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Equipe Publication

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O dispositivo visa o aumento das receitas fiscais, a redução da fraude e um melhor acompanhamento das transações comerciais, através de um sistema controlado pela administração fiscal.

O Burkina Faso prevê lançar uma fatura eletrónica certificada já neste mês de janeiro de 2026. O anúncio foi feito a 31 de dezembro de 2025, durante o discurso à nação do seu dirigente, o capitão Ibrahim Traoré, para quem este dispositivo prossegue dois objetivos principais. O primeiro diz respeito ao aumento das receitas públicas: ao receber os dados de faturação de forma contínua, a administração fiscal pode acompanhar melhor os valores declarados pelas empresas. Tal permitirá reduzir a subdeclaração e limitar as perdas associadas à fraude ao IVA e aos impostos indiretos.

O segundo objetivo é o combate às práticas de corrupção nas transações comerciais. A fatura eletrónica certificada reduz, de facto, os contactos diretos entre os agentes fiscais e os operadores económicos. Os controlos passam a assentar mais em dados registados no sistema do que em intervenções presenciais, o que limita os acordos informais e reforça a rastreabilidade das operações. Com este dispositivo, o Burkina Faso pretende assim ligar comerciantes, empresas e a administração fiscal em torno de um sistema de faturação único e controlado.

Para os comerciantes e as empresas, a fatura eletrónica certificada facilita o acompanhamento das vendas e a organização da contabilidade, reduzindo simultaneamente os riscos de litígios com a administração fiscal graças à centralização dos dados. O sistema tem igualmente o potencial de melhorar o acesso ao crédito, uma vez que os bancos podem basear-se em dados de vendas verificáveis para analisar a situação e o perfil financeiro de um cliente.

Para o Estado, a fatura eletrónica certificada melhora a visibilidade sobre as transações económicas. Permite uma melhor previsão das receitas e uma gestão mais estruturada da fiscalidade. Pode também alargar a base tributária, integrando progressivamente atividades até então pouco ou nada declaradas. À escala da economia, esta fatura favorece a formalização das atividades comerciais, em particular nos setores onde os pagamentos em numerário continuam a ser predominantes.

Condicionantes técnicas e experiências estrangeiras

A implementação da fatura eletrónica certificada comporta, no entanto, várias condicionantes. A primeira diz respeito aos equipamentos. Os comerciantes devem dispor de um terminal, de um software certificado e de acesso à internet. Para as pequenas estruturas, estas exigências podem representar um encargo financeiro adicional. Além disso, a conectividade limitada em algumas zonas, nomeadamente rurais, pode dificultar a emissão de faturas em tempo real.

O dispositivo coloca também desafios ao nível da formação. Os comerciantes terão de aprender a utilizar as ferramentas digitais e a cumprir as novas obrigações fiscais. Os agentes da administração deverão igualmente ser formados para a exploração dos dados recolhidos. Por fim, a questão da proteção de dados permanece central: o Estado deverá garantir a segurança das informações comerciais recolhidas e prevenir qualquer utilização não autorizada.

Vários países já utilizam sistemas comparáveis. O Ruanda implementou, em 2021, a faturação eletrónica obrigatória para as empresas sujeitas a IVA, com transmissão direta dos dados para a administração fiscal. O Quénia implementou, entre 2021 e 2022, o sistema e-TIMS, que impõe a emissão de faturas eletrónicas certificadas às empresas abrangidas. Estas experiências sugerem que a eficácia deste instrumento de gestão fiscal dependerá da mobilização dos agentes económicos e da capacidade de acompanhamento técnico por parte do Estado.

Chamberline Moko

 

Em 19 de novembro de 2025, o Estado dos Camarões procedeu ao que é habitualmente designado por renacionalização da ENEO (Energy of Cameroon), ao aceitar recomprar os 51% até então detidos pelo fundo de investimento britânico ACTIS. Com esta operação, o Estado passa a deter 95% do capital da ENEO, que, importa recordar, é o operador de referência do setor da eletricidade nos Camarões, detendo o monopólio da distribuição e gerindo unidades de produção constituídas por 44 centrais, com um mix energético que inclui hidroeletricidade, térmica e solar.

Esta renacionalização ocorre num contexto marcado, entre outros fatores, por uma grave crise multidimensional que o setor da eletricidade nos Camarões enfrenta. Coloca-se, assim, a questão central e recorrente de saber o que o Estado dos Camarões pode ou irá fazer para salvar um setor nevrálgico para a qualidade de vida das populações e para o desenvolvimento económico do país.

Ao retomar a ENEO, o Estado realizou uma integração vertical de grande envergadura, concentrando sob a sua tutela, através de alguns dos seus organismos, a produção (ENEO), o transporte (SONATREL), a distribuição (ENEO), a regulação (ARSEL), a gestão dos recursos hídricos (EDC) e a eletrificação rural (AER). Esta integração, por si só, representa um acréscimo de problemas, uma vez que cada entidade apresenta fragilidades há muito apontadas, não sendo a menor delas os vícios endémicos da gestão das empresas públicas.

O desequilíbrio financeiro estrutural do setor, um fator de pressão sobre as finanças públicas

Para além desta integração, o principal problema reside no desequilíbrio financeiro estrutural de um setor que se tornou um risco de pressão efetiva — e por vezes oculta — sobre as finanças públicas.

 Se o Estado vai desembolsar 78 mil milhões de FCFA (cerca de 119 milhões de euros) para adquirir a participação da ACTIS, esta operação vem acompanhada do legado de 800 mil milhões de FCFA (aproximadamente 1,22 mil milhões de euros) em dívidas da ENEO a diversos credores no final de 2024, incluindo fornecedores, produtores independentes de eletricidade, bancos, entre outros.

O desequilíbrio financeiro do setor reflete-se, nomeadamente, na situação da ENEO que, segundo dados do Ministério camaronês da Energia, regista receitas mensais de cerca de 30 mil milhões de FCFA (45,7 milhões de euros), face a compromissos próximos de 50 mil milhões de FCFA (76,2 milhões de euros). Esta situação é agravada por uma tarifa congelada pelo regulador ARSEL desde 2012, que obriga o distribuidor a faturar o kWh de eletricidade abaixo do custo real, devendo a diferença ser compensada pelo Estado. Só para 2025, esta compensação situar-se-ia entre 70 e 100 mil milhões de FCFA.

Esta situação financeira é ainda mais preocupante na medida em que os incumprimentos de pagamento da ENEO e do Estado perante a NHPC (Nachtigal Hydro Power Company) criam um risco significativo para a capacidade do setor atrair futuros investimentos. Mais grave ainda, a degradação contínua da situação financeira do setor levou à utilização quase total da Carta de Crédito garantida pelo Banco Mundial no âmbito do projeto Nachtigal. Torna-se imperativo para o governo reconstituir os montantes utilizados dessa Carta de Crédito, que, em novembro de 2025, ultrapassavam os 85 milhões de euros (56 mil milhões de FCFA).

Perante uma situação desta natureza, marcada, entre outros aspetos, por uma crise de tesouraria do Estado e por finanças públicas sob forte pressão, poderá o regulador ARSEL resistir por mais tempo a um aumento das tarifas?

 Quais seriam as consequências a nível social e na competitividade das empresas, quando o problema sensível do fornecimento de eletricidade, tanto em quantidade como em qualidade, continua a ser premente? A título ilustrativo, no seu mais recente painel de acompanhamento da economia, publicado em novembro de 2025, o GECAM (Grupo das Empresas dos Camarões) revela que 83,6% dos dirigentes empresariais consideram a insuficiência e as perturbações na distribuição de energia elétrica como a principal fragilidade do ambiente de negócios nos Camarões.

Inadequações na programação e no planeamento dos investimentos

No que diz respeito ao fornecimento de energia elétrica, a entrada em plena operação, em março de 2025, da central hidroelétrica de Nachtigal, com os seus 420 MW, deveria aumentar a capacidade instalada em cerca de 30%, pondo assim um fim duradouro aos cortes e racionamentos de eletricidade. Se Nachtigal, na sua conceção e estruturação em PPP (Parceria Público-Privada), constitui um dos melhores exemplos do que se faz em África no setor da energia, tal não tem em conta as realidades do contexto camaronês, marcado por escolhas de programação e planeamento dos investimentos que, com o tempo, se revelaram inadequadas.

A jusante da produção de eletricidade, o elo do transporte, gerido por uma empresa pública — a Sociedade Nacional de Transporte de Eletricidade (SONATREL) — apresenta desafios significativos e acumula um défice de investimento, tornando-se um ponto crítico de estrangulamento. A rede não é capaz de absorver toda a energia produzida, nomeadamente a do produtor independente NHPC, operador da barragem de Nachtigal.

 Mais ainda, o contrato de compra da eletricidade produzida por Nachtigal inclui uma cláusula de Capacity Payment, cujo princípio, semelhante ao do Take or Pay, consiste em pagar ao produtor NHPC em função da potência disponível da central e não da energia efetivamente produzida. Esta cláusula difere do Energy Payment, que remunera a eletricidade efetivamente gerada.

Em termos práticos, tendo Nachtigal uma potência disponível de 420 MW, essa capacidade deve ser integralmente paga, mesmo que, devido às deficiências da rede de transporte e distribuição, o operador de despacho da SONATREL exprima necessidades que por vezes rondam apenas os 200 MW. Ora, um dos pressupostos fundamentais do Capacity Payment é a solidez da rede de transporte e distribuição, capaz de absorver toda a potência instalada nas horas de ponta. Esta cláusula, que tinha como duplo objetivo garantir, por um lado, a disponibilidade contínua da potência instalada e, por outro, a viabilidade financeira do sistema, encontra-se hoje no centro de uma controvérsia que o Estado, tornado cliente da NHPC (em virtude da retoma da ENEO), terá de resolver com urgência.

Segundo os especialistas do setor, sem o mecanismo de Capacity Payment teria sido impossível mobilizar os 800 mil milhões de FCFA necessários ao financiamento de Nachtigal. Com a retoma da ENEO pelo Estado, que passou a ser o off-taker (comprador da energia), aquilo que deveria ser apenas uma garantia transforma-se num compromisso determinante e numa despesa recorrente insustentável a longo prazo, na ausência de uma reforma profunda do setor.

Para além do cumprimento dos compromissos contratuais, o Estado terá de investir massivamente para corrigir as falhas das redes de transporte e distribuição, num contexto de fortes restrições orçamentais.

Riscos para o projeto da barragem de Kikot e para o pacto energético dos Camarões

A execução integral do contrato de compra de eletricidade (PPA – Power Purchase Agreement) é tanto mais imperativa quanto uma falha teria implicações sobre outros projetos em fase de preparação, nomeadamente a barragem de Kikot, com 500 MW, cuja estruturação é inspirada em Nachtigal, com praticamente os mesmos intervenientes, incluindo a EDF (Electricité de France), e os mesmos parceiros financeiros, como o Grupo do Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento.

Mas para além de Kikot, um incumprimento em Nachtigal colocaria em risco toda a estratégia do setor elétrico dos Camarões, consubstanciada no Pacto Nacional para a Energia dos Camarões (Compact Energético), que inclui um conjunto de reformas destinadas a apoiar o desenvolvimento do setor energético nos próximos cinco anos e a proporcionar acesso à eletricidade a cerca de 8 milhões de camaronenses até 2030.

 Este pacto ambiciona mobilizar 12,5 mil milhões de dólares, dos quais 6,5 mil milhões deverão provir do setor privado. O país poderia, consequentemente, tornar-se inelegível para as oportunidades da Missão 300, programa lançado pelo Banco Mundial e pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) com o objetivo de fornecer eletricidade a 300 milhões de africanos até 2030.

Outro desafio, não menos importante, prende-se com a redefinição do contributo das centrais térmicas, cujo custo do kWh é três vezes superior ao da hidroeletricidade, no mix energético nacional. Trata-se, em particular, da central térmica a gás de Kribi (216 MW) e da central a fuel pesado de Douala/Dibamba (88 MW), concebidas para produzir em carga de base, quando, num contexto camaronês dominado pela hidroeletricidade, a produção térmica deveria servir sobretudo como complemento em períodos de ponta. Recorde-se que a empresa britânica Globeleq, proprietária das duas centrais térmicas, detém um crédito superior a 137 mil milhões de FCFA sobre a ENEO e o Estado dos Camarões.

Perante todos estes desafios, e muitos outros, o setor da eletricidade nos Camarões poderá entrar em colapso, arrastando consigo o conjunto da economia, tendo em conta o papel central da energia elétrica na concretização das ambições de desenvolvimento do país. O Estado, que voltou a ser o principal ator do sistema, encontra-se encostado à parede, sendo a soberania energética não um fim em si mesma.

 

Emmanuel Noubissie Ngankam

 

 

Diante de uma forte dependência das importações e de uma recente escassez no mercado, a Argélia acelera sua estratégia de industrialização da cadeia de pneus. O lançamento de uma nova fábrica de produção de pneus em Touggourt insere-se na dinâmica das autoridades de reforçar a soberania industrial do país.

A Agência Argelina de Promoção do Investimento (AAPI) anunciou o início da construção de uma fábrica de pneus de borracha para veículos leves e pesados em Touggourt, no nordeste do país. A pedra fundamental foi lançada na segunda-feira, 29 de dezembro, e o projeto mobiliza um investimento de 27 bilhões de dinares argelinos (cerca de 207 milhões de dólares).

A fábrica, com capacidade anual de 5 milhões de pneus, produzirá, em uma primeira fase, 2 milhões de unidades para veículos pesados e, em uma segunda fase, mais 3 milhões de pneus para veículos leves. Apresentado como uma alavanca estratégica da soberania industrial, o projeto surge em um contexto marcado por uma escassez de pneus registrada no segundo semestre de 2025.

Para enfrentar a situação no curto prazo, as autoridades adotaram diversas medidas transitórias. A Naftal, empresa nacional responsável pela comercialização e distribuição de produtos petrolíferos, havia assinado em novembro passado um acordo com o fabricante alemão Continental para a importação de um milhão de pneus destinados a veículos de passeio. Um segundo acordo também foi anunciado com a empresa italiana Prometeon para o abastecimento do segmento de veículos pesados.

A implantação da nova fábrica insere-se em uma política mais ampla de redução da dependência das importações. Em julho passado, a empresa argelina El Hadj Arabi Industries firmou uma importante parceria com o grupo chinês Doublestar com vistas à construção de outra fábrica de pneus, com capacidade inicial de 7 milhões de unidades por ano, expansível para 22 milhões.

Segundo a Mordor Intelligence, o mercado africano de pneus atingirá cerca de 7,10 bilhões de dólares em 2025 e deverá crescer para 8,94 bilhões de dólares até 2030, representando uma taxa média de crescimento anual de 4,72%. Em 2024, a Argélia respondia por 26,75% desse mercado.

Essa dinâmica é impulsionada pelo aumento da frota de veículos, sustentado pelo crescimento demográfico e pela emergência de uma classe média nas economias africanas mais estáveis. O mercado, no entanto, permanece amplamente dominado pelas importações, principalmente provenientes da China, da Europa, dos Estados Unidos e da Índia.

 

Henoc Dossa

 

Poucos dias depois de concluir um financiamento estratégico para suas atividades de upstream, a holding de Tony Elumelu concretiza uma aquisição estruturante ao ingressar no capital da Seplat Energy.

A Heirs Energies, subsidiária de energia da Heirs Holdings, firmou em 30 de dezembro último um acordo definitivo com o grupo francês Maurel & Prom para a aquisição da totalidade de sua participação no produtor nigeriano Seplat Energy.

A operação envolve 120,4 milhões de ações, correspondentes a 20,07% do capital, por um valor de 496 milhões de dólares. Um primeiro pagamento de 248 milhões de dólares está previsto de imediato, devendo o saldo ser quitado no prazo de 30 dias, garantido por uma carta de crédito irrevogável. Também está previsto um complemento de preço contingente que pode chegar a 10 milhões de dólares, em função da evolução do preço das ações da Seplat nos próximos seis meses.

Essa participação eleva a Heirs Energies à posição de principal acionista da Seplat, à frente de vários investidores institucionais históricos. A transação ocorre poucos dias após o anúncio, em 22 de dezembro, de uma linha de financiamento de 750 milhões de dólares obtida pela empresa junto ao Afreximbank, destinada a refinanciar parte de sua dívida e a apoiar a expansão de sua produção de hidrocarbonetos.

Essa aquisição reflete nossa profunda convicção de que a África é capaz de possuir, desenvolver e gerir de forma responsável seus recursos estratégicos. Trata-se de um investimento de longo prazo no futuro energético da Nigéria e do continente africano”, comentou Tony Elumelu (foto).

No plano industrial, a operação permite à Heirs Energies, que ingressou no upstream petrolífero em 2021 ao adquirir uma participação no OML 17 anteriormente detido pela Shell, Total e Eni, associar-se a um produtor estabelecido, com um portfólio diversificado em petróleo e gás. A Seplat apresenta reservas 2P superiores a um bilhão de barris equivalentes de petróleo e uma produção em interesses diretos de 135.600 barris equivalentes de petróleo por dia no final de outubro de 2025.

Por sua vez, a Heirs Energies produz atualmente mais de 50.000 barris por dia e cerca de 120 milhões de pés cúbicos de gás, com ambições de crescimento no médio prazo.

Para além da trajetória do grupo, a transação insere-se em um movimento mais amplo de retirada progressiva das majors internacionais dos ativos onshore nigerianos, em um contexto de desafios de segurança e regulatórios, mas também da vontade declarada das autoridades de reforçar o papel dos operadores locais. Após a aquisição, pela Seplat, dos ativos terrestres e de gás da ExxonMobil, a entrada da Heirs Energies em seu capital consolida essa dinâmica de controle doméstico dos recursos energéticos.

 

Olivier de Souza

 

Apesar de uma presença econômica significativa, a fiscalidade camaronense tinha dificuldades em enquadrar as atividades digitais transfronteiriças. A ausência de regras específicas limitava a tributação das receitas geradas localmente por empresas estabelecidas fora do território nacional.

A partir de 1º de janeiro de 2026, todas as plataformas on-line que realizam negócios nos Camarões sem estabelecimento físico passarão a ser tributadas. Com efeito, segundo revela a Direção Geral dos Impostos (DGI), a lei de finanças de 2026 do Estado dos Camarões sujeita agora essa categoria de empresas ao pagamento do Imposto sobre as Sociedades (IS), à taxa mínima de 3% do faturamento realizado localmente.

Dependendo do volume de atividade no país, essa tributação poderá evoluir para o chamado “regime de direito comum”, com um IS que representará, nesse caso, “30% do lucro real”, conforme se lê em um documento da DGI. No entanto, a administração fiscal estabelece dois critérios alternativos para ser elegível a esse regime: dispor de uma rede de 1.000 consumidores nos Camarões ou realizar um faturamento anual sem impostos de, no mínimo, 50 milhões de francos CFA.

O registro das empresas digitais envolvidas, as declarações fiscais e os pagamentos serão feitos em uma plataforma digital específica da DGI. Para a administração tributária, o objetivo dessa taxação é triplo: “capturar o valor criado pela economia digital no território nacional, assegurar a equidade fiscal em relação às empresas locais e aumentar as receitas do Estado em um setor de forte crescimento”.

Uma reforma alinhada à OCDE

A reforma instituída pela lei de finanças de 2026 do Estado dos Camarões baseia-se em uma diretriz da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com efeito, para enfrentar os desafios fiscais colocados pela economia digital, formou-se um consenso internacional em favor de uma tributação mínima global de 15% sobre os lucros das empresas multinacionais que realizam atividades econômicas em todo o mundo, sem necessariamente ter presença física nos territórios dos diferentes Estados.

Nos Camarões, o desafio vai além do alinhamento a uma diretriz internacional: a tributação das empresas digitais não residentes também responde ao aumento das necessidades de financiamento público. Nesse contexto, o governo camaronês mira cada vez mais setores em forte expansão — entre eles o digital — com o objetivo de ampliar a base tributária e aumentar as receitas.

O digital: uma verdadeira niche fiscal

Essa nova etapa insere-se em uma sequência de reformas iniciadas há vários anos. A lei de finanças de 2020 consagrou, assim, a cobrança do IVA sobre as operações de comércio eletrônico, em vigor desde 2021. A cobrança de direitos aduaneiros sobre mercadorias importadas oriundas do comércio on-line, por sua vez, está em vigor desde 2023, com o objetivo de limitar as perdas fiscais ligadas à “desmaterialização cada vez mais crescente das transações econômicas”, segundo o Ministério das Finanças.

Em 2022, foi instituído um imposto sobre a transferência de dinheiro por via eletrônica, para tirar proveito da expansão do Mobile Money. Objetivo declarado pela DGI: arrecadar pelo menos 20 bilhões de francos CFA em receitas adicionais a cada ano. Desde 2024, foi também instituída “uma taxa reduzida de 5% a título do imposto sobre os benefícios não comerciais (BNC), aplicável às rendas geradas em plataformas digitais por pessoas físicas que realizam operações de venda de um bem, prestação de um serviço ou troca e compartilhamento de um bem (economia colaborativa)”.

No total, com pelo menos quatro reformas direcionadas ao setor nos últimos cinco anos, o digital se afirma cada vez mais como uma verdadeira niche fiscal nos Camarões.

 

Brice R. Mbodiam

 

Pela primeira vez desde 2012, o naira nigeriano terminou 2025 em alta, a 1.429 nairas por dólar. Um avanço atribuído às reformas do Banco Central, após treze anos de desvalorização contínua.

Na Nigéria, o naira encerrou o ano de 2025 em nota positiva, algo inédito em mais de uma década. A moeda nigeriana fechou em 31 de dezembro a 1.429 nairas por dólar, registrando uma valorização anual de 7,4%, segundo dados oficiais do Banco Central da Nigéria (CBN).

Trata-se da primeira alta anual do naira desde 2012, após treze anos consecutivos de desvalorização, marcados por escassez de divisas, forte dependência das importações e desequilíbrios persistentes no mercado cambial.

O ano de 2025, no entanto, não foi linear. A moeda enfrentou fortes turbulências no primeiro semestre, atingindo seu ponto mais baixo em abril, em torno de 1.602 nairas por dólar. Inflação elevada, demanda sustentada por divisas e atrasos nas entradas de capitais pesaram fortemente sobre a moeda nesse período.

A partir de maio, contudo, iniciou-se uma recuperação gradual, que se acelerou no último trimestre. Setembro marcou um ponto de inflexão, com o retorno duradouro do naira abaixo do patamar de 1.500 por dólar. Após uma leve consolidação em novembro, a moeda ganhou novo fôlego em dezembro e encerrou o ano em seu nível mais alto dos últimos doze meses.

Para os analistas, essa evolução reflete o impacto das reformas do mercado cambial implementadas pelo Banco Central em 2024, sob a liderança de seu governador, Yemi Cardoso (foto, ao centro). Essas medidas reduziram, em especial, o diferencial entre as taxas oficiais e paralelas para menos de 5%, limitando comportamentos especulativos e melhorando a transparência do mercado.

O Banco Central também endureceu sua política monetária e reforçou seu arcabouço regulatório, com a introdução, no início de 2025, de um código de conduta cambial destinado a enquadrar as práticas dos participantes do mercado.

Embora essa estabilização alimente um otimismo cauteloso para 2026, observadores ressaltam que a solidez do naira dependerá da capacidade da Nigéria de conter a inflação, atrair capitais de forma sustentável e diversificar suas fontes de divisas. O CBN, por sua vez, projeta uma redução significativa das pressões inflacionárias, com uma inflação média estimada em 12,94% em 2026, contra cerca de 21,3% em 2025, impulsionada pela moderação dos preços dos alimentos e dos combustíveis, maior estabilidade do câmbio e pelos efeitos das medidas monetárias e estruturais em curso.

Ao mesmo tempo, a instituição aposta em uma aceleração do crescimento econômico, com o produto interno bruto previsto para crescer cerca de 4,49% em 2026, cenário que depende da continuidade das reformas, da melhoria das entradas de divisas e de um ambiente macroeconômico mais estável. Na ausência de resultados duradouros nessas frentes, alertam os analistas, a moeda nigeriana poderá permanecer exposta a novos períodos de volatilidade.

 

Fiacre E. Kakpo

 

 

Todos os anos, por volta de 2 de janeiro, as ruas da Cidade do Cabo acolhem o Cape Town Minstrel Carnival, também conhecido como Kaapse Klopse. Com raízes no século XIX, o evento combina música, desfiles e memória coletiva, permanecendo como um elemento visível da paisagem cultural da África do Sul.

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O Cape Town Minstrel Carnival acontece sobretudo no centro da cidade, onde grupos organizados desfilam pelas ruas com trajes coordenados, apresentando canções e movimentos coreografados. O evento está ligado ao Tweede Nuwe Jaar, ou “Segundo Ano Novo”, uma data historicamente associada ao período da escravidão no Cabo. O dia 2 de janeiro era tradicionalmente o único dia de folga concedido às pessoas escravizadas, tornando-se gradualmente um momento de expressão coletiva.

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Com o passar do tempo, essa data deu origem a uma tradição cultural própria, moldada por múltiplas influências. Os desfiles refletem uma combinação de práticas africanas locais, formas musicais europeias e elementos inspirados nos minstrel shows afro-americanos do século XIX. Essa mistura é perceptível nos arranjos musicais, na estética dos figurinos e na estrutura geral das apresentações.

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Os participantes organizam-se em grupos conhecidos como klopse, que se preparam durante vários meses para o evento. As apresentações combinam percussão, instrumentos de sopro, canto e movimentos coordenados. As letras abordam temas variados, que vão de referências históricas a observações sobre a vida cotidiana. O africâner e o inglês são as línguas mais utilizadas durante as performances.

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Nos dias que antecedem o desfile principal, eventos preparatórios como o Kaapse Klopse Voorsmakie permitem que os grupos se apresentem em público antes do 2 de janeiro. Após o carnaval de rua, realizam-se competições formais em estádios ou espaços fechados, onde os grupos são avaliados segundo critérios como qualidade musical, coreografia, disciplina e apresentação.

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Atualmente, o Cape Town Minstrel Carnival funciona tanto como um evento popular quanto como um espaço de transmissão cultural. Ele reflete a história social da Cidade do Cabo ao mesmo tempo em que se adapta à vida urbana contemporânea, mantendo uma ligação entre as experiências do passado e as formas de expressão do presente.

 

 

 

 

 

Os três consórcios abrangem todas as sub-regiões, com portfólios temáticos complementares que vão da segurança alimentar à digitalização. Cada agrupamento deverá receber um financiamento de cerca de 10 milhões de dólares ao longo de dois anos e meio, segundo as projeções iniciais.

A União Africana (UA) irá apoiar três consórcios de think tanks no âmbito do seu mecanismo de financiamento estruturado em torno da Plataforma Africana de Think Tanks (ATTP). Esta seleção resulta de um convite à apresentação de candidaturas lançado em julho de 2025, com o objetivo de apoiar atores da reflexão estratégica à escala continental.

Os consórcios selecionados são: o RAISED Africa, liderado pelo Economic Research Forum, que reúne investigadores que trabalham, entre outros temas, sobre as economias do Médio Oriente e do Norte de África; o BRIDGE-Africa, coordenado pelo African Centre for Economic Transformation (ACET), um think tank pan-africano especializado na análise de políticas de transformação económica em África; e um terceiro consórcio coordenado pelo African Population and Health Research Centre (APHRC).

Em conjunto, estes três grupos cobrem a África Ocidental, Oriental, do Norte, Central e Austral, com portfólios temáticos complementares que incluem, nomeadamente, a segurança alimentar e a digitalização.

Importa salientar que os financiamentos previstos representam uma dotação de cerca de 10 milhões de dólares por um período de dois anos e meio para cada consórcio, de acordo com as previsões iniciais. Estes apoios permanecem condicionados à avaliação das capacidades institucionais e à assinatura de acordos de parceria orientados para o desempenho, indica a UA.

Para a instituição continental, o desafio passa agora por assegurar uma cobertura efetiva dos 55 países africanos, evitando duplicações e maximizando a adoção das recomendações por parte dos decisores públicos.

Recorde-se que o concurso, promovido pela Comissão da UA, visa reforçar a capacidade dos centros de investigação africanos para influenciar as políticas públicas, em coerência com a Agenda 2063. O projeto de financiamento insere-se num contexto marcado por recursos financeiros limitados e por uma forte dependência dos financiadores internacionais por parte dos centros de investigação africanos, a maioria dos quais opera com orçamentos anuais modestos, frequentemente inferiores a 500 mil dólares.

Para estes atores, cuja missão é apoiar os decisores públicos e privados na tomada de decisões e na orientação estratégica do continente, as necessidades prioritárias incluem a mobilização de financiamentos internos sustentáveis, públicos e privados, o reforço das capacidades metodológicas e do acesso aos dados, bem como a melhoria da governação interna.

Embora o objetivo seja produzir análises diretamente utilizáveis pelos decisores públicos e pelo setor privado, a comparação com outras regiões, como o Médio Oriente ou a Europa, é reveladora. Estas dispõem de ecossistemas mais antigos e melhor estruturados, com maior disponibilidade de financiamentos nacionais e redes regionais. Ainda assim, mesmo essas regiões não estão isentas de vulnerabilidades, nomeadamente a concentração dos financiamentos e as pressões políticas, suscetíveis de afetar a autonomia dos think tanks.

Ayi Renaud Dossavi

Face às perdas geradas pelo contrabando de ouro, o Estado ganês criou este ano o GoldBod, entidade que passa a deter o monopólio da compra e da exportação do ouro artesanal e de pequena escala. Uma iniciativa que já parece dar frutos, à luz dos números oficiais.

No Gana, o GoldBod superou o seu objetivo de exportar 100 toneladas de ouro proveniente da mineração artesanal e de pequena escala (ASM, na sigla em inglês) em 2025, gerando 10 mil milhões de dólares norte-americanos em receitas ao longo do período. A informação foi revelada recentemente por Sammy Gyamfi (foto), diretor-geral desta entidade criada este ano para assumir o papel de comprador e exportador único do ouro artesanal no país da África Ocidental.

O GoldBod atua como regulador do comércio de ouro no mercado interno ganês, adquirindo a produção dos pequenos mineradores para posterior reexportação. Neste âmbito, a instituição fixou como objetivo a aquisição de pelo menos 3 toneladas de ouro por semana. Uma estratégia que já lhe tinha permitido gerar 6 mil milhões de dólares em receitas de exportação entre janeiro e agosto de 2025. O patamar de 10 mil milhões de dólares alcançado no final do ano vem assim encerrar este exercício inaugural, assinalando um resultado significativo para o país.

A título de comparação, as exportações totais de ouro do Gana atingiram 11,6 mil milhões de dólares em 2024, valor que inclui tanto o ouro proveniente da mineração artesanal como o das minas industriais. Até ao momento, as receitas de exportação do ouro industrial referentes a 2025 ainda não foram publicadas, um dado essencial para medir a evolução real das receitas geradas este ano pelo setor aurífero ganês, num contexto em que os preços aumentaram mais de 70% desde janeiro.

Entretanto, o GoldBod já antecipa uma melhoria do seu desempenho operacional em 2026. Nas suas projeções anteriores, a instituição apontava para 12 mil milhões de dólares em exportações de ouro artesanal no próximo ano.

Aurel Sèdjro Houenou

Comprometidas com a implementação do New Deal tecnológico, as autoridades senegalesas fazem das parcerias internacionais um eixo central da sua estratégia de transformação digital. Nos últimos meses, foram assinados acordos com a Huawei, a UIT e a Fundação Gates…

O Ministério da Comunicação, das Telecomunicações e do Digital (MCTN) anunciou, na quarta-feira, 24 de dezembro, a assinatura de protocolos de entendimento com a República do Azerbaijão, na sequência da visita a Dakar, nos dias 22 e 23 de dezembro, de uma delegação oficial azerbaijana. Estes dois acordos, celebrados com a Senegal Numérique SA (SENUM) e a Comissão de Avaliação, Apoio e Coordenação das Start-ups (CEAC), visam a transferência de competências e a partilha de instrumentos destinados a acelerar a transformação digital da administração senegalesa.

No âmbito desta cooperação, está prevista a criação, a curto prazo, de comissões mistas encarregadas de trabalhar em vários domínios prioritários, nomeadamente a cibersegurança, a formação, a atração e retenção de talentos, a colaboração entre start-ups e o Estado através de modelos de inovação pública, bem como a digitalização dos processos administrativos, com o objetivo de reforçar a eficácia da ação pública.

Esta parceria insere-se numa dinâmica mais ampla de cooperação internacional, após uma série de intercâmbios iniciados em novembro de 2025 entre Dakar e Bacu, em torno das respetivas ambições de modernização dos sistemas públicos e de desenvolvimento da economia digital. Para o Senegal, esta assinatura surge no seguimento do New Deal tecnológico, a estratégia nacional lançada em fevereiro de 2025, que visa acelerar a digitalização da administração, reforçar a soberania digital e apoiar o surgimento de um ecossistema de start-ups inovador e competitivo.

O Azerbaijão, por sua vez, dispõe de uma experiência reconhecida em matéria de governação eletrónica (e-governance), com a implementação de plataformas públicas integradas e de soluções de identidade digital. Estas iniciativas permitiram ao país figurar entre os Estados mais bem posicionados no Índice Mundial de Desenvolvimento do Governo Eletrónico, com uma pontuação de 0,7607 em 1, segundo as Nações Unidas.

A implementação desta parceria deverá conduzir à elaboração de um roteiro conjunto que definirá as etapas, as responsabilidades e os prazos da cooperação. As autoridades dos dois países esperam obter resultados concretos em termos de desempenho administrativo, confiança digital, desenvolvimento de talentos e crescimento dos ecossistemas tecnológicos senegalês e azerbaijano.

Samira Njoya

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