A Índia, segundo maior produtor mundial de algodão depois da China, desempenha também um papel central na comercialização da fibra. As medidas adotadas por Nova Deli para regular o mercado interno têm impacto direto na dinâmica do mercado mundial.
O governo indiano anunciou no sábado, 30 de maio, a suspensão, por um período de cinco meses, do direito aduaneiro de 11% aplicado às importações de algodão, medida válida até 30 de outubro de 2026. O objetivo é apoiar os fiadores e exportadores têxteis, que enfrentam pressões sobre os custos de produção e uma procura internacional elevada por produtos têxteis.
A medida visa facilitar o acesso a algodão de melhor qualidade, sobretudo para unidades orientadas para exportação, num contexto em que as cadeias de abastecimento globais continuam fragilizadas.
Segundo Vinay Kotak, citado pela Reuters a 31 de maio, esta janela tarifária poderá permitir a importação de cerca de 600 mil fardos de algodão, o equivalente a 130 636 toneladas, destinados principalmente às indústrias que necessitam de fibras menos contaminadas.
Um mercado global já sob pressão
Embora os volumes sejam relativamente limitados à escala mundial, a decisão surge num momento em que o mercado do algodão já enfrenta tensões entre oferta e procura.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o mercado global deverá registar um défice na campanha 2026/2027. A produção mundial deverá cair 5%, para cerca de 116 milhões de fardos, enquanto o consumo deverá aumentar 1,33%, atingindo 121,7 milhões de fardos — o nível mais alto dos últimos seis anos.
Este desequilíbrio deverá reduzir os stocks globais em 7%, para 71,8 milhões de fardos, diminuindo a margem de segurança do mercado e aumentando a sensibilidade às variações de oferta e procura.
Impacto potencial da decisão indiana
Ao reduzir o custo de acesso ao algodão importado, a medida indiana poderá aumentar marginalmente a procura internacional.
Os analistas apontam ainda que a necessidade de importações poderá crescer caso a produção interna seja afetada por condições climáticas, nomeadamente irregularidades da monção associadas ao fenómeno El Niño. Nesse cenário, não está excluída uma eventual extensão da janela de importação para além de outubro.
A Índia importou cerca de 2,2 mil milhões de dólares em algodão em 2025, segundo dados do Trade Map. Os principais fornecedores incluem Brasil, Estados Unidos, Austrália, China e vários países africanos.
A África representou cerca de 20% dessas importações, com cerca de 453 milhões de dólares, destacando-se países como Mali, Egito, Tanzânia, Costa do Marfim e Togo.
Para os exportadores internacionais, esta suspensão temporária de tarifas representa uma oportunidade limitada, mas relevante, para reforçar as vendas no mercado indiano, especialmente para produtores capazes de cumprir os requisitos de qualidade da indústria local.
Stéphanas Assocle
No Quénia, tal como na maioria dos países da África Subsaariana, a agricultura continua a ser maioritariamente dependente das chuvas. Desde 2025, Nairóbi afirma querer colocar a irrigação no centro da sua estratégia de desenvolvimento agrícola.
O país está a explorar uma cooperação com Portugal no domínio da irrigação agrícola. A intenção resulta de uma reunião realizada na sexta-feira, 29 de maio, em Nairóbi, entre Ephantus Kimotho Kimani e o embaixador de Portugal no Quénia, Paulo Neves Pocinho.
Segundo um comunicado do Departamento de Estado para a Irrigação, o Quénia pretende beneficiar da experiência portuguesa no desenvolvimento sustentável de infraestruturas de irrigação. As conversações incidiram sobre possibilidades de cooperação técnica e financeira no âmbito do Plano Nacional de Investimento no Setor da Irrigação (NISIP).
Parcerias para infraestruturas e investimento
A colaboração proposta inclui investimentos estratégicos na construção de barragens, sistemas de captação de água mais fiáveis, melhoria das infraestruturas de transporte de água e revestimento de canais para reduzir perdas hídricas e aumentar a eficiência da irrigação.
O acordo poderá ainda abrir espaço para investidores portugueses participarem em projetos de irrigação de grande escala através de parcerias público-privadas (PPP), com foco em produção agrícola comercial e no fortalecimento do agronegócio.
Um plano ambicioso para a irrigação
No âmbito do NISIP, lançado em março de 2025, o Quénia prevê mobilizar cerca de 598 mil milhões de xelins quenianos (aproximadamente 4,6 mil milhões de dólares), através de financiamento público e privado. O governo deverá cobrir 39% do investimento, enquanto a maior parte deverá vir do setor privado.
O objetivo é aumentar a área irrigada em cerca de 400 000 hectares até 2035.
Se concretizada, a cooperação com Lisboa poderá acelerar a implementação do plano e a modernização do setor agrícola queniano. Embora Portugal não seja frequentemente associado à irrigação em África, o país dispõe de experiência relevante na gestão da água em contextos mediterrânicos, marcada por períodos de seca e forte variabilidade climática.
Um setor com grande potencial
Para o Quénia, o desenvolvimento da irrigação é também uma forma de reduzir a dependência da agricultura de sequeiro, aumentar a produtividade e criar mais valor no setor agrícola.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as terras irrigadas são, em média, 76% mais produtivas do que as terras dependentes da chuva.
Apesar do potencial, o país ainda explora uma pequena parte dos seus recursos. O Departamento de Irrigação estima que o Quénia tem capacidade para irrigar até 1,34 milhão de hectares, mas em 2023 apenas cerca de 288 000 hectares estavam efetivamente equipados para irrigação.
Stéphanas Assocle
Tal como a maioria dos tubérculos cultivados em África, a batata desempenha um papel estratégico na segurança alimentar, ao lado dos cereais, considerados alimentos de base. No continente, a sua produção concentra-se principalmente nos países do Norte e da África Oriental.
Em África, a produção de batata foi estimada em cerca de 34,2 milhões de toneladas em 2024, segundo dados compilados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Este volume representa aproximadamente 9% dos 390,4 milhões de toneladas produzidas a nível mundial nesse ano.
Por ocasião do Dia Internacional da Batata, aprovado pelas Nações Unidas para ser celebrado a 30 de maio de cada ano, eis um destaque para os 6 países africanos que mais produzem este tubérculo. Segundo a FAO, são os únicos no continente onde a colheita de batata é igual ou superior a 2 milhões de toneladas.
Egito
Em 2024, o setor da batata no Egito colheu 8,08 milhões de toneladas, segundo a FAO, tornando o país o maior produtor africano e colocando-o entre os 10 maiores produtores mundiais. O tubérculo ocupa cerca de 269 000 hectares, sendo cultivado sobretudo nos governadores de Beheira, Gharbia, Menofia e Sharkia, na região do delta do Nilo.
Devido ao seu preço acessível e ao elevado teor de hidratos de carbono, a batata é amplamente utilizada na culinária tradicional e na comida de rua, sendo um alimento de base para milhões de famílias, além de uma importante cultura comercial. O Egito é também o 4.º maior exportador mundial, atrás da França, Alemanha e Países Baixos.
Dados da plataforma Trade Map indicam que o país exportou cerca de 1 milhão de toneladas de batata em 2025, o que representa menos de 15% da sua produção anual.
Argélia
Segundo maior produtor da África do Norte neste ranking, a Argélia registou uma colheita de cerca de 4,5 milhões de toneladas de batata em 2024, de acordo com a FAO. A cultura ocupa mais de 135 000 hectares, sendo a principal hortícola de campo aberto do país.
As principais zonas de produção incluem Mascara, Mostaganem, Aïn Defla, Bouira, Skikda e El-Oued. Ao contrário do Egito, quase toda a produção destina-se ao consumo interno. O país é, aliás, o maior mercado africano para a batata, com compras superiores a 100 000 toneladas por ano.
Etiópia
Primeiro país da África Oriental neste ranking, a Etiópia produziu cerca de 4,1 milhões de toneladas de batata em 2024, em aproximadamente 332 000 hectares, segundo a FAO. A produção concentra-se nas regiões montanhosas de Oromia, Amhara, Sidama, sul da Etiópia e Tigré.
A oferta destina-se sobretudo ao mercado interno, impulsionada pela urbanização e pela mudança dos hábitos alimentares, com maior consumo de produtos transformados como batatas fritas e chips.
As exportações continuam reduzidas: menos de 70 000 toneladas por ano nos últimos cinco anos, ou menos de 2% da produção.
África do Sul
A principal economia da África Austral produziu 2,6 milhões de toneladas de batata em 2024, numa área de cerca de 70 000 hectares. Os investimentos em agricultura comercial e irrigação, bem como o desenvolvimento da indústria de sementes, impulsionaram a produção na última década.
A batata desempenha um papel importante tanto na segurança alimentar como nas exportações. A África do Sul é o segundo maior exportador africano, depois do Egito, com mais de 170 000 toneladas exportadas por ano nos últimos cinco anos.
Marrocos
A batata é uma das principais culturas agrícolas de Marrocos e ocupa a maior parte da superfície hortícola do país. Segundo a FAO, a produção atingiu 2,19 milhões de toneladas em 2024, em cerca de 67 000 hectares.
As principais zonas de cultivo incluem o vale do Loukkos, a região de Tânger-Tetuão-Al Hoceima, a planície de Doukkala e a faixa atlântica entre Kenitra e Agadir. A maior parte da produção destina-se ao consumo interno.
Quénia
A maior economia da África Oriental produziu 2,18 milhões de toneladas de batata em 2024, segundo a FAO, numa área superior a 225 000 hectares. A cultura concentra-se nos condados de Nakuru, Nyandarua, Elgeyo Marakwet, Meru e Narok.
Cerca de 90% da produção provém de pequenas explorações agrícolas. A procura crescente, impulsionada pela urbanização, tem sustentado o aumento da produção. O Quénia também se destaca nas exportações, com cerca de 120 000 toneladas anuais entre 2021 e 2025, sendo o terceiro maior exportador africano.
Stéphanas Assocle
Quase três meses após a criação da Yennenga Holding, o governo do Burkina Faso nomeou o seu primeiro diretor-geral. O economista Abdoulaye Bengaly foi escolhido para dirigir a estrutura durante o Conselho de Ministros realizado a 29 de maio.
A nomeação representa uma etapa importante na implementação desta holding pública, criada para centralizar e gerir as participações financeiras do Estado burquinabê no setor financeiro nacional.
O perfil do novo diretor-geral
Abdoulaye Bengaly exerce atualmente as funções de presidente do conselho de administração da Banque Agricole du Faso, instituição bancária controlada em 87,55% pelo Estado através do Fundo Burquinabê de Desenvolvimento Económico, da Caixa Autónoma de Reforma dos Funcionários e da Loteria Nacional do Burkina Faso.
Doutorado em Ciências da Gestão, com especialização em Estratégia e Gestão Pública, e titular de um Diploma de Estudos Superiores Especializados (DESS) em Planeamento Regional, o novo responsável acumula cerca de doze anos de experiência no setor bancário, particularmente na organização e coordenação de redes de agências.
Com esta nomeação, as atenções voltam-se agora para a constituição da restante equipa dirigente da Yennenga Holding e para o início efetivo das suas operações, num contexto em que o Estado procura reforçar a gestão das suas participações financeiras.
Uma holding para gerir os ativos públicos
A criação da Yennenga Holding foi aprovada durante o Conselho de Ministros de 12 de março, através da adoção de dois decretos relativos à constituição da sociedade e à aprovação dos seus estatutos.
Dotada de um capital social de 10 mil milhões de francos CFA (cerca de 17,8 milhões de dólares), a empresa é detida em 51% pelo Estado burquinabê e em 49% por entidades públicas associadas.
A holding tem como missão agrupar as participações do Estado na Banque Commerciale du Burkina Faso, na Banque Agricole du Faso, na Banque Postale e na Faso Réassurances, instituições nas quais os poderes públicos detêm participações maioritárias.
As autoridades pretendem otimizar a gestão destes ativos financeiros e orientar a sua mobilização para o financiamento de projetos estratégicos do Estado.
A iniciativa surge num contexto em que o Estado e os seus organismos detêm cerca de 28% das participações em 15 instituições de crédito, além de investimentos em quatro sociedades de seguros e resseguros, uma instituição de microfinanças e três outras entidades financeiras.
Chamberline Moko
A fintech tanzaniana Nala garantiu uma linha de financiamento que poderá atingir 50 milhões de dólares junto da Liquidity, através da Mars Growth Capital, uma joint venture apoiada pela Liquidity e pelo MUFG Bank.
A operação, anunciada a 28 de maio e divulgada por vários meios de comunicação, prevê uma primeira tranche de 25 milhões de dólares, com possibilidade de expansão para além dos 50 milhões, em função das necessidades de crescimento da empresa.
Financiamento para apoiar a expansão
A Nala indica que esta linha de crédito permitirá abrir novos corredores de pagamento e responder às necessidades de grandes empresas que utilizam a sua infraestrutura para cobranças e pagamentos em mercados emergentes, na Europa e nos Estados Unidos.
O financiamento apoiará igualmente a expansão internacional da empresa, o desenvolvimento de novos produtos e o reforço das suas capacidades operacionais, além de sustentar a implementação de uma infraestrutura de neobanco baseada em stablecoins.
Segundo Benjamin Fernandes, fundador e diretor-geral da empresa, este financiamento surge num contexto de forte crescimento que, por vezes, colocou pressão sobre a capacidade de pré-financiamento da fintech. O responsável explica que a Liquidity criou um mecanismo destinado a financiar as necessidades de tesouraria associadas às contas dos clientes e a apoiar uma nova fase de expansão.
A ascensão dos pagamentos baseados em stablecoins
Os investimentos em infraestruturas de pagamento assentes em stablecoins têm-se multiplicado no setor financeiro. As transferências internacionais para mercados emergentes continuam marcadas por custos cambiais elevados, atrasos na liquidação e fragmentação dos sistemas bancários, fatores que reduzem a fluidez dos fluxos financeiros.
Neste contexto, empresas e instituições procuram soluções capazes de acelerar as transações e melhorar a gestão da liquidez.
Fundada em 2017 como uma plataforma de transferência de dinheiro destinada à diáspora africana, a Nala expandiu progressivamente a sua atividade para os pagamentos entre empresas através da plataforma Rafiki, dedicada à infraestrutura de pagamentos B2B.
A empresa afirma ligar mais de 249 bancos e 26 serviços de pagamento móvel em 16 países de África e da Ásia, consolidando a sua posição no mercado dos pagamentos transfronteiriços.
Chamberline Moko
Segundo país mais populoso de África, a Etiópia procura recuperar o dinamismo económico que durante muito tempo sustentou a sua reputação. Após vários anos marcados pela guerra no Tigré, por uma crise da dívida, pela escassez de divisas e por fortes pressões inflacionistas, o país organiza novas eleições legislativas e regionais.
Mais de 50 milhões de etíopes são chamados às urnas nesta segunda-feira, 1 de junho, para renovar a Câmara dos Representantes do Povo e as assembleias regionais. A votação decorre num contexto particular para o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed, que há quase dois anos conduz um vasto programa de reformas económicas apoiado pelo Fundo Monetário Internacional.
O Partido da Prosperidade, fundado por Abiy Ahmed após a sua chegada ao poder em 2018, surge como favorito perante uma oposição dividida. Nas eleições anteriores, realizadas em 2021, a formação conquistou 410 dos 484 lugares do Parlamento.
Uma eleição realizada num contexto de persistentes tensões de segurança
Embora as autoridades destaquem os progressos económicos registados nos últimos anos, as eleições decorrem num país que continua confrontado com importantes desafios de segurança.
A votação não terá lugar na região do Tigré, no norte do país. A Comissão Nacional Eleitoral justificou a decisão com as condições desfavoráveis resultantes da guerra civil que opôs, entre 2020 e 2022, as forças federais às autoridades regionais tigrínias. Este conflito, um dos mais mortíferos da história recente do continente, causou várias centenas de milhares de vítimas, segundo diferentes estimativas.
Apesar do acordo de paz assinado em novembro de 2022, as tensões não desapareceram por completo. A intenção recentemente manifestada pelo principal partido político do Tigré de retomar o controlo da administração regional reacendeu os receios de uma eventual nova vaga de instabilidade.
A situação permanece igualmente tensa nas duas regiões mais populosas do país. Em Oromia, região de origem de Abiy Ahmed, os confrontos entre as forças governamentais e o Exército de Libertação Oromo prolongam-se há vários anos. Na região vizinha de Amhara, as autoridades enfrentam a insurreição das milícias Fano. A violência levou à suspensão da votação em pelo menos oito círculos eleitorais.
Uma economia em transformação, mas ainda sob pressão
Para além das questões políticas, estas eleições ocorrem num momento importante para a economia etíope. Durante muitos anos apresentada como uma das economias mais dinâmicas do continente, a Etiópia viu a sua trajetória ser perturbada por uma sucessão de choques. A pandemia da Covid-19, a guerra do Tigré, vários episódios climáticos extremos e os desequilíbrios acumulados no mercado cambial fragilizaram significativamente o país.
Perante esta situação, Adis Abeba lançou, em julho de 2024, um programa de reformas apoiado pelo FMI. A medida mais emblemática foi a liberalização da taxa de câmbio do birr, até então fortemente controlada pelas autoridades.
Esta reforma permitiu à Etiópia desbloquear um programa de assistência financeira de 3,4 mil milhões de dólares junto do FMI e avançar nas negociações para a reestruturação da sua dívida externa. Contribuiu igualmente para reduzir a diferença entre a taxa de câmbio oficial e o mercado paralelo de divisas.
O governo destaca também a abertura progressiva de setores anteriormente reservados ao Estado, a autorização concedida aos bancos estrangeiros para operarem no mercado local e o lançamento da primeira bolsa de valores do país.
Segundo o primeiro-ministro Abiy Ahmed, estas medidas deverão permitir que a economia cresça 10,2% durante o exercício orçamental de 2025-2026. As exportações de mercadorias geraram mais de 5 mil milhões de dólares durante o primeiro semestre do exercício, enquanto o investimento direto estrangeiro atingiu 2,3 mil milhões de dólares.
Reformas que também geram novas fragilidades
Contudo, estes resultados são acompanhados por novas vulnerabilidades. A desvalorização do birr, consequência direta da liberalização do regime cambial, aumentou o custo das importações e alimentou as pressões inflacionistas.
Depois de ter descido temporariamente abaixo dos 10%, a inflação voltou a subir para 11,7% em abril de 2026. Os preços dos alimentos aumentaram ainda mais rapidamente, registando uma subida anual de 13,5%.
Para as famílias etíopes, que destinam uma parte significativa dos seus rendimentos à alimentação e aos transportes, este aumento do custo de vida constitui um dos efeitos mais visíveis das reformas em curso.
Após as eleições, investidores e parceiros financeiros acompanharão atentamente a forma como o governo irá manter a dinâmica das reformas iniciadas, ao mesmo tempo que enfrenta os desafios de segurança e as pressões sociais. Os resultados provisórios do escrutínio são esperados até 11 de junho.
Louis-Nino Kansoun.
Num contexto de crescimento demográfico, expansão do acesso à eletricidade e aumento das necessidades industriais na África Austral, os investimentos energéticos tornaram-se um fator central para o desenvolvimento e a integração regional.
Angola prevê aumentar a sua capacidade de produção de eletricidade de 6.400 MW para 9.000 MW até 2027, o que representa um crescimento de cerca de 40% em apenas dois anos. O objetivo foi anunciado na sexta-feira, 29 de maio, em Luanda, pelo secretário de Estado da Energia, Arlindo Carlos, à margem da 2.ª Conferência Internacional sobre Energia e Água.
Esta evolução deverá permitir ao país responder a uma procura em forte crescimento. Segundo as autoridades, a população angolana aumenta em mais de 1,5 milhões de habitantes por ano, o que intensifica as necessidades energéticas e reforça a urgência de acelerar os investimentos em infraestruturas elétricas.
Caculo Cabaça, pilar da estratégia energética
O principal motor deste plano de expansão é o projeto da central hidroelétrica de Caculo Cabaça, cuja conclusão está prevista para 2027. Localizada no rio Kwanza, a infraestrutura terá uma capacidade instalada de 2.172 MW e um custo de construção de 4,5 mil milhões de dólares. Será uma das maiores infraestruturas hidroelétricas da África Subsaariana, apenas atrás da Grande Barragem da Renascença, na Etiópia.
A importância deste projeto vai muito além do simples aumento da capacidade de produção. Trata-se de um dos pilares da estratégia energética nacional destinada a apoiar a eletrificação do país. Apesar dos progressos registados nos últimos anos, o acesso à eletricidade continua a ser desigual entre as diferentes regiões, sendo os centros urbanos significativamente melhor servidos do que muitas zonas rurais.
O desafio está igualmente ligado à transformação do mix energético. A energia hidroelétrica já representa cerca de 59% da capacidade de produção angolana, enquanto as centrais térmicas correspondem a 36%. As autoridades pretendem agora elevar a quota das energias limpas para 71% da produção nacional de eletricidade até 2027, nomeadamente através da entrada em funcionamento de Caculo Cabaça e do desenvolvimento gradual da capacidade solar.
Uma dinâmica de integração energética regional
Este aumento da capacidade poderá também reforçar o papel regional de Angola. Num momento em que vários países vizinhos enfrentam défices energéticos persistentes, Luanda procura valorizar os seus investimentos hidroelétricos para além do mercado interno.
A República Democrática do Congo está a avançar com um projeto de interligação elétrica destinado a importar energia angolana para abastecer a sua população e as suas indústrias. As autoridades congolesas estudam a possibilidade de transferir até 2.000 MW através de novas infraestruturas. Esta cooperação surge num contexto em que as necessidades energéticas do setor mineiro crescem mais rapidamente do que a capacidade nacional de produção.
Para Luanda, estas perspetivas abrem caminho à valorização de eventuais excedentes de produção, ao mesmo tempo que reforçam a integração económica regional. No entanto, a concretização do objetivo dos 9.000 MW dependerá da entrada efetiva em funcionamento da central de Caculo Cabaça e da capacidade do país para continuar a desenvolver as suas redes de transporte e distribuição de energia.
Se estas condições forem cumpridas, Angola poderá consolidar a sua posição entre os principais produtores de eletricidade da África Austral e ampliar a sua influência energética para além das suas fronteiras. Esta trajetória integra-se igualmente numa estratégia de segurança do abastecimento e de modernização progressiva do sistema elétrico nacional.
Olivier de Souza
Parceiro multilateral do Congo, o BADEA já intervém em vários projetos estruturantes. Segundo dados oficiais, a sua carteira atual no país ascende a 103,4 milhões de dólares.
O Governo da República do Congo e o Banco Árabe para o Desenvolvimento Económico em África (BADEA) assinaram, na quarta-feira, 27 de maio, em Brazzaville, dois acordos de financiamento num montante total de cerca de 500 milhões de dólares.
Os acordos foram celebrados pelo vice-primeiro-ministro congolês, Jean-Jacques Bouya, pelo ministro das Finanças, Christian Yoka, e pelo presidente do BADEA, Abdullah Almusaibeeh.
O primeiro financiamento destina-se ao prolongamento da Estrada da Corniche de Brazzaville, um projeto que visa melhorar a mobilidade urbana, reduzir o isolamento da capital e facilitar o transporte de produtos agrícolas provenientes do sul do país. Esta infraestrutura insere-se no âmbito da implementação do programa de governação «Aceleremos a marcha rumo ao desenvolvimento» e tem igualmente como objetivo reforçar a ligação entre Brazzaville e Pointe-Noire através da RN1-bis.
O segundo acordo refere-se ao apoio do BADEA ao aumento da participação do Congo no capital do Fundo Africano de Solidariedade (FSA).
As autoridades congolesas consideram que «estes dois novos acordos vêm alargar a carteira do BADEA na República do Congo, confirmando assim o reforço progressivo da cooperação entre ambas as partes».
O programa «Aceleremos a marcha rumo ao desenvolvimento» é a agenda política promovida pelo Presidente Denis Sassou N’Guesso para o seu mandato presidencial (2026–2031), após a sua reeleição nas eleições de março. O programa coloca a tónica na modernização das infraestruturas e no reforço da coesão social neste país, terceiro maior produtor de petróleo bruto da África Subsaariana.
O BADEA figura entre os principais parceiros multilaterais do Congo. Segundo as autoridades, a instituição participa igualmente no financiamento de vários projetos estruturantes, incluindo a futura Cidade Administrativa de Brazzaville.
Ativa há mais de 50 anos, a instituição apoia diversos setores do desenvolvimento em África, nomeadamente infraestruturas, agricultura, comércio, pequenas e médias empresas (PME), bem como saúde e educação. De acordo com dados oficiais, a carteira atual do BADEA na República do Congo ascende a 103,4 milhões de dólares.
Charlène N’dimon.
Quando o sol se põe sobre Lagos, a maior metrópole da Nigéria, a cidade parece iniciar uma nova etapa do dia em vez de encerrá-lo. Com mais de vinte milhões de habitantes, este gigantesco centro urbano é amplamente reconhecido como o motor económico da África Ocidental. No entanto, para além da sua influência financeira, Lagos conquistou uma reputação continental por possuir uma das vidas noturnas mais vibrantes e influentes de África.

A energia que toma conta da cidade depois do anoitecer reflete o ritmo intenso que caracteriza Lagos. Dos bairros sofisticados de Victoria Island e Lekki às zonas mais movimentadas do continente, a atividade prolonga-se muito para além do pôr do sol. Restaurantes, lounges, salas de espetáculos, clubes de praia e espaços de entretenimento atraem uma mistura cosmopolita de empresários, artistas, celebridades, turistas e jovens profissionais.

Grande parte deste dinamismo está ligada ao extraordinário crescimento da indústria musical nigeriana. Lagos é amplamente considerada a capital mundial do Afrobeats, género que levou artistas como Burna Boy, Wizkid, Davido e Tems aos maiores palcos internacionais. A cidade funciona simultaneamente como montra e laboratório de talentos, acolhendo concertos, atuações ao vivo e eventos exclusivos ao longo de todo o ano. Muitas das tendências que moldam a música africana contemporânea surgem em Lagos antes de se espalharem pelo continente e pelo resto do mundo.

A vida noturna da cidade destaca-se igualmente pela sua diversidade. Quer se trate de música eletrónica, Amapiano sul-africano, hip-hop, jazz ou ritmos tradicionais nigerianos, existe sempre um espaço e um público para cada preferência. Alguns estabelecimentos oferecem experiências sofisticadas destinadas a uma clientela mais exclusiva, enquanto outros preservam um ambiente popular onde a festa continua até ao nascer do sol.

A gastronomia ocupa também um lugar central na experiência noturna de Lagos. Muitos restaurantes permanecem abertos até altas horas, servindo desde cozinha internacional até às especialidades locais mais apreciadas. Os vendedores de rua e os grelhadores ao ar livre transformam-se em pontos de encontro para residentes e visitantes, acrescentando ainda mais vitalidade a uma cidade que parece estar permanentemente em movimento.

Esta reputação atinge o seu auge durante a época festiva de fim de ano. O fenómeno conhecido como “Detty December” atrai milhares de visitantes da diáspora africana, bem como viajantes provenientes de várias partes de África, da Europa e da América do Norte. Concertos, festivais, festas privadas e eventos culturais sucedem-se durante semanas, transformando Lagos num dos destinos mais procurados do mundo para quem procura música, entretenimento e celebração.

Mais do que uma simples fonte de entretenimento, a vida noturna de Lagos tornou-se um importante motor económico e cultural. Sustenta milhares de empregos nos setores da música, hotelaria, turismo, comunicação e organização de eventos, ao mesmo tempo que reforça a crescente influência cultural da Nigéria à escala global. Em muitos aspetos, Lagos simboliza uma África moderna, criativa e voltada para o futuro. Enquanto grande parte do mundo abranda após o anoitecer, Lagos acelera, impulsionada por uma energia inesgotável que lhe vale uma reputação partilhada por poucas cidades no planeta: a de um lugar que verdadeiramente nunca dorme.
O Egito é um dos principais mercados africanos de veículos elétricos, à frente da África do Sul e do Marrocos, com 7 900 unidades vendidas em 2025, segundo a AIE. Os intervenientes do setor procuram agora expandir a sua presença no transporte profissional e nas frotas privadas.
A eletrificação das frotas de transporte profissional está a ganhar força no Egito. As empresas Infinity, Option Travel e Green Option anunciaram, num comunicado publicado esta semana, uma parceria para desenvolver serviços de mobilidade elétrica destinados às frotas empresariais no país.
O projeto prevê, nomeadamente, a introdução de 100 miniautocarros elétricos a partir de 2026 para atividades de transporte turístico, mobilidade corporativa e transporte comercial da Option Travel, cuja frota conta atualmente com cerca de 800 veículos.
Rumo a uma mobilidade turística descarbonizada
No âmbito da parceria, a Infinity irá desenvolver as infraestruturas de carregamento necessárias à operação dos veículos elétricos. A Green Option, distribuidora oficial no Egito dos miniautocarros elétricos do fabricante chinês Foton Motor, supervisionará a implementação dos veículos e as operações técnicas associadas à eletrificação.
Segundo os parceiros, esta primeira fase deverá permitir uma redução de cerca de 2 520 toneladas de emissões operacionais anuais, bem como uma diminuição do consumo de gasóleo em aproximadamente 666 700 litros por ano. As empresas apresentam ainda esta iniciativa como a primeira introdução de miniautocarros elétricos no setor privado egípcio do turismo e transporte.
O Egito como motor do mercado africano de veículos elétricos
Este anúncio surge num contexto em que o mercado africano de veículos elétricos ainda é relativamente reduzido. No seu relatório “Global EV Outlook 2026”, publicado a 20 de maio, a Agência Internacional de Energia (AIE) indica que as vendas deste segmento passaram de cerca de 4 000 unidades em 2023 para quase 25 000 em 2025. O Egito, o Marrocos e a África do Sul representaram cerca de 70% dessas vendas em 2025.
Além disso, a eletrificação dos transportes contribui diretamente para os esforços das autoridades egípcias na redução das emissões de gases com efeito de estufa. Segundo dados da AIE de 2023, o setor dos transportes representava cerca de 29% das emissões de CO₂ no país.
Abdoullah Diop