um consórcio reunindo vários investidores, incluindo a Telecel. Essas tensões geraram uma incerteza duradoura sobre a governança, culminando na saída da Telecel International e na subsequente tomada de controle majoritário pelo Estado zimbabuano.
Em outubro de 2022, o Communication and Allied Service Workers Union of Zimbabwe (CASWUZ) havia solicitado à Alta Corte, preocupada com a capacidade da empresa de continuar suas operações devido à sua fragilidade financeira e técnica. Segundo os documentos apresentados ao processo, o valor dos ativos da Telecel era de 1,5 bilhões USD em 31 de dezembro de 2021, contra dívidas estimadas em 24 bilhões USD, resultando em patrimônio negativo de 22,5 bilhões USD.
A empresa também enfrenta uma queda contínua na receita, incapacidade de investir adequadamente em sua infraestrutura de rede e dificuldades para pagar os salários dos seus funcionários.
Segundo os dados do regulador de telecomunicações, a Telecel contava com apenas 319.548 assinantes móveis no final de junho de 2025, o que representa uma participação de mercado de 1,99 %. No segundo trimestre de 2025, a empresa completou apenas 0,02 % do tráfego de voz. Para a Internet, sua participação de mercado era de 0,16 %.
Em termos de infraestrutura, a empresa possuía 671 torres 2G, o que representa 13,45 % do total. Para a 3G, ela contava com 435 torres em um parque nacional de 3.878. Por outro lado, ela possuía apenas 17 torres 4G, contra 1.698 da Econet e 1.578 da NetOne.
Isaac K. Kassouwi
A empresa pública de telecomunicações da Serra Leoa atravessa dificuldades há vários anos. O mercado é hoje amplamente dominado por operadores privados, nomeadamente a Orange, a Africell e a Qcell.
Durante muito tempo travado pelos elevados custos de reabilitação e exploração das infraestruturas, o governo serra-leonês decidiu optar pelo modelo de Operador de Rede Móvel Virtual (MVNO) para relançar a sua operadora histórica, a Sierratel. Neste contexto, a empresa pública passará a basear-se nas infraestruturas de telecomunicações da Africell, com a qual foi assinado um acordo de parceria com a duração inicial de dez anos.
A iniciativa foi anunciada na terça-feira, 21 de abril, pela ministra da Comunicação, Tecnologia e Inovação, Salima Bah, durante uma conferência de imprensa. A governante fez questão de sublinhar que esta opção não corresponde a uma privatização, mas sim a um reposicionamento estratégico. Segundo ela, as anteriores tentativas de privatização falharam após a retirada de investidores, desencorajados pelos elevados custos de modernização das infraestruturas, pelos passivos laborais associados ao pessoal e pela forte concorrência num mercado já bastante saturado.
A ministra recordou ainda as dificuldades estruturais enfrentadas pela Sierratel. Estas incluem uma rede envelhecida que exige investimentos significativos, problemas de recursos humanos acumulados ao longo de vários anos e uma perda significativa de quota de mercado face aos operadores privados.
A título de exemplo, a empresa enfrenta compromissos com os seus trabalhadores estimados em 6,3 milhões de dólares, num contexto de degradação progressiva das condições de trabalho. Acumula igualmente uma dívida externa importante, incluindo cerca de 35 milhões de dólares devidos a dois bancos. No plano comercial, dados do regulador das telecomunicações indicam que a sua quota de mercado caiu para apenas 1,95% no final de 2019.
Um relançamento sem rede própria
O recurso ao modelo MVNO surge, neste contexto, como uma alternativa que permite contornar os elevados investimentos de capital. A Sierratel prevê assim relançar, num prazo relativamente curto, os seus serviços de voz, dados e mobile money. A operadora apoiará a sua atividade na cobertura existente da Africell, que atingia 92,16% em 2G, 77,48% em 3G e 61,72% em 4G, segundo dados do regulador. A Africell detinha ainda a maior quota de mercado, estimada em 54,51% no final de dezembro de 2024.
Neste modelo, a Sierratel manterá a sua marca e poderá capitalizar a sua notoriedade histórica, ainda amplamente reconhecida pelo público. A aposta centra-se na melhoria da acessibilidade dos serviços e no reforço da concorrência. O regresso da operadora histórica é visto como uma forma de alargar as opções dos consumidores e pressionar a descida dos preços.
Além disso, a parceria pretende responder melhor a alguns segmentos ainda pouco servidos pelas ofertas existentes. Destina-se em particular a estudantes e jovens envolvidos nos setores digital e criativo, através do desenvolvimento de produtos e serviços adaptados às suas necessidades. Esta orientação reflete a vontade de alinhar as ofertas comerciais com os novos usos e dinâmicas da economia digital.
“Não se trata de maximizar os lucros, mas de garantir aos serra-leoneses o acesso a serviços de telecomunicações acessíveis”, afirmou a ministra, acrescentando que a parceria funcionará num modelo de partilha de receitas com a Africell.
De forma mais ampla, a escolha do modelo MVNO insere-se numa tendência observada em vários mercados de telecomunicações em todo o mundo. Segundo a Associação Global de Operadores Móveis (GSMA), este modelo é amplamente utilizado em mercados móveis mais avançados para alargar o acesso aos serviços, diversificar ofertas e estimular a concorrência. Permite aos operadores concentrarem-se em atividades de maior valor acrescentado, como marketing, relação com o cliente ou desenvolvimento de ofertas de nicho, recorrendo simultaneamente à infraestrutura de um operador terceiro. Esta abordagem reduz significativamente os custos de implementação e manutenção da rede, ao mesmo tempo que promove o surgimento de serviços mais flexíveis e competitivos.
Isaac K. Kassouwi
O telefone móvel tornou-se uma ferramenta vital para trabalhar, aprender, pagar e manter-se ligado em África. A questão da sua longevidade vai muito além do simples conforto de utilização. Remete para questões de poder de compra, justiça social e responsabilidade industrial.
A partir de 18 de fevereiro de 2027, todos os telemóveis comercializados na União Europeia (UE) deverão estar equipados com baterias amovíveis, ou seja, que possam ser facilmente retiradas e substituídas pelo utilizador. Trata-se de um regresso a uma tecnologia antiga, abandonada nos últimos anos pela maioria dos grandes fabricantes de telemóveis. A medida está inscrita no artigo 11 do regulamento europeu adotado a 12 de julho de 2023 sobre baterias e respetivos resíduos, que atualiza as regras em vigor e substitui os antigos textos.
Visto de África, esta decisão europeia vai muito além do debate técnico. No continente, o telemóvel, em particular o smartphone, não é um simples acessório de conforto. É muitas vezes a principal ferramenta de comunicação, informação, trabalho, pagamento, comércio e aprendizagem. Acima de tudo, continua a representar uma despesa pesada para muitos agregados familiares.
A União Internacional das Telecomunicações (UIT) lembra que o custo dos dispositivos continua a ser um dos principais obstáculos ao acesso digital e que, na África subsaariana, um smartphone ainda representa cerca de 45% do rendimento mensal médio. Por sua vez, a Associação Global dos Operadores de Telecomunicações Móveis (GSMA) sublinha, em 2026, que a acessibilidade financeira continua a ser a principal causa do baixo nível de adoção de smartphones em África.
Um desafio financeiro e ambiental
Nestas condições, a bateria não é um detalhe. É muitas vezes ela que determina a “morte” de um telemóvel ainda funcional. Ecrã intacto, placa-mãe operacional, aplicações ainda úteis, mas autonomia em colapso, carregamento instável, sobreaquecimento, desligamentos repentinos. E, na ausência de uma bateria substituível a um custo razoável, todo o aparelho torna-se inutilizável. O desafio no continente não é apenas o direito de reparar, mas também o direito de prolongar a vida de um bem caro.
A outra urgência é ambiental. O mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos em 2022, segundo a UIT e o Instituto das Nações Unidas para Formação e Investigação (UNITAR), e apenas 22,3% foram documentados como corretamente recolhidos e reciclados. A este ritmo, o volume global poderá atingir 82 milhões de toneladas em 2030. As duas instituições salientam ainda que os resíduos eletrónicos crescem cinco vezes mais depressa do que a taxa de reciclagem documentada.
África não está imune, longe disso. A taxa de recolha e reciclagem formal de resíduos eletrónicos no continente é inferior a 1%, contra 42,8% na Europa. Ora, os telemóveis fazem claramente parte do problema. Ou seja, milhões de dispositivos acabam fora dos circuitos adequados, muitas vezes devido a uma avaria ou a uma bateria danificada, quando poderiam ainda ter uma segunda vida.
A responsabilidade dos reguladores africanos
É aqui que a decisão europeia interpela diretamente África. Se os fabricantes conseguem produzir para a Europa smartphones mais duráveis, mais reparáveis, com baterias substituíveis, peças disponíveis e suporte de software prolongado, porque devem os consumidores africanos continuar a receber ou a comprar dispositivos concebidos como produtos descartáveis? Porque é que um mercado onde muitas vezes os telemóveis são usados durante mais tempo deve continuar a ser o terreno ideal da obsolescência programada?
A interrogação deve ser dirigida claramente aos grandes fabricantes presentes no continente, como a Transsion, Huawei, Samsung, Apple, Xiaomi e outros. África não pode continuar a ser tratada como uma zona de escoamento de smartphones difíceis de reparar, com baterias seladas, peças escassas e atualizações limitadas. O continente precisa de dispositivos concebidos para durar, fáceis de manter, reparáveis localmente e capazes de permanecer úteis muito para além de dois ou três anos. Um smartphone não deve ser um produto descartável de luxo, mas sim um equipamento fiável do dia a dia.
Esta exigência diz também respeito aos poderes públicos africanos. A Europa demonstra que a regulação pode influenciar o design industrial global. Nada impede os Estados africanos, os reguladores, as organizações regionais e as associações de consumidores de abrirem igualmente o debate sobre a reparabilidade, a disponibilidade de baterias, o acesso a peças sobressalentes, a transparência sobre a duração de vida e a responsabilidade dos fabricantes na recolha de resíduos eletrónicos. A economia circular não deve permanecer um slogan importado: pode tornar-se uma política industrial e social adaptada às realidades africanas.
No fundo, a bateria amovível não é um regresso nostálgico aos telemóveis de antigamente. É talvez, pelo contrário, uma ideia de futuro: a de uma tecnologia menos espetacular, mas mais justa. Para África, onde cada compra conta, onde cada aparelho pode durar mais tempo e onde a montanha de resíduos eletrónicos cresce mais depressa do que as soluções de reciclagem, esta evolução europeia tem valor de sinal. Ela diz algo simples: o progresso não deve ser medido apenas pela potência de um smartphone, mas pela sua capacidade de durar.
Muriel Edjo
As autoridades da República Centro-Africana procederam, em julho de 2025, ao lançamento das atividades do Comité de Desenvolvimento das Comunicações Eletrónicas (CDCE). Previsto por lei, este órgão é responsável por supervisionar e gerir o fundo de serviço universal.
A República Centro-Africana prevê concluir este ano a implementação do seu fundo de serviço universal. Este mecanismo visa alargar o acesso aos serviços básicos de telecomunicações em todo o território, de forma a reduzir uma fratura digital ainda bastante acentuada.
A iniciativa figura entre as prioridades da Autoridade Reguladora das Comunicações Eletrónicas e dos Correios (ARCEP) para 2026. Estas foram divulgadas na quarta-feira, 15 de abril, durante uma sessão dedicada à apresentação do projeto de orçamento, que ascende a 6,2 mil milhões de FCFA (≈ 11,2 milhões USD).
Uma alavanca essencial para a conectividade nacional
A criação do fundo de serviço universal está prevista na Lei n.º 18.002, de 17 de janeiro de 2018, que rege as comunicações eletrónicas na República Centro-Africana. Um decreto adotado em fevereiro de 2019 especifica as modalidades de implementação e financiamento. Este enquadramento define o serviço universal como a obrigação de fornecer a toda a população, independentemente da sua localização geográfica, um conjunto de serviços de comunicações eletrónicas a um custo acessível e de forma contínua.
O seu âmbito cobre nomeadamente a prestação de serviços fixos e móveis, telefonia, transferência de dados e acesso à Internet de alta velocidade. Inclui igualmente o encaminhamento gratuito de chamadas de emergência, a disponibilização de um diretório universal, a instalação de cabines telefónicas públicas e telecentros, bem como serviços de informação e correio híbrido.
O dispositivo integra ainda medidas específicas destinadas a reforçar a inclusão digital. Prevê nomeadamente a implementação de infraestruturas de transmissão em banda larga acessíveis aos operadores, bem como a disponibilização de acesso à Internet de alta velocidade em escolas, centros de saúde, câmaras municipais, bibliotecas, estações de correios e outros espaços comunitários.
Também incentiva o desenvolvimento de conteúdos e aplicações adaptados às necessidades das populações, bem como a formação em tecnologias da informação e comunicação. Estão previstas disposições especiais para grupos vulneráveis, nomeadamente pessoas com deficiência, populações de baixos rendimentos, mulheres e habitantes de zonas isoladas, através de ofertas adaptadas e, quando necessário, mecanismos de tarifação social.
O fundo é financiado principalmente por uma contribuição dos operadores de telecomunicações, fixada em 2% do seu volume de negócios do ano anterior. Pode igualmente receber donativos, legados, empréstimos, bem como subvenções do Estado, das autarquias locais ou de parceiros de desenvolvimento.
Estas verbas são depois atribuídas a um ou vários operadores selecionados pela ARCEP. A sua missão consiste em implantar infraestruturas em zonas não cobertas, onde não está previsto qualquer desenvolvimento, ou ainda em localidades onde apenas alguns serviços enquadrados no serviço universal estão disponíveis.
Para além da rede, o desafio do acesso e da utilização
Esta iniciativa surge num contexto de cobertura de rede ainda limitada na República Centro-Africana. Em 2024, as redes 2G e 3G cobriam cerca de 60% da população, segundo o “Mobile Connectivity Index” da GSMA. Durante muito tempo, estas duas tecnologias constituíram a principal infraestrutura móvel do país, embora sejam atualmente consideradas obsoletas em muitos mercados. A 4G, cujo lançamento comercial só começou em 2025, ainda se encontra em fase de expansão.
Ao nível da utilização, os dados da DataReportal indicam 2,49 milhões de assinantes de telemóvel no final de 2025, correspondendo a uma taxa de penetração de 38,1%. A adoção da Internet continua mais reduzida, com cerca de 670 mil utilizadores, representando aproximadamente 12% da população.
Importa contudo sublinhar que o fundo de serviço universal privilegia sobretudo a implantação de infraestruturas físicas. Ora, a disponibilidade de rede não garante automaticamente a adoção dos serviços de telecomunicações. Outros fatores entram em jogo, nomeadamente o acesso a equipamentos compatíveis (sobretudo smartphones), o nível de rendimento das famílias, o custo dos serviços (dados e voz), bem como as competências digitais básicas. A estes somam-se ainda elementos como a relevância dos conteúdos, a cobertura energética ou a confiança nos serviços digitais.
Isaac K. Kassouwi
O mercado de smartphones em África regista um forte crescimento, impulsionado pela transformação digital, mas continua limitado pelo elevado custo dos terminais. Neste contexto, a produção local afirma-se como uma resposta estratégica para melhorar a acessibilidade e apoiar a industrialização.
O grupo chinês HONOR prevê reforçar a sua presença industrial no Egito. O projeto esteve no centro de uma reunião realizada na sexta-feira, 17 de abril, entre o ministro das Comunicações e das Tecnologias da Informação, Raafat Hendy (foto, à direita), e uma delegação da empresa liderada pelo responsável para África e Médio Oriente, Ingmar Wang.
No centro das discussões esteve a expansão das capacidades de produção da fábrica de smartphones localizada na cidade industrial do 10 de Ramadan, desenvolvida em parceria com o distribuidor local Etisal Trading. Esta unidade, a primeira implantação industrial da HONOR fora da China, visa responder à procura local, ao mesmo tempo que apoia as exportações para os mercados africanos e do Médio Oriente.
Com uma área de 8000 m², dos quais 5000 m² dedicados à produção, o local está equipado com cinco linhas de produção e duas linhas SMT. Atualmente em fase de testes, deverá ser oficialmente inaugurado antes do final de 2026. A fábrica tem uma capacidade anual de 3 milhões de unidades e deverá criar cerca de 1000 empregos diretos, integrando também um componente de transferência de competências para a mão de obra local.
Esta expansão insere-se na estratégia da HONOR de posicionar o Egito como um centro regional das suas operações em África e no Médio Oriente. O grupo aposta numa produção local de dispositivos a custos competitivos, de forma a responder à procura do mercado interno, ao mesmo tempo que desenvolve exportações para países vizinhos sob a marca “Made in Egypt”.
A iniciativa surge num contexto de forte procura de smartphones em África, impulsionada pela transformação digital e pela expansão dos modelos de baixo custo. Os dispositivos vendidos por menos de 100 USD registaram um aumento de 38% num ano. Segundo dados da consultora Canalys (atualmente integrada na Omdia), as vendas de smartphones em África cresceram 7% no segundo trimestre de 2025, atingindo 19,2 milhões de unidades.
A produção local surge assim como um fator de competitividade. Permite reduzir os custos logísticos, contornar algumas barreiras à importação e aproximar a oferta dos mercados finais. Para o Egito, esta orientação enquadra-se na iniciativa “Egypt Makes Electronics”, através da qual as autoridades egípcias oferecem incentivos para desenvolver a indústria eletrónica local e estimular a criação de emprego.
Samira Njoya
As autoridades congolesas pretendem atrair investimentos estrangeiros para apoiar a transformação digital em curso. Em novembro de 2025, o país tinha, por exemplo, aproximado-se da British International Investment (BII), a instituição de financiamento do desenvolvimento do Reino Unido.
O governo da República Democrática do Congo (RDC) assinou, na semana passada, um protocolo de acordo com a empresa tecnológica norte-americana Cybastion, com o objetivo de acelerar a sua transformação digital. O país abre-se assim cada vez mais à intervenção de empresas e investidores americanos no seu mercado.
O protocolo foi assinado na quarta-feira, 15 de abril, em Washington, durante uma reunião organizada com o apoio da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em colaboração com o think tank Atlantic Council, especializado em relações internacionais. O evento reuniu investidores, responsáveis do Departamento de Estado norte-americano e decisores económicos em torno das oportunidades oferecidas pelo mercado congolês.
Segundo o Ministério da Economia Digital da RDC, este acordo marca a entrada concreta de empresas americanas no ecossistema digital nacional. Ele estabelece as bases de uma parceria estratégica focada na transferência de competências, no investimento tecnológico e na aceleração da digitalização.
O grupo bancário norte-americano Equity Group Holdings reafirmou também a sua vontade de estabelecer uma parceria com as autoridades congolesas para apoiar esta transformação. O seu diretor-geral adjunto comercial da Equity BCDC, Hugues Efole, indicou que o banco pretende ir além do financiamento tradicional, envolvendo-se também no plano tecnológico. «Queremos estabelecer bases concretas entre as ambições de digitalização dos serviços na RDC e a necessidade de oferecer às populações acesso a serviços digitais a custos acessíveis», declarou.
O digital congolês: entre ambições e oportunidades
Este aproximação ocorre num momento em que as autoridades apostam no digital como motor de desenvolvimento socioeconómico. O país ambiciona tornar-se uma “Digital Nation” e um polo tecnológico na África Central até 2030. Em Washington, o ministro Augustin Kibassa estruturou esta ambição em três eixos: desenvolvimento de infraestruturas digitais modernas, implementação de uma identidade digital segura e criação de uma economia digital dinâmica, centrada na inovação e na inclusão financeira.
Apresentado em setembro de 2025, o Plano Nacional de Desenvolvimento do Digital – Horizonte 2030 está estruturado em quatro pilares. Prevê o reforço das infraestruturas (conectividade e centros de dados), a implementação do e-governo para modernizar os serviços públicos, o reforço da governação digital através de soluções de cibersegurança e o desenvolvimento de competências digitais, com foco nos jovens e nas mulheres.
Perante os investidores, o ministro destacou o potencial do mercado congolês, com mais de 100 milhões de habitantes, maioritariamente jovens. Sublinhou também a adoção do Código Digital, apresentado como um sinal forte para os investidores, garantindo segurança jurídica, proteção de dados e enquadramento das parcerias público-privadas. «Investir na RDC é investir num dos mercados mais promissores de África», afirmou.
Apesar destas perspetivas, a RDC continua atrasada em vários indicadores. O país apresenta, segundo as estatísticas oficiais mais recentes, uma taxa de penetração móvel de 65% e de Internet móvel de 33%. Os números reais podem ser inferiores devido ao uso de múltiplos cartões SIM por utilizador. A GSMA estimava, por exemplo, uma taxa de penetração da Internet móvel de apenas 17% em 2024.
Numa reunião com investidores britânicos em novembro de 2025, o ministro dos Correios e Telecomunicações, José Mpanda Kabangu, afirmou: «o nosso país é vasto, mas não está bem conectado. Existe uma fratura digital. Temos 145 territórios não conectados que exigem investimento, e as nossas portas estão abertas ao setor privado». Acrescentou ainda que a RDC dispõe atualmente de apenas 4 000 km de fibra ótica, quando as necessidades são estimadas em 50 000 km, e de 5 150 torres de telecomunicações para um objetivo de pelo menos 30 000.
Em termos de transformação digital, a RDC ocupou o 179.º lugar entre 193 países no Índice de Desenvolvimento do Governo Eletrónico (EGDI) das Nações Unidas em 2024, com uma pontuação de 0,2715/1, abaixo das médias regional e global. O país situa-se também no terceiro nível em cinco no Índice Global de Cibersegurança da União Internacional das Telecomunicações (UIT). Apesar de alguns progressos institucionais e legais, persistem desafios importantes em termos de capacidades técnicas, cooperação e desenvolvimento de competências.
Isaac K. Kassouwi
A verificação de diplomas constitui um elemento-chave no combate à fraude académica, um fenómeno que afeta a credibilidade das qualificações em vários países. Na Nigéria, as autoridades decidiram agir.
No país, o Ministério Federal da Educação anunciou na semana passada a criação de um processo de autenticação e avaliação de diplomas. Trata-se de um sistema totalmente automatizado, que põe fim aos procedimentos presenciais para os utilizadores.
A partir de agora, todos os pedidos deverão ser efetuados através de uma plataforma online dedicada. Os candidatos devem criar uma conta, submeter os seus documentos e acompanhar a evolução do processo à distância. As instituições de ensino, por sua vez, devem enviar diretamente os registos de notas a partir dos seus endereços eletrónicos oficiais, de forma a garantir a autenticidade das informações fornecidas.
«Esta evolução insere-se no âmbito do compromisso do Ministério com o programa de transformação digital do governo federal e da sua vontade de implementar tecnologias modernas para melhorar a eficiência, garantir a integridade dos dados e apoiar decisões públicas baseadas em informações fiáveis no setor da educação», explica o ministério no seu comunicado.
Esta reforma visa corrigir as limitações do sistema anterior, frequentemente criticado pela sua lentidão e complexidade. Ela reflete a intenção de recorrer às tecnologias para modernizar a ação pública e melhorar a qualidade dos serviços administrativos.
Ao centralizar os procedimentos numa plataforma digital, as autoridades pretendem reduzir os prazos de processamento, melhorar a gestão de dados e reforçar a transparência do processo.
Adoni Conrad Quenum
A inteligência artificial transforma todos os setores de atividade. Nas telecomunicações, ela prepara-se para revolucionar a forma como as redes são concebidas, otimizadas e geridas no dia a dia.
O fabricante finlandês Nokia e o operador francês Orange, presente em 17 países africanos, anunciaram na quarta-feira, 15 de abril, uma colaboração com o grupo americano Nvidia para testar arquiteturas de rede baseadas em inteligência artificial (IA).
No centro desta iniciativa está o conceito de AI-RAN (Artificial Intelligence Radio Access Network), que consiste em integrar capacidades avançadas de computação ao nível das infraestruturas rádio. Na prática, já não se trata apenas de transmitir dados, mas de permitir que a rede analise e otimize o seu próprio funcionamento em tempo real.
“A IA está a redefinir a conceção das redes, trazendo novos níveis de inteligência e flexibilidade à camada rádio. Graças a esta colaboração com a Orange, estamos a estudar como a solução AI-RAN da Nokia combina funções avançadas de IA e de RAN numa arquitetura unificada. Isto terá um papel determinante na transição do setor para redes cognitivas e nativas de IA”, afirmou Pallavi Mahajan, diretora de tecnologia e inteligência artificial da Nokia.
Esta abordagem baseia-se na combinação das soluções de software da Nokia, nomeadamente a sua plataforma anyRAN, com as tecnologias de computação acelerada da Nvidia. A Orange, por sua vez, contribui com a sua experiência operacional para testar estas inovações em condições reais de funcionamento. O objetivo é melhorar a gestão do tráfego, reduzir a latência e otimizar a utilização do espectro rádio.
Graças à IA, a rede pode, por exemplo, antecipar picos de consumo, ajustar automaticamente os seus recursos ou detetar anomalias. Isto traduz-se numa melhoria da qualidade de serviço para os utilizadores, num contexto de crescimento contínuo dos usos digitais.
Adoni Conrad Quenum
A problemática das fraudes relacionadas com o mobile money preocupa consumidores, operadores e autoridades. O governo anunciou a intenção de privar os fraudadores do acesso aos serviços de telecomunicações.
O operador de telecomunicações móveis MTN Ghana iniciou uma operação de saneamento da sua rede de agentes de mobile money. A iniciativa visa proteger os clientes e preservar a confiança, numa altura em que os agentes podem, por vezes, ser vetores de fraude num setor em forte crescimento.
A medida foi revelada pela Mobile Money Fintech, a filial dedicada ao serviço de agentes de mobile money do operador, num comunicado citado pela Ghana News Agency (GNA) na quinta-feira, 16 de abril. Ela consiste na realização de controlos de rotina na plataforma de agentes MoMo. Este exercício já levou a restrições temporárias em algumas contas de agentes.
Segundo a empresa, todas as infrações não são tratadas da mesma forma. Os agentes considerados culpados de infrações menores recebem advertências, enquanto aqueles envolvidos em violações mais graves enfrentam suspensões ou até exclusão definitiva da plataforma.
Em paralelo, a Mobile Money Fintech afirma dialogar individualmente com os agentes envolvidos, analisar os processos e, quando justificado, restabelecer o acesso, mesmo que as investigações continuem.
Uma dinâmica de crescimento
Esta medida surge num contexto de rápido crescimento do mobile money, que se tornou uma ferramenta de pagamento amplamente utilizada devido à sua simplicidade e acessibilidade em comparação com os serviços bancários tradicionais. O mobile money tornou-se também uma alternativa essencial para a inclusão financeira de uma população africana amplamente excluída dos sistemas bancários tradicionais.
Segundo o relatório anual de 2024 do Banco do Gana sobre a supervisão dos sistemas de pagamento, o valor total das transações de dinheiro móvel atingiu 3010 mil milhões de cedis ganeses (273 mil milhões de dólares) em 2024, um aumento de 56,8% face aos 1920 mil milhões de cedis registados em 2023. No final de 2025, o número de contas ativas era de 26,7 milhões, num total de 80,5 milhões de contas registadas.
Esta dinâmica acompanha um aumento das fraudes. Segundo o Relatório sobre a Estabilidade Financeira de 2023 do Banco do Gana, foram reportados 13 451 casos de fraude em todo o setor financeiro. Entre estes, a fraude no mobile money representou 20%, ou seja, cerca de 2700 casos envolvendo carteiras eletrónicas como MTN MoMo, Vodafone Cash e AirtelTigo Money.
Agentes no centro do sistema, entre confiança e abuso
A fraude envolvendo agentes de mobile money está entre as mais frequentes. Abrange práticas fraudulentas cometidas por intermediários responsáveis por depósitos, levantamentos, registos de SIM e verificações de identidade (KYC). Baseia-se amplamente na proximidade e na relação de confiança entre agentes e clientes, bem como em falhas operacionais do sistema.
A forma mais comum é a fraude de comissões, na qual os agentes manipulam as transações para maximizar os seus ganhos: criação de contas fictícias, sequência de depósitos, transferências e levantamentos para gerar comissões, fracionamento de operações ou incentivo aos clientes a aumentar artificialmente os montantes. Em alguns casos, os super-agentes também podem desviar parte das comissões devidas aos subagentes.
Além disso, os agentes podem cometer fraudes diretamente durante operações de cash-in/cash-out (depósitos e levantamentos), entregando menos dinheiro num levantamento, creditando um montante inferior num depósito ou realizando transferências sem o conhecimento do cliente. A isto juntam-se a cobrança de taxas ilegais, a exploração ou revenda de dados de clientes, bem como violações dos procedimentos KYC, facilitando depósitos diretos, levantamentos à distância ou usurpação de identidade. Estas práticas estão frequentemente ligadas a outras formas de fraude, nomeadamente engenharia social ou SIM swap.
Isaac K. Kassouwi
As autoridades namibianas estão a intensificar os esforços para reduzir a fratura digital. Um orçamento de 78 milhões de dólares namibianos foi destinado a este objetivo para o exercício de 2026/2027.
O governo da Namíbia previu 107,1 milhões de dólares namibianos (6,5 milhões USD) para financiar as fases 2 e 3 do Fundo de Serviço Universal (USF). Este mecanismo visa colmatar as falhas do mercado, facilitando investimentos em zonas de custos elevados e baixa rentabilidade, que de outra forma permaneceriam sem cobertura ou insuficientemente servidas.
Num comunicado publicado na quinta-feira, 16 de abril, a Autoridade Reguladora das Comunicações (CRAN) anunciou a atribuição de 32,3 milhões de dólares namibianos à MTC. A este montante somam-se 9,8 milhões de dólares atribuídos à Telecom Namibia, elevando o total da fase II para 42,1 milhões de dólares namibianos. A MTC será responsável pela instalação de torres de rede de acesso rádio (RAN) em nove locais estratégicos situados nas regiões de ǁKaras, Kavango Oeste, Kunene, Ohangwena e Oshikoto. O projeto permitirá igualmente ligar 15 instituições públicas, incluindo escolas e centros de saúde.
A terceira fase mobilizará cerca de 65 milhões de dólares namibianos para ligar aproximadamente 16 comunidades adicionais. O calendário desta fase ainda não foi divulgado, enquanto o processo da fase 2 já está em curso com o desembolso de parte dos fundos. O início das obras de engenharia civil está previsto para maio de 2026.
Lançado em fevereiro de 2025, o USF assenta num investimento base de 145 milhões de dólares namibianos, financiado por subsídios públicos e por uma taxa de 0,5% aplicada às receitas dos operadores de telecomunicações. A primeira fase abrange as regiões de Kavango Oeste, Kavango Este, Kunene e Oshikoto, com o objetivo de atingir uma cobertura de banda larga de pelo menos 80% nessas áreas. Cerca de 10 300 pessoas deverão beneficiar de serviços 4G melhorados.
Para além do USF, o Ministério das TIC alocou 78 milhões de dólares namibianos para a construção de infraestruturas de telecomunicações em zonas mal servidas e para a implementação de Wi-Fi público gratuito em determinadas instituições durante o exercício 2026/2027. A Telecom Namibia obteve também, em março, um empréstimo de 405 milhões de dólares namibianos para reforçar o acesso à banda larga e a capacidade da rede móvel a nível nacional. As autoridades apostam igualmente em tecnologias satelitais para complementar a cobertura.
Estes esforços inserem-se nos objetivos do sexto Plano Nacional de Desenvolvimento (NDP6), que faz da conectividade universal um motor de crescimento inclusivo, de melhoria dos serviços públicos e de participação na economia digital. O governo pretende, por exemplo, aumentar a taxa de penetração da Internet de 53% para 90% até 2030.
Segundo a CRAN, cerca de 360 000 namibianos, ou seja, aproximadamente 12% da população, não tinham cobertura 4G em fevereiro de 2024. A estes juntam-se 339 estabelecimentos escolares e 50 unidades de saúde. A cobertura 3G atingia 89% em 2023, de acordo com a União Internacional das Telecomunicações (UIT), enquanto a 2G já cobre 100% da população.
Isaac K. Kassouwi
Com a aceleração da transformação digital, a cibersegurança tornou-se um desafio importante para os países africanos. Estes estão a considerar parcerias com diversos parceiros.
O ministério ganês responsável pelas TIC anunciou, na quarta-feira, 15 de abril, o reforço da sua cooperação com a Itália no domínio da cibersegurança. Os dois países manifestam a ambição de reforçar a resiliência dos seus ecossistemas digitais e a segurança das suas infraestruturas críticas.
«A cibersegurança é uma responsabilidade partilhada. O Gana e a Itália unem forças para construir um futuro digital seguro e resiliente», declarou Samuel Nartey George, ministro ganês das TIC.
Esta colaboração insere-se numa estratégia do Gana para acompanhar o crescimento da sua economia digital. À medida que os serviços digitais se expandem, nomeadamente nas telecomunicações, na finança ou na administração pública, os riscos associados aos ciberataques aumentam, tornando indispensável a implementação de mecanismos de proteção adequados.
Para além da dimensão técnica, esta iniciativa reflete uma consciência crescente: a cibersegurança tornou-se uma questão estratégica para os Estados. Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT), o Gana faz parte dos países de referência em matéria de cibersegurança. No seu relatório «Global Cybersecurity Index 2024», o país obteve uma pontuação de 99,27 em 100. Por sua vez, a Itália alcançou uma pontuação de 100 em 100.
No entanto, o país continua exposto a perdas associadas à cibercriminalidade. Entre 2019 e 2025, o Gana perdeu mais de 3 mil milhões de dólares, incluindo 19 milhões de cedis (cerca de 1,7 milhões de dólares) apenas nos primeiros nove meses de 2025. Este valor representa um aumento de 17% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Autoridade de Cibersegurança. Além disso, o país registou 2 008 incidentes no primeiro semestre de 2025, um número 17% superior ao total registado em todo o ano de 2024.
Adoni Conrad Quenum
O mercado das telecomunicações na Guiné conheceu uma evolução inesperada nos últimos cinco anos. A concorrência, durante muito tempo sustentada pelos três operadores do país, enfraqueceu rapidamente face às exigências crescentes de investimento nas redes, impulsionadas pelos novos usos dos consumidores.
A situação torna-se ainda mais tensa na Cellcom Guiné. A empresa de telecomunicações enfrenta uma nova vaga de contestação social. Reunidos em assembleia geral na quinta-feira, 16 de abril de 2026, na sede em Conacri, trabalhadores do operador de telefonia móvel denunciaram uma vaga de despedimentos que consideram abusiva, bem como atrasos no pagamento dos salários e o incumprimento de vários compromissos assumidos pela direção.
Segundo os representantes dos trabalhadores, 23 empregados já perderam o seu posto por motivos económicos contestados, enquanto outras 26 supressões de postos estariam em estudo. Perante o que qualifica como má gestão, a Federação Sindical Autónoma das Telecomunicações (FESATEL) interpela o governo, nomeadamente o ministério responsável pelas telecomunicações e o do emprego, para garantir a proteção dos trabalhadores.
O seu secretário-geral, Abdoulaye Barry, anunciou uma ação formal junto das autoridades na próxima semana para exigir uma auditoria à Cellcom e, se necessário, a colocação da empresa sob administração provisória. Não exclui a hipótese de liquidação, com a reclassificação dos trabalhadores noutras empresas do setor.
Tensões financeiras
Esta nova crise social surge num contexto de deterioração financeira observado há vários meses. Em dezembro de 2025, meios de comunicação locais já relatavam dois meses de salários em atraso na Cellcom, seguidos pelo encerramento das suas instalações pelo senhorio, WAQF-BID, devido a dois a três anos de rendas em atraso, estimadas em 14 mil milhões de francos guineenses (cerca de 1,6 milhões de dólares). O operador conseguiu posteriormente a reabertura da sede por decisão judicial, sem que o litígio de fundo tenha sido totalmente resolvido.
A pressão manteve-se em 2026. No final de janeiro, os trabalhadores iniciaram um novo movimento social para exigir o pagamento dos salários de dezembro e janeiro, bem como dos prémios de fim de ano. Estas tensões recorrentes refletem uma situação de tesouraria degradada, num contexto em que as necessidades de investimento continuam elevadas.
Para além da crise interna, o caso Cellcom evidencia os desequilíbrios de um mercado guineense das telecomunicações marcado por uma forte concentração e pelas dificuldades de alguns operadores em manter a sua competitividade. Nos últimos anos, a empresa viu o seu peso no mercado diminuir significativamente, num contexto de pressão concorrencial crescente e de necessidades cada vez maiores de modernização das infraestruturas.
Segundo o último relatório publicado pela Autoridade de Regulação das Postas e Telecomunicações, a 30 de junho de 2025, o número de assinantes da Cellcom representava apenas 2,4% dos cerca de 13 milhões de utilizadores de telefonia móvel registados no mercado, enquanto no segundo trimestre de 2023 o operador ainda detinha 7,8% de cerca de 14 milhões de assinantes na Guiné. Entre 2023 e 2025, as suas receitas não pararam de cair.
O operador detinha 3% dos 1.715 mil milhões de francos guineenses gerados pelo mercado no segundo trimestre de 2023. Essa quota caiu para apenas 0,23% dos 2.237 mil milhões de francos guineenses de receitas geradas no segundo trimestre de 2025, ou seja, cerca de 5 mil milhões de francos guineenses.
Um caminho aberto para a Orange?
A crise da Cellcom ocorre num momento em que o setor já tinha vivido uma viragem importante com a retoma, pelo Estado guineense, da filial local da MTN, Areeba, anunciada no final de 2024. Esta operação refletia já a vontade das autoridades de evitar o desaparecimento de operadores considerados estratégicos para a continuidade dos serviços e para o equilíbrio concorrencial do mercado.
Paralelamente, as reflexões iniciadas pelo regulador sobre a itinerância nacional mostram que as autoridades antecipam, pelo menos parcialmente, a necessidade de novos mecanismos para preservar alguma concorrência. Num setor onde alguns operadores têm dificuldade em acompanhar o ritmo dos investimentos exigidos, perfila-se no horizonte uma forte concentração do mercado das telecomunicações.
Enquanto a situação da Areeba ainda não está verdadeiramente estabilizada em termos de crescimento do número de clientes e receitas (21,4% de quota de mercado) após a sua aquisição pelo Estado, as tensões na Cellcom constituem uma oportunidade para a Orange. A empresa, que já detinha 76,2% do total de assinantes móveis no segundo trimestre de 2025, poderá beneficiar de mais oportunidades para captar clientes inquietos.
Delineia-se assim um cenário semelhante ao do Quénia, com um operador largamente dominante.
Muriel EDJO
A acessibilidade financeira dos smartphones constitui um desafio importante em África. O governo ugandês apelou recentemente à produção local de telemóveis e computadores, com o objetivo de reduzir os custos e incentivar a utilização dos serviços digitais.
Os operadores de telecomunicações em Uganda exortam o Parlamento a eliminar os direitos de importação sobre smartphones de entrada de gama. Esta iniciativa visa tornar estes dispositivos mais acessíveis e apoiar a adoção dos serviços digitais.
Este apelo foi dirigido aos parlamentares durante uma sessão parlamentar na quarta-feira, 15 de abril, por Dennis Kakonge, diretor-geral dos serviços corporativos da MTN Uganda. Ele liderava uma delegação de empresas de telecomunicações que se deslocou ao Parlamento sobretudo para defender a redução da tributação sobre os levantamentos de mobile money.
Segundo Kakonge, a elevada carga fiscal torna os smartphones inacessíveis para muitos ugandeses e incentiva o contrabando. Acrescentou ainda que o elevado custo destes dispositivos limita a participação digital, impedindo muitos cidadãos de aceder a serviços online.
Este apelo surge num contexto em que a taxa de imposto combinada sobre telemóveis em Uganda é de cerca de 30%, segundo dados da Associação Mundial dos Operadores Móveis (GSMA), contra uma média de 33% em África. Esta taxa inclui cerca de 10% de direitos aduaneiros e 18% de imposto sobre o valor acrescentado.
Além disso, a GSMA estima que o preço mediano de um smartphone de entrada de gama na África Subsaariana era de 39 dólares em 2024. Isto representava 26% do rendimento da população em geral. Esse rácio sobe para 64% para os 40% mais pobres e 87% para os 20% mais pobres. É de 32% para as mulheres e de 23% para os homens.
Para recordar, a acessibilidade financeira dos smartphones continua a ser um dos principais obstáculos à adoção e utilização da Internet móvel em África. Segundo dados do Banco Mundial, 27% da população com mais de 15 anos possuía um smartphone em 2024. A União Internacional das Telecomunicações (UIT) estima a taxa de penetração da Internet no país em cerca de 9%, enquanto a GSMA indica que 30 milhões de pessoas no país não utilizam a Internet.
Isaac K. Kassouwi
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