Com a aceleração da transformação digital, surgem utilizações cada vez mais exigentes em termos de largura de banda. À medida que a procura continua a crescer, os países africanos reforçam as suas infraestruturas para responder a estas necessidades.
O Presidente do Quénia, William Ruto, anunciou na segunda-feira, 8 de junho, a obtenção de 37 milhões de euros (42,8 milhões de dólares) da União Europeia para um projeto destinado a ligar o país, bem como a Tanzânia, Djibouti e a Somália, a um novo cabo submarino. A iniciativa visa reforçar o acesso à Internet nestes países e, de forma mais ampla, em toda a África Oriental.
O cabo constitui a extensão africana do projeto Blue-Raman, anunciado em julho de 2021 pela Google. Com 12.700 quilómetros de extensão, deverá ligar a Europa à Índia através do Médio Oriente, incluindo uma ligação à costa oriental africana.
A empresa italiana Sparkle, parceira do projeto, explica que a infraestrutura é composta por duas secções. A Blue deveria inicialmente ligar a Itália, França, Grécia e Israel, enquanto a Raman foi concebida para conectar a Jordânia, a Arábia Saudita, Djibouti, Omã e a Índia. Cada secção dispõe de 16 pares de fibras óticas e baseia-se num modelo de acesso aberto.
O novo cabo reforçará a infraestrutura digital dos países envolvidos. Segundo a plataforma Submarine Cable Map, o Quénia é atualmente servido por sete cabos submarinos, enquanto outros dois deverão entrar em funcionamento em 2026 e 2027. A Tanzânia está ligada a cinco cabos, Djibouti a oito e a Somália a cinco.
Impacto esperado nos custos
O Presidente queniano acredita que o Blue-Raman contribuirá para reduzir os custos da largura de banda. Esta perspetiva é sustentada por vários estudos. Num relatório publicado em junho de 2025, a FERDI concluiu que a duplicação da capacidade internacional pode provocar uma redução imediata de cerca de 32% no preço da Internet fixa de banda larga e até 50% no caso da Internet móvel.
A Banco Mundial chegou a conclusões semelhantes. Num estudo publicado em julho de 2024, a instituição estimou que cada duplicação da capacidade dos cabos submarinos em África resulta, em média, numa redução de 7% do preço da Internet fixa de banda larga e de 13% da Internet móvel.
Este desenvolvimento ocorre num contexto em que o custo da Internet continua a ser considerado um dos principais obstáculos à adoção e utilização regular dos serviços digitais. Segundo dados da União Internacional das Telecomunicações (UIT), um pacote de 5 GB de Internet móvel representa 4,1% do rendimento nacional bruto per capita no Quénia, 4,79% na Tanzânia, 4% na Somália e 5,74% em Djibouti. Para a Internet fixa de banda larga, estes valores atingem 12,3%, 28%, 50% e 5,26%, respetivamente. O limiar de acessibilidade definido pela UIT é de 2%.
Segurança das infraestruturas e desafios persistentes
Uma redução dos custos poderá contribuir para diminuir a exclusão digital. A UIT indica que apenas 35% da população queniana utilizava a Internet em 2024, contra 31,2% dos tanzanianos, 27,9% dos somalis e 65,3% dos djibutianos.
No entanto, subsistem várias incertezas. O calendário de implementação da infraestrutura ainda não foi divulgado, apesar de 2024 ter sido inicialmente apontado como o ano previsto para a entrada em funcionamento do projeto.
Além disso, a questão da segurança dos cabos submarinos continua a preocupar. Nos últimos meses foram registados vários incidentes, acidentais ou deliberados, que afetaram cabos submarinos e provocaram interrupções prolongadas do acesso à Internet.
Por exemplo, em 4 de março de 2025, o cabo PEACE foi danificado no Mar Vermelho. Alguns meses antes, em maio de 2024, os cabos EASSy e SEACOM também sofreram avarias, sendo reparados apenas três semanas depois. As interrupções afetaram milhões de utilizadores em países como Tanzânia, Moçambique, Malawi, Burundi, Ruanda, Madagáscar, Comores, Uganda, Somália e Quénia.
Isaac K. Kassouwi
Enquanto a inteligência artificial está a redesenhar profundamente os contornos do mercado de trabalho mundial, os países africanos procuram não sofrer os seus efeitos de forma isolada. O Mali apresenta em Genebra uma estratégia estruturada para fazer da IA um motor de emprego digno.
O Mali pretende transformar a inteligência artificial num instrumento de criação de emprego para a sua juventude, e não numa nova fonte de exclusão. A delegação maliana levou esta mensagem a Genebra na sexta-feira, 5 de junho, durante o debate geral da 114.ª Conferência Internacional do Trabalho (CIT-114).
Fassoun Coulibaly (foto), ministro do Trabalho e do Diálogo Social, liderou a intervenção maliana. Foi acompanhado por Oumou Coulibaly Seck, ministra do Emprego e da Formação Profissional. A sua intervenção baseou-se no relatório do diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo. Este documento defende uma abordagem da IA centrada no ser humano, uma leitura que Bamako partilha plenamente. Bem gerida, a tecnologia constitui, segundo Fassoun Coulibaly, «uma oportunidade importante para a criação de empregos dignos e sustentáveis». Ele defende instituições públicas reforçadas e um diálogo social ativo, vistos como únicos meios de evitar a fratura digital.
Reformas para transformar o discurso em ações
Para concretizar esta visão, Bamako lançou vários projetos estruturais. Foi adotada uma estratégia nacional de empreendedorismo, com um plano de ação 2026-2030. As políticas nacionais de emprego e de formação profissional estão em fase de finalização. No terreno, nove centros de formação profissional foram construídos, reabilitados ou equipados. Está também em preparação um quadro nacional de certificação. Foram igualmente implementados projetos de formação intensiva em mão de obra para acelerar a inserção profissional.
O país está também a enfrentar o peso da economia informal. Está em curso um estudo nacional sobre a sua formalização, no âmbito da Estratégia Nacional para a Emergência e o Desenvolvimento Sustentável (SNEDD) 2024-2033.
Um mercado de trabalho sob pressão demográfica
Esta orientação surge num contexto em que o mercado de trabalho maliano continua marcado por fragilidades profundas. Segundo estimativas da OIT, o desemprego jovem entre os 15 e os 24 anos situa-se em 3,9 % em 2025. Este valor esconde uma realidade mais grave. A taxa de NEET atingia 30,1 % em 2024, segundo a OIT. Cerca de 95,5 % dos trabalhadores malienses atuam na economia informal, percentagem que chega a quase 99 % entre os jovens dos 15 aos 29 anos. A agricultura concentra 64,2 % do emprego total e mais de 70 % dos jovens ativos. A população maliana foi estimada em 25,2 milhões de habitantes em 2025, com uma idade mediana de 16,8 anos. Um crescimento demográfico de 3 % ao ano aumenta a pressão sobre o mercado de trabalho.
No seu relatório «Tendências Sociais e de Emprego 2026», a OIT alerta que as transições digitais podem agravar estas vulnerabilidades. A CIT-114 oferece ao Mali uma plataforma para enquadrar as suas reformas na agenda global do trabalho centrada no ser humano. Resta saber se as reformas em curso irão além das declarações e resultarão em empregos concretos e sustentáveis.
Félicien Houindo Lokossou
No Chade, a qualidade e a cobertura das redes de telecomunicações continuam limitadas. Perante as queixas recorrentes dos consumidores, as autoridades estão a explorar novas soluções para melhorar a situação.
As autoridades chadianas pretendem acelerar o recurso ao partilha de infraestruturas de telecomunicações entre os operadores de telefonia móvel Airtel e Moov Africa. Esta medida insere-se num conjunto de ações destinadas a melhorar a qualidade dos serviços de telecomunicações no país.
A questão foi abordada durante uma reunião realizada na quinta-feira, 4 de junho, entre o ministro das Telecomunicações, da Economia Digital e da Digitalização, Haliki Choua Mahamat (foto), e os responsáveis dos dois operadores. As discussões centraram-se principalmente na degradação da qualidade do serviço e na política de “tolerância zero” agora adotada pelas autoridades face às falhas detetadas no setor.
Durante o encontro, o ministro apelou aos dois operadores para ultrapassarem as suas divergências e reforçarem a cooperação na exploração das infraestruturas de telecomunicações. Recordou os importantes investimentos realizados pelo Estado na expansão da fibra ótica e na instalação de 200 novos pontos de transmissão em todo o país. Os dois operadores foram assim convidados a apoiar-se simultaneamente nessas infraestruturas para melhorar a cobertura e a qualidade dos serviços prestados às populações.
Potencial da partilha de infraestruturas
Esta iniciativa das autoridades chadianas insere-se num contexto continental marcado pela adoção progressiva da partilha de infraestruturas de telecomunicações. Cada vez mais países e operadores africanos recorrem a esta prática, enquanto organizações do setor como a União Internacional das Telecomunicações (UIT) ou a GSMA a apresentam como uma ferramenta-chave para reduzir a exclusão digital.
Num documento publicado no seu site, a UIT sublinha que a partilha de infraestruturas móveis permite reduzir os custos de implantação das redes, especialmente em zonas rurais ou mercados pouco rentáveis. Esta abordagem também pode facilitar a adoção de novas tecnologias e acelerar a expansão da internet de alta velocidade móvel.
A organização distingue duas formas principais de partilha: a partilha passiva, que diz respeito a infraestruturas físicas como locais, edifícios ou torres, mantendo redes separadas; e a partilha ativa, que envolve elementos mais sensíveis da rede, como antenas, estações de base ou certos componentes do núcleo da rede.
Desafios de implementação em África
Apesar do seu potencial, a partilha de infraestruturas enfrenta vários desafios no continente. Segundo um relatório da Ecofin Pro publicado em dezembro de 2024, os dois principais obstáculos são a vontade dos operadores de consolidar a sua posição no mercado e a relutância dos reguladores face ao risco de colusão.
O primeiro desafio explica-se pela estratégia dos operadores, que procuram maximizar a sua quota de mercado para aumentar a sua base de clientes e receitas. Nesta lógica, embora a partilha de infraestruturas físicas seja geralmente aceite, a abertura de segmentos ou zonas estratégicas anteriormente exclusivas continua a ser mais sensível, mesmo quando remunerada.
O segundo desafio prende-se com a prudência dos reguladores na aplicação das obrigações de partilha de infraestruturas ativas. Estes temem que tais práticas possam incentivar formas de coordenação entre operadores suscetíveis de enfraquecer a concorrência ou até favorecer comportamentos assimiláveis a colusão.
O relatório acrescenta ainda que a partilha obrigatória de infraestruturas pode, por vezes, produzir efeitos contrários aos esperados, ao limitar o compromisso real dos operadores a uma simples conformidade regulatória. Este quadro reduz também os incentivos ao investimento na expansão, modernização e inovação das redes. Em contrapartida, nos contextos em que a partilha é mais flexível ou baseada em acordos voluntários, tendem a surgir mecanismos mais eficientes e economicamente viáveis.
saac K. Kassouwi
Em abril, as autoridades camaronesas detetaram cerca de 700 000 telemóveis ligados às redes móveis sem terem sido desalfandegados. Perante a dimensão do fenómeno, o governo quer agora obrigar os operadores de telecomunicações a bloquear estes aparelhos.
O governo camarones endurece a sua luta contra o contrabando de terminais digitais. Numa correspondência enviada na quinta-feira, 4 de junho, às direções-gerais da MTN Camarões e da Orange Camarões, o ministro das Finanças, Louis Paul Motaze, solicitou a aplicação efetiva do dispositivo de bloqueio de telemóveis importados sem o pagamento prévio dos direitos aduaneiros. Esta decisão surge num momento em que as autoridades consideram que os compromissos assumidos durante uma reunião realizada a 22 de maio com os operadores e a Direção-Geral das Alfândegas não foram cumpridos.
Esta nova etapa insere-se na reforma do mecanismo de cobrança de direitos e impostos sobre telemóveis, tablets e outros terminais digitais, em vigor desde 1 de abril de 2026. O sistema baseia-se na identificação dos aparelhos através do seu número IMEI, cruzado com os dados da administração aduaneira, para detetar equipamentos introduzidos no território fora dos circuitos oficiais.
Os primeiros resultados ilustram a dimensão do desafio. Segundo o Ministério das Finanças, cerca de 700 000 telemóveis ligaram-se pela primeira vez às redes locais entre 1 e 25 de abril sem terem sido desalfandegados. As autoridades veem nisso a prova da persistência de canais paralelos de importação que privam o Estado de receitas aduaneiras significativas.
O dispositivo prevê que os operadores móveis identifiquem automaticamente os terminais não registados na base aduaneira nacional e lhes retirem o acesso aos serviços móveis. Na sua carta, o ministro lembra ainda que qualquer ligação de um aparelho não desalfandegado à rede local pode envolver a responsabilidade fiscal do operador em causa.
Para além da questão orçamental, Yaoundé procura também enquadrar melhor um mercado em forte crescimento. A generalização dos smartphones e dos serviços digitais tem impulsionado a importação de terminais nos últimos anos, enquanto uma parte importante dos aparelhos continua a entrar através de canais informais. Para as autoridades, a rastreabilidade dos equipamentos constitui igualmente uma forma de reforçar a segurança das redes e combater a utilização de dispositivos não homologados.
Samira Njoya
Com a aceleração da transformação digital, as empresas exprimem necessidades crescentes por soluções de conectividade adaptadas. Os operadores de telecomunicações procuram assim posicionar-se para responder a essa procura.
A empresa pública de telecomunicações Zamtel pretende implementar soluções de conectividade 4G e 5G privadas. A iniciativa visa responder à procura crescente das empresas zambianas no contexto da transformação digital.
Um memorando de entendimento foi assinado na semana passada entre o operador histórico e a empresa tecnológica Ericsson. Este memorando segue-se à visita de uma delegação do fabricante sueco, liderada pelo responsável para a África Oriental e do Norte, Alain Maupin (foto, à direita).
«Esta parceria estratégica marca um passo importante na promoção da transformação digital e na implementação de uma conectividade segura e de elevado desempenho para empresas de setores-chave da economia. Com a implementação de soluções de redes privadas, as empresas beneficiarão de maior fiabilidade, maior eficiência, bem como de capacidades reforçadas em matéria de automatização e inovação», declarou a Zamtel num comunicado publicado nas redes sociais.
Esta iniciativa surge num momento em que as empresas demonstram um interesse crescente pela integração de soluções digitais nas suas atividades, bem como por soluções de conectividade capazes de suportar essas aplicações. A GSMA explica, por exemplo, que a 5G privada é adequada para empresas que necessitam de cobertura, controlo, segurança, fiabilidade e desempenho previsível superiores aos que podem ser oferecidos por soluções sem fios tradicionais, especialmente em ambientes industriais complexos e operações críticas.
A organização acrescenta que esta tecnologia é geralmente adotada para apoiar a automação e o controlo, o vídeo em tempo real e a implementação massiva da Internet das Coisas (IoT), sobretudo quando as exigências em matéria de mobilidade, resiliência e gestão de dados requerem uma governação operacional mais rigorosa. A 4G privada também se enquadra nesta dinâmica, como complemento para determinados usos específicos.
Responder a esta procura representa uma oportunidade para os operadores de telecomunicações, que estão atualmente numa tendência de diversificação das suas atividades. A GSMA sublinha ainda que a crescente procura de soluções digitais por parte das empresas abre perspetivas significativas, num contexto de fraco crescimento do rendimento médio por utilizador (ARPU), o que leva os operadores a diversificar as suas receitas. Segundo a GSMA Intelligence, o mercado global potencial B2B para os operadores de telecomunicações ultrapassa os 400 mil milhões de dólares, o que representa cerca de 35% das receitas atuais do setor móvel.
Isaac K. Kassouwi
Na África do Sul, apesar da concorrência dos gigantes MTN e Vodacom, o operador histórico continua a registar desempenhos sólidos. O governo sul-africano elogia os resultados da empresa.
Para o exercício encerrado a 31 de março de 2026, a parte dos dividendos atribuída ao governo sul-africano, acionista maioritário da Telkom com 40,5%, ascenderá a cerca de 559 milhões de rands (aproximadamente 34 milhões de dólares).
Este montante representa um aumento face aos 540 milhões de rands recebidos no exercício anterior, segundo dados divulgados na sexta-feira, 5 de junho, pela ministra na Presidência, Khumbudzo Ntshavheni.
«O governo receberá cerca de 559 milhões de rands em dividendos (excluindo dividendos pagos a outras entidades acionistas públicas). Estas receitas adicionais contribuirão para apoiar as principais prioridades de desenvolvimento do Estado e os seus compromissos em matéria de serviços públicos», declarou a ministra.
No plano social, 362 pequenas e médias empresas (PME) beneficiaram de contratos públicos no valor de 593 milhões de rands. O programa de desenvolvimento de pequenas empresas contribuiu para a criação de mais de 74 000 empregos, enquanto 1 524 jovens desempregados foram formados através de estágios em tecnologias de informação e comunicação. A Telkom Mobile ultrapassou ainda a marca de 2 milhões de assinantes móveis durante o exercício.
O ministro das Comunicações e Tecnologias Digitais, Solly Malatsi, atribuiu estes resultados a uma execução disciplinada da estratégia do grupo e a um redirecionamento para segmentos de elevado crescimento, nomeadamente dados móveis e fibra.
O mercado sul-africano das telecomunicações é altamente competitivo. É dominado pelos gigantes MTN e Vodacom. O operador histórico completa o pódio, à frente da Cell C e da Rain. Além disso, vários operadores móveis virtuais, como FNB Connect e Standard Bank Mobile, também estão presentes no mercado.
Adoni Conrad Quenum
Longe de ser apenas uma ferramenta de conectividade, a Internet das Coisas poderá tornar-se uma alavanca essencial para a modernização das economias africanas. Da agricultura à saúde, passando pela energia e pela logística, esta tecnologia abre novas perspetivas — desde que o continente consiga ultrapassar as suas limitações estruturais.
O mercado africano da Internet das Coisas (IoT), estimado em 7 mil milhões de dólares em 2024, deverá quase triplicar, atingindo 20 mil milhões de dólares até 2031. Esta é uma das principais conclusões do Relatório Económico sobre África 2026, publicado pela Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), sob o título «Growth Through Innovation: Harnessing Data and Frontier Technologies for Africa's Economic Transformation».
Por trás desta forte progressão, vários motores atuam em simultâneo. As ligações IoT celulares licenciadas na África Subsaariana deverão quase duplicar entre 2023 e 2030, passando de 27 para 51 milhões. No mesmo período, o número de utilizadores da Internet no continente deverá saltar de 320 para 527 milhões, enquanto o impacto económico da telefonia móvel triplicará, passando de 20 para 62 mil milhões de dólares, segundo o relatório.
As receitas dos operadores de telecomunicações, impulsionadas por esta vaga de conectividade, deverão também passar de 38 para 61 mil milhões de dólares. Todos estes sinais indicam uma dinâmica real, sustentada por uma penetração móvel já significativa. O continente registava já 97,5 assinaturas móveis por 100 habitantes em 2024, um valor relativamente próximo da média mundial, fixada em 112.
Aplicações concretas que transformam setores-chave
Considerada pela UNECA como uma «tecnologia de fronteira», ou seja, uma inovação capaz de transformar profundamente as economias e sociedades, a IoT não se limita a projeções estatísticas. No terreno, as suas aplicações começam a remodelar vários setores estratégicos da economia africana.
A agricultura é o primeiro exemplo, setor vital para a maioria das economias do continente. No Botsuana, a quinta Lobu Small Stock ilustra este potencial. Este projeto de criação de pequenos ruminantes, apoiado pela UNECA e pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), integrou sistemas IoT de monitorização da saúde animal e de acompanhamento do consumo de água. Resultado: mais de 40% de água poupada na região árida de Kgalagadi, melhoria mensurável do bem-estar animal e aumento das taxas de fertilidade do rebanho. A quinta tornou-se um verdadeiro centro de excelência, combinando cercas virtuais, alimentação de precisão e plataformas digitais de leilão.
A saúde é outro domínio de aplicação essencial, num contexto em que as necessidades continuam elevadas: África tem em média apenas 2,6 médicos por 10 000 habitantes e cerca de 600 milhões de pessoas ainda não têm acesso a cuidados de saúde. Na África do Sul, sensores IoT, dispositivos vestíveis e equipamentos médicos conectados permitem recolher e transmitir automaticamente dados dos pacientes aos profissionais de saúde. Esta abordagem reduz o tempo de diagnóstico e alivia a carga de trabalho do pessoal médico.
No comércio e na logística, por fim, plataformas como a Jumia combinam IoT com inteligência artificial e big data para personalizar a experiência do cliente e otimizar as entregas de última milha, um desafio central num continente onde as infraestruturas continuam frequentemente fragmentadas.
Obstáculos: uma fratura digital persistente
No entanto, por trás destes avanços promissores, a realidade continua contrastante. África ainda apresenta um atraso estrutural face a outras regiões do mundo, e os indicadores de conectividade mostram a dimensão do caminho a percorrer.
O continente regista apenas 0,9 assinaturas de banda larga fixa por 100 habitantes, contra 19,6 em média mundial e 37,2 na Europa. A cobertura 5G, essencial para o desenvolvimento massivo de aplicações IoT, abrange apenas 11% da população africana, contra 72% na Europa e 62% na região Ásia-Pacífico.
Estas lacunas infraestruturais têm consequências diretas em usos de elevado valor acrescentado. A agricultura de precisão, a logística de cadeia fria, a monitorização remota de pacientes ou a gestão inteligente de energia estão entre as aplicações mais promissoras, mas ainda raramente ultrapassam a fase piloto.
A fiabilidade do fornecimento de eletricidade constitui igualmente um grande obstáculo. Implementar sensores, garantir manutenção e assegurar a transmissão de dados em tempo real exige uma infraestrutura energética estável — ainda rara em muitas zonas urbanas e rurais do continente.
Os poderes públicos mobilizam-se
Perante estes desafios, a resposta institucional está em curso. A Estratégia de Transformação Digital da União Africana identifica a IoT, juntamente com a inteligência artificial e a blockchain, como um dos principais aceleradores da transformação económica do continente.
O relatório da UNECA apresenta várias recomendações aos governos e reguladores. Entre as prioridades está a expansão do acesso acessível à banda larga, através de investimentos em redes de fibra ótica, da expansão das redes 4G e 5G quando viável, e do apoio a redes comunitárias e soluções satélite nas zonas mais remotas.
Para estimular o investimento privado, o relatório recomenda também incentivos direcionados, como subsídios, benefícios fiscais e programas de compras públicas, de modo a permitir que as start-ups de IoT passem da fase experimental à escala.
Por fim, a UNECA sublinha a necessidade de uma cooperação regional reforçada, especialmente na gestão do espectro radioelétrico, um recurso raro e estratégico cuja harmonização será decisiva para a competitividade futura dos mercados IoT africanos.
Uma janela de oportunidade a não perder
África alberga a população mais jovem do mundo, um ecossistema digital em crescimento e um capital humano em expansão. Este fator constitui uma vantagem decisiva para a adoção de tecnologias disruptivas.
Ao ligar os mundos físico e digital em setores estratégicos como agricultura, saúde, energia e logística, a IoT representa precisamente o tipo de inovação capaz de gerar ganhos significativos de produtividade num continente com grande margem de progresso.
Mas esta oportunidade precisa de ser preparada desde já. Sem investimentos massivos em infraestruturas, sem quadros regulatórios adequados e sem vontade política para passar de projetos-piloto a implementações em larga escala, África arrisca perder milhares de milhões de dólares em valor económico potencial e ficar para trás numa tecnologia capaz de transformar o seu desenvolvimento de forma duradoura.
Muriel Edjo
Enquanto o Benim multiplica, há vários anos, iniciativas destinadas a reforçar a sua atratividade cultural e o seu prestígio internacional, o presidente Romuald Wadagni decidiu apoiar-se na notoriedade de Claudy Siar para conduzir parte desta estratégia.
Claudy Siar foi nomeado para o cargo de conselheiro especial para a cultura, os media e a visibilidade do país, através de uma decisão assinada na quarta-feira, 3 de junho, pelo presidente Romuald Wadagni, segundo informações publicadas pela La Nouvelle Tribune. O próprio confirmou posteriormente a nomeação nas suas redes sociais.
Esta nomeação surge poucos dias após a tomada de posse do novo chefe de Estado beninense, que sucede a Patrice Talon para um mandato de sete anos renovável.
Da naturalização à nomeação
«O Benim reparou-me», declarou emocionado Claudy Siar a 22 de maio, após receber em Ouidah o seu certificado de nacionalidade beninense e o respetivo passaporte. Foi integrado na linhagem Zossoungbo e recebeu o nome Kodjovi durante uma cerimónia de forte simbolismo histórico e memorial.
O franco-beninense já tinha exercido funções como delegado interministerial para a igualdade de oportunidades dos franceses ultramarinos entre 2011 e 2012, sob a presidência de Nicolas Sarkozy. Atualmente com 59 anos, prepara-se para colocar a sua experiência, rede de contactos e notoriedade ao serviço do Benim, com o objetivo de atrair eventos culturais de grande dimensão.
Um veterano dos media e das diásporas ao serviço do Benim
Figura bem conhecida do panorama mediático francófono, Claudy Siar apresentou durante cerca de 31 anos o programa Couleurs Tropicales na RFI, bem como o programa À l’Affiche na France 24. É também fundador da Tropiques FM e apresentou o programa The Voice Afrique francophone na Voxafrica.
Paralelamente, tem-se destacado pelo seu envolvimento em movimentos de defesa dos direitos dos afrodescendentes, do continente africano e das Caraíbas.
Foi com base neste perfil que o presidente beninense lhe confiou a missão de promover e valorizar as artes e tradições do Benim, reforçar a visibilidade internacional do país nos meios de comunicação e consolidar os laços com as comunidades afrodescendentes, contribuindo para fortalecer a imagem do Benim no exterior.
«É uma honra servir o Benim. Tenho plena consciência da missão e das expectativas. O extraordinário potencial humano da nação beninense é uma realidade. A minha equipa estará totalmente empenhada ao serviço do Benim, o nosso país», declarou Claudy Siar na sua página de Facebook após a nomeação.
Ubrick F. Quenum
O governo do Chade pretende generalizar o acesso aos serviços de telecomunicações no âmbito das suas ambições de transformação digital. Segundo dados da União Internacional das Telecomunicações, 87% da população não utilizava a Internet em 2024.
As autoridades chadianas pretendem reforçar a cooperação com o Banco Mundial para acelerar a inclusão digital do país, nomeadamente através da cobertura das chamadas «zonas brancas» (áreas sem acesso a serviços de telecomunicações). O objetivo é reduzir a fratura digital que continua a afetar várias regiões.
Esta ambição foi discutida durante uma missão de trabalho de uma delegação do Banco Mundial, em visita ao Chade entre 1 e 5 de junho. Os encontros centraram-se no estado de avanço do Projeto de Apoio à Transformação Digital (PATN) e nas expectativas do Ministério das Telecomunicações para garantir o sucesso da iniciativa. O Programa Regional de Integração Digital da África Central (CARDIP) também esteve na agenda.
Durante as discussões, Ibangolo Maïna Manga Abel indicou que cerca de 500 localidades sem conectividade ou sem acesso a serviços digitais foram identificadas em todo o país. No entanto, o comunicado do Ministério da Economia Digital, publicado a 1 de junho, não especifica a localização dessas localidades nem o calendário previsto para a sua ligação à rede.
Uma fratura digital ainda muito acentuada
Esta iniciativa surge num contexto em que a exclusão digital continua a ser significativa no Chade. Segundo a UIT, as redes 2G e 3G cobriam respetivamente 86,9% e 84,5% da população em 2024, numa altura em que alguns países africanos já estudam o abandono gradual destas tecnologias.
A rede 4G cobria apenas 60% da população, estimada em cerca de 25 milhões de habitantes. Em termos de utilização, a UIT estima uma taxa de penetração da telefonia móvel de 44,3%, contra apenas 12,6% para a Internet móvel.
Para além da cobertura, o desafio da adoção
Embora a expansão da cobertura para as zonas brancas possa contribuir para reduzir a fratura digital, persistem vários desafios estruturais. O principal continua a ser o isolamento digital do país, que limita o acesso às capacidades internacionais necessárias para o fornecimento de Internet.
O Chade dispõe atualmente de apenas uma ligação internacional de fibra ótica através dos Camarões, uma dependência que fragiliza o abastecimento de largura de banda e afeta a qualidade dos serviços. Estão previstas interligações com a Argélia, Nigéria, Níger, Líbia e Egito, mas estes projetos ainda não foram concretizados.
Além disso, a qualidade dos serviços continua insuficiente. A 15.ª auditoria da ARCEP, realizada entre setembro e outubro de 2025, identificou várias falhas, incluindo equipamentos obsoletos, manutenção insuficiente, problemas de fornecimento elétrico e estações fora de serviço em determinadas zonas. O vandalismo das infraestruturas continua igualmente a afetar o desempenho global da rede.
Para além destas limitações, a adoção dos serviços digitais nas zonas brancas, geralmente localizadas em áreas rurais, depende de vários outros fatores. Entre eles estão a acessibilidade dos equipamentos (smartphones, tablets e computadores), as competências digitais básicas da população, o custo dos serviços e a disponibilidade de conteúdos relevantes adaptados às necessidades locais.
Segundo dados do Banco Mundial, apenas 8,6% dos chadianos com mais de 15 anos possuíam um smartphone em 2024. No que diz respeito à acessibilidade financeira dos serviços, a UIT indica que o cabaz básico de Internet, SMS e voz representava 9,84% do rendimento nacional bruto (RNB) per capita em 2024. Este valor é muito superior à média africana (4%), à média mundial (1,3%) e ao limiar de acessibilidade de 2% definido pela organização. Além disso, um pacote de 5 GB de Internet móvel representava, por si só, 11,8% do rendimento mensal per capita.
Estes indicadores mostram que a melhoria da cobertura de rede, embora essencial, não será suficiente para eliminar a fratura digital no Chade. As autoridades terão igualmente de atuar sobre a qualidade das infraestruturas, a acessibilidade económica dos serviços e dos equipamentos, bem como sobre o desenvolvimento das competências digitais, para transformar o acesso potencial à rede numa utilização efetiva.
Isaac K. Kassouwi
Nos últimos anos, a Costa do Marfim acelerou a sua transformação digital no âmbito da estratégia 2021-2025. Com o término desta fase, o país prepara uma nova folha de rota até 2035, destinada a consolidar os progressos alcançados e a reforçar a modernização dos serviços públicos e da economia digital.
A Costa do Marfim está a preparar uma nova estratégia digital para o horizonte de 2035. As principais orientações desta folha de rota foram apresentadas na segunda-feira, 1 de junho, pelo ministro da Transição Digital e da Inovação Tecnológica, Djibril Ouattara, em Abidjan, durante a abertura da 6.ª edição da African Digital Week 2026.
Segundo o ministro, esta estratégia assenta em sete pilares principais, desdobrados em cerca de quarenta projetos estruturantes. O objetivo é transformar profundamente os serviços públicos e reforçar o ecossistema digital nacional. As principais áreas de intervenção incluem o desenvolvimento da conectividade e do acesso aos serviços digitais, a transformação digital da administração pública, a promoção da inovação e da inteligência artificial, o reforço da cibersegurança e da confiança digital, o desenvolvimento de competências digitais e a modernização dos Correios da Costa do Marfim.
A nova folha de rota insere-se na continuidade das reformas lançadas nos últimos anos, mas representa uma evolução estratégica mais orientada para a integração de tecnologias emergentes e para a consolidação das infraestruturas digitais. O objetivo declarado é melhorar a eficácia da ação pública e, simultaneamente, estruturar um ecossistema de inovação mais competitivo.
Uma dinâmica iniciada com a estratégia 2021-2025
A nova estratégia sucede à estratégia digital 2021-2025, que permitiu acelerar os investimentos em infraestruturas e alargar progressivamente a oferta de serviços públicos digitais.
Durante este período, as subscrições de telefonia móvel registaram um crescimento significativo, passando de cerca de 44 milhões em 2021 para mais de 60 milhões em 2025. As subscrições de internet móvel também aumentaram fortemente, atingindo cerca de 38,5 milhões em 2025, face a níveis muito inferiores no início do período. A taxa de penetração da internet situou-se em cerca de 41% em 2025, refletindo uma melhoria contínua do acesso aos serviços digitais, embora persistam disparidades geográficas e sociais.
Ao mesmo tempo, os serviços públicos em linha expandiram-se progressivamente, com a digitalização de numerosos procedimentos administrativos e a multiplicação de plataformas digitais nos setores fiscal, civil e económico. Esta evolução contribuiu para modernizar o acesso aos serviços do Estado e melhorar a sua disponibilidade.
Segundo os dados do Nações Unidas, através do Índice de Desenvolvimento do Governo Eletrónico (EGDI), a Costa do Marfim obteve uma pontuação de 0,5587 em 2024, contra 0,5467 em 2022 e 0,4457 em 2020, refletindo uma progressão constante da maturidade digital do país.
Um motor económico cada vez mais importante
Para além dos serviços públicos, o digital afirma-se progressivamente como um motor estruturante da economia marfinense. O setor deverá representar cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030, contra aproximadamente 6% atualmente.
Numa perspetiva de mais longo prazo, a Banco Mundial estima que a economia digital poderá gerar mais de 20 mil milhões de dólares até 2050 para a Costa do Marfim, desde que sejam mantidos investimentos significativos, públicos e privados, em infraestruturas, competências e serviços digitais.
Samira Njoya