Num contexto marcado pela volatilidade dos mercados energéticos e por uma dependência persistente dos combustíveis fósseis, a União Europeia reforça a sua cooperação com os países do sul do Mediterrâneo através de uma nova iniciativa dedicada à transição energética e industrial.
A União Europeia apresentou, no dia 9 de junho, o programa Trans-Mediterranean Renewable Energy and Clean Tech Cooperation (T-MED), uma iniciativa destinada a mobilizar até 25 mil milhões de euros em investimentos até 2035 nas energias renováveis, no hidrogénio e nas tecnologias limpas. Integrado no âmbito do Pacto para o Mediterrâneo, lançado em novembro de 2025, este mecanismo visa estruturar um espaço energético mais integrado entre as duas margens do Mediterrâneo, atribuindo um papel central à Comissão Europeia e aos seus parceiros financeiros.
A UE coloca, nomeadamente, mais de 5 mil milhões de euros em garantias através do Fundo Europeu para o Desenvolvimento Sustentável Plus (FEDS+), com o objetivo de impulsionar os investimentos públicos e privados.
«Esta iniciativa servirá tanto os interesses da Europa como os da região, reduzindo a exposição aos choques dos preços dos combustíveis fósseis», declarou o Comissário Europeu para a Energia e Habitação, Dan Jørgensen.
Um mecanismo de financiamento baseado no efeito de alavanca público-privado
O T-MED assenta numa arquitetura estruturada em torno de cinco eixos principais. O primeiro diz respeito à mobilização de investimentos através da cooperação entre as instituições europeias, os bancos multilaterais e o setor privado. O segundo visa apoiar reformas regulamentares nos países parceiros, de forma a melhorar o ambiente de negócios, simplificar os procedimentos de licenciamento e reduzir os obstáculos ao investimento no setor energético.
O terceiro eixo centra-se no desenvolvimento de competências, através de programas de formação e de parcerias académicas nas áreas da engenharia, das tecnologias digitais e das finanças verdes. O quarto diz respeito às infraestruturas, nomeadamente à modernização das redes elétricas e ao desenvolvimento de interligações transfronteiriças. Por fim, o quinto eixo apoia a criação de cadeias industriais locais no domínio das tecnologias limpas.
Os projetos visam, em particular, centrais solares, parques eólicos, produção de hidrogénio por eletrólise, bem como a modernização das redes elétricas em vários países mediterrânicos. A médio prazo, o programa pretende desenvolver cerca de 15 GW de capacidade renovável e criar mais de 100 mil empregos nos setores associados.
A iniciativa baseia-se numa realidade energética estrutural. A região do Médio Oriente e Norte de África dispõe de um potencial de energias renováveis estimado em cerca de 2 300 GW, ou seja, mais do dobro da capacidade atualmente instalada na União Europeia. Os custos de produção da energia solar e eólica são igualmente entre 30% e 40% inferiores aos registados na Europa.
Apesar desta vantagem comparativa, a dependência persistente dos hidrocarbonetos continua a expor muitos países às flutuações dos preços mundiais e às tensões geopolíticas. Para Bruxelas, o desenvolvimento das energias renováveis responde, assim, a um duplo objetivo: acelerar a descarbonização e reforçar a segurança energética através da diversificação das fontes de abastecimento.
Ambições elevadas perante os desafios da implementação
Embora o objetivo de mobilizar 25 mil milhões de euros represente um passo importante, a sua concretização dependerá da capacidade de atrair de forma sustentável o capital privado e de implementar as reformas estruturais necessárias nos países parceiros.
A experiência do projeto Desertec, na década de 2010, recorda as limitações das grandes ambições de integração energética quando estas se confrontam com constrangimentos financeiros e políticos. As próximas etapas serão decisivas: lançamento de convites à manifestação de interesse junto de investidores privados, instalação da plataforma T-MED ainda durante este ano e primeiras cooperações industriais previstas a partir de 2027.
Para além dos anúncios, o desafio para a União Europeia será transformar um potencial energético amplamente reconhecido em infraestruturas concretas e em cadeias de valor industriais partilhadas entre as duas margens do Mediterrâneo.
Olivier de Souza
Terceiro maior produtor mundial de grafite, atrás da China e de Madagáscar, o Moçambique procura agora valorizar melhor este recurso no âmbito de uma política anunciada este mês. No entanto, esta orientação levanta algumas incertezas quanto ao modelo de vários projetos já em curso.
No país, a empresa britânica Total Graphite (anteriormente Tirupati Graphite) anunciou na segunda-feira, 8 de junho, a atualização do estudo de viabilidade do projeto de grafite de Montepuez. A iniciativa insere-se numa estratégia mais ampla que visa direcionar a produção futura para uma unidade de processamento nos Estados Unidos.
Este modelo reforça uma estrutura já existente em torno da mina de Balama, operada pela empresa australiana Syrah Resources, que fornece matéria-prima para a fábrica de ânodos de baterias em Vidalia, nos Estados Unidos, apoiada financeiramente por Washington.
No caso de Montepuez, o objetivo é desenvolver uma cadeia vertical integrada, ligando a extração no Moçambique à produção de grafite purificado para ânodos (PSG) numa instalação industrial nos EUA.
Estratégia industrial e interesse americano
O grafite é um mineral crítico essencial para baterias, sobretudo de veículos elétricos. Atualmente, o mercado mundial continua fortemente dependente da China, que domina tanto a produção como o processamento.
Os Estados Unidos procuram reduzir essa dependência, diversificando as suas fontes de abastecimento — incluindo países como o Moçambique.
Segundo a direção da Total Graphite, a associação entre a mina de Montepuez e uma futura unidade de produção nos EUA representa uma estratégia de integração vertical ao longo da cadeia de valor do grafite.
Novas regras e incertezas
Contudo, a execução destes projetos enfrenta novas restrições. Um decreto recente do governo moçambicano proíbe a exportação de minerais em bruto ou semi-processados, exceto se houver um plano de refinação local aprovado.
Esta medida pode alterar profundamente os modelos de exportação baseados no envio de matéria-prima para processamento no estrangeiro, afetando potencialmente projetos como Montepuez e Balama.
Um setor sob pressão
Além das questões regulatórias, o setor enfrenta ainda a pressão de um mercado global caracterizado por excesso de oferta e preços baixos, dominado pela China. Nesse contexto, empresas como a Total Graphite estão a rever estratégias e opções de financiamento para manter a viabilidade dos seus investimentos.
Aurel Sèdjro Houenou
Os Emirados Árabes Unidos estão a tornar-se um recurso cada vez mais visível para Estados africanos que procuram capital para o setor mineiro. Entre liquidez, ambições geopolíticas e zonas de sombra, as parcerias estabelecidas com Abu Dhabi estão longe de se limitar a uma simples generosidade financeira.
O Botswana está em negociações com os Emirados Árabes Unidos para adquirir uma participação estratégica na De Beers. O anúncio feito pelo presidente Duma Boko confirma uma tendência crescente no continente: a disponibilidade de Abu Dhabi para apoiar Estados africanos na mobilização de capital para o setor mineiro.
Segundo a Bloomberg, o Botswana procura parceiros fiáveis para financiar a compra de uma participação na De Beers, cuja fatia de 85% está a ser vendida pela Anglo American. O país já detém 15% da empresa e pretende reforçar o seu controlo sobre a produção e comercialização de diamantes, que representam cerca de 80% das exportações nacionais e quase um quarto do PIB.
A queda dos preços dos diamantes, o abrandamento da procura chinesa e a concorrência das pedras sintéticas fragilizaram as finanças públicas, levando mesmo a uma revisão em baixa da notação soberana do Botswana pela S&P Global. Para esta operação, o país também explorou contactos com Omã, Angola e Namíbia, mas são sobretudo os Emirados Árabes Unidos e Omã que se afirmam como parceiros preferenciais.
Uma presença cada vez mais estratégica
Nos últimos anos, os Emirados Árabes Unidos têm participado em várias operações estratégicas em África. Na República Democrática do Congo, o grupo emiratense Primera criou a empresa Primera Gold para formalizar e exportar ouro artesanal, aumentando drasticamente as exportações oficiais.
Na Zâmbia, a empresa ligada à International Holding Company adquiriu uma participação maioritária na Mopani Copper Mines, um dos maiores ativos de cobre do continente, num contexto de forte endividamento e necessidade de investimento.
Interesses que vão além do financeiro
Esta presença recorrente dos Emirados em projetos mineiros africanos não é apenas financeira. O país posiciona-se como um investidor-chave na aquisição de minerais críticos como cobre, cobalto e lítio, essenciais para a transição energética global.
Segundo centros de investigação como o Arab Gulf States Institute, esta estratégia faz parte de uma política de diversificação económica pós-petróleo. Paralelamente, instituições como o ECFR destacam o papel crescente dos Emirados na gestão de portos e corredores logísticos africanos, reforçando a sua posição como hub comercial global.
Riscos e zonas de sombra
Apesar das oportunidades, persistem preocupações. Relatórios de ONG como a SWISSAID indicam que grandes volumes de ouro africano podem ter passado por circuitos ilegais ligados aos Emirados, levantando questões sobre transparência e perda de receitas fiscais para os Estados africanos.
Além disso, muitos acordos permanecem pouco transparentes, dificultando a avaliação real dos benefícios para os países envolvidos.
Um equilíbrio ainda a construir
Para os Estados africanos, os capitais do Golfo representam uma oportunidade importante num contexto de escassez de investimento tradicional. No entanto, o desafio central continua a ser a definição de condições que garantam transparência, valor justo dos ativos e maior benefício local, incluindo a transformação dos recursos no próprio continente.
Emiliano Tossou
Também ativa na exploração mineira no Botswana e em Marrocos, a Aterian Plc aposta, por agora, no Ruanda para sustentar o seu crescimento. A empresa mineira júnior britânica está a desenvolver nesse país uma plataforma de comercialização de minerais críticos, destinada a gerar receitas a curto prazo para reforçar a sua tesouraria.
Na terça-feira, 9 de junho, a Aterian Plc anunciou a assinatura de um acordo de fornecimento de longo prazo de minerais 3T (estanho, tântalo e tungsténio) com uma empresa ruandesa. A operação enquadra-se na expansão da sua atividade de comercialização de minerais críticos no Ruanda, uma área estratégica na qual pretende apoiar-se para gerar receitas a curto prazo, enquanto continua a desenvolver os seus projetos mineiros.
Presente na exploração de lítio e cobre no Ruanda, no Botswana e em Marrocos, a Aterian ainda está longe da fase de produção mineira. Entretanto, a empresa aposta na sua atividade comercial no Ruanda para impulsionar o crescimento. Lançada há alguns anos através da sua filial Eastinco, esta plataforma de comercialização tem vindo a estruturar-se progressivamente através de parcerias e acordos de fornecimento.
O mais recente acordo deverá permitir assegurar volumes adicionais de minerais 3T para as suas operações. A empresa prevê assim um aumento de cerca de 50% das suas receitas até ao final de 2026. Para comparação, a sua atividade comercial gerou 306 mil dólares norte-americanos no primeiro trimestre de 2026, contra 145 mil dólares no quarto trimestre de 2025.
Através desta estratégia, a Aterian procura posicionar-se como intermediária entre os produtores locais (cooperativas artesanais e pequenos mineiros) e os mercados consumidores destes metais estratégicos. Os minerais 3T ocupam, de facto, um lugar importante em várias cadeias de valor industriais. O estanho é amplamente utilizado em componentes eletrónicos e semicondutores; o tântalo, na eletrónica avançada e na indústria aeronáutica; enquanto o tungsténio é utilizado, entre outras aplicações, no fabrico de ligas destinadas aos setores industrial e da defesa.
Esta atividade desenvolve-se também num contexto em que as cadeias de abastecimento de minerais 3T estão sujeitas a uma atenção crescente em matéria de rastreabilidade e aprovisionamento responsável. Historicamente, estes minerais foram frequentemente associados a circuitos comerciais pouco transparentes na região dos Grandes Lagos, levando os compradores internacionais a reforçar as suas exigências de controlo e conformidade.
Apesar das garantias apresentadas pela Aterian relativamente a estas questões, subsistem várias dúvidas sobre o modelo comercial, como demonstra o acordo agora anunciado. A empresa não revelou, por exemplo, a identidade do fornecedor, nem divulgou os volumes abrangidos ou as principais condições comerciais do contrato. Estes elementos limitam a capacidade de avaliar o impacto económico real da operação, tanto para a Aterian como para os intervenientes locais envolvidos na cadeia de abastecimento.
Aurel Sèdjro Houenou
Desde o encerramento do Estreito de Ormuz, a OPEP+ tem multiplicado decisões para tentar estabilizar os mercados petrolíferos. No entanto, a atual crise geopolítica coloca desafios às ferramentas habituais da organização.
A OPEP+ aprovou um novo aumento dos seus objetivos de produção de petróleo, segundo um comunicado da organização publicado no seu site. A aliança que reúne os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e os seus parceiros, incluindo a Rússia, reuniu-se no domingo, 7 de junho, para decidir aumentar as suas quotas em 188 000 barris por dia para o mês de julho.
Trata-se do quarto aumento consecutivo decidido pelos países envolvidos desde o encerramento do Estreito de Ormuz. Desde abril de 2026, estes membros acumularam cerca de 600 000 barris por dia de quotas adicionais, com um aumento mensal aprovado em cada reunião.
Mas estas decisões esbarram na realidade no terreno. O encerramento do Estreito de Ormuz desde o final de fevereiro impede fisicamente os países do Golfo de exportarem o seu petróleo. Como resultado, a produção real da OPEP+ caiu para 33,19 milhões de barris por dia em abril, contra 42,77 milhões em fevereiro, uma queda de quase 10 milhões de barris por dia em dois meses.
Uma organização sob pressão desde o encerramento de Ormuz
A situação era bastante diferente há poucos meses. Como refere a Agence Ecofin em janeiro, a OPEP+ ainda mantinha a sua produção inalterada, preferindo a prudência face às incertezas do mercado. O encerramento do Estreito de Ormuz alterou completamente o cenário. Desde então, o grupo lançou uma série de aumentos mensais para tentar compensar as perdas de abastecimento ligadas ao conflito.
Além disso, no passado dia 1 de maio, os Emirados Árabes Unidos abandonaram a OPEP após quase sessenta anos de pertença. Trata-se da primeira vez em décadas que um membro fundador do Golfo deixa a organização. Esta saída também afetou a OPEP+, que foi obrigada a ajustar em baixa o seu terceiro aumento, de 411 000 para 206 000 barris por dia.
Apesar disso, os membros restantes mantêm margem de manobra. Após o aumento de julho, restarão cerca de 567 000 barris por dia em cortes a eliminar para regressar aos níveis de produção anteriores aos cortes de 2023. Se o ritmo atual se mantiver em agosto e setembro, todos os cortes poderão ser eliminados até ao final de setembro de 2026.
Mercados a antecipar uma desescalada
Nos mercados, este quarto aumento consecutivo de quotas não teve impacto significativo. O Brent, referência mundial do preço do petróleo, situava-se em 93,09 dólares por barril no sábado, 6 de junho, em queda face ao pico superior a 126 dólares atingido no auge da crise, à medida que os operadores antecipam uma desescalada progressiva do conflito com o Irão.
A agência de notação Fitch Ratings minimiza as preocupações de impacto a longo prazo, classificando o encerramento de Ormuz como um «choque logístico temporário e transitório» e mantendo a previsão de que a oferta global superará a procura em 2026, na ausência de danos graves nas infraestruturas petrolíferas da região.
Neste momento, a duração do encerramento do estreito continua a ser uma grande incógnita. Há alguns dias, Toril Bosoni, diretora da divisão de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE), estimou que, mesmo com um acordo de paz imediato, a reabertura de Ormuz poderia demorar entre seis e oito meses.
Abdel-Latif Boureima
O mercado das motos elétricas cresce rapidamente em África, com a Ouganda na liderança graças às políticas públicas e incentivos fiscais
O mercado das motos elétricas está a registar um forte crescimento em África, impulsionado pelos objetivos globais de descarbonização e pelos investimentos crescentes dos operadores. Neste movimento, alguns Estados destacam-se por um compromisso político mais firme do que os seus vizinhos.
A Uganda não é o país mais rico de África nem o mais eletrificado. No entanto, com mais de 30 000 vendas de veículos de duas rodas elétricos em 2025, ultrapassa os seus vizinhos e concentra cerca de metade do mercado continental nesse ano. É o que revela a Agência Internacional de Energia (AIE) no seu relatório “Global EV Outlook 2026”, publicado em maio. O documento apresenta o país como um dos mercados de crescimento mais rápido do setor no continente.
Uma forte dinâmica de crescimento…
Este segmento passou de menos de 1000 unidades em 2020 para 70 000 em 2025 no continente. A quota da Uganda representa sozinha 43% desse total, registando um aumento significativo face a 2024. Apenas o Quénia se aproxima, com 25 000 unidades no mesmo período. A AIE também cita o Ruanda como um mercado importante, embora sem detalhar os volumes.
Por detrás desta expansão está uma estrutura fiscal construída progressivamente. A partir de 2023, Kampala isenta de direitos aduaneiros os componentes destinados à montagem local de motos elétricas. A Estratégia Nacional de Mobilidade Elétrica, lançada em 2024, alarga o regime. O IVA e os direitos de importação sobre peças para fabricantes locais são eliminados. Os novos operadores beneficiam ainda de isenção de imposto sobre o rendimento durante cinco anos. No mesmo ano, o Parlamento acrescenta uma isenção de imposto de selo para fabricantes de veículos limpos, reservando o benefício a empresas com pelo menos 80% de trabalhadores ugandeses. A ministra de Estado dos Investimentos, Evelyn Anite, resume a ambição: o objetivo é «estimular a produção local» e desencorajar a importação de modelos térmicos montados no estrangeiro.
Estas medidas têm acelerado os investimentos. A Spiro opera 105 estações de troca de baterias no país e obteve recentemente 63 milhões de dólares para expandir as suas operações. A start-up ugandesa Zembo Motorcycles levantou um milhão de dólares para otimizar a sua frota. O Quénia também avançou, reduzindo o imposto sobre consumo e eliminando o IVA para motos elétricas, mas sem uma estratégia nacional estruturada ou incentivos mais amplos. A AIE considera o seu compromisso relativamente limitado. Kampala construiu um ecossistema; Nairobi limitou-se a medidas fiscais. Esta diferença explica o fosso entre os dois mercados.
Um modelo que combina transição energética e emprego
Estes incentivos têm efeitos concretos. Na Uganda, as motos dominam o transporte urbano. Um motociclista ganha entre 10 e 15 dólares por dia, dos quais o combustível representa 40 a 60%. Num veículo elétrico, o mesmo trajeto custa menos de 2 dólares em energia. A poupança anual é significativa e torna a transição uma decisão económica, não ambiental.
A procura é impulsionada sobretudo por usos comerciais. Os profissionais adotam o elétrico quando a equação financeira se torna favorável. Na Uganda, os incentivos fiscais e as redes de troca de baterias tornaram essa transição acessível, permitindo pagar a energia por utilização.
Ao incentivar a montagem local, o governo cria também empregos diretos num país onde 16,1% dos jovens entre 18 e 30 anos estão desempregados, segundo o relatório de 2025 da National Planning Authority. Surgem também novas necessidades de técnicos de manutenção e reparação, consolidando uma cadeia económica emergente.
Manter o ritmo…
Este sucesso depende de incentivos fiscais que não podem ser permanentes. Uma retirada prematura pode fragilizar o setor antes de atingir maturidade. O modelo atual ainda depende fortemente do apoio público.
A limitação industrial também é evidente. A Uganda monta motos elétricas, mas não as fabrica integralmente. Componentes-chave como baterias e motores continuam a ser importados, sobretudo da Ásia. O país criou uma plataforma de montagem, mas não uma indústria completa.
A infraestrutura também apresenta lacunas. Com 134 estações de troca para cerca de 950 veículos, a rede ainda é insuficiente. O Quénia conta com cerca de 400 estações para 9000 veículos, enquanto o Ruanda dispõe de mais de 100 para 4000.
Líder em vendas, a Uganda ainda enfrenta desafios estruturais. Outros países estão a acelerar, como o Gana, onde a Shell e o governo britânico financiam 100 novas estações de carregamento. O modelo está a regionalizar-se. A Uganda lançou as bases, mas a questão é saber se conseguirá manter a liderança.
Félicien Houindo Lokossou
Reconhecível pelo seu aspeto cinzento prateado, o lítio é um metal estratégico para a indústria das baterias, sobretudo as destinadas a veículos elétricos. Esta importância reforça os desafios associados ao seu abastecimento, num contexto em que se prevê um défice da oferta mundial até 2035.
No Zimbabué, o grupo chinês Zhejiang Huayou prevê produzir carbonato de lítio de qualidade para baterias a partir da sua mina Arcadia. Anunciada no final da semana passada pelo ministro das Minas, Polite Kambamura, esta ambição surge alguns meses após a primeira produção africana de sulfato de lítio realizada pela mesma empresa. Para além do caso zimbabueano, este anúncio ilustra o papel central desempenhado pelos capitais chineses no desenvolvimento da fileira do lítio em África, desde a extração até ao refino.
Do Zimbabué ao Mali, projetos dominados por atores chineses…
Esta realidade é particularmente visível no Zimbabué. Além da Zhejiang Huayou, as suas congéneres Sinomine Resources, Sichuan Yahua, Chengxin Lithium e Tsingshan controlam as principais minas de lítio do país, nomeadamente Bikita, Kamativi, Sabi Star e Gwanda. Desenvolvidos no âmbito de uma vaga de investimentos iniciada no início da década de 2020, estes ativos contribuíram de forma decisiva para fazer do Zimbabué o principal produtor africano do metal.
A influência chinesa estende-se também ao Mali, o outro país produtor de lítio no continente, onde as duas únicas minas industriais em atividade contam entre os seus acionistas a Hainan Mining e a Ganfeng Lithium.
Esta forte presença já se reflete nas estatísticas globais. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a quota de África na produção mundial de lítio passou de 6% em 2023 para 11% em 2024. Esta progressão poderá ainda aumentar com a entrada em produção prevista para este ano de Manono, na República Democrática do Congo, um projeto liderado pela Zijin Mining. Paralelamente, a Zhejiang Huayou procura assumir o controlo do projeto Ewoyaa, anunciado como a primeira mina de lítio da história do Gana.
A influência chinesa não se limita, contudo, à extração. Como referido anteriormente, a Zhejiang Huayou já transforma o concentrado de lítio produzido na sua mina no Zimbabué em sulfato de lítio, cujas primeiras exportações africanas foram registadas em abril passado. A mesma dinâmica verifica-se na Sinomine e na Sichuan Yahua, que estão a desenvolver as suas próprias unidades de produção de sulfato. A Zijin também prevê seguir este caminho no âmbito do desenvolvimento da sua mina congolesa.
Uma lógica de segurança de abastecimento…
Por detrás desta dominância da China na cadeia de valor africana está sobretudo uma estratégia de segurança de abastecimento. A maior parte do lítio produzido no Mali e no Zimbabué destina-se ao mercado chinês, onde abastece as indústrias de baterias para veículos elétricos e de armazenamento de energia.
A questão torna-se ainda mais relevante tendo em conta que a AIE prevê tensões crescentes na oferta mundial. Segundo a instituição, serão necessárias cerca de 55 novas minas até 2035 para responder à procura esperada de lítio.
Ao multiplicarem os seus investimentos na fileira africana, os grupos chineses asseguram maiores volumes de abastecimento para o seu mercado interno. Esta estratégia reforça a posição da China, já entre os principais produtores mundiais do metal, a par da Austrália e do Chile, mas também líder global no refino, com 62% da capacidade em 2024, segundo a AIE.
O reforço da transformação local em África insere-se igualmente nesta lógica, permitindo responder às exigências dos países anfitriões em matéria de criação de valor e evitar restrições ligadas a políticas de limitação da exportação de minerais em bruto. É o caso do Zimbabué, onde o governo prevê suspender as exportações de concentrado de lítio a partir de 2027, privilegiando produtos de maior valor acrescentado como o sulfato e o carbonato.
Neste contexto, a adaptação a estas exigências permite também consolidar posições já adquiridas, enquanto outras potências procuram igualmente posicionar-se nestes recursos estratégicos. Na RDC, a empresa norte-americana KoBold Metals investe, por exemplo, na exploração de concessões na zona de Manono. A União Europeia também não fica atrás, tendo o Banco Europeu de Investimento (BEI) anunciado este ano apoio financeiro à futura mina de lítio de Uis, na Namíbia.
E as vantagens para África?
Para os países africanos envolvidos, o desafio central continua a ser a capacidade de transformar esta expansão da fileira em benefícios económicos concretos. Isso passa sobretudo por projetos de transformação local, vistos como uma forma de aumentar receitas através de maior captura de valor acrescentado.
Esta dinâmica vem acompanhada por uma crescente concentração de atores ao longo da cadeia de valor, ainda fortemente ligados geograficamente à China.
Assim, as margens de manobra dos países produtores parecem estar estreitamente dependentes das escolhas industriais e estratégicas de um mesmo polo. Ainda assim, existem caminhos possíveis, como a diversificação de parceiros e o surgimento de atores industriais locais capazes de integrar melhor a cadeia de valor. Este desafio é particularmente relevante no Zimbabué, onde a empresa pública Kuvimba Mining desenvolve o projeto Sandawana.
Aurel Sèdjro Houenou
Impulsionados pelas necessidades ligadas à transição energética, os projetos africanos de minerais críticos estão a atrair um número crescente de atores estrangeiros. Na Tanzânia, esta dinâmica assume uma dimensão particular, tendo em conta a diversidade de recursos minerais existentes no subsolo do país.
Cerca de um ano após a retirada da BHP, novos atores já manifestam interesse em apoiar a Lifezone Metals, empresa norte-americana, no desenvolvimento do projeto de metais críticos Kabanga, na Tanzânia. Entre eles encontra-se o grupo chinês Lygend Resources, cujo interesse, revelado pela Reuters na sexta-feira, 5 de junho, evidencia uma forma de convergência entre Washington e Pequim em torno desta futura mina.
Detentora anteriormente de 17% do capital, a BHP anunciou, em julho de 2025, um acordo para ceder a sua participação no projeto Kabanga à Lifezone Metals. A operação elevou a participação desta última para 84%, ficando os restantes 16% nas mãos do Estado tanzaniano. Desde então, a empresa não excluiu a entrada de um novo parceiro no projeto. No final de abril, chegou mesmo a indicar ter recebido «várias ofertas» de potenciais investidores, sem revelar identidades.
Segundo a Reuters, que cita fontes próximas do processo, a Lygend Resources já estará em negociações com a Lifezone, embora o estado atual dessas conversações não tenha sido esclarecido.
Entre diversificação e segurança financeira
Para a Lygend, um dos principais intervenientes globais na cadeia do níquel, esta aposta no projeto Kabanga insere-se numa estratégia de diversificação fora da Indonésia, o maior produtor mundial do metal. Do lado da Lifezone, esta abertura surge num contexto em que o grupo procura assegurar o financiamento necessário para iniciar a fase de construção. O projeto, avaliado em 942 milhões de dólares, prevê a exploração de um ativo capaz de produzir cerca de 902 000 toneladas de níquel ao longo de 18 anos, além de cobre e cobalto como subprodutos.
A Lifezone espera já beneficiar do apoio financeiro da agência norte-americana DFC para concluir esta fase. A entrada de um novo investidor reforçaria esta dinâmica, embora o cenário de coabitação com a Lygend permaneça incerto. Entretanto, este movimento ilustra a intensificação das estratégias concorrentes para garantir o fornecimento de minerais críticos em África. Uma tendência já observada na Tanzânia, como demonstra o confronto entre a norte-americana General Innovation Capital (GICP) e a Shenghe Resources em torno do projeto de terras raras de Ngualla no ano passado.
As próximas comunicações sobre o dossiê serão determinantes para avaliar o seu desfecho. A Lifezone Metals pretende tomar uma decisão final de investimento (FID) até meados de 2026. Para além do financiamento, a obtenção da licença de exploração junto das autoridades tanzanianas constitui também uma etapa-chave antes do início das obras.
Aurel Sèdjro Houenou
O maior produtor de petróleo de África, a Nigéria, continua, no entanto, a ter dificuldades em transformar os seus recursos em receitas fiscais estáveis. O roubo de crude, a subprodução e a volatilidade dos preços constituem alguns dos principais desafios para a fiscalidade petrolífera do país.
As finanças públicas nigerianas estão a sentir os efeitos de uma conjuntura petrolífera difícil. As receitas fiscais provenientes do petróleo e do gás ficaram abaixo do objetivo de 17 400 mil milhões de nairas (cerca de 9,1 mil milhões de dólares) nos três primeiros trimestres do exercício orçamental de 2025. Estes dados constam do Gabinete do Orçamento da Federação.
Segundo informações divulgadas pela Nairametrics no sábado, 6 de junho, o setor mais afetado foi o do imposto sobre os lucros petrolíferos e as taxas do gás. Este gerou 6 140 mil milhões de nairas (cerca de 3,2 mil milhões de dólares), contra uma meta de 23 540 mil milhões (cerca de 12,3 mil milhões de dólares), o que representa um défice de 73,92%.
Outros segmentos também registaram quebras significativas. As vendas de crude e gás renderam 1 330 mil milhões de nairas (cerca de 697 milhões de dólares), contra os 3 530 mil milhões (cerca de 1,85 mil milhões de dólares) previstos. As taxas petrolíferas e gasíferas atingiram 5 540 mil milhões de nairas (cerca de 2,9 mil milhões de dólares), longe do objetivo de 10 300 mil milhões (cerca de 5,4 mil milhões de dólares).
Além disso, as receitas petrolíferas acessórias não passaram de 475,90 mil milhões de nairas (cerca de 249 milhões de dólares), contra os 887,65 mil milhões (cerca de 465 milhões de dólares) esperados.
Segundo o Gabinete do Orçamento, estes resultados explicam-se sobretudo por uma produção de crude abaixo das previsões e por preços internacionais inferiores ao esperado. A instituição aponta ainda as perturbações operacionais, desafios de infraestrutura, subinvestimento nas atividades de exploração e produção, bem como o roubo recorrente de petróleo bruto como fatores agravantes.
Uma tendência estrutural que se agrava
Estes resultados inserem-se numa degradação progressiva das receitas petrolíferas nigerianas ao longo dos últimos anos. Em 2023, o governo nigeriano arrecadou apenas 30,85 mil milhões de dólares em receitas petrolíferas, uma queda de 13,7% face aos 35,77 mil milhões de 2022, segundo o relatório anual da Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extrativas na Nigéria (NEITI), publicado em outubro de 2024.
Em 2024, a tendência manteve-se. As receitas totais de petróleo e gás ficaram 24,7% abaixo da meta, situando-se em 15 070 mil milhões de nairas (cerca de 7,9 mil milhões de dólares), contra 19 990 mil milhões (cerca de 10,5 mil milhões de dólares) previstos, segundo o BusinessDay em novembro de 2025. A produção até aumentou nesse ano, atingindo 1,49 milhão de barris por dia em dezembro de 2024. No entanto, os preços internacionais e as perdas associadas ao roubo continuaram a pressionar as receitas.
A dependência da Nigéria das receitas petrolíferas torna esta situação particularmente preocupante. O relatório Nigeria Economic Update do Banco Mundial, publicado em abril de 2025, previa que a queda dos preços do petróleo iria afetar o crescimento do país em 2025 e 2026, com impacto direto na capacidade do governo para financiar despesas prioritárias.
Para tentar corrigir a trajetória, o governo impôs, em fevereiro de 2026, a centralização das receitas petrolíferas e gasíferas, de forma a controlar melhor os fluxos financeiros entre a companhia estatal do petróleo (NNPC Ltd) e o Tesouro público, segundo a Agência Ecofin. Uma medida cujos efeitos ainda terão de ser avaliados.
Abdel-Latif Boureima
Do corte das exportações de concentrado à produção de sulfato, o Zimbabué continua a subir gradualmente na cadeia de valor da sua fileira do lítio. Uma trajetória que atrai atenção, num momento em que os países africanos procuram cada vez mais valorizar os seus recursos mineiros.
Alguns meses após ter registado a primeira produção de sulfato de lítio da sua história, o Zimbabué pretende dar um novo passo na subida na cadeia de valor desta fileira. Foi o que deixou entender o ministro das Minas, Polite Kambamura, que indicou na quinta-feira, 4 de junho, que o grupo chinês Zhejiang Huayou prevê produzir carbonato de lítio a partir da sua mina de Arcadia.
Primeiro produtor africano de lítio, o Zimbabué procura também reforçar a sua posição na cadeia de valor deste metal essencial para o fabrico de baterias para veículos elétricos. Apoiada por incentivos do Estado, a fileira, que até agora exportava a maior parte da produção sob a forma de concentrado, comercializa agora sulfato de lítio, um produto de maior valor acrescentado. Este avanço, apresentado como uma estreia a nível continental, é liderado pela Zhejiang Huayou, que realizou as suas primeiras exportações de sulfato em abril passado.
Esta etapa poderá, no entanto, ser apenas intermédia. A referência a uma futura produção de carbonato de lítio sugere um novo patamar na estratégia de valorização local do minério. Mais valorizado do que o sulfato, do qual deriva, o carbonato é um dos principais compostos utilizados nas baterias de iões de lítio. Para o Zimbabué, esta evolução poderá traduzir-se num aumento das receitas do setor.
«Eles irão produzir carbonato de lítio, que é mais valioso […]. Esperamos, portanto, uma estabilização dos preços dos metais a nível mundial e um aumento das nossas receitas de exportação», declarou Polite Kambamura aos jornalistas, segundo declarações citadas pela Bloomberg.
Ir mais longe e captar mais valor
Para compreender o alcance deste objetivo, importa analisar a estrutura de preços dos diferentes produtos derivados do lítio. No final desta semana, o concentrado de lítio é negociado a cerca de 2 462 dólares por tonelada no Shanghai Metals Market, contra 8 211 dólares para o sulfato e 21 429 dólares para o carbonato. Neste contexto, a subida na cadeia de valor para produtos mais transformados surge como uma estratégia natural para aumentar o valor captado.
Para a Zhejiang Huayou Cobalt, o desenvolvimento desta cadeia de transformação poderá também reforçar o seu posicionamento a longo prazo no Zimbabué, num contexto de endurecimento progressivo do enquadramento regulatório. Após um embargo temporário anunciado em fevereiro e a introdução de quotas, Harare prevê suspender totalmente as exportações de concentrado de lítio a partir de 2027. Esta evolução indica claramente uma aposta na transformação local.
Ainda assim, embora o grupo chinês já tenha avançado para a produção de sulfato, as modalidades de produção de carbonato de lítio ainda não foram detalhadas, não existindo informações concretas sobre este segmento. As próximas comunicações poderão trazer mais clareza, nomeadamente sobre a estratégia de desenvolvimento e os investimentos necessários. Para já, é o sulfato de lítio que se afirma progressivamente no país.
Para além das instalações da Zhejiang Huayou, outros atores chineses, incluindo a Sinomine Resources e a Sichuan, estão igualmente a investir na construção de unidades de produção associadas às suas minas. Recorde-se que o lítio está entre os principais produtos mineiros do Zimbabué, a par do ouro, dos metais do grupo da platina (PGMs) e do crómio. As exportações do setor geraram cerca de 571 milhões de dólares em 2025.
Aurel Sèdjro Houenou
A África tornou-se um terreno de competição entre Pequim e Washington pelo controlo dos minerais que irão alimentar as transições energética e digital. Com as suas reservas de grafite e de terras raras, Moçambique pretende ser mais do que um simples fornecedor de matérias-primas.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, promulgou na quarta-feira, 3 de junho de 2026, uma lei que impõe uma participação pública gratuita de 15% em todos os projetos mineiros e que proíbe a exportação de minerais em bruto. Esta decisão surge num momento em que Pequim e Washington procuram reforçar o seu acesso aos minerais críticos do país, abrindo margem de manobra para Maputo.
Aprovado pelo Parlamento em maio, o texto atribui à empresa mineira nacional ENM esta participação mínima de 15% em todas as fases da cadeia de valor. Além disso, proíbe a exportação de produtos mineiros em bruto ou semitransformados, exceto mediante autorização ministerial associada a um plano de transformação local. Maputo convida assim os operadores a processarem no seu território aquilo que até agora era exportado em estado bruto.
A medida visa sobretudo a grafite. Moçambique é atualmente o terceiro maior produtor mundial, atrás da China e de Madagáscar, segundo o United States Geological Survey (USGS). A grafite é utilizada na produção de ânodos para baterias de veículos elétricos, um setor em forte expansão impulsionado pela transição energética. A China domina a produção deste recurso e, ainda mais, a sua transformação em materiais de qualidade para baterias, o que coloca as cadeias de abastecimento ocidentais numa situação de dependência. Moçambique, que alberga em Balama um dos maiores depósitos do mundo, constitui assim uma das raras alternativas industriais credíveis.
Duelo à distância
As duas potências já estão presentes no terreno da grafite. Do lado norte-americano, Balama, explorada pela empresa australiana Syrah Resources, tem sido financiada por Washington há vários anos. A agência norte-americana de financiamento do desenvolvimento, a DFC, concedeu em novembro de 2024 um empréstimo de 150 milhões de dólares à filial local da Syrah. O Departamento de Energia dos Estados Unidos já tinha concedido 102 milhões de dólares em 2022 para a fábrica de ânodos de Vidalia, no Louisiana, abastecida pela produção de Balama.
Em março de 2026, a DFC chegou mesmo a propor a conversão de parte da sua dívida em capital, o que a tornaria no segundo maior acionista da Syrah, com cerca de 20% do capital. Esta operação, ainda dependente de auditorias e aprovações, reforçaria o envolvimento de Washington na grafite moçambicana. Os Estados Unidos abriram também outra frente no país no setor das terras raras — um grupo de 17 metais essenciais para a defesa, veículos elétricos e energia eólica — cuja cadeia de abastecimento é igualmente dominada por Pequim.
Em fevereiro de 2026, a Agência norte-americana para o Comércio e Desenvolvimento (USTDA) concedeu um financiamento para estudos de pré-viabilidade do projeto Monte Muambe. Desenvolvido pela empresa britânica Altona Rare Earths, o projeto prevê uma produção de 15 000 toneladas de carbonato misto de terras raras por ano.
Do lado chinês, o avanço é igualmente concreto. Em janeiro de 2026, o Presidente Chapo inaugurou uma fábrica de transformação de grafite com capacidade de 200 000 toneladas por ano, propriedade da empresa chinesa DH Mining, que investiu 200 milhões de dólares na sua unidade em Nipepe. Um segundo operador chinês, a Shandong Xinsheng Minerals, está prestes a adquirir 70% do projeto de grafite de Ancuabe, pertencente à australiana Triton Minerals, através da sua filial NQM Gold 2. A transação, iniciada em 2024, ainda não estava finalizada segundo as últimas informações disponíveis.
A estratégia da soberania
Cortejado em várias frentes por duas potências rivais com objetivos estratégicos próprios, Maputo também segue a sua própria agenda. Ao garantir uma participação automática em cada projeto e ao condicionar as exportações à transformação local, Moçambique procura captar uma maior parte do valor atualmente gerado no estrangeiro. O país junta-se assim a um movimento já iniciado por vários Estados africanos, como o Zimbabué no lítio ou a RDC no cobre e no cobalto.
No entanto, o calendário introduz uma incerteza imediata para os investidores. O texto não esclarece se se aplica às minas já em operação, muitas das quais regidas por acordos de longo prazo. No caso do projeto Ancuabe, cuja venda à Shandong Xinsheng Minerals aguarda ainda aprovação de Maputo, as novas regras surgem num momento em que o governo detém a última palavra sobre a operação. Para o projeto Monte Muambe, em fase avançada de exploração, estas regras poderão redefinir o enquadramento da mobilização de capitais.
A reação dos investidores a estas mudanças regulatórias será, por isso, determinante. Num continente onde este tipo de reformas frequentemente gera tensões, os precedentes aconselham prudência. O Mali viu o seu setor do ouro tensionado após a entrada em vigor do novo código mineiro que aumentou a participação do Estado, e a Guiné tem registado vários conflitos com operadores sobre a transformação local da bauxite.
Emiliano Tossou
Num contexto de dependência do petróleo e de elevadas perdas associadas aos tráficos marítimos no Golfo da Guiné, a segurança dos espaços offshore tornou-se uma questão central para a estabilidade das receitas e das exportações energéticas.
A recente estabilização do setor petrolífero nigeriano explica-se, em grande medida, por um fator que se tornou estruturante: o reforço da Marinha Nigeriana na proteção do domínio marítimo. Ao colocar o combate à pirataria e ao roubo de petróleo no centro do desempenho económico, as autoridades transformaram progressivamente a segurança marítima num fator determinante da produção de crude.
Durante a Revista Internacional da Frota de 2026, realizada em Lagos no passado dia 1 de junho, o Presidente Bola Ahmed Tinubu assinalou os setenta anos de existência da Marinha, classificando-a como um pilar da proteção dos interesses económicos do país. Segundo afirmou, as operações navais permitiram reduzir significativamente a pirataria e conter de forma expressiva o roubo de petróleo bruto, dois fenómenos que durante muito tempo penalizaram a produção nacional.
Esta evolução não é meramente simbólica. Durante vários anos, a Nigéria sofreu uma erosão da sua produção petrolífera devido à insegurança marítima e aos ataques contra infraestruturas offshore. As perdas associadas ao roubo de crude, à pirataria e aos tráficos marítimos reduziram os volumes exportáveis e as receitas públicas. A resposta consistiu, gradualmente, em transformar a Marinha num ator central da estabilização económica.
Ferramentas operacionais ao serviço da produção petrolífera
Segundo o Presidente Tinubu, esta transformação assenta numa combinação de instrumentos operacionais: integração de sistemas de vigilância marítima, implementação de mecanismos de resposta rápida e intensificação das operações de controlo. Estes dispositivos permitiram reduzir substancialmente as atividades criminosas nas águas nigerianas e reforçar a segurança das zonas offshore estratégicas.
O impacto sobre o setor petrolífero é direto. Ao reduzir as interrupções causadas por ataques no mar e pelos desvios ilegais de crude, a Marinha contribuiu para uma maior continuidade das operações offshore. Num país onde uma parte significativa da produção provém de instalações marítimas, a estabilidade das águas territoriais condiciona diretamente os níveis de produção.
O Presidente Tinubu estabeleceu uma ligação explícita entre os progressos da Marinha, o aumento da produção petrolífera, a melhoria das receitas nacionais e o reforço da confiança dos investidores. O setor petrolífero, particularmente sensível aos riscos de segurança, beneficia assim de um ambiente considerado mais estável e previsível.
Um reforço estratégico no Golfo da Guiné
Neste contexto, a modernização das capacidades navais desempenha um papel decisivo. A integração de três novos navios enquadra-se numa estratégia de reforço da presença marítima. A esta medida juntam-se a melhoria das tecnologias de vigilância, a cooperação entre as agências de segurança e a coordenação regional no Golfo da Guiné.
O Presidente destacou igualmente a contribuição da Marinha para além do espaço marítimo, nomeadamente nas operações de contraterrorismo e de combate à insurgência. Esta versatilidade reforça a eficácia global do aparelho de segurança, reduzindo riscos que possam afetar indiretamente as infraestruturas energéticas.
Por seu lado, o Chefe do Estado-Maior da Marinha, Vice-Almirante Idi Abbas, atribuiu estes resultados aos investimentos estratégicos, ao apoio político e à modernização dos equipamentos. Segundo explicou, estes esforços permitiram intensificar o combate à pirataria, ao roubo de petróleo, à pesca ilegal e a outras formas de criminalidade marítima no Golfo da Guiné.
Desta forma, a Marinha Nigeriana surge atualmente como um agente indireto, mas decisivo, de estabilização macroeconómica. Ao reduzir as perdas de produção, garantir a segurança dos fluxos de exportação e aumentar a fiabilidade das operações offshore, contribuiu para tornar possível a recuperação do setor petrolífero.
Contudo, esta estabilização continua dependente da continuidade dos esforços. A manutenção dos investimentos, a modernização tecnológica e a cooperação regional serão fundamentais para preservar os ganhos alcançados e evitar o ressurgimento de ameaças suscetíveis de fragilizar novamente a produção petrolífera nigeriana.
Olivier de Souza
Presente em três continentes, a Eramet explora ativos que vão do manganês e das areias minerais em África ao níquel na Indonésia, bem como ao lítio na Argentina. O grupo abriu este ano um novo capítulo com um plano de reforço do seu desempenho operacional.
O grupo mineiro francês Eramet suspendeu desde o final de maio as operações da sua mina de níquel Weda Bay, na Indonésia, considerada a maior do mundo. Esta decisão, consequência do esgotamento da quota mineira que lhe foi atribuída pelo Estado indonésio para a sua produção, junta-se aos ventos contrários registados na sua mina de areias minerais no Senegal. Estes desafios acumulam-se num momento em que a empresa procura implementar a sua nova estratégia de desenvolvimento, batizada de «ReSolution».
Um início de exercício já bastante tenso
Em fevereiro, a Eramet tinha suspendido as atividades da sua filial senegalesa Grande Côte, na sequência de um incêndio que danificou várias infraestruturas essenciais do local. Alguns meses após este incidente, o grupo anunciou na semana passada o lançamento de um plano de retoma progressiva da mina, que deverá prolongar-se até 2027.
A curto prazo, as medidas implementadas apenas permitirão mobilizar cerca de 30% da capacidade nominal do local, o que poderá provocar uma quebra na produção este ano. A Eramet antecipa agora um volume máximo de 400 000 toneladas de concentrado de areias minerais (HMC), contra 983 000 toneladas entregues no ano passado.
O sistema de quotas implementado na Indonésia para regular a oferta e sustentar os preços do níquel agrava ainda mais o contexto operacional. A Weda Bay Nickel recebeu assim uma quota de produção de 12 milhões de toneladas de minério para o exercício, significativamente inferior aos 42 milhões de toneladas produzidas em 2025. Como essa quota já foi esgotada, a Eramet procura uma revisão em alta junto das autoridades indonésias. Entretanto, o site está em manutenção e os seus efetivos terão sido reduzidos, segundo a Reuters, citando uma declaração feita na quinta-feira, 4 de junho, por Jérôme Baudelet, diretor da Eramet Indonésia.
«Com a nossa quota mineira esgotada, estamos atualmente em conversações com o Ministério das Minas para obter uma extensão da nossa licença […]. Produzimos 42 milhões de toneladas no ano passado, pelo que podemos obviamente pedir o mesmo volume. Esperamos apenas que nos seja atribuído um volume suficiente para garantir a continuidade da exploração», terá afirmado.
Um plano a executar
Para além do impacto a curto prazo nos resultados do grupo, estes acontecimentos refletem certas tensões na implementação do plano ReSolution. Apresentado em dezembro de 2025, este roteiro visa reforçar a gestão do portefólio de ativos da Eramet, com ênfase na excelência operacional, produtividade e otimização comercial.
O plano prevê ações em todos os ativos do grupo, nomeadamente nas operações de manganês no Gabão, na melhoria do rendimento e dos custos no Senegal, bem como numa melhor gestão das operações na Indonésia. Os investimentos associados à sua execução deverão arrancar este ano. Está ainda prevista uma angariação de capital que poderá atingir 500 milhões de euros (580 milhões USD) no segundo semestre.
Até ao momento, não foram fornecidos detalhes adicionais sobre a execução do plano, o que torna ainda difícil avaliar o impacto dos recentes incidentes operacionais na sua trajetória. A incerteza mantém-se também no dossiê indonésio, enquanto a retoma progressiva das atividades no Senegal continua a ser um tema-chave a acompanhar nos próximos meses. Entretanto, os primeiros efeitos destas perturbações já são visíveis, com uma queda de 42% no volume de negócios da Grande Côte no primeiro trimestre.
Aurel Sèdjro Houenou
Principal produto de exportação da Zâmbia, o cobre está no centro das ambições mineiras nacionais, com uma produção prevista de 3 milhões de toneladas na cadeia produtiva até 2031. Nesta perspetiva, multiplicam-se os projetos de crescimento, em particular no segmento industrial.
Na terça-feira, 2 de junho, a empresa norte-americana CopperTech Metals anunciou o início dos procedimentos para uma cotação na Bolsa de Nova Iorque (NYSE). Esta operação abrir-lhe-ia, a médio prazo, as portas do ecossistema financeiro de Wall Street, num momento em que prepara a próxima fase de crescimento da sua mina de cobre Konkola, na Zâmbia.
A CopperTech Metals é uma filial criada pela indiana Vedanta Resources em novembro de 2025, à qual foi confiada a gestão operacional de Konkola. Esta reestruturação foi acompanhada pelo objetivo de investir 1,5 mil milhões de dólares para aumentar a produção do projeto para 300 000 toneladas de cobre por ano até 2031. Em comparação, a mina produziu apenas cerca de 80 215 toneladas em 2025. Um plano cuja implementação poderá ser facilitada pelo processo de cotação agora iniciado.
Ao visar a NYSE, a CopperTech pode expor a Konkola a investidores presentes naquele que é considerado o maior mercado bolsista mundial em termos de capitalização. A empresa apresentou assim um pedido de registo junto da Securities and Exchange Commission (SEC), o regulador dos mercados financeiros dos Estados Unidos. Esta etapa deverá agora ser seguida da análise do processo antes de uma eventual continuação da cotação. Até ao momento, não foi comunicado qualquer calendário detalhado.
Para a CopperTech, o objetivo vai além da simples mobilização de capital para a Konkola. Esta orientação para os Estados Unidos insere-se também na estratégia declarada da Vedanta de posicionar a mina zambiana como uma fonte de fornecimento de cobre capaz de contribuir para os objetivos americanos em matéria de segurança das cadeias de abastecimento. Uma ambição que surge num contexto marcado por perspetivas de défice no mercado do cobre, impulsionado pela transição energética. Segundo a Agence internationale de l'énergie, o défice global de abastecimento poderá atingir 30% até 2035.
Estes desenvolvimentos poderão também apoiar as ambições da Zâmbia, que pretende atingir uma produção anual de 3 milhões de toneladas de cobre até 2031, contra 890 346 toneladas em 2025. Resta agora observar como evoluirá o projeto de cotação da CopperTech nos próximos meses, bem como a reação dos investidores a uma empresa cujo perfil assenta ainda essencialmente no desenvolvimento da mina de Konkola.
Aurel Sèdjro Houenou
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