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Equipe Publication

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O governo do Chade pretende generalizar o acesso aos serviços de telecomunicações no âmbito das suas ambições de transformação digital. Segundo dados da União Internacional das Telecomunicações, 87% da população não utilizava a Internet em 2024.

As autoridades chadianas pretendem reforçar a cooperação com o Banco Mundial para acelerar a inclusão digital do país, nomeadamente através da cobertura das chamadas «zonas brancas» (áreas sem acesso a serviços de telecomunicações). O objetivo é reduzir a fratura digital que continua a afetar várias regiões.

Esta ambição foi discutida durante uma missão de trabalho de uma delegação do Banco Mundial, em visita ao Chade entre 1 e 5 de junho. Os encontros centraram-se no estado de avanço do Projeto de Apoio à Transformação Digital (PATN) e nas expectativas do Ministério das Telecomunicações para garantir o sucesso da iniciativa. O Programa Regional de Integração Digital da África Central (CARDIP) também esteve na agenda.

Durante as discussões, Ibangolo Maïna Manga Abel indicou que cerca de 500 localidades sem conectividade ou sem acesso a serviços digitais foram identificadas em todo o país. No entanto, o comunicado do Ministério da Economia Digital, publicado a 1 de junho, não especifica a localização dessas localidades nem o calendário previsto para a sua ligação à rede.

Uma fratura digital ainda muito acentuada

Esta iniciativa surge num contexto em que a exclusão digital continua a ser significativa no Chade. Segundo a UIT, as redes 2G e 3G cobriam respetivamente 86,9% e 84,5% da população em 2024, numa altura em que alguns países africanos já estudam o abandono gradual destas tecnologias.

A rede 4G cobria apenas 60% da população, estimada em cerca de 25 milhões de habitantes. Em termos de utilização, a UIT estima uma taxa de penetração da telefonia móvel de 44,3%, contra apenas 12,6% para a Internet móvel.

Para além da cobertura, o desafio da adoção

Embora a expansão da cobertura para as zonas brancas possa contribuir para reduzir a fratura digital, persistem vários desafios estruturais. O principal continua a ser o isolamento digital do país, que limita o acesso às capacidades internacionais necessárias para o fornecimento de Internet.

O Chade dispõe atualmente de apenas uma ligação internacional de fibra ótica através dos Camarões, uma dependência que fragiliza o abastecimento de largura de banda e afeta a qualidade dos serviços. Estão previstas interligações com a Argélia, Nigéria, Níger, Líbia e Egito, mas estes projetos ainda não foram concretizados.

Além disso, a qualidade dos serviços continua insuficiente. A 15.ª auditoria da ARCEP, realizada entre setembro e outubro de 2025, identificou várias falhas, incluindo equipamentos obsoletos, manutenção insuficiente, problemas de fornecimento elétrico e estações fora de serviço em determinadas zonas. O vandalismo das infraestruturas continua igualmente a afetar o desempenho global da rede.

Para além destas limitações, a adoção dos serviços digitais nas zonas brancas, geralmente localizadas em áreas rurais, depende de vários outros fatores. Entre eles estão a acessibilidade dos equipamentos (smartphones, tablets e computadores), as competências digitais básicas da população, o custo dos serviços e a disponibilidade de conteúdos relevantes adaptados às necessidades locais.

Segundo dados do Banco Mundial, apenas 8,6% dos chadianos com mais de 15 anos possuíam um smartphone em 2024. No que diz respeito à acessibilidade financeira dos serviços, a UIT indica que o cabaz básico de Internet, SMS e voz representava 9,84% do rendimento nacional bruto (RNB) per capita em 2024. Este valor é muito superior à média africana (4%), à média mundial (1,3%) e ao limiar de acessibilidade de 2% definido pela organização. Além disso, um pacote de 5 GB de Internet móvel representava, por si só, 11,8% do rendimento mensal per capita.

Estes indicadores mostram que a melhoria da cobertura de rede, embora essencial, não será suficiente para eliminar a fratura digital no Chade. As autoridades terão igualmente de atuar sobre a qualidade das infraestruturas, a acessibilidade económica dos serviços e dos equipamentos, bem como sobre o desenvolvimento das competências digitais, para transformar o acesso potencial à rede numa utilização efetiva.

Isaac K. Kassouwi

 

Nos últimos anos, a Costa do Marfim acelerou a sua transformação digital no âmbito da estratégia 2021-2025. Com o término desta fase, o país prepara uma nova folha de rota até 2035, destinada a consolidar os progressos alcançados e a reforçar a modernização dos serviços públicos e da economia digital.

A Costa do Marfim está a preparar uma nova estratégia digital para o horizonte de 2035. As principais orientações desta folha de rota foram apresentadas na segunda-feira, 1 de junho, pelo ministro da Transição Digital e da Inovação Tecnológica, Djibril Ouattara, em Abidjan, durante a abertura da 6.ª edição da African Digital Week 2026.

Segundo o ministro, esta estratégia assenta em sete pilares principais, desdobrados em cerca de quarenta projetos estruturantes. O objetivo é transformar profundamente os serviços públicos e reforçar o ecossistema digital nacional. As principais áreas de intervenção incluem o desenvolvimento da conectividade e do acesso aos serviços digitais, a transformação digital da administração pública, a promoção da inovação e da inteligência artificial, o reforço da cibersegurança e da confiança digital, o desenvolvimento de competências digitais e a modernização dos Correios da Costa do Marfim.

A nova folha de rota insere-se na continuidade das reformas lançadas nos últimos anos, mas representa uma evolução estratégica mais orientada para a integração de tecnologias emergentes e para a consolidação das infraestruturas digitais. O objetivo declarado é melhorar a eficácia da ação pública e, simultaneamente, estruturar um ecossistema de inovação mais competitivo.

Uma dinâmica iniciada com a estratégia 2021-2025

A nova estratégia sucede à estratégia digital 2021-2025, que permitiu acelerar os investimentos em infraestruturas e alargar progressivamente a oferta de serviços públicos digitais.

Durante este período, as subscrições de telefonia móvel registaram um crescimento significativo, passando de cerca de 44 milhões em 2021 para mais de 60 milhões em 2025. As subscrições de internet móvel também aumentaram fortemente, atingindo cerca de 38,5 milhões em 2025, face a níveis muito inferiores no início do período. A taxa de penetração da internet situou-se em cerca de 41% em 2025, refletindo uma melhoria contínua do acesso aos serviços digitais, embora persistam disparidades geográficas e sociais.

Ao mesmo tempo, os serviços públicos em linha expandiram-se progressivamente, com a digitalização de numerosos procedimentos administrativos e a multiplicação de plataformas digitais nos setores fiscal, civil e económico. Esta evolução contribuiu para modernizar o acesso aos serviços do Estado e melhorar a sua disponibilidade.

Segundo os dados do Nações Unidas, através do Índice de Desenvolvimento do Governo Eletrónico (EGDI), a Costa do Marfim obteve uma pontuação de 0,5587 em 2024, contra 0,5467 em 2022 e 0,4457 em 2020, refletindo uma progressão constante da maturidade digital do país.

Um motor económico cada vez mais importante

Para além dos serviços públicos, o digital afirma-se progressivamente como um motor estruturante da economia marfinense. O setor deverá representar cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030, contra aproximadamente 6% atualmente.

Numa perspetiva de mais longo prazo, a Banco Mundial estima que a economia digital poderá gerar mais de 20 mil milhões de dólares até 2050 para a Costa do Marfim, desde que sejam mantidos investimentos significativos, públicos e privados, em infraestruturas, competências e serviços digitais.

Samira Njoya

 

Durante muito tempo considerado o epicentro mundial da pirataria marítima, o Golfo da Guiné continua a mobilizar importantes investimentos em segurança. A Nigéria, cujas águas estão entre as mais afetadas, prossegue o reforço das suas capacidades navais para consolidar os progressos alcançados nos últimos anos.

A Marinha nigeriana integrou três novos navios especializados na sua frota para reforçar a segurança marítima e melhorar as suas capacidades operacionais nas águas territoriais. As embarcações foram oficialmente colocadas ao serviço durante a cerimónia do 70.º aniversário da criação deste ramo das forças armadas, na presença do Presidente Bola Tinubu.

Esta aquisição insere-se no âmbito de um programa de modernização previsto no plano estratégico 2021-2030, cujo principal objetivo é consolidar a segurança marítima nacional. O país procura, nomeadamente, preservar os progressos realizados nos últimos anos no combate à pirataria e a outras formas de criminalidade marítima.

Entre 2020 e 2023, as águas nigerianas concentraram uma parte significativa dos ataques registados no Golfo da Guiné. Esta situação alimentava as preocupações dos armadores e contribuía para o aumento dos prémios de seguro aplicados ao tráfego marítimo na região.

À semelhança da Nigéria, vários Estados do Golfo da Guiné lançaram investimentos destinados a reforçar a vigilância e a proteção das suas águas. Em complemento das iniciativas nacionais, foi também criada uma força operacional conjunta que reúne a Nigéria, a Costa do Marfim, a Gâmbia, o Gana, a Libéria e a Serra Leoa.

Segundo o Bureau Maritime International, estes esforços têm contribuído para uma melhoria da situação de segurança na região desde 2023. Contudo, a organização apela aos Estados para que mantenham a vigilância. No seu relatório publicado em outubro de 2025, indica que foram registados 15 incidentes no Golfo da Guiné durante os primeiros nove meses de 2025, contra 12 no mesmo período de 2024. Entre estes incidentes, 10 corresponderam a roubos à mão armada e 5 a atos de pirataria.

Henoc Dossa

 

 

Presente em três continentes, a Eramet explora ativos que vão do manganês e das areias minerais em África ao níquel na Indonésia, bem como ao lítio na Argentina. O grupo abriu este ano um novo capítulo com um plano de reforço do seu desempenho operacional.

O grupo mineiro francês Eramet suspendeu desde o final de maio as operações da sua mina de níquel Weda Bay, na Indonésia, considerada a maior do mundo. Esta decisão, consequência do esgotamento da quota mineira que lhe foi atribuída pelo Estado indonésio para a sua produção, junta-se aos ventos contrários registados na sua mina de areias minerais no Senegal. Estes desafios acumulam-se num momento em que a empresa procura implementar a sua nova estratégia de desenvolvimento, batizada de «ReSolution».

Um início de exercício já bastante tenso

Em fevereiro, a Eramet tinha suspendido as atividades da sua filial senegalesa Grande Côte, na sequência de um incêndio que danificou várias infraestruturas essenciais do local. Alguns meses após este incidente, o grupo anunciou na semana passada o lançamento de um plano de retoma progressiva da mina, que deverá prolongar-se até 2027.

A curto prazo, as medidas implementadas apenas permitirão mobilizar cerca de 30% da capacidade nominal do local, o que poderá provocar uma quebra na produção este ano. A Eramet antecipa agora um volume máximo de 400 000 toneladas de concentrado de areias minerais (HMC), contra 983 000 toneladas entregues no ano passado.

O sistema de quotas implementado na Indonésia para regular a oferta e sustentar os preços do níquel agrava ainda mais o contexto operacional. A Weda Bay Nickel recebeu assim uma quota de produção de 12 milhões de toneladas de minério para o exercício, significativamente inferior aos 42 milhões de toneladas produzidas em 2025. Como essa quota já foi esgotada, a Eramet procura uma revisão em alta junto das autoridades indonésias. Entretanto, o site está em manutenção e os seus efetivos terão sido reduzidos, segundo a Reuters, citando uma declaração feita na quinta-feira, 4 de junho, por Jérôme Baudelet, diretor da Eramet Indonésia.

«Com a nossa quota mineira esgotada, estamos atualmente em conversações com o Ministério das Minas para obter uma extensão da nossa licença […]. Produzimos 42 milhões de toneladas no ano passado, pelo que podemos obviamente pedir o mesmo volume. Esperamos apenas que nos seja atribuído um volume suficiente para garantir a continuidade da exploração», terá afirmado.

Um plano a executar

Para além do impacto a curto prazo nos resultados do grupo, estes acontecimentos refletem certas tensões na implementação do plano ReSolution. Apresentado em dezembro de 2025, este roteiro visa reforçar a gestão do portefólio de ativos da Eramet, com ênfase na excelência operacional, produtividade e otimização comercial.

O plano prevê ações em todos os ativos do grupo, nomeadamente nas operações de manganês no Gabão, na melhoria do rendimento e dos custos no Senegal, bem como numa melhor gestão das operações na Indonésia. Os investimentos associados à sua execução deverão arrancar este ano. Está ainda prevista uma angariação de capital que poderá atingir 500 milhões de euros (580 milhões USD) no segundo semestre.

Até ao momento, não foram fornecidos detalhes adicionais sobre a execução do plano, o que torna ainda difícil avaliar o impacto dos recentes incidentes operacionais na sua trajetória. A incerteza mantém-se também no dossiê indonésio, enquanto a retoma progressiva das atividades no Senegal continua a ser um tema-chave a acompanhar nos próximos meses. Entretanto, os primeiros efeitos destas perturbações já são visíveis, com uma queda de 42% no volume de negócios da Grande Côte no primeiro trimestre.

Aurel Sèdjro Houenou

 

Principal produto de exportação da Zâmbia, o cobre está no centro das ambições mineiras nacionais, com uma produção prevista de 3 milhões de toneladas na cadeia produtiva até 2031. Nesta perspetiva, multiplicam-se os projetos de crescimento, em particular no segmento industrial.

Na terça-feira, 2 de junho, a empresa norte-americana CopperTech Metals anunciou o início dos procedimentos para uma cotação na Bolsa de Nova Iorque (NYSE). Esta operação abrir-lhe-ia, a médio prazo, as portas do ecossistema financeiro de Wall Street, num momento em que prepara a próxima fase de crescimento da sua mina de cobre Konkola, na Zâmbia.

A CopperTech Metals é uma filial criada pela indiana Vedanta Resources em novembro de 2025, à qual foi confiada a gestão operacional de Konkola. Esta reestruturação foi acompanhada pelo objetivo de investir 1,5 mil milhões de dólares para aumentar a produção do projeto para 300 000 toneladas de cobre por ano até 2031. Em comparação, a mina produziu apenas cerca de 80 215 toneladas em 2025. Um plano cuja implementação poderá ser facilitada pelo processo de cotação agora iniciado.

Ao visar a NYSE, a CopperTech pode expor a Konkola a investidores presentes naquele que é considerado o maior mercado bolsista mundial em termos de capitalização. A empresa apresentou assim um pedido de registo junto da Securities and Exchange Commission (SEC), o regulador dos mercados financeiros dos Estados Unidos. Esta etapa deverá agora ser seguida da análise do processo antes de uma eventual continuação da cotação. Até ao momento, não foi comunicado qualquer calendário detalhado.

Para a CopperTech, o objetivo vai além da simples mobilização de capital para a Konkola. Esta orientação para os Estados Unidos insere-se também na estratégia declarada da Vedanta de posicionar a mina zambiana como uma fonte de fornecimento de cobre capaz de contribuir para os objetivos americanos em matéria de segurança das cadeias de abastecimento. Uma ambição que surge num contexto marcado por perspetivas de défice no mercado do cobre, impulsionado pela transição energética. Segundo a Agence internationale de l'énergie, o défice global de abastecimento poderá atingir 30% até 2035.

Estes desenvolvimentos poderão também apoiar as ambições da Zâmbia, que pretende atingir uma produção anual de 3 milhões de toneladas de cobre até 2031, contra 890 346 toneladas em 2025. Resta agora observar como evoluirá o projeto de cotação da CopperTech nos próximos meses, bem como a reação dos investidores a uma empresa cujo perfil assenta ainda essencialmente no desenvolvimento da mina de Konkola.

Aurel Sèdjro Houenou

 

A subida acentuada do ouro está a levar vários Estados da África Ocidental a retomarem o controlo das suas minas e a exigirem uma parte mais significativa da renda mineira. O caso da Gold Fields no Gana mostra que esta reconquista acontece quase sempre no fim da cadeia de valor, quando o risco já foi assumido por terceiros.

As autoridades ganesas abriram no final de maio a porta a uma possível retirada da mina de Tarkwa à Gold Fields, ao afastarem a renovação automática do contrato de concessão detido há mais de três décadas pelo grupo sul-africano. Sinal de uma pressão crescente dos Estados sobre a renda mineira, esta decisão surge num contexto em que, de Abidjan a Ouagadougou, os governos reclamam a sua parte uma vez os depósitos descobertos, as minas financiadas e o risco assumido por outros.

O exemplo mais claro desta tendência surgiu algumas semanas antes, quando Acra retomou a mina de Damang, propriedade da mesma Gold Fields e já em fim de vida, entregando-a à empresa local Engineers & Planners. No maior produtor de ouro de África, estas duas decisões condensam duas dinâmicas distintas que atravessam toda a sub-região.

Trabalhadores da décima primeira hora

A primeira diz respeito à captura da renda. Com o ouro a ser negociado em torno de 5.000 dólares por onça, após uma subida de cerca de 70% em 2025, os Estados querem que esta riqueza se traduza em mais receitas, empregos e valor acrescentado local. Tal como a Costa do Marfim ou o Burkina Faso antes dele, o Gana decidiu este ano substituir a sua taxa fixa de 5% por uma escala progressiva que pode chegar a 12% sobre as vendas de ouro das empresas. O Mali impõe uma participação de 5% a investidores nacionais, enquanto o Burkina Faso aumenta a sua participação no capital das minas através de uma empresa pública dedicada. Royalties, participações públicas, quotas de conteúdo local — o conjunto de instrumentos da soberania mineira está agora bem estabelecido.

A segunda dinâmica diz respeito à recuperação de ativos já explorados, frequentemente maduros e por vezes próximos do esgotamento. Seja Morila no Mali, retomada pelo Estado em 2025 mais de duas décadas após o início da exploração, Tongon na Costa do Marfim, adquirida pelo grupo ivoiriense Atlantic de Koné Dossongui quando a Barrick Mining considerava as reservas quase esgotadas, ou Damang no Gana, a atenção pública recai quase sempre sobre minas cuja principal riqueza já foi extraída. O Estado ou atores locais intervêm, portanto, no fim da cadeia, quando o essencial do risco geológico, financeiro e industrial já foi assumido por outros.

Estas medidas raramente incidem sobre o início do ciclo mineiro. A exploração, a delimitação de um depósito, o financiamento das primeiras perfurações — estas etapas arriscadas e dispendiosas continuam largamente nas mãos de atores estrangeiros. O Estado deixa outros abrir caminho e regressa quando o risco já diminuiu, à semelhança dos trabalhadores da décima primeira hora. Com a diferença de que, ao contrário da parábola bíblica, estes últimos não recebem o mesmo salário que os primeiros.

O bloqueio do financiamento

O facto de os Estados capturarem uma parte da renda não é, em si, contestável. A verdadeira questão está noutro lado: na dificuldade dos atores locais em se posicionarem a montante, onde a valor é criado. As “juniors” mineiras australianas ou canadianas, pequenas empresas especializadas na procura de depósitos que depois vendem ou desenvolvem, não se distinguem das suas homólogas africanas pelas competências técnicas. Segundo Charles Bourgeois, advogado em direito mineiro em Paris, a diferença entre uma junior australiana e uma SARL maliana, ambas titulares de um mesmo título mineiro, reside sobretudo no acesso ao financiamento, mais difícil para a empresa maliana.

O diagnóstico é persistente. Em 2025, o setor mineiro representou 16 mil milhões de dólares dos 33,3 mil milhões levantados na Bolsa de Toronto e na TSX Venture Exchange no Canadá. Só na TSX-V, que acolhe sobretudo empresas de exploração, as cotadas mobilizaram 8,1 mil milhões de dólares, mais de metade dos fundos levantados pelo setor mineiro nestas duas praças. A Austrália e o Canadá dispõem de mercados profundos e de investidores habituados aos riscos específicos da mineração. Nada de equivalente existe em África.

A Bolsa Regional de Valores Mobiliários de Abidjan não está configurada para investimento mineiro de alto risco, e os bancos comerciais, pouco familiarizados com a lógica de rentabilidade do setor, exigem garantias tangíveis que a fase de exploração não pode fornecer. Sem capital próprio, as pequenas empresas do continente que obtêm licenças promissoras veem a sua participação diluir-se ao longo das rondas de financiamento realizadas por parceiros mais capitalizados, até perderem o controlo do ativo que identificaram.

O preço da soberania

A questão coloca-se então de forma direta: porque é que uma junior australiana ou canadiana consegue facilmente levantar os fundos necessários, enquanto uma junior burquinabê ou maliana não consegue? O talento geológico existe no continente, assim como as licenças. O que falta é o capital paciente, aquele que aceita financiar uma descoberta incerta.

Neste contexto, a recuperação de ativos maduros por capitais locais surge como uma etapa no reforço do nacionalismo dos recursos. A etapa seguinte exige o surgimento de atores capazes de controlar toda a cadeia, da prospeção à produção. O interesse crescente de investidores da África Ocidental pelo setor do ouro abre uma janela de oportunidade, mas esbarra na mesma questão de meios.

Existem várias pistas. Uma delas consistiria em orientar as juniors da sub-região para os mercados mais maduros da Austrália e do Canadá, desde que se estruturem segundo os padrões dessas praças e construam o histórico exigido pelos investidores. Outra via, defendida nomeadamente pelo especialista em governação dos recursos naturais Ahamadou Mohamed Maïga, passa pelo desenvolvimento de mecanismos no continente, como a mobilização da poupança das caixas de depósito, a criação de janelas públicas ou fundos soberanos dedicados, ou ainda o desenvolvimento de uma bolsa mineira regional.

Retomar uma mina em fim de vida consagra uma soberania de fim de cadeia. O controlo da parte a montante — a exploração e o arranque — exige também assumir o risco, durante muito tempo deixado a operadores estrangeiros. É neste terreno, mais do que no das taxas e das aquisições de ativos, que poderá jogar-se o sucesso do nacionalismo mineiro na África Ocidental.

Emiliano Tossou

 

A Agência Internacional de Energia (AIE) tem vindo, há várias semanas, a intensificar os alertas sobre o estado dos stocks mundiais de petróleo, enquanto o encerramento do Estreito de Ormuz desde o final de fevereiro continua a fazer sentir os seus efeitos.

Os stocks mundiais de petróleo poderão atingir níveis críticos este verão. Foi este o aviso lançado por Toril Bosoni, diretora da divisão de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE), durante a conferência S&P Global Energy, em Londres, na terça-feira, 2 de junho.

«Estamos a observar descidas de stocks que continuam este verão, com a possibilidade ou probabilidade de atingirmos níveis críticos ou historicamente baixos mesmo antes do pico da procura de verão», afirmou a responsável da instituição energética internacional, segundo declarações citadas pela Reuters.

Os stocks mundiais caíram mais de 250 milhões de barris entre março e maio de 2026, a um ritmo considerado recorde pela AIE. As reservas estratégicas desceram para cerca de 365 milhões de barris, o nível mais baixo em dois anos, segundo a OilPrice.

O encerramento do Estreito de Ormuz retirou cerca de 10% da oferta mundial desde o final de fevereiro. Os produtores do Golfo perderam cerca de 14 milhões de barris por dia, com perdas acumuladas que ultrapassam 1 mil milhão de barris. A AIE prevê, aliás, uma queda da oferta mundial de petróleo de 3,9 milhões de barris por dia ao longo deste ano.

Uma reabertura de Ormuz que não pode ser rápida

Bosoni apresentou uma estimativa que ilustra a dimensão do problema: mesmo que um acordo de paz fosse alcançado hoje, a reabertura do estreito demoraria entre seis e oito meses, no melhor dos cenários.

Perante esta realidade, uma nova libertação coordenada de stocks pela AIE é possível, mas ainda não está em cima da mesa. Cerca de metade dos 400 milhões de barris libertados em março ainda não chegou ao mercado. Bosoni alertou, contudo, que estas libertações são apenas uma “solução temporária”.

Um fator inesperado de equilíbrio veio da procura. Os preços elevados e a deterioração das perspetivas económicas travaram o consumo. As importações chinesas de crude caíram 6 milhões de barris por dia em maio face a março. Por outro lado, produtores das Américas compensaram parcialmente o défice: Estados Unidos, Argentina, Brasil e Venezuela aumentaram a produção.

A AIE prevê, neste contexto, um aumento da oferta na região de 1,5 milhões de barris por dia em 2026.

Como noticiou a Agence Ecofin no mês passado, Fatih Birol, diretor-geral da AIE, já tinha alertado que os stocks comerciais dispunham apenas de “algumas semanas de reserva”, durante a reunião dos ministros das Finanças do G7 em Paris.

Abdel-Latif Boureima

 

As tensões nas rotas energéticas mundiais e a volatilidade dos preços do petróleo recordam a dimensão do risco associado à dependência de muitas economias das importações de combustíveis. Os choques geopolíticos repercutem-se rapidamente nos mercados.

As perturbações no tráfego no Estreito de Ormuz levam a um aumento de mais de 20 mil milhões de dólares por ano na fatura de importação de petróleo das economias vulneráveis, segundo um novo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (CNUCED). Este fenómeno insere-se num contexto de forte dependência de muitos países dos combustíveis importados e, por conseguinte, de maior vulnerabilidade face a choques geopolíticos.

As tensões nos mercados da energia e as perturbações das rotas marítimas reavivam as preocupações sobre a estabilidade do abastecimento de combustíveis nas economias mais dependentes das importações. A CNUCED analisa o impacto das perturbações no Estreito de Ormuz, um corredor estratégico por onde transitava cerca de um quinto do petróleo mundial antes do recente episódio de conflito entre o Irão e o bloco americano-israelita.

Desde 28 de fevereiro de 2026, as perturbações nesta rota contribuíram para uma forte subida dos preços do petróleo bruto e dos combustíveis, com efeitos em cadeia sobre os custos de transporte, as cadeias de abastecimento e os mercados energéticos globais. A CNUCED sublinha que estes choques, de origem geopolítica, difundem-se muito para além da sua zona de origem.

Um choque energético com efeitos sistémicos nos mercados globais

A análise incide sobre 75 economias vulneráveis, das quais 65 são importadoras líquidas de petróleo. Estes países reúnem cerca de 1 mil milhão de pessoas, das quais mais de 30% vivem com menos de 3 dólares por dia. A sua dependência é particularmente marcada ao nível dos produtos refinados, que representam 97,8% das suas importações líquidas de combustíveis.

Os países menos desenvolvidos concentrariam cerca de 16 mil milhões de dólares em custos adicionais, contra 4 mil milhões de dólares para os pequenos Estados insulares em desenvolvimento. Os impactos são particularmente elevados em alguns casos. O aumento das importações pode assim representar mais de 5% do PIB na Mauritânia (7,3%), na Gâmbia (6,3%), em Vanuatu (5,8%), nas Maldivas (5,2%) e no Burkina Faso (5%), ilustrando a pressão direta sobre as margens orçamentais e de desenvolvimento.

Uma vulnerabilidade económica ampliada

Para além da fatura energética, a subida dos preços do petróleo repercute-se em toda a economia. Aumenta os custos de transporte e de frete, alimenta a inflação, reduz o poder de compra e exerce pressão adicional sobre finanças públicas já fragilizadas pela dívida. O crescimento económico dos países mais expostos também pode ser abrandado.

Esta vulnerabilidade é reforçada pela dependência de várias economias das importações provenientes da região do Golfo, o que limita as possibilidades de diversificação rápida das fontes de abastecimento. Alguns países já exploram alternativas regionais, nomeadamente em África.

A expansão das capacidades de refinação como a do grupo Dangote, cuja refinaria de Lekki entrou em produção em 2024 na Nigéria com uma capacidade de 650 000 barris por dia, ilustra esta dinâmica. No entanto, cerca de três quartos da produção são destinados ao mercado nigeriano, o que limita os volumes disponíveis para exportação regional.

A médio prazo, a CNUCED estima que a resiliência dependerá da diversificação das fontes de abastecimento, do reforço das capacidades de armazenamento e de uma melhor antecipação dos choques. O relatório sublinha que as tensões geopolíticas estão a transformar de forma duradoura os equilíbrios do mercado mundial da energia e a reforçar a necessidade de mecanismos de alerta precoce.

Olivier de Souza

 

Na África Ocidental, a maioria dos países continua a ser importadora líquida de produtos alimentares. O reforço das capacidades locais de transformação abre, contudo, perspetivas aos operadores económicos, que podem substituir parte das importações e conquistar novas quotas de mercado.

O grupo singapurense Wilmar International Limited celebrou um acordo com o conglomerado nigeriano Tropical General Investments Group (TGI) para criar uma joint-venture destinada a agregar as suas atividades agroalimentares na Nigéria e na República do Benim.

A operação visa construir uma plataforma integrada que abranja toda a cadeia de valor agroalimentar, desde a produção agrícola até à distribuição de produtos alimentares, passando pela transformação. Segundo um comunicado conjunto publicado na terça-feira, 2 de junho, as duas empresas estimam que este projeto lhes permitirá capturar um mercado potencial superior a 12 mil milhões de dólares na Nigéria e no Benim.

Rumo ao nascimento de um novo gigante do agroalimentar?

Está previsto que as atividades agrupadas pela joint-venture sejam detidas por uma holding sediada em Singapura, controlada em partes iguais pela Wilmar e pelo Grupo TGI. Na Nigéria, os ativos do grupo singapurense concentram-se sobretudo na sua filial local PZ Wilmar, cujas atividades incluem a exploração de mais de 26 500 hectares de plantações de palmeiras e uma refinaria integrada de óleo de palma com capacidade de produção de 1 000 toneladas por dia, para a produção de óleo de palma e margarina comercializados sob as marcas «Mamador» e «Devon King’s».

Por seu lado, o TGI dispõe de um portefólio industrial e comercial mais diversificado, estruturado em várias filiais, incluindo a CHI Limited (bebidas e produtos lácteos), WACOT Rice (arroz) e Golden Terra Oil (óleos alimentares), bem como outras atividades de transformação agroalimentar e distribuição. No Benim, o grupo nigeriano está presente na produção e comercialização de óleo alimentar através da sua filial Fludor Benin SA.

«Esta parceria visa reunir empresas sólidas para construir uma plataforma de crescimento a longo prazo, capaz de evoluir ao ritmo das necessidades dos consumidores e dos mercados africanos. Ao combinar a experiência global da Wilmar no setor agroalimentar com as capacidades de execução local do Grupo TGI, as suas marcas fortes e a sua vasta rede comercial, lançamos as bases de uma empresa capaz de crescer de forma sustentável, reforçar as cadeias de valor regionais e criar valor no continente nas próximas décadas», declarou Rahul Savara, cofundador e diretor executivo do TGI.

A Nigéria e o Benim no centro da estratégia

Com mais de 240 milhões de habitantes, a Nigéria representa o maior mercado de consumo do continente africano. Embora, em comparação, o mercado beninense seja bastante mais pequeno (cerca de 15 milhões de habitantes), continua a ser relevante. Além disso, o Benim desempenha um papel estratégico como plataforma logística e comercial na África Ocidental, funcionando como corredor de trânsito para a Nigéria e para os países sem litoral do Sahel (Níger, Burkina Faso, Mali).

Além disso, os défices de produção e transformação alimentar continuam elevados nestes países, o que mantém uma forte dependência das importações. Segundo a UNCTAD, a Nigéria importou em média cerca de 5,59 mil milhões de dólares em produtos alimentares por ano entre 2021 e 2023. No mesmo período, as importações alimentares do Benim atingiram cerca de 1,5 mil milhões de dólares por ano.

Ao combinar as suas capacidades industriais, a Wilmar e o TGI podem reforçar a produção local através de uma plataforma integrada e contribuir para a substituição de parte das importações.

No entanto, a criação da joint-venture está ainda sujeita à aprovação das autoridades da concorrência e às condições regulamentares habituais. A sua finalização está prevista até 31 de dezembro de 2026. Se concretizada, esta aliança poderá reforçar a industrialização agroalimentar na África Ocidental e dar origem a um novo gigante do agronegócio.

Stéphanas Assocle

 

Há mais de uma década que a procura de arroz regista um forte aumento nos países do espaço CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental). O aumento sustentável da produção continua a ser um verdadeiro quebra-cabeças.

Para que a África Ocidental deixe de ser uma região importadora líquida de arroz e se torne autossuficiente neste cereal, não haverá solução mágica: será necessário passar à escala. É, em essência, o que afirmou à Agência Ecofin Chakib Jenane, Diretor do departamento Planeta do Banco Mundial para a África Ocidental e Central, à margem da mesa-redonda de investimento no setor do arroz realizada de 2 a 3 de junho de 2026.

Numa região onde a produção ainda assenta maioritariamente em pequenos agricultores dependentes das condições climáticas, o responsável apela a uma mudança de paradigma. «A África Ocidental dispõe de enormes recursos agrícolas. O desafio não é a sua inexistência, mas sim a sua subexploração. Para avançar, já não basta dar pequenos passos. É necessário estruturar as explorações, agrupar os produtores em áreas mais vastas e mecanizáveis, e facilitar o acesso ao crédito», explica.

Segundo ele, tal mudança inscreve-se numa abordagem sistémica promovida pela iniciativa “Agriconnect” da instituição financeira, que visa, entre outros objetivos, reforçar toda a cadeia de valor do arroz na África Ocidental.

«O objetivo é construir um ecossistema eficiente em torno do arroz. Em países como o Senegal, o Mali ou a Nigéria, os rendimentos por hectare já são comparáveis aos observados na Ásia. Mas produzir mais não chega: é também necessário melhorar o armazenamento, a transformação e a comercialização. No final, para ter sucesso, toda a cadeia de valor do arroz na África Ocidental deve ser competitiva face às importações», precisa.

«Não podemos deixar as populações expostas de forma duradoura às flutuações dos mercados mundiais»

Para além das questões económicas, esta mobilização responde igualmente a imperativos sociais e alimentares. O arroz representa cerca de 40% do consumo de cereais na África Ocidental, o que faz dele uma fileira estratégica, embora particularmente vulnerável a choques externos.

«Não podemos deixar as populações expostas de forma duradoura às flutuações dos mercados mundiais. As crises sucessivas — pandemia de Covid-19, guerra na Ucrânia, perturbações das rotas marítimas — desorganizaram as cadeias de abastecimento e aumentaram o custo dos fatores de produção, nomeadamente os fertilizantes», afirma Chakib Jenane, sublinhando depois o reforço do compromisso financeiro do Banco Mundial na sub-região.

«Para a Nigéria, aprovámos recentemente um programa de 500 milhões de dólares dedicado às cadeias de valor agrícolas e aos pequenos produtores, em particular no arroz. No Togo, foi concedido um financiamento de 300 milhões de dólares para apoiar a modernização do setor agrícola. E estamos atualmente a trabalhar em novos projetos na Guiné, no Senegal, na Côte d’Ivoire e noutros países».

Para recordar, à escala mundial, a instituição investe cerca de 4,5 mil milhões de dólares por ano na agricultura. A ambição é elevar este montante para 9 mil milhões de dólares no âmbito do programa AgriConnect, de forma a acelerar a transformação dos sistemas agrícolas, aumentar a criação de empregos para os jovens e reforçar a segurança alimentar.

Espoir Olodo, de Acra

 

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