Enquanto o desemprego juvenil atinge 21,6 % no Malawi entre os 15 e os 35 anos, segundo o Inquérito à População Ativa de 2024, o acesso limitado ao ensino superior continua a ser um obstáculo ao desenvolvimento do capital humano do país.
A Malawi University of Business and Applied Sciences (MUBAS) está a levar a cabo uma reformulação da sua organização académica. A universidade pública anunciou, na terça-feira, 31 de março, a implementação de dois períodos letivos anuais, que terão lugar em janeiro e agosto. O objetivo declarado é atingir entre 30 e 35 programas e cerca de 2.500 estudantes até 2029, de forma a responder tanto à elevada procura por ensino superior como às falhas de um sistema que penaliza os estudantes reprovados.
Apresentada ao ministro da Educação, Bright Msaka (foto, à esquerda), pela vice-reitora Nancy Chitera (foto, ao centro), durante uma visita oficial a Lilongwe, esta reforma assenta num calendário totalmente semestral. Ela corrige uma insuficiência do antigo sistema, no qual um estudante reprovado numa disciplina tinha de repetir o ano inteiro. A partir de agora, sessões do Senado académico serão organizadas no final de cada semestre, permitindo aos estudantes em recuperação realizarem rapidamente exames de recurso e prosseguir os seus estudos sem interrupções.
Uma reforma educativa e estrutural
Para acompanhar este aumento da capacidade, a MUBAS está também a adaptar as suas infraestruturas. A universidade planeia converter entre 700 e 900 alojamentos existentes em residências estudantis, o que permitiria acolher 320 estudantes adicionais, segundo a direção.
O governo apoia a iniciativa, estabelecendo, contudo, limites de segurança. O ministro sublinha a necessidade de conciliar a massificação com a qualidade, apelando a que se «tenha sucesso académico sem comprometer os padrões educativos». Exorta também a universidade a manter os custos de alojamento acessíveis para preservar a acessibilidade.
Estas reformas visam responder a um desequilíbrio estrutural no mercado de trabalho. Segundo o Copenhagen Consensus Center, um quarto dos jovens malawitas encontra-se em subemprego e a grande maioria ocupa posições de baixa qualificação, incluindo entre os diplomados do ensino superior. Mais de 40 % dos jovens considerados altamente qualificados trabalham em atividades pouco produtivas, muitas vezes informais.
Para referência, o Malawi segue o modelo educativo 8-4-4, que compreende oito anos de ensino primário, quatro anos de ensino secundário e quatro anos de ensino superior. Resta saber se a universidade conseguirá recrutar o corpo docente adicional necessário e manter a qualidade das formações num contexto de massificação.
Félicien Houindo Lokossou
A lacuna digital continua particularmente acentuada na República Democrática do Congo (RDC). De acordo com dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT), 55% da população não tinha cobertura 4G em 2024, enquanto cerca de 80% não utilizava a Internet.
Na terça-feira, 31 de março, a operadora de torres de telecomunicações Helios Towers anunciou um programa de expansão da cobertura da sua rede na RDC. Avaliado em cerca de 100 milhões de dólares, este projeto visa reforçar o acesso aos serviços de telecomunicações, sobretudo em áreas pouco servidas.
O programa conta com o apoio da Agência Nacional de Promoção de Investimentos (ANAPI), com a qual a Helios Towers RDC assinou um acordo. A agência afirma apoiar investimentos no país através de um dispositivo integrado que cobre todas as fases dos projetos, desde a concepção até à implementação.
Segundo o comunicado da ANAPI, a expansão da Helios Towers abrangerá 23 províncias, incluindo: Kinshasa, Haut-Katanga, Kongo Central, Maniema, Ituri, Kasaï Central, Kasaï Oriental, Norte e Sul de Kivu, Lualaba, Tanganyika, Equador, Haut-Uélé e Kasaï.
Melhoria da cobertura e da adoção de serviços
Esta iniciativa surge num contexto em que as autoridades procuram acelerar a cobertura e a adoção dos serviços de telecomunicações, no quadro das suas ambições de transformação digital. Em 2024, as redes 2G, 3G e 4G cobriam, respetivamente, 75%, 55% e 45% da população congolesa, segundo a UIT. O mesmo organismo estimava a taxa de penetração da telefonia móvel em 44,3%, contra 19,7% para a Internet.
Embora não tenha divulgado detalhes financeiros do programa, o modelo da Helios Towers assenta na construção, aquisição e exploração de torres de telecomunicações partilhadas, capazes de acolher múltiplos operadores. A empresa fornece uma oferta completa de infraestruturas passivas e energia, incluindo aquisição e construção de locais, manutenção, segurança e gestão energética, bem como espaços dedicados aos equipamentos dos clientes.
“Nosso modelo de partilha de infraestruturas permite que os operadores móveis expandam e densifiquem as suas redes de forma mais rápida e econômica, reduzindo as emissões e contribuindo para acelerar a inclusão digital de milhões de pessoas”, indica a Helios Towers no seu site.
Tecnicamente, a expansão da rede pode favorecer uma maior adoção dos serviços de telecomunicações ao melhorar a disponibilidade e a qualidade da conectividade. Ao ampliar a cobertura para zonas rurais e mal servidas, novas populações podem aceder pela primeira vez a serviços de telefonia e Internet. Paralelamente, a densificação da rede nas áreas já cobertas reduz a congestão e melhora a qualidade do sinal, tornando os serviços mais fiáveis e atraentes.
Um modelo central na estratégia pública
Este modelo conta ainda com o apoio das autoridades congolesas. Está no centro da nova estratégia do Fundo de Desenvolvimento do Serviço Universal (FDSU) para o período 2026-2035. Chamado “TowerCo Lead”, destaca fornecedores de torres que financiam e implementam infraestruturas passivas (torres, energia, backhaul) em acesso aberto, enquanto os operadores móveis instalam os equipamentos ativos para fornecer os serviços. A meta é conectar cerca de 68 milhões de pessoas, principalmente em zonas rurais.
A opção por esta abordagem justifica-se pelo seu benefício económico, dada a magnitude da lacuna digital. Segundo a Associação Global de Operadores de Telecomunicações (GSMA), a RDC apresenta uma das maiores diferenças de cobertura do mundo: 46% da população não tem cobertura móvel de alta velocidade e 25% não têm acesso a nenhuma rede móvel, incluindo 2G.
A GSMA sublinha que expandir a rede em zonas sem cobertura exige um número crescente de sites e, portanto, investimentos cada vez mais elevados. Por exemplo, passar de 75% para 80% da população coberta requer cerca de 150 novos sites, enquanto alcançar 95% exige cerca de 5.700, e para passar de 98% a 99% são necessários mais de 2.000 sites. Esta dinâmica complica fortemente a cobertura das áreas mais isoladas, devido à baixa densidade populacional e aos elevados custos associados.
Isaac K. Kassouwi
Previsto para se tornar um hub aeroportuário moderno na África Ocidental, o projeto do aeroporto de Donsin ilustra as restrições recorrentes na execução de grandes infraestruturas públicas no Burkina Faso. Entre atrasos, revisões contratuais e ambições revistas em alta, as autoridades burquinenses esforçam-se por reposicionar este investimento estratégico na sua política de desenvolvimento.
Durante muito tempo atrasado por dificuldades técnicas, contratuais e financeiras, o projeto do Aeroporto Internacional de Ouagadougou-Donsin, no Burkina Faso, encontra-se atualmente numa fase de reavaliação. Na ocasião de uma conferência de imprensa realizada este fim de semana pela Société des Aéroports du Faso (SAFA), foram apresentados o estado de avanço da obra e as medidas adotadas para garantir a sua conclusão.
Lançado em 2017, este projeto, estruturado em 26 lotes, dos quais 15 são financiados pelo Estado e pelos seus parceiros, apresenta hoje um nível de execução significativo. Diversas infraestruturas importantes já foram concluídas, nomeadamente a pista de aterragem, as vias principais, o reservatório de água e alguns edifícios administrativos. Estas realizações constituem, segundo a SAFA, uma base técnica sólida para a continuação dos trabalhos.
O projeto também enfrentou desafios significativos. Deficiências nos estudos iniciais, fragilidades na estruturação dos contratos e o desempenho insuficiente de algumas empresas contratadas contribuíram para atrasar o avanço da obra.
Uma reorientação após a ruptura com os concessionários
As tensões em torno do projeto tomaram um novo rumo em agosto de 2023, com a rescisão do contrato de exploração dos grupos franceses Meridiam e AMP. As autoridades burquinenses questionaram, em particular, uma concessão considerada desequilibrada, caracterizada por uma duração de 30 anos para uma contribuição financeira estimada em cerca de 20% do custo total.
A estas críticas somaram-se preocupações relacionadas com um regime fiscal considerado desfavorável ao Estado, bem como incumprimentos alegados das normas de aviação civil. O contexto foi ainda mais fragilizado por um acidente ocorrido no final de 2022 no local da obra, que resultou em perdas humanas. Neste contexto, a SAFA iniciou um diagnóstico técnico para avaliar as infraestruturas e propor um novo roteiro. Esta abordagem visa, segundo a entidade, corrigir as insuficiências constatadas e relançar o projeto sobre bases mais sólidas, em consonância com as ambições das autoridades burquinenses.
A médio prazo, a nova plataforma, destinada a substituir o aeroporto de Ouagadougou-Taamsê, construído na década de 1960, deverá ter capacidade para receber cerca de um milhão de passageiros por ano. Segundo o Banco Oeste-Africano de Desenvolvimento (BOAD), permitirá acolher aviões de grande porte, melhorar a competitividade do transporte aéreo burquinense e apoiar o desenvolvimento económico das áreas envolventes.
Henoc Dossa
Frente à intensificação do comércio na África Oriental, a Tanzânia acelera a transição digital do seu setor portuário. O projeto de Janela Única Marítima insere-se nesta dinâmica com vista a melhorar a eficiência operacional.
A Tanzânia continua a modernização da sua cadeia portuária, entrando na fase de conceção da Janela Única Marítima (Maritime Single Window – MSW), um projeto considerado estruturante para a digitalização do setor e o reforço da competitividade do porto de Dar es Salaam. Entre 23 e 27 de março, especialistas da Organização Marítima Internacional (OMI) realizaram consultas com o Ministério dos Transportes e a Tanzania Shipping Agencies Corporation, assim como com diversos atores públicos e privados.
O objetivo foi avaliar as necessidades técnicas e operacionais relacionadas com a implementação desta plataforma digital centralizada. O MSW pretende racionalizar e automatizar o intercâmbio de informações entre as diferentes partes envolvidas nos processos de chegada, escala e partida das embarcações. A médio prazo, a ferramenta deverá agilizar os procedimentos portuários, resultando numa redução dos tempos de escala e dos custos logísticos.
Para além da otimização operacional, a iniciativa responde a uma exigência regulatória internacional. Desde 1 de janeiro de 2024, a OMI exige aos seus Estados-membros a implementação de sistemas digitais para acelerar a gestão das escalas portuárias. A transição digital na Tanzânia surge também num contexto de crescente concorrência entre os hubs marítimos da África Oriental.
Dominado pelo porto de Mombaça, o tráfego regional também interessa a Dar es Salaam, que procura captar uma maior fatia dos fluxos provenientes ou com destino a países sem litoral como a Zâmbia, a República Democrática do Congo ou o Burundi. Sustentada por investimentos recentes em infraestruturas e equipamentos, a plataforma tanzaniana já apresenta um progresso notável nos volumes.
O tráfego passou de 18 milhões de toneladas no exercício 2021/2022 para 27,7 milhões de toneladas previstas para 2024/2025. Este crescimento, embora indique um aumento de atratividade, acentua os desafios ligados à congestão portuária, reforçando a urgência de soluções digitais como a Janela Única Marítima.
Henoc Dossa
Com um tamanho de mercado projetado para atingir 593 milhões de dólares até 2032, o setor africano de explosivos para mineração está em plena expansão. Isso desperta o interesse de investidores locais, que, no entanto, terão de enfrentar os grupos estrangeiros que dominam este segmento da cadeia de valor mineira.
O EPC Groupe, especialista francês em explosivos civis, anunciou na segunda-feira, 30 de março, uma receita de 591 milhões de euros (684 milhões de dólares) para 2025. Em alta de 6% em relação ao ano anterior, este valor inclui os rendimentos obtidos nos cerca de dez países africanos onde a empresa fornece explosivos para mineração.
O EPC, que no ano passado conquistou um contrato de cinco anos para a futura maior mina de ouro da Costa do Marfim (Koné), faz parte dos atores estrangeiros que dominam um mercado africano onde os operadores locais têm dificuldade em se estabelecer.
Explosivos essenciais, mas dominados por estrangeiros
Os explosivos de mineração são compostos químicos potentes projetados para fragmentar formações rochosas através de detonações controladas, permitindo a extração de minérios. Indispensáveis em operações de carvão, metais e pedreiras, constituem um insumo sem o qual nenhuma grande mina a céu aberto pode funcionar.
De acordo com um relatório da Market Research Future, o mercado africano foi avaliado em cerca de 364 milhões de dólares em 2023 e deverá alcançar aproximadamente 593 milhões de dólares até 2032, representando um crescimento médio anual de 5,7%. Atualmente, ele é dominado por um pequeno número de grupos estrangeiros, incluindo a australiana Orica, a espanhola Maxam, a chilena Enaex e o francês EPC Groupe. Também atuam empresas sul-africanas, como AECI Mining Explosives e BME, embora com presença essencialmente regional, deixando a maior parte do continente para operadores externos.
Barreiras à entrada para investidores locais
Nos países africanos produtores de minérios, os governos buscam aumentar a participação de atores locais na cadeia de valor da mineração. Contudo, restrições estruturais – típicas de todas as atividades de subcontratação na mineração – tornam difícil a emergência de empresas africanas no setor de explosivos. Entre recursos financeiros limitados, expertise técnica a desenvolver e concorrência de grupos estrangeiros centenários, a margem de manobra é estreita.
Uma análise da S&P Global de junho de 2025 sobre a Maxam indica que a empresa, fundada no final do século XIX pelo químico sueco Alfred Nobel (pai da dinamite), opera em um setor altamente regulado. As normas, cada vez mais rigorosas, criam barreiras significativas à entrada, dificultando a entrada e o crescimento de novos operadores.
“Devido às características intrínsecas da atividade, a fidelização dos clientes a médio prazo é elevada, e a empresa apresenta uma taxa de renovação de contratos muito alta com seus clientes existentes”, acrescenta a S&P.
Necessidade de apoio governamental
Num mercado em que as mineradoras tendem a recorrer a um número reduzido de fornecedores de explosivos, surge a dificuldade de fazer emergir operadores locais sem incentivo regulatório. No Mali, o governo optou por intervenção direta, assinando em novembro de 2024 um acordo com a Auxin Chemical Technology, subsidiária do grupo chinês Norinco.
O projeto de construção de uma fábrica nacional de explosivos civis, chamado FARATCHI-CO SA, alcançou uma etapa decisiva em janeiro de 2026 com sua aprovação pelo Conselho de Ministros. O Estado malinês detém 51% do capital da futura empresa, enquanto a Auxin fornece todo o financiamento e a expertise técnica.
Além do modelo de conteúdo local aplicado na mineração, outras medidas são possíveis. Os governos poderiam exigir que grupos estrangeiros vencedores de contratos de fornecimento de explosivos se associem a parceiros locais ou abram parte do capital a investidores africanos, seguindo modelos de participação local aplicados às companhias de mineração em diversos países do continente. Resta saber se a vontade política acompanhará essas medidas.
Emiliano Tossou
En raison d’un incident sismique survenu en 2025, la montée en puissance de la mine de cuivre Kamoa-Kakula, en République démocratique du Congo, a été ralentie. La production annuelle pour 2026 devrait ainsi atteindre au maximum 330 000 tonnes, contre 420 000 tonnes initialement prévues, a annoncé mardi 31 mars son opérateur canadien, Ivanhoe Mines.
L’entreprise justifie cette révision par une stratégie d’exploitation plus prudente, centrée sur des travaux de développement minier et le renforcement des infrastructures, afin d’assurer à terme un rythme d’extraction plus stable et durable. La production devrait repartir à la hausse en 2027, avec une fourchette prévue entre 380 000 et 420 000 tonnes, avant de viser le cap record de 500 000 tonnes à partir de 2028.
Marna Cloete, présidente d’Ivanhoe Mines, a déclaré : « Bien que des hypothèses prudentes impactent les niveaux de production en 2026 et 2027, nous préparons Kamoa-Kakula à atteindre de nouveaux records de production dès 2028, avec plus de 500 000 tonnes d’anodes et de cuivre blister sur plusieurs décennies ».
Cette révision intervient dans un contexte de baisse des prix du cuivre, estimée à environ 10 % en mars 2026, alors que la mine avait généré 3,11 milliards USD de recettes en 2025 grâce à des prix favorables, malgré un recul des volumes vendus.
Parallèlement, Kamoa-Kakula a mis en service sa fonderie, permettant de transformer le concentré de cuivre en anodes, produit à plus forte valeur ajoutée désormais utilisé comme référence pour les volumes déclarés.
Le projet est détenu à 39,6 % par Ivanhoe Mines, à égalité avec le groupe chinois Zijin Mining, l’État congolais en contrôlant 20 %.
Aurel Sèdjro Houenou
Face às dificuldades persistentes de financiamento de soluções energéticas descentralizadas em África, surgem novos modelos como a blockchain para mobilizar mais capital e estruturar projetos em maior escala.
Na segunda-feira, 30 de março, a plataforma Electrify.solar anunciou a assinatura de uma parceria com a PowerGen Renewable Energy, num comunicado oficial no LinkedIn. O objetivo é explorar o uso da blockchain para financiar projetos de energia distribuída em toda a África.
« Esta parceria combina as capacidades de execução da PowerGen em África com a infraestrutura digital da Electrify.solar dedicada à mobilização de capital », indica o comunicado.
Em detalhe, esta colaboração pretende testar um mecanismo inovador para mobilizar capital de terceiros, aumentar a transparência dos fluxos financeiros e estruturar um modelo replicável para financiar infraestruturas energéticas descentralizadas. A Electrify.solar está a desenvolver uma plataforma de financiamento baseada na venda de “tokens de utilidade”, representando direitos sobre eletricidade produzida no futuro, segundo informações publicadas no seu site.
Rumo à mobilização de capitais privados
Esta iniciativa integra a estratégia da PowerGen, focada no desenvolvimento de uma plataforma de energias renováveis distribuídas com uma capacidade de 120 MW, incluindo soluções de armazenamento em baterias. O portfólio de projetos da empresa abrange, entre outros, a República Democrática do Congo, a Nigéria e a Serra Leoa.
A empresa conta com o apoio de vários parceiros internacionais, incluindo o Private Infrastructure Development Group (PIDG), o Danish Investment Fund for Developing Countries (IFU), a EDFI Management Company via ElectriFi, bem como o Sustainable Energy Fund for Africa (SEFA) do Banco Africano de Desenvolvimento.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), soluções descentralizadas representam uma opção-chave para expandir o acesso à eletricidade em África, particularmente em zonas rurais. Instalações como mini-redes e sistemas solares autónomos atraem cada vez mais investidores, com financiamentos a crescer 20 % entre 2019 e 2023. No entanto, o setor continua fortemente dependente de financiamentos públicos, que representam mais de 70 % dos fluxos, enquanto o capital privado ainda enfrenta dificuldades em mobilizar-se em larga escala.
Neste contexto, vários atores estão a testar novos modelos financeiros para atrair os investimentos necessários e apoiar o seu desdobramento.
Abdoullah Diop
Conflito no Médio Oriente perturba o trânsito pelo Estreito de Ormuz e afeta os mercados africanos de energia
O conflito no Médio Oriente tem perturbado o trânsito pelo Estreito de Ormuz, um ponto estratégico para o comércio energético global. O bloqueio deste estreito desorganizou os fluxos de petróleo e gás, com efeitos já visíveis nos mercados e em vários países africanos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a guerra iniciada no sábado, 28 de fevereiro, no Médio Oriente, que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, provocou “a maior perturbação de fornecimento na história do mercado petrolífero mundial”. Em poucos dias, os fluxos de petróleo e gás através do estreito caíram significativamente, reduzindo a oferta global e provocando um rápido aumento dos preços.
Um estreito crucial para o sistema energético mundial
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima estratégica que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Segundo a AIE, cerca de 20 milhões de barris por dia de petróleo bruto e produtos petrolíferos transitaram por ali em 2025, representando quase 25% do comércio marítimo mundial de petróleo. Mais de 110 mil milhões de m³ de gás natural liquefeito (GNL) também passaram pelo estreito, cerca de um quinto do comércio global de GNL.
Segundo a BloombergNEF, aproximadamente 32% do comércio marítimo mundial de petróleo bruto e cerca de 16% do comércio de produtos petrolíferos passam por esta rota. Os principais exportadores do Golfo dependem fortemente deste corredor para enviar a sua produção aos mercados, especialmente na Ásia.
As alternativas são limitadas. A AIE estima que apenas a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem oleodutos capazes de contornar parcialmente o estreito, com uma capacidade entre 3,5 e 5,5 milhões de barris por dia, muito inferior aos volumes normalmente transportados.
Diante do choque, os países membros da AIE decidiram, na quarta-feira, 11 de março, uma libertação coordenada de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, a maior da história da instituição. Esta medida mobiliza principalmente os Estados Unidos, Japão e economias europeias, visando aliviar temporariamente as tensões nos mercados.
No entanto, estes volumes correspondem apenas a alguns dias de consumo mundial e não conseguem compensar de forma sustentável a perda de fornecimento.
Efeitos já visíveis nos mercados africanos
Os fluxos de petróleo destinados à África através do Estreito de Ormuz são relativamente reduzidos. Segundo a AIE, transitam cerca de 0,2 milhão de barris por dia de petróleo bruto e 0,6 milhão de barris por dia de produtos petrolíferos para o continente. Apesar desta exposição direta limitada, os efeitos da crise são rapidamente sentidos. O impacto transmite-se através da reorganização global dos fluxos de produtos petrolíferos, afetando os preços.
Muitos países africanos dependem da importação de combustíveis refinados, especialmente gasóleo e gasolina. Com as tensões nos mercados, surgem dificuldades de abastecimento e os preços aumentam imediatamente. Segundo a Bloomberg, os preços dos combustíveis mais que duplicaram na Somália, enquanto na África do Sul se espera um aumento de pelo menos 50% no custo do gasóleo. No Quénia, medidas fiscais foram adotadas para conter os preços e algumas bombas enfrentam rutura de stock.
A Nigéria, um dos maiores produtores de petróleo do continente, parece resistir melhor à crise, graças, nomeadamente, à refinaria Dangote, que contribui para garantir o abastecimento, embora os preços nos postos também tenham aumentado, segundo a Bloomberg.
Vulnerabilidade estrutural exige respostas duradouras
Esta crise evidencia uma vulnerabilidade estrutural para muitos países africanos, especialmente na África Subsaariana. Um bloqueio logístico, seja global como no Estreito de Ormuz ou local, como recentemente no Mali devido a ataques de grupos terroristas, pode rapidamente afetar o abastecimento e comprometer a rede elétrica e os transportes.
Neste contexto, desenvolver capacidades locais de refinação pode ser uma primeira resposta para reduzir a dependência de produtos petrolíferos importados, como exemplifica o caso da Nigéria. Reforçar a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis e eletrificar setores como o transporte também pode reduzir a exposição a estes choques, diminuindo a necessidade de combustíveis fósseis.
Abdoullah Diop
Desde setembro de 2025, a ReconAfrica consolidou a sua carteira de ativos petrolíferos africanos, até então limitada ao Botsuana e à Namíbia, com o bloco offshore Ngulu no Gabão, onde estão previstos trabalhos de prospeção de hidrocarbonetos pelo menos até 2029.
Seis meses após a oficialização da sua entrada no Gabão através do bloco Ngulu (anteriormente C-7), a ReconAfrica avançou na exploração das águas territoriais do país, realizando a análise e interpretação de dados sísmicos disponíveis no local.
Segundo informações divulgadas pela companhia na quinta-feira, 26 de março, estes trabalhos em curso têm como objetivo compreender melhor a estrutura geológica do subsolo deste perímetro, com uma área de 1.214 km². Ao final das operações, a empresa espera identificar estruturas que possam conter hidrocarbonetos.
Embora, neste momento, nenhum projeto de perfuração tenha sido oficialmente anunciado, a companhia aposta nos resultados destas avaliações técnicas para reduzir as incertezas sobre o potencial da concessão e definir possíveis alvos de perfuração.
Estas operações decorrem em conformidade com as condições operacionais previstas pelo contrato de partilha de produção (PSC) e pelo acordo de joint venture assinados pela ReconAfrica em setembro passado com o Estado gabonês e a Gabon Oil Company (GOC).
O contrato prevê uma primeira fase de exploração com duração de quatro anos a partir de setembro de 2025. Este período pode ser prorrogado uma única vez por um período equivalente, caso os trabalhos continuem. O quadro contratual permite posteriormente avançar para fases de avaliação e produção.
A ReconAfrica comprometeu-se a realizar um programa mínimo de trabalhos durante este período inicial. Segundo a empresa, estes compromissos incluem estudos atualmente em curso para compreender melhor o subsolo, bem como o processamento de dados sísmicos já disponíveis. A companhia prevê perfurar pelo menos um poço na concessão. De acordo com as suas próprias estimativas, o custo destes trabalhos será de cerca de 19 milhões de dólares ao longo de quatro anos.
Abdel-Latif Boureima
Na Tanzânia, a cadeia de produção de leite é a segunda mais importante no setor da pecuária, depois da carne. O governo visa a autosuficiência com a implementação de novos projetos de desenvolvimento destinados a aumentar a produção local.
Na Tanzânia, o Conselho do Leite (TDB) está a implementar um projeto para o período de 2025–2035 com o objetivo de desenvolver a cadeia do leite, com o apoio do governo. Foi o que revelou George Msalya, secretário-geral do TDB, em declarações ao meio de comunicação local The Citizen em 28 de março.
Com um custo total de 520 mil milhões de xelins (200 milhões de dólares), o projeto baseia-se em várias intervenções estruturantes destinadas a transformar a produtividade da cadeia. Prevê-se, nomeadamente, a importação de 17 200 vacas leiteiras de alto rendimento genético, a construção de 150 novos centros de recolha e investimentos em infraestruturas hídricas e na produção de forragens.
«Os produtores deverão assim beneficiar de acesso a crédito acessível, formação moderna e insumos de qualidade, com o objetivo de melhorar tanto a produção como a qualidade do leite», relatou a mesma fonte.
Embora a origem das vacas leiteiras a importar ainda não seja conhecida, sabe-se que Dodoma deu, em novembro passado, luz verde à importação de uma ampla gama de produtos pecuários do Brasil, incluindo bovinos vivos para fins de reprodução.
A Tanzânia apresenta ainda níveis de produtividade muito baixos. Os dados compilados pelo Ministério da Agricultura mostram que as vacas locais produzem, em média, entre 0,5 e 2 litros de leite por dia, ou seja, entre 182 e 730 litros por ano e por vaca. Em comparação, a produção média do rebanho brasileiro foi de cerca de 2 362 litros por vaca por ano em 2024, segundo dados oficiais.
De qualquer forma, o plano de investimento decenal implementado pelo TDB, se concretizado, permitirá melhorar a capacidade de produção da cadeia de leite tanzaniana a médio prazo.
A autosuficiência no horizonte
Na Tanzânia, a produção de leite fresco tem vindo a crescer nos últimos anos. Os dados compilados pelo Escritório Nacional de Estatística mostram, por exemplo, que a oferta local de leite fresco aumentou 29% em cinco anos, passando de 3,1 milhões de toneladas em 2020 para 4 milhões de toneladas em 2024.
Apesar deste progresso, o país continua a recorrer a importações, embora em quantidades relativamente baixas. Segundo a FAO, a Tanzânia importou em média 29 301 toneladas de produtos lácteos em equivalente leite por ano entre 2020 e 2024, principalmente leite em pó e manteiga. No período considerado, a despesa associada a estas importações foi, em média, de 7,76 milhões de dólares por ano.
Neste contexto, o desafio para Dodoma, ao reforçar a capacidade de produção da indústria local, será tornar a meta de autosuficiência uma realidade nos próximos anos.
Stéphanas Assocle