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Reflexoes

Reflexoes (41)

 

 
 

Por Sr. Jacques Assahoré Konan, Ministro do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Sustentável e da Transição Ecológica, e Sra. Blerta Cela, Representante Residente do PNUD na Costa do Marfim.

Imagine um país onde o Oceano Atlântico encontra enormes lagoas, onde os manguezais abrigam espécies raras e onde praias douradas se estendem até onde a vista alcança. Esse país existe: é a Costa do Marfim. Com ecossistemas marinhos e lagunares excepcionais e um patrimônio natural único na África Ocidental, este país é uma joia, tanto para a biodiversidade quanto para o desenvolvimento econômico.

Mas este tesouro é frágil, ameaçado pela sobreexploração da pesca, pela poluição das lagoas, pela destruição dos manguezais e pelos impactos das mudanças climáticas. No entanto, esses desafios podem se transformar em uma oportunidade histórica para redefinir não apenas o destino da Costa do Marfim, mas também do continente africano como um todo.

Há alguns meses, em uma localidade do centro do país que perdeu mais de 80% de suas florestas naturais nas últimas cinquenta anos, jovens agricultores replantavam hectares de floresta degradada. Um deles confidenciou: "Antes, íamos procurar trabalho em outro lugar.

Há alguns meses, em uma localidade do centro do país que perdeu mais de 80% de suas florestas naturais nas últimas cinquenta anos, jovens agricultores replantavam hectares de floresta degradada. Um deles confidenciou: "Antes, íamos procurar trabalho em outro lugar.

Hoje, é a floresta que nos sustenta". Essa cena ilustra, por si só, a transformação em curso no país: um modelo em que a proteção ambiental se torna motor de crescimento, emprego e estabilidade social.

Combater ativamente as mudanças climáticas

Em outubro de 2025, a Costa do Marfim adotou a 3ª edição de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CDN 3.0), fruto de um trabalho e de uma liderança coletiva que marcam seu compromisso renovado de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 33% até 2035, podendo chegar a 74% com apoio internacional. Este roteiro, elaborado pelo Governo e por seus parceiros técnicos e financeiros — incluindo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) — reflete a visão de um país que acredita que desenvolvimento e sustentabilidade não se opõem, mas se reforçam mutuamente.

Essa visão baseia-se em políticas concretas: aumentar a participação de energias renováveis para 46,3% até 2035; restaurar 1,5 milhão de hectares de florestas e proteger a biodiversidade; promover uma economia azul e circular, valorizando recursos marinhos e resíduos, e colocar a igualdade de gênero no centro de toda política climática.

Uma abordagem integrada que torna a Costa do Marfim um país pioneiro na África Ocidental, capaz de combinar crescimento, inclusão e resiliência.

Incentivar um crescimento econômico sustentável

O exemplo emblemático dessa ambição é o programa Costa do Marfim Azul. Ele transforma a visão nacional inscrita no Plano Nacional de Desenvolvimento 2026-2030 em ação concreta. Seu objetivo é fazer do litoral marfinense um modelo mundial de crescimento econômico sustentável.

Assim, o programa Costa do Marfim Azul contribuirá para valorizar três novas Áreas Marinhas Protegidas, incluindo Grand-Béréby, uma localidade situada na costa sudoeste do país, cobrindo 30% das zonas marinhas sensíveis até 2035, garantindo a pesca sustentável e preservando os ecossistemas. Também permitirá restaurar manguezais e florestas costeiras: 5.000 hectares recuperados para absorver carbono, proteger contra a erosão e fortalecer a resiliência das comunidades.

As oportunidades econômicas são reais: com investimentos estratégicos, a economia azul poderia gerar mais de um bilhão de dólares em receitas anuais adicionais até 2035 e criar mais de 200.000 empregos diretos e indiretos nas áreas costeiras.

As oportunidades econômicas são reais: com investimentos estratégicos, a economia azul poderia gerar mais de um bilhão de dólares em receitas anuais adicionais até 2035 e criar mais de 200.000 empregos diretos e indiretos nas áreas costeiras

Os setores agrícolas sustentáveis, como café e cacau, já contribuem com 15% do PIB e 40% da receita de exportação, e a expansão do ecoturismo e da economia circular promete um impulso adicional para o desenvolvimento nacional.

O financiamento inovador está no coração deste programa: títulos azuis, créditos de carbono, parcerias público-privadas, combinando ambição pública e engajamento do setor privado, com monitoramento rigoroso para garantir impacto real sobre a biodiversidade e as comunidades locais. O investimento previsto é de 378 milhões de dólares.

Um protagonismo africano assumido

Na COP 30 em Belém, a delegação marfinense, representada pelo Ministro das Relações Exteriores e do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Transição Ecológica, defendeu uma posição firme: a transição ecológica global não pode ocorrer sem a África nem sem a Costa do Marfim, enquanto os países do continente, entre os menos emissores, permanecem paradoxalmente os mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

A delegação defendeu uma reconfiguração estratégica dos instrumentos de financiamento climático, colocando o mercado de carbono e a economia circular como pilares de uma arquitetura mais inclusiva, justa e eficaz.

Nessa visão, a transição verde deixa de ser uma limitação para se tornar uma oportunidade estratégica de modernizar a infraestrutura nacional, criar empregos para os jovens e estimular uma nova dinâmica de inovação.

Nessa visão, a transição verde deixa de ser uma limitação para se tornar uma oportunidade estratégica de modernizar a infraestrutura nacional, criar empregos para os jovens e estimular uma nova dinâmica de inovação.

Embora a COP 30 não tenha marcado um ponto de virada decisivo na implementação do Acordo de Paris, permitiu à Costa do Marfim afirmar sua voz no cenário climático internacional. Mais importante, consolidou uma visão agora assumida: tornar o país um farol de resiliência, inovação e prosperidade compartilhada — um território onde ecoturismo e economia azul podem melhorar concretamente a vida das comunidades. Um território onde cada lagoa, cada manguezal e cada ecossistema se torna uma contribuição tangível para um futuro sustentável, tanto para os povos quanto para o planeta.

Posted On lundi, 01 décembre 2025 11:22 Written by

O governo do Benin e o Banco Mundial organizaram o primeiro Summit Regional sobre Transformação Digital na África Ocidental e Central, reunindo cerca de 20 países.
Em entrevista à Agence Ecofin, Aurelie Adam Soulé Zoumarou, Ministra do Digital e da Digitalização do Benin, discutiu as prioridades do summit, o mercado digital regional, o "gap de uso" e as perspectivas africanas com relação à inteligência artificial.

Em Cotonu, o Benin sediou o primeiro Summit Regional sobre a Transformação Digital na África Ocidental e Central, reunindo cerca de vinte países para discutir questões de inclusão digital, conectividade e inteligência artificial. A reunião, promovida pelo governo do Benin e pelo Banco Mundial, visava definir uma visão comum e harmonizar as abordagens nacionais em relação à digitalização.

Na ocasião, a Ministra do Digital e da Digitalização do Benin, Aurelie Adam Soulé Zoumarou, falou à Agence Ecofin sobre as prioridades do summit, a questão do mercado digital regional, o "gap de uso" e as perspectivas africanas em relação à inteligência artificial.

Agence Ecofin: O Benin está sediando um summit regional sobre a transformação digital. Quais compromissos o senhor está tomando para acelerar o digital na África Ocidental?

Aurelie Adam Soulé
Zoumarou: Primeiramente, é preciso colocar este summit em seu contexto. Os países da África Ocidental e Central começaram, e às vezes já avançaram bastante, na sua transformação digital. Isto é um feito. No entanto, estamos avançando em ritmos diferentes. O desafio agora é parar de trabalhar cada um por si. É hora de a África Ocidental parar de trabalhar em silos.

Precisamos definir uma estratégia comum: avaliar nosso progresso em relação aos objetivos da União Africana, estabelecer um roadmap compartilhado e identificar as possibilidades que permitirão aos países mais avançados em certos assuntos apoiar os outros.

O objetivo também é implementar novas dinâmicas regionais, pois não se trata mais apenas de acelerar transformações nacionais: precisamos servir melhor nossa população através de abordagens integradas.

Esta é a visão que o Benin está defendendo neste summit. Não é uma tarefa comum, mas se torna indispensável.

O conceito de "mercado digital único" foi amplamente discutido nos discursos de abertura. Em que medida esta ambição é realista hoje para a África Ocidental e Central?

 Ainda estamos longe disso. O mercado só será comum se compartilharmos metas comuns. Quando observamos os números, os da OCDE ou da GSMA por exemplo, as disparidades são enormes: um país como Benin apresenta uma taxa de cobertura de cerca de 75%, enquanto outros estão limitados a 26%. Como imaginar um mercado único nessas condições?

Portanto, a prioridade é definir a dinâmica regional que nos permitirá reduzir essas diferenças. Só sob esta condição poderemos construir o mercado único que reivindicamos.

"Quando a conectividade é insatisfatória, isso é a prioridade; quando a conectividade é assegurada, o custo se torna o problema; e quando o custo é reduzido, temos que lidar com o uso e o conteúdo."

Várias intervenções destacaram um paradoxo: a região está coberta, mas o uso ainda é baixo. O Benin também enfrenta este "gap de uso" e como ele pode ser explicado?

Sim, e é crucial entender o que este "gap de uso" realmente significa. Investimos, os operadores investiram, mas parte da população e das empresas não usam a conectividade disponível. É como se este investimento tivesse parcialmente permanecido sem efeito. Portanto, era essencial lidar com este problema.

No Benin, identificamos isso nas primeiras fases de nossa estratégia digital. Trabalhamos nos quatro fatores que dificultam a adoção.

Primeiro, a conectividade: este aspecto é amplamente resolvido atualmente. Em seguida, a acessibilidade, pois alguns serviços permanecem muito caros para alguns lares. O terceiro fator é o conteúdo: você pode ter um acesso acessível, mas se não encontrar nada que seja relevante para você, não usará a ferramenta. Finalmente, há a questão das habilidades: muitos ainda hesitam porque não dominam suficientemente o uso digital.

Assim que a conectividade é garantida, essas três outras dimensões devem ser trabalhadas simultaneamente.

Este exemplo mostra claramente que o custo nem sempre é a principal barreira. Quando a conectividade existe e os preços são razoáveis, a falta de conteúdo relevante pode ser o principal obstáculo. Isso é toda a complexidade do setor: assim que um problema é resolvido, outro aparece. Quando a conectividade está faltando, isso é a prioridade; quando a conectividade é assegurada, o custo se torna a questão; e quando o custo é reduzido, temos que lidar com o uso e o conteúdo.

Esta é precisamente a função das políticas públicas: identificar, a cada passo, o novo desafio e fornecer a solução adequada.

 De forma concreta, como o Benin está agindo para superar esses três obstáculos?

Temos um exemplo muito claro: o microcrédito Alafia, que modernizamos e tornamos 100% acessível por telefone. Graças a este serviço, vimos mulheres que não usavam o digital antes se tornarem usuárias regulares. Elas não se importaram muito com o custo, embora tenhamos trabalhado para reduzi-lo: o que as convenceu foi que o serviço lhes proporcionava um benefício econômico direto.

É uma questão de custo e oportunidade. Se você usa seu telefone apenas para entretenimento, você se perguntará: "O que isso está me trazendo?". Mas se o telefone permite que você obtenha um microcrédito que melhora sua vida diária, a percepção do valor muda.

Portanto, reforçamos as habilidades dessas mulheres para permitir que utilizassem a ferramenta e fornecemos a elas conteúdo útil. É justamente nesses dois aspectos - habilidades e conteúdo - que continuaremos a trabalhar.

Vários estudos, incluindo os do Banco Mundial e da GSMA, apontam o alto custo dos terminais e da conectividade na África. Os usuários da internet do Benin também afirmam que a internet ainda é cara no Benin. O que você diria a eles?

A questão do custo da internet tem sido recorrente desde que entrei no setor - tem quase vinte anos - e provavelmente continuará enquanto a internet não for gratuita. É um pouco como os debates sobre a presença de mulheres no digital: a questão persiste porque toca em questões humanas profundas.

Também temos que levar em conta as realidades. Em vários países da sub-região, a prioridade ainda não é o custo, mas sim a conectividade: ter acesso ao serviço, com uma qualidade mínima, independentemente do preço. No Benin, este primeiro obstáculo foi amplamente superado, o que torna legítima a questão sobre as tarifas.

Nós não temos fábricas que produzem equipamentos de telecomunicações na África. Os operadores, quando implantam infraestruturas, fazem isso porque veem uma oportunidade econômica, além de sua contribuição para o desenvolvimento. Isso influencia os preços.

Uma vez que a conectividade está estabelecida, é normal que a população questione o custo. E é aí que entramos: a compartilhação de infraestruturas é uma importante ferramenta. Quando vários operadores compartilham os mesmos sites ou as mesmas fibras, em vez de cada um implantar sua própria rede, isso reduz os custos e, portanto, as tarifas. Isso desempenha um papel na adoção. No entanto, nossa experiência mostra que, mesmo quando o custo existe, o uso pode aumentar significativamente quando os serviços propostos atendem a uma necessidade real, econômica ou social.

"A redução dos impostos não fornece a solução sustentável necessária que examina toda a cadeia de valor dos terminais."

O que os governos africanos, e especificamente o Benin, podem fazer para reduzir os custos digitais - terminais, dados, serviços? Reduzir os impostos, subsidiar após o direcionamento em áreas rurais…?

 Gostaria de começar por um ponto específico para ilustrar o que os governos podem fazer, especialmente em uma abordagem regional. Vamos pegar o exemplo dos terminais. Imagine que o Benin, sozinho, decida produzir telefones para reduzir o custo. O impacto seria limitado. No entanto, se toda a África Ocidental e Central, ou mesmo todo o continente, se mobilizar em torno de um projeto comum para produzir terminais baratos, o efeito de escala muda completamente o jogo.

Você mencionou a redução dos impostos ou a possibilidade de subsidiar aparelhos para certas populações, especialmente rurais. São opções, mas não resolvem o problema fundamental. Uma redução de impostos é uma medida conjuntural, dependente da vontade de cada governo. Ela não fornece a solução sustentável necessária que examina toda a cadeia de valor dos terminais.

Hoje, estamos falando sobre telefones celulares. Mas amanhã, será outro tipo de terminal. É por isso que precisamos de uma abordagem estrutural, e não apenas fiscal. A redução de impostos também não permite a ampliação das iniciativas que queremos desenvolver.

O que estamos buscando, com este tipo de summit, é a adoção de ações regionais que possam criar esse efeito de escala e, finalmente, servir melhor nossa população.

"Capacidades de computação - computing - também não precisam ser instaladas em cada país. Estas são infraestruturas que podem ser compartilhadas em uma escala regional."

 Diante da falta de infraestrutura de computação e dados na África, muitos questionam a capacidade do continente de desenvolver soluções de IA soberanas. Como avançar coletivamente, e que papel o Benin pretende desempenhar nesta dinâmica regional?

No que diz respeito à IA, não repetiremos o modelo da conectividade. Não é mais uma questão de construir infraestruturas pesadas ou escavar trincheiras. A IA permite uma abordagem diferente, verdadeiramente africana.

Primeiramente, porque tudo se baseia nas habilidades. Um jovem senegalês especialista em IA pode desenvolver soluções para o Benin a partir de Dakar, ou mesmo de qualquer lugar do mundo. Para a IA, as soluções são exportáveis, os talentos circulam. Não é mais a lógica tradicional de infraestrutura que requer a implantação de fibras ou sites GSM de país para país.

Além disso, as capacidades de computação - computing - também não precisam ser instaladas em cada país. São infraestruturas que podem ser compartilhadas em uma escala regional. Isso torna este momento particularmente propício para uma cooperação reforçada.

A sinergia entre os países permitirá, por exemplo, que um jovem do Benin proporcione uma solução em Serra Leoa, ou vice-versa. Neste summit, nós estamos de fato recebendo Moustapha Cissé, um senegalês e uma figura reconhecida na IA no continente, o que ilustra perfeitamente esta dinâmica.

Estamos em um momento de virada. Cada país avançou em sua dimensão nacional. É hora de usar a região para ir ainda mais longe.

Quais são as prioridades deste summit para o Benin?

Estamos co-organizando este summit com o Banco Mundial para que a dinâmica regional se torne uma alavanca de aceleração para os progressos que cada país já implementou. Vinte e dois países da África Ocidental e Central estão participando dessa iniciativa. Todos avançaram em sua transformação digital, mas em níveis diferentes.

O objetivo é utilizar a complementaridade regional: um país avançado na interoperabilidade ou no endereçamento digital, como o Benin, pode ajudar os outros a progredir mais rapidamente.

Um país muito avançado no empreendedorismo digital, como a Nigéria, pode apoiar vinte e um outros países.

Finalmente, a União Africana estabeleceu objetivos para 2030. Este summit nos permite medir nosso progresso, harmonizar nossas abordagens e definir como implementar esses objetivos para melhor servir nossa população.

Entrevista conduzida por Fiacre E. Kakpo

Posted On mercredi, 26 novembre 2025 10:55 Written by

Pit Baccardi, co-fundador do Salão das Indústrias Musicais de África francófona (SIMA), fala sobre os desafios do SIMA e sua nova carreira como produtor.
O rapper e produtor camaronês busca criar um ecossistema mais lucrativo na indústria musical africana.

co-fundador do Salão das Indústrias Musicais de África francófona (SIMA), esteve presente em Cotonou para a segunda edição do evento, realizada nos dias 13 e 14 de novembro de 2025. Numa breve conversa, a lenda do rap francês aceitou conversar conosco sobre vários assuntos, incluindo os desafios do SIMA e sua nova carreira de produtor.

Agência ecofin:É o primeiro dia do SIMA, mas na verdade, para você, o evento começou várias semanas atrás. Pode nos falar um pouco sobre a preparação de tudo isso?

Na verdade, estamos trabalhando nesta segunda edição desde o final da primeira (organizada em 2022), pois este tipo de evento não se organiza de uma hora para outra.

Requer reflexão para decidir que história queremos contar, como isso vai impactar, que tipo de side event queremos fazer, quem queremos atingir, onde vamos fazê-lo. Necessita de longas reflexões. Portanto, de fato, desde a primeira edição, o SIMA é nosso dia a dia.

 de fato, como você conseguiu convencer os grandes players da indústria musical a participar desta segunda edição?

A maioria já estava no SIMA em 2022. Desta vez, temos mais instituições além das Majors e artistas, mas a maioria dos participantes confiou em nós desde a primeira edição em Abidjan. Na verdade, isso prova que as pessoas estão cientes dos desafios e entendem. Os participantes estão conscientes da nossa abordagem e responsabilidade e não podemos prosseguir sozinhos nesta iniciativa, temos que estar unidos. Essa é a razão pela qual as Majors estão nos apoiando.

"Os participantes estão conscientes da nossa abordagem e responsabilidade e não podemos avançar isoladamente nesse tipo de iniciativa."

Além disso, temos legitimidade e credibilidade junto a essas estruturas porque somos nós mesmos parte deste meio, da indústria musical. Mamby Diomandé (co-fundador e comissário geral do SIMA) e eu trabalhamos na Universal. Eu sou um artista rapper, Mamby fez muitas coisas na área de eventos e em tudo relacionado à cultura na Costa do Marfim. então, é graças a tudo isso que conseguimos envolvê-los na aventura e a verdade é que não tivemos que fazer muitos esforços para convencê-los. Todos nós temos as mesmas preocupações e os mesmos pensamentos. Compartilhamos esse desejo de criar uma estrutura e criar um ecossistema de maior rentabilidade.

Antes da cerimónia de abertura, dinamizou uma residência artística no Centro Comunitário Eya durante 3 dias. Qual é o seu balanço desta iniciativa?

Acho excepcionais os artistas e aquilo que tiveram de fazer, porque eu próprio só os descobri fisicamente na segunda-feira, 10 de novembro, quando a residência começou.

Em dois dias conseguiram escrever, compor e gravar três temas. É excepcional e prova, mais uma vez, a força e o talento que os nossos países e o nosso continente possuem. Mostra sobretudo a vontade que têm de se superar, porque normalmente, para três temas, seria necessária pelo menos uma boa semana para os realizar devidamente. E sobretudo porque, durante a residência, colaboraram com outros artistas, pessoas que não se conheciam nem humana nem artisticamente… acho isso excepcional.

Toda a gente, ou quase, conhece a sua carreira no rap francês. Pouca gente acompanhou, porém, a transição para a profissão de produtor. Pode explicar-nos como aconteceu consigo?

Na verdade, foi algo muito natural, não tenho a impressão de fazer algo diferente daquilo que sempre estive habituado a fazer e, portanto, quando passo a produtor, aplico comportamentos e lógicas de reflexão que adquiri durante a minha experiência enquanto artista.

Para fazer esta mudança, é preciso sobretudo conseguir posicionar-se psicologicamente no seu novo papel, portanto ganhar algum distanciamento. Eu apenas me disse: retiro-me para elevar os outros. Penso que, quando se consegue compreender isto, é possível fazer coisas bonitas.

«Eu apenas me disse: retiro-me para elevar os outros. Penso que, quando se consegue compreender isto, é possível fazer coisas bonitas.»

Consegue apontar um momento preciso em que houve esse “switch” para se afastar do microfone e passar para os bastidores?

Sim, foi em 2010 (esse ano, o rapper regressou à cena musical com o álbum Juste Moi, NDLR). Quis orientar a minha carreira de forma diferente, mesmo que sempre me tenha dito que iria voltar à linha da frente, microfone na mão. Como? Não sabia, mas sabia que voltaria.

 O SIMA é o principal projeto da sua nova vida na indústria musical?

O SIMA é o lado institucional, mas o lado musical permanece. Celebrei os meus 25 anos de carreira no Olympia, em França, no passado dia 25 de setembro, e no final do ano de 2025, em dezembro, lanço um novo projecto musical.

 Pode falar-nos um pouco sobre esse projecto? O que o fez querer voltar ao microfone?

 Apenas a vontade de cantar, de fazer rap, de atuar, porque é a minha primeira paixão e, como se diz, estava a “coçar” e eu fiz. (Risos)

 Está no Benim há vários dias. O que lhe chama a atenção na indústria musical local?

 Ainda não se pode falar de indústria nesta fase, mas o que me marcou foi a energia do meio.

Sinto, como senti na Costa do Marfim, uma vontade geral de colocar a cultura no centro das discussões e percebi, ao longo das conversas, que é também uma vontade do Estado, portanto é um impulso que vem de cima e se propaga. E sente-se que as pessoas estão prontas para agir, para investir, para estar presentes quando se trata de cultura.

«Sinto, como senti na Costa do Marfim, uma vontade geral de colocar a cultura no centro das discussões e percebi que é também uma vontade do Estado […].»

Falou da Costa do Marfim; vê-se uma dinâmica muito interessante nestes últimos anos no Rap Ivoire, uma versão muito marfinense do rap tal como o conhecemos. Acha que é uma boa direção para os países africanos apropriarem-se do rap e não reproduzirem os estilos dos outros?

É uma coisa muito boa o que está a acontecer com o Rap Ivoire, que é um exemplo interessante.

É uma direção muito positiva para África porque a Costa do Marfim hoje está muito bem posicionada. Fala-se da Costa do Marfim hoje quando se fala de rap. Antes havia o rap francês, o rap americano, o rap inglês, etc., mas agora há o rap Ivoire e fala-se dele. Tem uma identidade forte e essa identidade está ligada à sua própria essência nas escolhas de língua, de lyrics, de música, e eu encorajo, encorajo vivamente.

Propos recolhidos por Servan Ahougnon

 

 

Posted On mardi, 25 novembre 2025 17:13 Written by

Nadine Tinen, CEO da VINKA, firma pan-africana multidisciplinar de serviços intelectuais, argumenta que a retirada de grandes empresas internacionais da África francófona deve acelerar o surgimento de atores locais, capazes de mesclar excelência profissional e conhecimento do terreno.

A VINKA oferece uma gama de competências, com práticas que vão desde direito, fiscalidade, auditoria, risk assurance, estratégia, organização e transformação, e em seis meses, já atendeu a mais de cinquenta instituições em setores variados.

Escrito por: VINKA Nadine Tinen, CEO da VINKA, uma firma pan-africana multidisciplinar de serviços intelectuais, apoia nesta tribuna que a retirada das grandes empresas internacionais da África francófona deve acelerar o surgimento de atores locais. Esses atores devem ser capazes de combinar excelência profissional e domínio do terreno.

Desde 2023, diversas empresas internacionais deixaram simultaneamente uma dezena de países da África francófona, desde Camarões até Senegal, passando pela RDC e Madagascar.

Esse movimento não é uma simples readjuste estratégico: é um marco histórico. Com muita frequência, os projetos estruturantes do continente são criados e geridos a partir do exterior. A partida gradativa das grandes empresas ocidentais ressalta uma verdade inevitável: a África precisa depender de seus próprios recursos para garantir suas reformas, acompanhar suas transições e construir instrumentos de soberania econômica.

Essa divisão destaca uma dependência antiga de redes em que decisões e análises são feitas fora do continente

Auditoria de projetos, reformas fiscais, estruturação jurídica e fiscal de investimentos, consultoria em fusões/aquisições para citar apenas alguns — essas áreas têm sido frequentemente tratadas por atores por vezes desconectados das realidades locais.

Em vez de apenas criticar, é hora de construir alternativas. É com este objetivo que a VINKA assume as atividades da PwC, seguindo a retira das empresas da África francófona Subsaariana da rede global. Ao aderir a essa dinâmica, ex-sócios e colaboradores da PwC, em particular em Camarões e Benin, optam por criar uma marca fortemente enraizada no continente. Sua ambição é combinar padrões internacionais, excelência profissional e operacional, ética rigorosa e compreensão do contexto africano.

A VINKA se destaca por reunir diversas especialidades — direito, fiscalidade, auditoria, risk assurance, estratégia, organização e transformação — para oferecer um acompanhamento global. Atuamos de forma integrada na fiscalidade estratégica, no direito comercial, na estruturação de parcerias público-privadas, em auditoria, como comissários de contas, e em consultoria organizacional e transformacional. Estamos presentes em Camarões e Benin, e estamos construindo uma rede pan-africana para responder às necessidades de empresas, estados e instituições. Em seis meses, auxiliamos mais de cinquenta instituições em diferentes setores: energia, mineração, agroalimentação, finanças, telecomunicações, indústria de produção, varejo e setor público.

Nossa abordagem não se limita a respostas técnicas: ela é baseada na coconstrução.

Trabalhar o mais próximo possível das organizações e governos para desenvolver soluções sustentáveis, adaptadas e compartilhadas está no cerne de nossa prática. Queremos coescrever o futuro com atores econômicos e institucionais, garantindo e liberando iniciativas africanas através de expertise e proximidade.

Nossa convicção é simples: a expertise não deve mais ser apenas exógena; ela deve ser desenvolvida localmente, próxima às realidades econômicas e administrativas. Ser uma firma pan-africana não significa fazer pior, mas fazer diferente: compreender as reais margens de manobra fiscais, as regulamentações comunitárias e as lógicas institucionais para desenhar soluções viáveis em ambientes específicos e por vezes restritos.

A necessidade é imensa: a África tem um déficit de investimento em infraestrutura de cerca de 100 bilhões de dólares por ano.

As demandas por governança, ESG, conformidade, auditoria de projetos financiados por doadores e transformação digital são enormes.

No entanto, muitas tarefas ainda são confiadas a estruturas estrangeiras, apesar das alternativas credíveis. Essa é a alternativa que estamos fortalecendo.

A consultoria é uma ferramenta de apoio à tomada de decisões estratégicas e uma alavanca para soberania - reflete a capacidade das economias africanas de dialogar de igual para igual com os padrões globais e envolve a compreensão de nossos próprios instrumentos de análise.

Fundações já existem: a OHADA, com seu direito comercial harmonizado entre dezessete países, proporcionou clareza e segurança jurídicas; normas IFRS e as regras de Basiléia são aplicadas em muitos países, apoiadas por reguladores locais credíveis. Esses sucessos mostram que a África pode desenvolver padrões robustos; ainda precisamos que a expertise técnica e a excelência operacional sigam o mesmo caminho.

Segundo várias fontes, o mercado de consultoria de gestão na África está crescendo de 5 a 7% ao ano e atingindo mais de 2 bilhões de dólares, sinal de maturidade crescente e grande expectativa para atores capazes de conciliar excelência técnica e enraizamento local.

Com 75% de sua população com menos de 35 anos, a África tem um capital humano móvel, treinado e ambicioso, que merece estruturas nas quais se projetar. Consultoria, auditoria e direito não devem mais ser percebidos como competências importadas, mas como áreas de excelência dirigida por atores africanos, em um espírito de rigidez, responsabilidade e serviço.

Iniciativas lideradas por homens e mulheres convencidos estão se multiplicando, mas precisamos acelerar: são agora que os modelos africanos de consultoria estão sendo construídos, e eles devem ser elaborados com talentos do continente.

A África não pode mais esperar. Ela tem a capacidade; agora, ela precisa da confiança.

 

Posted On mercredi, 19 novembre 2025 11:34 Written by

Antigo funcionário da McKinsey France, Thierry Djeumo é consultor internacional e um dos autores do relatório "Excelência Operacional das Empresas Africanas: uma alavanca de disrupção inexplorada", um estudo inédito publicado pelos consultórios FinAfrique Partners e DYESE, ao lado de Manuella Zagba e Bassirou Diao.

O relatório faz uma avaliação implacável da operação das empresas africanas e pede por uma verdadeira revolução gerencial, cultural e tecnológica. Preparamos algumas perguntas para eles. Thierry Djeumo aceitou comentar para a Agence Ecofin.

Agência ecofin: No seu relatório, você afirma que a excelência operacional ainda é uma "alavanca inexplorada" para as empresas africanas, apesar de ter se tornado uma norma de competitividade em outras regiões. Você considera essa excelência como uma simples adaptação dos modelos internacionais (Lean, Six Sigma, Kaizen, etc.), ou como uma abordagem especificamente africana, baseada em nossas realidades culturais, econômicas e humanas?

Therry Djeumo: A excelência operacional ainda não é um tópico que as empresas africanas adotaram suficientemente de forma que o nível de maturidade nessa questão ainda não permite, na nossa opinião, abordar uma perspectiva puramente africana. Não há dúvidas de que temos que argumentar por uma abordagem que poderíamos chamar de híbrida, no sentido de que se capitaliza nos princípios e práticas desenvolvidos em outros lugares onde a questão da excelência operacional já está madura, adaptando-os às particularidades do contexto africano (cultural, tecnológico, infraestrutural, econômico, etc.). Isso deve ser visto como uma trajetória a ser construída, da qual queremos estabelecer um ponto de partida ou uma etapa, de ação direta e produtiva. Conforme avançamos em uma abordagem de melhoria contínua, a visão africana da excelência operacional das empresas começará a emergir de forma mais assertiva.

 Seu estudo apresenta muitos casos de empresas de alto desempenho, mas percebe-se uma grande variedade de maturidades e abordagens. Você definiu uma referência comum para medir esta “excelência operacional africana”? Quais os principais indicadores que lhe permitiram comparar as organizações estudadas?

 Sim, com toda certeza. No contexto das empresas africanas, estabelecemos cinco principais critérios para avaliar. Era importante estabelecer critérios "transversais" para medir a excelência operacional entre diferentes empresas, bem como "longitudinais" para avaliar a excelência operacional interna em diferentes níveis de uma organização. A ideia é que, da alta administração às unidades operacionais, cada equipe possa se apropriar da questão de excelência operacional e torná-la um objetivo comum.

 A ideia é que, da alta administração às unidades operacionais, cada equipe possa se apropriar da questão de excelência operacional e torná-la um objetivo comum.


Os cinco critérios que propomos são divididos em três níveis: no nível da fundação, primeiro avaliamos o escopo de aplicação das iniciativas de excelência operacional, em seguida, a execução, que é medida especialmente pelo grau de autonomia e confiabilidade das ações adotadas. Para cada empresa, é necessário definir um padrão claro de referência para a execução.

Em seguida temos o nível intermediário, onde consideramos duas dimensões: a resiliência, que avalia a capacidade de manter esse padrão sob condições adversas - seja uma mudança de equipe, uma nova ferramenta, um aumento da pressão ou outras perturbações -, e o desempenho, medido por critérios como produtividade, eficácia, qualidade ou inovação. Por fim, o nível superior se preocupa com o impacto. Este pode ser percebido através de vários indicadores: a experiência dos clientes, empregados ou parceiros; reconhecimento e reputação; atração; conversão e retenção de talentos, clientes ou parceiros; bem como os resultados financeiros, ESG ou outros.

Você enfatiza o papel crucial do fator humano e da cultura corporativa. Você lembra que a relação com a hierarquia, a palavra escrita ou o coletivo é frequentemente diferente na África. Como essas características culturais influenciam concretamente a implementação de uma abordagem de excelência? Eles podem se tornar, a longo prazo, uma vantagem competitiva em vez de uma restrição?

Em todas as latitudes, o fator humano permanece como um elemento delicado e extraordinário de qualquer transformação coletiva.Ele pode atuar como um obstáculo à transformação ou como um catalisador. Neste ponto de vista, o desafio para as empresas africanas é, portanto, criar as condições para que a cultura corporativa favoreça a abordagem de excelência, para que os funcionários se apropriem dela e, finalmente, a realizem. Isso requer algumas habilidades coletivas da empresa, como, por exemplo, a capacidade de se questionar de forma produtiva, de receber a mudança ou de assimilá-la.

Pode-se ser tentado, numa primeira análise, a considerar que nossas especificidades, como a imposição de uma influência negativa em uma abordagem de excelência. Por exemplo, a relação com a hierarquia no contexto africano, onde, para caricaturar, de um lado os "líderes" normalmente assumem uma postura de saber tudo e, de outro lado, seus "colaboradores" que muitas vezes são relegados à postura de executores sem uma verdadeira margem de iniciativa, não é sempre do tipo que permite desenvolver uma habilidade de questionamento produtivo.

O desafio para as empresas africanas, portanto, é conseguir criar as condições para que a cultura corporativa favoreça a abordagem de excelência, para que os funcionários se apropriem dela e, finalmente, a realizem.

O desafio para as empresas africanas, portanto, é conseguir criar as condições para que a cultura corporativa favoreça a abordagem de excelência, para que os funcionários se apropriem dela e, finalmente, a realizem.
Mas a nossa convicção é que, ao contrário, essas características culturais africanas podem constituir vantagens competitivas para as empresas africanas em mais de um aspecto. Os funcionários africanos, devido à, por exemplo, sua forte imersão em tecidos sociais extensos e variados, possuem um conhecimento sobre os consumidores e clientes africanos que só precisa ser aproveitado e que pode fazer a diferença em termos de inovação disruptiva. Devido à realidade das circunstâncias, os funcionários e clientes africanos são, na verdade, muito abertos à mudança.

Basta ver o caminho da integração profissional e as múltiplas direções adotadas para encontrar seu lugar, ou a rapidez desconcertante com a qual as novas tecnologias ou soluções são adotadas. Esse é um bom terreno no qual as empresas podem capitalizar para implementar uma abordagem de excelência coletiva. Voltando à dinâmica na relação com a hierarquia, essa também pode ser um acelerador na implementação de decisões provenientes do "topo" da hierarquia, incluindo decisões de abordagem de excelência. No entanto, é importante enfatizar que a capitalização sobre as especificidades africanas em uma abordagem de excelência operacional exige uma abordagem metódica e progressiva para ser bem-sucedida.

Você qualifica a digitalização e a automação como “alavancas de transformação poderosas”. No entanto, o relatório mostra que a maioria das empresas africanas tem dificuldades para elaborar uma estratégia tecnológica clara. Quais são, na sua opinião, as tecnologias mais promissoras atualmente para aumentar a performance operacional na África? E você vê surgir inovações realmente locais nesta área?

Estamos a atravessar um período particular, sem precedentes, onde mais do que nunca o conhecimento e a tecnologia são de certa forma tornados acessíveis ao grande público, através da abertura dos mercados da Ásia ou do Médio Oriente, onde é possível para qualquer empresa africana ou empresário africano adquirir qualquer tipo de equipamento ou mandar fazer qualquer tipo de produção, ou através da disseminação massiva de informação via internet acessível com alguns cliques.

No entanto, devemos reconhecer que no campo do know-how, a contribuição da África ainda é marginal, seja na produção de conhecimento, na produção de tecnologia ou na combinação de conhecimento e tecnologia para implementar soluções relevantes para a África, assim como para o restante do mundo. Para nós, este domínio do know-how é um dos principais desafios a serem enfrentados pelas empresas africanas, pois permite abordar as grandes questões da tecnologia na África com uma maior margem de manobra, como a soberania, a dependência, a segurança, a governança de dados e normas, a competência, ou ainda o controle das infraestruturas.

Este domínio do know-how é especialmente crucial na África, pois somos um continente ricamente dotado de recursos naturais (minerais, energéticos, agrícolas, etc.) dos quais pouco controlamos a cadeia de exploração e agregação de valor, apesar de serem muitas vezes indispensáveis para o resto do mundo e geram receitas consideráveis das quais a África recebe apenas uma pequena parte.

É difícil não falar da grande revolução que estamos testemunhando, que ainda está em seus primeiros estágios com a inteligência artificial

 

É difícil não falar da grande revolução que estamos testemunhando, que ainda está em seus primeiros estágios com a inteligência artificial

Dito isto, as tecnologias são muitas hoje. Sua relevância para o desempenho operacional das empresas africanas muitas vezes depende do tipo de empresa e da natureza de suas barreiras ao desempenho. Mas é difícil não falar da grande revolução que estamos testemunhando, que ainda está em seus primeiros estágios com a inteligência artificial. Esta revolução vai perturbar todos os setores de atividade (primário, secundário, terciário, etc.). As empresas africanas que souberem adquirir essa tecnologia para realmente a colocarem a seu serviço terão bons resultados qualitativos. Para as empresas dos setores secundário e terciário, em particular, acreditamos que as novas tecnologias de automação do tipo RPA (Robotic Process Automation) são impulsionadores de desempenho operacional.

Mas na realidade existem muitas áreas nas quais as inovações africanas são vivamente esperadas, como na gestão de energia elétrica para garantir um acesso estável e duradouro aos usuários, na gestão sustentável de resíduos, no desenvolvimento de habitats que valorizam materiais locais e são adaptados ao ambiente africano, no desenvolvimento de medicamentos que aproveitam a riqueza considerável de nossa biodiversidade, ou até mesmo mais prosaicamente no pagamento transfronteiriço intra-africano. É por isso que pedimos uma mobilização muito maior das empresas africanas na produção de conhecimento e tecnologia, através do financiamento da pesquisa e inovação na África, internamente nas empresas ou externamente, através de parcerias com, por exemplo, universidades, centros de pesquisa ou hubs de inovação.

Seu estudo fala sobre "ganhos mensuráveis" em termos de eficiência, qualidade e prazo. Você cita empresas que reduziram seus ciclos de produção ou melhoraram seu atendimento ao cliente, mas você nem sempre detalha os números. Você pode compartilhar alguns exemplos concretos de empresas africanas que obtiveram resultados significativos através de uma abordagem de excelência? Quais setores parecem ser os mais avançados?

Começamos com exemplos concretos. Como sempre, é a chamada África anglófona que lidera o caminho. Um dos grandes sucessos, uma revolução propriamente africana, que se generalizou na África ao ponto de agora fazer "parte da mobília" como um serviço padrão, robusto e eficiente, é o Mobile Money. As bases foram estabelecidas em meados da década de 2000, no Quênia com M-Pesa e na África do Sul com MTN MoMo. Esta revolução do dinheiro móvel gerou uma grande variedade de novos serviços (Mobile Banking, Digital Payment, etc.) que continuam a se desenvolver e onde a concorrência é feroz.

No campo dos transportes limpos na África, um mercado em crescimento, alguns players africanos se estabeleceram como líderes graças a soluções inovadoras criadas na África para atender às necessidades do continente. Este é o caso, por exemplo, da ROAM no Quênia. No setor de transporte aéreo, a companhia aérea Ethiopian Airlines lidera regularmente o ranking na África há muitos anos, mantendo-se entre as 40 melhores companhias aéreas do mundo.
No campo da produção manufatureira, temos o exemplo de Marrocos, que se estabeleceu em menos de 20 anos como um ator importante na produção de automóveis para o mercado global. Isso pressupõe o alinhamento com os padrões globais, permitindo a instalação de empresas internacionais como Toyota, Volkswagen, Hyundai,…ou até mesmo a Renault.

Temos o exemplo de Marrocos, que conseguiu afirmar-se, em menos de 20 anos, como um ator importante na produção automóvel dirigida ao mercado mundial.

Temos o exemplo de Marrocos, que conseguiu afirmar-se, em menos de 20 anos, como um ator importante na produção automóvel dirigida ao mercado mundial.

No que diz respeito ao desenvolvimento dos setores, diria que os pré-requisitos ou as condições para alcançar a excelência operacional variam de forma significativa entre eles. As empresas do setor terciário beneficiam mais diretamente do acesso ao conhecimento e à tecnologia disponíveis ao grande público. Todas as coisas sendo iguais (por assim dizer), é mais fácil implementar iniciativas de excelência operacional neste setor. No setor secundário, as transformações apresentam níveis mais elevados de complexidade, de carga operacional e de criticidade do que no setor terciário. Já no setor primário, a incerteza é mais determinante do que nos outros setores e deve, portanto, ser especificamente integrada em qualquer abordagem de excelência operacional.

 Sublinha que, em muitas empresas africanas, os próprios dirigentes acabam por ser, de forma involuntária, um obstáculo à transformação, por falta de delegação e de processos claros. Como é que um dirigente africano pode institucionalizar a cultura da excelência para além do discurso? É necessário criar direções dedicadas, integrar indicadores específicos ou repensar os órgãos de governação?

 Para que seja duradoura e verdadeiramente fecunda, todas as camadas da empresa devem apropriar-se da abordagem de excelência operacional, desde o top management até às equipas operacionais. Não se trata tanto de criar uma direção específica, mas sim de instaurar uma dinâmica voluntária, partilhada e objetivável dentro da empresa, em todas as suas dimensões. Os dirigentes estão em boa posição para compreender que se trata de um processo iterativo e progressivo que permitirá à empresa alcançar diferentes níveis de excelência.

É claro que dispor de um observatório da excelência operacional em África ou de um índice dedicado poderia constituir um catalisador neste domínio.

É claro que dispor de um observatório da excelência operacional em África ou de um índice dedicado poderia constituir um catalisador neste domínio.

Isso passa, antes de mais, por uma ambição empresarial claramente definida com um horizonte-alvo, seguida por uma estratégia e por uma trajetória de concretização dessa ambição; depois, pela sua tradução em programas ou projetos, com planos de ação associados e indicadores específicos; e também pela implementação de um modelo de governação que, conforme os casos, pode apoiar-se nos órgãos existentes ou requerer a criação de novos mecanismos.

 O relatório lembra que muitas empresas iniciam projetos de excelência, mas têm dificuldade em mantê-los ao longo do tempo, por falta de acompanhamento e de meios. Quais são as condições necessárias para inscrever estas iniciativas na duração? Como evitar que se esgotem após uma primeira fase de entusiasmo?

 Defendemos uma abordagem holística, metódica e progressiva para a excelência operacional.Defendemos uma abordagem holística, metódica e progressiva para a excelência operacional.
 Holística, porque contempla um conjunto de cinco pilares que consideramos indispensáveis e que devem ser articulados entre si (inscrição na agenda estratégica, compromisso da liderança, otimização dos processos, capacidades de inovação e implementação, e envolvimento e compromisso dos colaboradores).
 Metódica, porque assenta numa estrutura claramente definida, que expressamos no triptico “Descodificar – Transformar – Sustentar”.
 Progressiva por natureza, porque a excelência resulta de uma subida gradual de níveis, que podemos esquematizar em três etapas para uma empresa: saber primeiro “fazer bem”, depois saber “fazer melhor” e, finalmente, “ser o melhor”.

Em conclusão, apela a uma “folha de rota africana da performance” e à criação de sinergias regionais para mutualizar boas práticas. Considera a criação de uma rede panafricana, de um observatório ou até de um índice continental de excelência operacional? Que forma poderá tomar esta cooperação entre os atores do continente?

 Ainda é um pouco prematuro afirmar, porque as reflexões continuam em curso. Estão a enriquecer-se, nomeadamente, graças às discussões que tivemos entre nós após a publicação do artigo. Convidamos todos os vossos leitores a participar nesta reflexão. Mas é evidente que dispor de um observatório da excelência operacional em África ou de um índice dedicado poderia ser um catalisador importante neste tema.

 Entrevista Por Idriss Linge

Posted On lundi, 10 novembre 2025 14:25 Written by
  • O segundo Salão das Indústrias Musicais da África Francófona (SIMA) ocorrerá de 10 a 15 de novembro de 2025 em Cotonou (Benin), buscando promover a música africana francófona e resolver as disparidades econômicas do setor.
  • Apesar do imenso talento, a música francófona africana carece de estruturas econômicas fortes, financiamentos suficientes e circuitos de distribuição eficientes.

, por Mamby Diomandé, fundador e comissário geral do SIMA, e Lionel Talon, empresário cultural, promotor do festival WeLovEya e do Centro Comunitário EYA (Benin)

A música africana fascina, seduz, inspira. Agora ela ganha um lugar nas playlists globais, impulsionada pela vitalidade de seus ritmos e a criatividade de seus artistas. No entanto, uma parte do continente ainda permanece à margem dessa dinâmica global: os países da África francófona, onde o talento é abundante, mas as estruturas econômicas, o financiamento e os canais de distribuição são frágeis.

O Salão das Indústrias Musicais da África Francófona (SIMA) visa abordar esta lacuna. A segunda edição do evento acontecerá de 10 a 15 de novembro de 2025 em Cotonou (Benin). Concebido como um espaço de reflexão e cooperação entre atores culturais, investidores e autoridades públicas, o SIMA tem como objetivo ajudar a música africana francófona a avançar "do potencial às evidências" - de um indiscutível florescimento artístico a uma verdadeira indústria criadora de valor.

Uma indústria ainda em busca de um modelo

Os números confirmam o desequilíbrio: segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as receitas da música gravada na África Subsaariana ultrapassaram 110 milhões de dólares em 2024, um aumento de 22,6%. Porém, quase três quartos dessas receitas vêm da Nigéria e da África do Sul. Os países francófonos continuam sendo prejudicados pela fragilidade de suas infraestruturas, a dificuldade em monetizar o streaming e a falta de mecanismos financeiros adequados. A falta de dados em nossos territórios também é sentida.

A era digital, que deveria trazer novas oportunidades, também revela profundas desigualdades. Na maioria dos mercados francófonos, as plataformas ainda operam no modelo freemium e as receitas do YouTube são marginais. Quando os operadores de telefonia móvel podem ser uma alternativa, a ambiguidade na gestão da propriedade intelectual prejudica os detentores dos direitos e os produtores. O streaming criou uma economia bifurcada: enriquece uma minoria de artistas estruturados, mas deixa a maioria sem meios de se beneficiar.

Nesse contexto, a cadeia de valor é dominada pelos distribuidores digitais, que se tornaram os verdadeiros protagonistas da indústria. Eles são os que permitem que uma obra exista, circule e seja vista. Dominar sua lógica, entender os algoritmos e profissionalizar a relação entre artistas e plataformas são agora condições essenciais para transformar a criação em valor.

O financiamento deve se tornar estruturante

Um dos principais obstáculos é o fraco investimento. As instituições financeiras ainda hesitam em financiar as indústrias culturais, que são vistas como arriscadas e intangíveis. No entanto, iniciativas recentes mostram que um modelo diferente é possível.

O Banco Africano de Importação e Exportação (Afreximbank) abriu o caminho ao lançar o programa Creative Africa Nexus (CANEX), dotado de um bilhão de dólares para financiar a produção, distribuição e exportação de conteúdos culturais africanos. Ao apoiar festivais, plataformas digitais e selos independentes, o CANEX ilustra o surgimento de um modelo africano de financiamento cultural, misturando capital público, instituições regionais e parceiros privados.

Mas é preciso ir além: adaptar esses mecanismos ao contexto francófono, que é muitas vezes menos estruturado que seus equivalentes anglofônicos. Isso envolve a criação de fundos nacionais de garantia, incentivos fiscais e instrumentos de microfinanciamento voltados para empresários culturais. Os estados, os bancos regionais e os atores privados devem convergir para um objetivo comum: impulsionar o surgimento de uma rede de empresas musicais viáveis, capazes de se projetar nos mercados africanos e internacionais.

O desafio também é formalizar a renda de artistas, produtores e até instrumentistas, muitas vezes limitados a pagamentos pontuais. Ao documentar suas atividades e contratar seus rendimentos, eles poderiam obter crédito e investir em seu equipamento, comunicação ou turnês. Assim, a música deixará de ser vista como um setor informal para se tornar um ativo econômico reconhecido.

O Benin, um novo paradigma

O Benin, anfitrião do SIMA 2025, ilustra essa mudança de perspectiva. Há vários anos, o país tornou a cultura um eixo central de sua estratégia de desenvolvimento. Projetos de museus, valorização do patrimônio devolvido e o fortalecimento de iniciativas como o Fundo de Desenvolvimento das Artes e da Cultura e festivais como o Vodun Days e WeLovEya testemunham essa vontade de conectar memória, criação e economia. O governo beninense também apoia o surgimento de uma nova geração de atores culturais, por meio de chamadas para projetos, residências artísticas e a promoção do turismo criativo. Esta política ainda em construção mostra que a cultura pode ser pensada como um investimento estruturante, e não apenas como um gasto simbólico.

Agora, o objetivo é construir um mercado integrado, conectando Abidjan, Dakar, Cotonou, Lomé, Douala e Libreville, onde artistas, produtores e distribuidores possam colaborar, compartilhar padrões e juntar seus instrumentos de distribuição. Tal coordenação requer políticas públicas mais proativas: criação de conteúdo local em toda a cadeia de distribuição, apoio à bilheteria digital, desenvolvimento de infraestruturas cênicas, conscientização sobre propriedade intelectual e reconhecimento do setor musical como contribuinte para o crescimento e emprego.

Da cultura ao soft power

Além da economia, a música é um instrumento de soft power. Ela molda os imaginários, constrói identidades coletivas e traz uma diplomacia cultural que os estados poderiam valorizar melhor. Num mundo onde a influência também se exerce em palcos e plataformas, a África francófona não pode estar contente com um papel secundário.

Investir em música é investir no reconhecimento simbólico e econômico de um continente jovem, criativo e diverso. É também transformar uma ambição compartilhada em realidade: a de uma África francófona que produz, distribui e brilha por si mesma.

Para transformar esse potencial em evidências, é necessária uma abordagem concertada. Mecanismos como o CANEX, o Fundo de Desenvolvimento da Indústria Cultural na Costa do Marfim ou as iniciativas culturais beninenses mostram o caminho. Mas o desafio é transformar isso em um movimento regional estruturado, articulado em torno de dados, financiamentos e governança.

A música africana francófona não falta em voz, talento ou histórias para contar. O que ainda falta são instrumentos de medida e mecanismos financeiros sustentáveis. Para passar do potencial à prova, a cultura precisa se tornar uma política econômica e a música um investimento estratégico.

 

Posted On jeudi, 06 novembre 2025 02:01 Written by

(MEDIAMANIA) - Com a criação da Agência Ecofin, os agentes econômicos dos países lusófonos passam a contar com uma fonte abrangente de informação pan-africana, essencial para fortalecer a integração econômica do continente.

A Agência Ecofin é a nova plataforma lançada pela Agência Ecofin, líder em notícias econômicas na África francófona. O portal cobre diariamente os principais setores da economia africana — administração pública, finanças, tecnologia, agricultura, energia, mineração, transportes e formação — publicando cerca de 200 artigos por semana.

Segundo Benjamin Flaux, diretor-geral da Mediamania, empresa sediada em Genebra que edita o grupo Ecofin, a iniciativa responde a uma carência antiga de informação econômica continental nos países africanos de língua portuguesa.

Com a ZCLCA impulsionando a integração econômica africana, havia uma lacuna clara de cobertura pan-africana voltada ao público lusófono. Nossa proposta vem preencher esse vazio e, ao mesmo tempo, facilitar a aproximação entre o Brasil e o continente africano”, explica Flaux.

Em maio deste ano, o grupo já havia lançado a versão anglófona, Ecofin Agency, cuja audiência vem crescendo de forma expressiva, especialmente nos Estados Unidos, Nigéria, Reino Unido, África do Sul e Gana.

Mantido esse ritmo, nossa audiência em língua inglesa deve alcançar a francófona no primeiro semestre de 2026”, projeta Flaux.

Atualmente, a redação da Ecofin conta com 53 jornalistas e passa por um processo de internacionalização, com a incorporação de profissionais lusófonos e anglófonos. O objetivo é evoluir para uma redação multilíngue, capaz de acompanhar o movimento de integração econômica africana e o desenvolvimento da maior zona de livre comércio do mundo, impulsionada por uma população jovem, dinâmica e inovadora.

Além de seus próprios portais, a Agência Ecofin também produz conteúdo econômico para veículos de referência no continente, como Investir au Cameroun, Togo First, Bankable RDC e We Are Tech Africa.

No mês passado, o grupo firmou ainda uma parceria estratégica com o jornal econômico francês La Tribune, pertencente ao grupo CMA Média. A partir desse acordo, a Ecofin passou a ser responsável pela produção editorial e pela gestão comercial de La Tribune Afrique.

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Posted On lundi, 03 novembre 2025 14:30 Written by

Par François Rancourt, especialista em financiamento de MPME e coautor da formação online da Frankfurt School “Certificat d’Expert en Financement des PME”

Nos mercados emergentes, o financiamento das micro, pequenas e médias empresas (MPME/PME) continua a ser um dos principais motores do desenvolvimento económico e social. Estas empresas representam cerca de 90% do tecido empresarial mundial e mais de 50% dos empregos a nível global (World Bank, 2023). Nos países de baixo e médio rendimento, o seu papel é ainda mais determinante, gerando até 70% dos empregos formais e contribuindo com cerca de 40% do PIB. Apesar dessa importância sistémica, persiste um défice estrutural de financiamento: a falta de crédito acessível às PME é estimada em cerca de 5,7 biliões USD. Entre 2015 e 2019, esse défice aumentou mais de 6% ao ano, mesmo com a oferta de crédito a crescer 7% no período (IFC, 2025).

Por detrás destes números esconde-se um paradoxo que revela as tensões do sistema financeiro. Embora a revolução digital esteja a transformar a indústria financeira e a multiplicar os canais de acesso ao crédito, muitas PME continuam excluídas dos circuitos formais. Essa exclusão resulta de vários fatores: insuficiência de dados financeiros confiáveis, falta de garantias reais e, frequentemente, uma desconfiança em relação às instituições financeiras e às ferramentas tecnológicas. O desafio já não é apenas tecnológico, mas sim a capacidade de combinar o digital com o elemento humano. Torna-se essencial articular a precisão das ferramentas digitais — cujos mecanismos de análise e decisão integram cada vez mais componentes de inteligência artificial — com a compreensão contextual que nasce da relação construída no terreno.

Os gestores de cliente: um elo essencial

O papel do gestor de cliente ilustra perfeitamente esta dualidade. O acesso ao crédito não depende apenas da disponibilidade de recursos, mas também da natureza da informação utilizada na avaliação do risco. Nas economias emergentes, as PME operam frequentemente em ambientes marcados por forte informalidade, onde as demonstrações financeiras oficiais revelam apenas uma parte da realidade. É aqui que entra a dimensão qualitativa do conhecimento do cliente. A proximidade e a observação contínua permitem ao gestor recolher elementos que nenhum algoritmo consegue captar por completo: o saber-fazer do empreendedor, a fiabilidade de um fornecedor-chave, a estabilidade de uma equipa familiar, a reputação local de uma oficina, o potencial comercial de um novo ponto de venda, entre outros. Estas informações constituem dados qualitativos que, quando documentados e analisados, tornam-se valiosos para a gestão do risco de crédito. As soluções digitais também não conseguem, por si só, construir uma relação de confiança — especialmente junto de clientes que receiam as instituições financeiras e as autoridades fiscais. Cabe ao gestor dissipar essas inquietações para aceder às informações do cliente com total transparência.

As ferramentas digitais como potenciadoras de competências

A oposição entre tecnologia e perícia humana é um falso dilema. No financiamento das PME, a tecnologia não substitui o gestor de cliente — ela reforça a sua eficácia. Os sistemas digitais, em particular os softwares de gestão da relação com o cliente (CRM – Customer Relationship Management), de análise e concessão de crédito (LOS – Loan Origination System) e de gestão de carteira de empréstimos (LMS – Loan Management System), funcionam como multiplicadores de competências.

Um CRM bem concebido centraliza e estrutura todas as interações entre a instituição financeira e os seus clientes: comunicações, visitas, pedidos de crédito, incidentes de pagamento e oportunidades comerciais. Proporciona uma visão integrada e dinâmica do pipeline e da carteira, garantindo coerência e continuidade da relação, mesmo em caso de mudança de interlocutor. Segundo Salesforce e WebFX (2023), o uso sistemático de um CRM resulta, em média, num aumento de 21% da produtividade comercial e de 16% na taxa de fidelização da clientela. O CRM torna-se assim a memória institucional da relação — uma infraestrutura de conhecimento partilhado que transforma a experiência do cliente em vantagem competitiva sustentável.

Ligado a este sistema, o LOS racionaliza todo o processo de concessão de crédito. A recolha de dados é digitalizada, os comprovativos são integrados, e os rácios financeiros — incluindo a capacidade de endividamento — são calculados instantaneamente a partir das informações registadas e armazenadas no sistema. Essa interligação assegura um fluxo fluido entre o gestor de cliente, o middle office e o comité de crédito, reduzindo de forma significativa os prazos de análise. Em algumas instituições, processos que antes demoravam semanas são hoje concluídos em poucos dias.

Depois da concessão do crédito, o LMS assume a gestão e o acompanhamento da carteira ao longo de todo o ciclo de vida do empréstimo. A automatização de tarefas reduz os custos operacionais e melhora a qualidade do acompanhamento. De acordo com um estudo da McKinsey (2022), a implementação de um LMS em ambientes com elevado volume de crédito permite reduzir os custos operacionais entre 25% e 30%, aumentando simultaneamente a rastreabilidade e a conformidade regulatória. Estas ferramentas são frequentemente integradas ao CBS (Core Banking System), que pode incluir diversas interfaces até às plataformas de atendimento ao cliente.

A experiência do IndusInd Bank, na Índia, demonstra de forma concreta os benefícios desta integração tecnológica. Ao conectar um CRM aos seus sistemas LOS e LMS, o banco reduziu os prazos de tratamento em 60%, aumentou em 50% a taxa de conversão comercial e melhorou em 90% a rapidez do seu serviço. Estes ganhos traduziram-se num reforço da relação com os clientes: os gestores passaram a dedicar mais tempo às visitas no terreno, à compreensão das necessidades específicas e à oferta de soluções adequadas (IndusInd Bank, 2021).

Conhecimento do cliente, confiança e proximidade: a base da relação

A qualidade da relação entre PME e banco assenta, antes de mais, na continuidade e na confiança. Quando um gestor acompanha a mesma carteira durante vários anos, adquire uma compreensão profunda dos ciclos de negócio: sazonalidade das vendas, dependência de determinados clientes, pressões concorrenciais ou alterações no aprovisionamento. Essa estabilidade reforça a confiança do empresário e aumenta a capacidade do banco de antecipar riscos em vez de apenas reagir a eles. Pelo contrário, uma rotação excessiva de pessoal fragiliza a relação e gera custos de aprendizagem repetidos.

A proximidade — geográfica e relacional — desempenha um papel complementar. As visitas às empresas, as conversas informais e os contactos frequentes permitem identificar informações que os dados contabilísticos não revelam: um novo contrato, uma oportunidade de exportação ou uma tensão de tesouraria iminente.

Um CRM bem estruturado apoia esta lógica de proximidade e continuidade. Ao centralizar históricos de contacto, notas de visita, lembretes e oportunidades identificadas, permite um acompanhamento regular e coerente de cada cliente. Mais ainda: protege a memória institucional. Se um gestor mudar de função ou se houver rotatividade da equipa, a informação registada garante continuidade no serviço. Assim, é a instituição — e não o indivíduo — que detém o conhecimento do cliente. No entanto, essa vantagem só se concretiza se os dados forem registados de forma rigorosa e se os colaboradores compreenderem o valor estratégico da ferramenta. Um CRM bem alimentado não substitui a relação humana, mas preserva o seu registo e garante a sua durabilidade, transformando a proximidade individual em capital relacional coletivo.

Um modelo híbrido para uma finança inclusiva

No financiamento das PME, a complementaridade entre tecnologia e experiência humana é a chave para um modelo sustentável e inclusivo. O digital traz rapidez, rigor e capacidade analítica; o humano traz compreensão, confiança e interpretação contextual. CRM, LOS e LMS não substituem o discernimento do gestor de cliente — permitem-lhe concentrar-se naquilo que realmente gera valor: o acompanhamento estratégico dos empresários e a construção de relações de longo prazo.

Nas economias emergentes, onde a relação precede inevitavelmente a transação, este equilíbrio entre inteligência artificial e inteligência humana é essencial para expandir o acesso ao financiamento sem comprometer a qualidade e a estabilidade das carteiras de crédito. A tecnologia torna-se, assim, uma extensão da relação — e não o seu substituto.

A formação e o desenvolvimento de competências das equipas nestes domínios são agora um desafio central para as instituições financeiras, permitindo-lhes responder às expectativas das PME e manter carteiras saudáveis, rentáveis e equilibradas.

O Certificat d'Expert en Financement des PME (CESF-FR) da Frankfurt School of Finance & Management é uma formação totalmente online, personalizada e flexível, com duração de 6 meses. Desenvolve competências e conhecimentos essenciais para profissionais que atuam em várias funções relacionadas com o financiamento das PME, com foco na análise de risco de crédito, no processo de decisão de empréstimos, na intermediação adequada da tomada de risco e na gestão da relação com o cliente. Este curso online (ministrado em francês ou em inglês) apresenta-lhe os princípios fundamentais do financiamento das PME.

Posted On mardi, 28 octobre 2025 13:44 Written by

No início de 2025, muitos esperavam um confronto entre Niamey e a China National Petroleum Corporation Niger Petroleum (CNPCNP), à semelhança das tensões observadas nos setores mineradores de Burkina Faso ou Mali. Após a expulsão de executivos chineses e as exigências de Niamey para uma aplicação rigorosa das regras de conteúdo local, um confronto parecia inevitável. No entanto, apesar desses sinais, a exploração e as exportações de petróleo continuam sem interrupção, gerando mais de 2 bilhões de dólares em receitas.

No final de outubro, a calma permanece, embora as discussões sigam nos bastidores. Resta entender por que Niamey, por enquanto, evita um confronto direto com seu parceiro chinês, mesmo com a magnitude dos interesses envolvidos.

Nos últimos anos, os membros da Aliança dos Estados do Sahel (AES) adotaram posturas mais firmes em relação aos seus parceiros estrangeiros, especialmente nos setores extrativos. Burkina Faso nacionalizou algumas minas industriais de ouro e aumentou a participação do Estado nos novos projetos. Por sua vez, o Mali aprovou uma legislação que fortalece a soberania nacional sobre os recursos, permitindo que o Estado e investidores locais possuam até 35% do capital das empresas mineradoras.

Uma cautela ditada pela dependência do petróleo

Essa postura cautelosa se explica, antes de tudo, pela forte dependência econômica do Níger da renda do petróleo. Em abril de 2024, a CNPC concedeu a Niamey um adiantamento de 400 milhões de dólares sobre as vendas de petróleo bruto, a ser pago em doze meses, para financiar a segurança, a agricultura e a saúde. Um alívio para um país ainda fragilizado pelas sanções da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) após o golpe de estado de julho de 2023.

De acordo com o Banco Mundial, a economia nigeriana cresceu 8,4% em 2024, contra 2% em 2023, um crescimento impulsionado pelo início das exportações em grande escala. Manter o fluxo de exportações é crucial para as finanças públicas, o pagamento de salários e o financiamento de serviços essenciais.

Além disso, a CNPCNP detém 65% do campo de Agadem e investiu mais de 5 bilhões de dólares para desenvolver a área, construir as infraestruturas associadas e o oleoduto de 1.950 km até Cotonou. Esse oleoduto, estratégico para o Níger, oferece acesso direto ao mar e aos mercados internacionais. No entanto, controladas a partir de Pequim, essas infraestruturas, que dependem de tecnologias difíceis de dominar localmente, limitam a margem de manobra de Niamey. A refinaria da SORAZ, essencial para o consumo interno, é um exemplo disso, já que também está sob gestão chinesa.

No início de 2025, Niamey solicitou a abertura de capital da WAPCO, a empresa responsável pela gestão do trecho do oleoduto, consciente da fragilidade de sua posição atual.

Paralelamente, as autoridades nigerianas estabeleceram metas ambiciosas para o conteúdo local, exigindo que 80% dos funcionários nos projetos petrolíferos sejam nacionais, com mais quadros locais, além de um reajuste nos disparos salariais. Atualmente, apenas 30% da força de trabalho é composta por nacionais. No entanto, a falta de competências técnicas, frequentemente destacada pela parte chinesa, torna difícil alcançar esse objetivo no curto prazo.

Essas exigências também têm uma dimensão social e política: a população espera benefícios concretos em termos de empregos e transferência de conhecimento. Nesse contexto, a cautela de Niamey se impõe como uma escolha econômica mais do que diplomática. Romper com a CNPCNP seria muito arriscado para as finanças públicas, enquanto o país tenta afirmar sua soberania e, ao mesmo tempo, manter a estabilidade de sua produção.

Uma firmeza possível quando a relação de forças o permite

O Níger mostrou que pode adotar uma linha mais firme quando detém os recursos necessários. Exemplo disso foi a Orano: o regime militar anunciou em junho de 2025 a nacionalização da Somaïr, filial do gigante francês do urânio, que já havia constatado, desde dezembro de 2024, a “perda do controle operacional” da mina. Apesar da oposição do grupo francês e de duas ações de arbitragem no CIRDI, Niamey assumiu o risco jurídico dessa nacionalização, acreditando ter margem de manobra suficiente para realizá-la.

A situação no petróleo é diferente, pois o Níger depende de um único investidor, de infraestruturas críticas e de tecnologias estrangeiras. Essa assimetria explica a cautela de Niamey em relação a Pequim.

A experiência do Níger ilustra uma tendência mais ampla na África: os Estados buscam retomar o controle sobre seus recursos, mas sua capacidade de fazê-lo depende do nível de investimento estrangeiro, da dependência tecnológica e da complexidade das infraestruturas.

Resta saber até onde Niamey poderá ir na reafirmação de sua soberania. A junta demonstrou sua vontade política, mas sua dependência da CNPCNP limita suas margens no setor petrolífero. Em contrapartida, a estratégia mais audaciosa adotada no setor do urânio pode servir de inspiração para outros países da região.

Olivier de Souza

Posted On lundi, 27 octobre 2025 16:07 Written by

Entrevista com Doris Uwicyeza, CEO da Rwanda Governance Board (RGB)
Rwanda se mantém em primeiro lugar no Leste Africano e no top três do continente pelo Índice Chandler do Bom Governo até 2025

Em 2025, Ruanda mantém a primeira posição no Leste Africano e segue no trio de liderança do continente, de acordo com o Índice Chandler do Bom Governo. Doris Uwicyeza, PhD, discute os pilares de um desempenho duradouro e as prioridades futuras.

O Ruanda mantém sua posição de liderança no Leste Africano e continua no trio de liderança na África em 2025. Quais são os fatores que explicam essa consistência?

 Essa regularidade deve-se inicialmente a uma liderança forte, visionária, capaz de construir uma governança duradoura para Ruanda, permanecendo atenta ao seu contexto histórico. A estabilidade do país está baseada em alicerces específicos: unidade nacional e segurança, protegidas por uma constituição que proíbe qualquer forma de discriminação e uma democracia consensual que prioriza o diálogo em vez da confrontação.

A participação cidadã também está no coração deste modelo. Graças à descentralização, os ruandeses participam do planejamento e implementação de políticas públicas. Iniciativas endógenas, originárias da cultura e experiência do país, permitem respostas adaptadas aos seus desafios. A inclusividade é outro pilar: a representação de mulheres, jovens e pessoas com deficiência é garantida por lei. Por fim, a responsabilidade institucional, assegurada pelo Ouvidor, Auditor Geral, o Senado e a RGB, e a digitalização de serviços públicos reforçaram a transparência, boa gestão de fundos públicos e a confiança entre o Estado e seus cidadãos.

O país é o 4º do mundo em longo prazo e o 6º em adaptabilidade. Como essas vantagens se refletem nas suas políticas públicas hoje?

Olhar mais além foi uma decisão coletiva que os ruandeses tomaram após o genocídio de 1994. Desde então, a nossa ação pública se baseia em um planejamento rigoroso a médio e longo prazos. A Visão 2050 estabelece duas metas claras: juntar-se à categoria de países de renda média alta até 2035 e depois à de países de alta renda em 2050, com um PIB per capita de US$ 12.476.

Essas ambições integram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2063 da União Africana. A execução dessas metas é alimentada por ciclos quinquenais da Estratégia Nacional de Transformação, que permitem o ajuste e avaliação dos progressos. A adaptabilidade do Ruanda é demonstrada pela rápida integração de tecnologias emergentes, inovações de governança e participação cidadã. O Ruanda Governance Scorecard, elaborado pela RGB, garante a cada ano um acompanhamento objetivo e mensurável de nossos desempenhos.

Os indicadores também destacam a estabilidade regulatória e eficiência do gasto públicos. Qual é o impacto direto nos investimentos e na confiança dos cidadãos?

A estabilidade macroeconômica e regulatória é uma condição essencial para a confiança, tanto para investidores quanto para os cidadãos. O Ruanda apoia uma gestão orçamentária rigorosa, baseada na transparência e no planejamento a longo prazo. O controle parlamentar, os quadros de gastos e dívida de médio prazo garantem uma gestão responsável das finanças públicas.

Do ponto de vista monetário, o Banco Nacional de Ruanda mantém a inflação próxima a 5% e monitora a estabilidade do sistema financeiro. Esta coerência reforça a credibilidade do país e fornece segurança aos investimentos. A digitalização dos serviços públicos além disso, permitiu reduzir a burocracia e melhorar a eficiência da ação pública, traduzindo a boa governança em resultados tangíveis: infraestrutura, acesso à saúde, educação e proteção social.

Por outro lado, o relatório destaca deficiências em comércio internacional, emprego ou meio ambiente. Quais prioridades você definiu para reduzir essas lacunas?

Como um país sem acesso ao mar, o Ruanda enfrenta altos custos logísticos que pesam sobre a sua competitividade. O governo responde a este desafio com a política "Made in Rwanda", que encoraja a produção local e a substituição de importações, ao mesmo tempo em que investe em infraestruturas, áreas econômicas especiais e redes de transporte.

A integração regional também permanece uma prioridade: visa reduzir as barreiras tarifárias e não tarifárias na região. Em termos de emprego, o país optou por apostar na educação e no treinamento de jovens para construir uma economia baseada no conhecimento. A Estratégia Nacional de Transformação 2024-2029 visa a criação de pelo menos 200.000 empregos por ano, apoiada pelo Programa Nacional para o Emprego, que coordena a ação pública e privada nesta área.

Finalmente, a política ambiental e climática de Ruanda, alinhada com a Visão 2050, a Agenda 2063 e os ODS, traduz o nosso compromisso de construir uma economia verde e resiliente. Seu sucesso baseia-se na colaboração entre o governo, as empresas, a sociedade civil e as comunidades locais.

Finalmente, a reputação internacional de Ruanda continua sendo um desafio. Quais iniciativas estão em andamento para reforçar a influência e a imagem do país no exterior?

Nossa posição internacional está intimamente ligada à nossa história e à nossa visão do mundo. Ruanda escolheu uma diplomacia baseada no respeito mútuo, justiça e coerência. Recusamos qualquer abordagem baseada em dois pesos e duas medidas na resolução de crises. Tirando proveito de sua experiência em reconstrução, o país está ativamente envolvido na manutenção da paz, tanto sob a égide das Nações Unidas como através de cooperações bilaterais.

No continente africano, acreditamos em soluções africanas para problemas africanos. Esta convicção é traduzida por nossa política de abertura de vistos e nosso compromisso com a Zona de Livre Comércio Africana. Nossa reputação internacional, por fim, é pautada na constância de nossos valores: justiça, transparência, responsabilidade e contribuição para estabilidade regional e global.

 

Posted On mardi, 21 octobre 2025 11:18 Written by
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